Göbekli Tepe.

Pouca gente já ouviu falar desse lugar, mas trata-se, nada mais nada menos, do que de uma das mais relevantes descobertas arqueológicas dos últimos anos (décadas? séculos?).

À primeira vista, o conjunto arqueológico parece apenas mais um agregado de menires, formando um círculo. A princípio, algo definitivamente menos impressionante do que Stonehenge, por exemplo.

O único problema é que Göbekli Tepe é mais antiga do que Stonehenge. Bem mais antiga. Na verdade, antecede Stonehenge em 6.000 ou 7.000 anos. A beleza da coisa é que, em sendo assim, Göbekli Tepe foi construída antes do início da agricultura.

Não se conhecem, porém, construções monumentais de antes do início da agricultura. Imaginava-se até bem pouco tempo que apenas a domesticação de espécies vegetais e animais poderia sustentar a quantidade de pessoas necessárias para a construção de grandes obras de engenharia monumental. Göbekli Tepe prova que isso não é bem verdade.

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A existência de Göbekli Tepe, porém, não é algo que chegaria a surpreender o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins. Afinal, foi ele que em 1996 propôs a idéia de que as sociedades de caçadores-coletores seriam, de fato, a “original affluent society“, a sociedade da afluência original. Para resumir, a tese é a de que, longe de estarem sempre a um passo da morte por inanição, as sociedades de caçadores coletores eram sociedades com muito tempo livre dado que suas necessidades de reprodução eram facilmente atendidas.

Em seu livro “Maps of Time“, o historiador David Christian se estende um pouco sobre esse assunto, com base em outros estudos:

Qual era a qualidade de vida das pessoas no Paleolítico? Um morador de uma cidade moderna que fosse transportado para o Paleolítico não acharia a vida fácil, mas o pressuposto popular – o de que a vida de sociedades de caçadores-coletores era intrinsecamente difícil é exagerado. É provavelmente igualmente verdade que um cidadão do Paleolítico Siberiano subitamente transportado para o século XXI iria encontrar dificuldades em viver hoje, ainda que de diferentes formas. Num ensaio deliberadamente provocativo publicado em 1972, o antropólogo Marshall Sahlins descreve o mundo da Idade da Pedra como “a sociedade da afluência original”. Ele argumenta que uma sociedade afluente é “aquela em que todas as necessidades materiais da população sejam facilmente satisfeitas”, e ele sugere que por certos padrões, as sociedades da Idade da Pedra cumpriram este critério melhor do o fazem as modernas sociedades industrializadas. Ele ressalta que a riqueza pode ser alcançada seja pela produção de mais mercadorias para satisfazer mais desejos ou pela limitação dos desejos àquilo que está disponível (a “estrada Zen para a afluência”). Usando dados antropológicos recentes para ganhar algum conhecimento sobre a experiência de vida nas sociedades Paleolíticas, ele admite que os níveis de consumo material, sem dúvida, foram baixos entre os povos da Idade da Pedra. Na verdade, o nomadismo, pela sua própria natureza, desincentiva a acumulação de bens materiais, pois a necessidade de transportar o que se possui impõe limites a qualquer desejo de acumular bens materiais. Estudos sugerem que sociedades nômades modernas podem também deliberadamente controlar o crescimento da população utilizando diferentes métodos, incluindo um prolongado período de amamentação das crianças (o que inibe a ovulação), e também técnicas mais brutais, tais como o abandono de crianças em excesso ou de membros mais velhos já não capazes de se mover com o resto da comunidade. De qualquer maneira, Sahlins argumenta que os níveis normais de consumo nessas comunidades era mais que adequado para suprir as necessidades básicas.” (tradução Hermenauta)

Descobertas recentes, analisando os restos mortais de humanos procedentes das antigas comunidades agrícolas vis a vis os de grupos caçadores-coletores, mostra que estes últimos tendiam a ser maiores, mais fortes e mais saudáveis. De fato, o tempo médio diário de “trabalho”, definido como o tempo dedicado a atividades necessárias para a sobrevivência, subiram de cerca de 6 horas nas sociedades caçadoras-coletoras paleolíticas para 7,5 horas no início da agricultura e cerca de 9 horas nas atuais sociedades industrializadas.

Levando em conta, adicionalmente, o fato de que nosso atual padrão de consumo provavelmente não é sustentável, acho que continua sendo uma boa idéia nos perguntarmos sobre o quão realmente nossa sociedade ocidental industrializada é realmente “superior” às demais.

A propósito da idéia exposta no último parágrafo, reproduzo, abaixo, texto do Paul Krugman no New York Times traduzido pela Folha de São Paulo de hoje.

Krugman: estamos ficando sem planeta para explorar. E agora?

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Paul Krugman

Há nove anos, a “The Economist” fez uma grande matéria sobre o petróleo, que na época era vendido a US$ 10 por barril. A revista advertia que isso talvez não durasse. Em vez disso, sugeria que o petróleo poderia muito bem cair para US$ 5 por barril.

