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Ainda sobre a reserva Serra do Sol:

Como se sabe, a maior fronteira da reserva com um país estrangeiro é com a Guiana.  Movido pela curiosidade fui olhar os jornais Guianenses para ver se há alguma coisa sobre a reserva.  Não achei nada _ aparentemente eles não estão dando a menor pelota para o assunto _ porém encontrei uma notícia bem interessante:

Slaying of Brazilian miners…

No diamond transaction was made at Pure Diamonds Inc

The Management of Pure Diamonds Inc. is refuting reports in some sections of the media that, on the day when two Brazilian miners were killed, the men had sold diamonds to the company. According to Arjune John, Director of the company, Pure Diamonds is also refuting reports in the state-owned radio and television and on Channel 65 that, on the day in question, Severino Pequeno Alves Junio, 45, and Francisco Lima, 46, were robbed of $15 M.
Seeking to clarify the erroneous reports, John said that both the now dead Severino Pequeno Alves Junio and Franciso Lima came to the East Street establishment to uplift monies for gold which they had sold to the company earlier.
Additionally, the company is refuting reports that suggest that the miners may have been traced from the East Street location. According to John, the men arrived at the company at 10:30 hours and they were offered cheques as payment, which they refused and requested cash.
John added that it is customary that the customers be paid by cheque because of security reasons. However, the robbery occurred some three hours later.
The company has also stated that, because of the reports carried in the media which stated that diamonds were sold to it, the management is being scrutinized by the Guyana Geology and Mines Commission. While the company has the relevant licence to sell and buy both gold and diamonds, it is only dealing with gold since, to date, management has not yet written to the Geology and Mines Commission for permission to buy and sell diamonds.
On Thursday last, at around 13:00 hours,  Severino Pequeno Alves Junio, 45, and Francisco Lima, 46, were shot and killed by two men armed with handguns at the Regent Guest House.
During the ordeal another Brazilian, Jose Alenor Ovidio D’Oliveira, was injured.
Initial reports are that the two deceased, along with Brazilian miner Jose Alenor Ovidio D’Oliveira and another Brazilian national, had earlier conducted business at Pure Diamonds establishment on East Street, Georgetown, where D’Oliveira collected $1.5 million.
The Police statement continued that the Brazilians later returned to the guest house where they were staying, and were in the bar when one of the bandits entered and ordered an aerated drink.
Meanwhile, this newspaper understands that the bodies of the two slain Brazilians are to be flown back to Brazil today for burial.

Para quem não domina bem o inglês: dois mineiros brasileiros, Severino Pequeno Alves Junio e Francisco Lima, foram mortos na capital Guianense por estes dias.  A razão foi um assalto.

O detalhe é que eles foram roubados em US$1,5 milhão de dólares, em dinheiro vivo, após terem vendido ouro _ ou diamantes _ em um estabelecimento guianense de compra de metais preciosos, a Pure Diamonds.  O dono do lugar, porém, está negando que os brasileiros tivessem vendido diamantes _ diz ele que venderam ouro.

E segundo a matéria não foi a primeira vez que os brasileiros fizeram vendas por lá.

Está claro o que está acontecendo?  Mineiros brasileiros vendem diamantes na Guiana, para não ter que pagar imposto no Brasil.  Estes diamantes certamente são retirados da região amazônica.

Me custa um pouco crer que a reserva Raposa do Sol vá piorar sobremaneira esta situação.

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Mostra a agenda do seminário Brasil, ameaças à sua soberania“, disponível em um folheto em PDF no site do Clube Militar:

Porém, eis o que nos diz o boletim ostensivo número 16, do dia 18-04-2008, no site do Exército Brasileiro:

PORTARIA Nº 195, DE 9 DE ABRIL DE 2008.
Designação para participação em viagem de serviço
O COMANDANTE DO EXÉRCITO, no uso da atribuição que lhe confere o inciso VII do
art. 1º do Decreto nº 2.790, de 29 de setembro de 1998, combinado com o art. 19 da Lei Complementar nº
97, de 9 de junho de 1999, resolve
DESIGNAR
o Gen Ex AUGUSTO HELENO RIBEIRO PEREIRA e o Cel Cav ELMAR DE AZEVEDO BURITY,
ambos do Cmdo CMA, para participar de viagem de serviço, a realizar-se nas cidades de Caracas,
República da Venezuela, Paramaribo, República do Suriname, e Georgetown, República Cooperativa da
Guiana, no período de 13 a 16 de abril de 2008, incluindo o deslocamento.
Para fim de aplicação da Lei nº 5.809, de 10 de outubro de 1972, regulamentada pelo
Decreto nº 71.733, de 18 de janeiro de 1973, a missão está enquadrada como eventual, militar, sem
mudança de sede, sem dependentes e será realizada com ônus para o Exército Brasileiro, total no tocante a diárias no exterior e sem qualquer ônus com referência ao deslocamento.

O site do Ministério da Defesa do Brasil mostra que o Ministro Nelson Jobim esteve no dia 14 em Caracas, na Venezuela, apresentando formalmente a Hugo Chaves o plano do Conselho Sul-Americano de Defesa. Quem o acompanhava?