De qualquer forma, afirmava a “The Economist”, o mundo enfrentava “a perspectiva de petróleo barato e abundante para o futuro previsível”.

Na semana passada, o petróleo atingiu US$ 117.

Não é só petróleo que desafia a complacência de alguns anos atrás. Os preços de alimentos também saltaram, assim como os de metais básicos. E a alta global nos preços de commodities está nos fazendo voltar a uma questão que não ouvíamos muito desde os anos 70: será que os recursos naturais limitados imporão um obstáculo ao crescimento econômico mundial futuro?

A resposta a esta questão depende, em grande parte, do que cada um acredita que está movendo o aumento nos preços dos recursos. Em termos gerais, há três visões concorrentes.

A primeira diz que é especulação -que os investidores, procurando retornos altos em uma época de baixas taxas de juros, buscaram os futuros de commodities, forçando os preços para cima. Neste caso, nalgum dia em breve, a bolha vai estourar, e os altos preços dos recursos vão descer pela pets.com.

A segunda visão diz que os altos preços de fato têm uma base fundamentada -a expansão da demanda especialmente rápida pelos chineses que recém passaram a comer carne e dirigir carros- mas que, com o tempo, vamos perfurar mais poços, plantar mais alqueires e o aumento da oferta levará os preços de volta para baixo.

A terceira opinião diz que a era de recursos baratos acabou para sempre -que estamos ficando sem petróleo, ficando sem terra para expandir a produção de alimentos e ficando sem planeta, em geral, para explorar.

Eu me encontro em algum ponto entre a segunda e a terceira opinião.

Algumas pessoas muito inteligentes -como George Soros- acreditam que estamos em uma bolha de commodities (apesar de Soros dizer que a bolha ainda está em sua “fase de crescimento”). Meu problema com esta opinião, entretanto, é o seguinte: onde estão os estoques?

Normalmente, a especulação leva à alta de commodities promovendo o acúmulo. No entanto, não há sinal de acúmulo de recursos: os estoques de alimentos e metais estão em baixas históricas ou próximos delas, enquanto os estoques de petróleo estão apenas normais.

O melhor argumento para defender a segunda opinião, que a dificuldade dos recursos é real mas temporária, é a forte semelhança entre o que estamos vendo agora com a crise de recursos dos anos 70.

Dos anos 70, os americanos em geral lembram-se do petróleo nas alturas e das filas nos postos de gasolina. Entretanto, havia também uma severa crise de alimentos global, que causou muita dor nas filas de supermercado -eu me lembro de 1974 como o ano do macarrão* – e muito mais importante, ajudou a causar fomes devastadoras em países mais pobres.

Em retrospecto, o boom de commodities de 1972-75 provavelmente resultou do crescimento econômico global rápido não acompanhado pela expansão da oferta, combinado com os efeitos do mau tempo e do conflito no Oriente Médio. Eventualmente, a má sorte chegou ao fim, novas terras começaram a ser cultivadas, novas fontes de petróleo foram encontradas no golfo do México e no mar do Norte, e os recursos voltaram a ser baratos.

Desta vez, contudo, pode ser diferente: as preocupações sobre o que acontece quando uma economia mundial em constante expansão encontra os limites de um planeta finito são mais verdadeiras hoje do que nos anos 70.

Para começar, não acredito que o crescimento da China diminua fortemente tão cedo. Este é um grande contraste com o que aconteceu nos anos 70, quando o crescimento no Japão e na Europa, economias emergentes da época, entrou em queda- e assim foi tirada grande parte da pressão sobre os recursos do mundo.

Enquanto isso, os recursos estão ficando mais difíceis de encontrar. As grandes descobertas de petróleo, em particular, se tornaram mais raras e, nos últimos anos, a produção de petróleo de novas fontes mal tem sido suficiente para contrabalançar a queda de produção nas fontes estabelecidas.

E o mau tempo que aflige a produção agrícola desta vez está começando a parecer mais fundamental e permanente do que o El Nino ou La Nina, que prejudicaram as safras há 35 anos. A Austrália, em particular, agora está em seu décimo ano de uma seca que parece mais com uma manifestação de longo prazo de uma mudança climática.

Suponha que estejamos verdadeiramente atingindo os limites globais. O que isso significa?

Mesmo que estejamos de fato perto do pico da produção mundial de petróleo, isso não significa que um dia diremos: “Oh meu Deus! Acabamos de ficar sem petróleo!”, e veremos a civilização desmoronar em uma anarquia ao estilo “Mad Max”.

Os países ricos, porém, enfrentarão pressão cada vez maior sobre suas economias com o aumento dos preços dos recursos, tornando mais difícil aumentar seu padrão de vida. E alguns países pobres se verão vivendo perigosamente perto do limite -ou além dele.

Não olhe agora, mas os bons tempos podem ter terminado.

*Nota da tradutora: o autor faz um comentário sobre Hamburger Helper que é um prato, em geral macarrão, vendido em caixas. Substituí por macarrão para ficar mais compreensível.

Tradução: Deborah Weinberg

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