O ministro viajou à Venezuela acompanhado do comandante do Exército, Enzo Martins Peri, do Comandante Militar da Amazônia, General-de-Divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira e do chefe da Secretaria de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa (SPEAI), Tenente-Brigadeiro-do-Ar Gilberto Antonio Saboya Burnier. Além destes, também participou da reunião o embaixador do Brasil na Venezuela, Antônio José Ferreira Simões.

Lembrar que a Venezuela é um dos dois países que fazem fronteira com a reserva Raposa do Sol.

Finalmente, essa é a agenda de Nelson Jobim no fatídico dia 16 de abril:

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, passa o dia em Brasília. Participará de almoço oferecido pelo presidente Lula à presidente da Índia, Pratiba Patil, no Itamaraty. Segue a agenda:

13h30 – Almoço oferecido pelo Presidente da República em homenagem a Presidente da Índia, Pratiba Patil.
16h – Receberá, em seu gabinete, o embaixador do Chile no Brasil, Álvaro Diaz.

16h30 – Reunião com Presidente da República, no Palácio do Planalto.

E ontem, segundo o site do governo da Guiana, Jobim já estava lá vendendo o Conselho Sul-Americano de Defesa ao presidente Guianense. Lembrar que a Guiana é o país com a maior fronteira junto à reserva Raposa do Sol.

[the Slashdot argument] says that books, music, films, software and so on ought to be freely distributed to anyone who wants them, simply because they can be freely distributed. What is the writer or musician to do, though, if she can’t earn money from her art? Simple, says the Slashdotter: earn your money playing live (if you’re one of those musicians who plays live),4 or selling T-shirts or merchandise, or providing some other kind of “value-added” service.

Discussão aqui.

Tremei. Eles existem e estão entre nós.

Matéria interessante no Valor de hoje sobre como o Ministério Público tem atuado para proteger os concorrentes, e não a concorrência:

Acordos para proteger economias estaduais são questionados pelo Cade
Juliano Basile

O Ministério Público dos Estados está promovendo a proibição de descontos e o tabelamento de preços em setores populares da economia. As medidas são adotadas por promotores locais com o objetivo de proteger a economia da região, mas acabam prejudicando a concorrência. Várias determinações dos MPs, em setores como medicamentos e combustíveis, contrariam pareceres dos órgãos antitruste dos ministérios da Fazenda e da Justiça, além de decisões do Conselho Administrativo de Defesa Econômico (Cade).

O MP do Ceará, por exemplo, determinou a proibição de descontos nos medicamentos acima de 15%. Os promotores de Fortaleza alegaram que uma empresa recém-chegada ao mercado local – a Drogaria São Paulo – estava promovendo descontos de até 30%, o que, segundo eles, seria preço predatório, capaz de falir as farmácias locais. O MP cearense assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o sindicato das farmácias de Fortaleza proibindo descontos maiores de 15%.

O caso chegou à Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça, que recomendou o fim do TAC. A SDE disse aos promotores que eles não poderiam determinar a margem de lucro dos empresários do setor. Mesmo assim, o TAC foi mantido e o caso chegou ao Cade. O órgão antitruste decidiu, então, que o desconto deveria ser livre nas farmácias do Ceará, pois o consumidor só teria a ganhar com preços menores e com o incentivo à maior competição entre as farmácias.

O relator do caso, conselheiro Luís Fernando Rigato Vasconcellos, explicou que a comprovação de preços predatórios só se dá quando a empresa reduz os preços em níveis suficientes para levar concorrentes à falência e, em seguida, promove aumentos excessivos aos consumidores. “Esse não foi o caso no processo das farmácias do Ceará”, disse Vasconcellos. A Drogaria São Paulo tinha apenas 3% do mercado e, segundo o conselheiro, seria absurdo limitar descontos. “No mercado de farmácias não há grandes barreiras à entrada de novos concorrentes e pedimos ao MP para reavaliar a posição.”

A decisão do Cade no caso das farmácias do Ceará foi tomada há dois anos, mas até hoje não foi implementada na prática. Como o TAC que proibiu descontos foi assinado perante a Justiça, ele só pode ser derrubado pelo próprio Judiciário. O Cade não conseguiu derrubar o TAC na Justiça do Ceará na 1ª e na 2ª instâncias. Agora, o caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília.

O procurador-geral do Cade, Arthur Badin, disse que casos como esse, em que o MP local atua para proibir descontos, são freqüentes. Em vários Estados do Nordeste e no Rio Grande do Sul, foram assinados TACs semelhantes, proibindo descontos no setor de farmácias e o Cade encontra dificuldades para convencer os promotores de que, na tentativa de proteger os empresários locais, eles acabam reduzindo a competição e, em conseqüência, provocam aumento de preços aos consumidores.

Durante um julgamento, um representante de uma farmácia local disse que os descontos poderiam estimular a automedicação entre a população”, afirmou o conselheiro Ricardo Cueva. Segundo ele, a alegação foi tão absurda que várias pessoas que assistiam à sessão começaram a rir.

Cueva lembrou que as reclamações contra os descontos foram muito comuns no setor aéreo, principalmente quando a Gol começou a anunciar descontos de até 50% nas passagens, há seis anos. A Varig – hoje de propriedade da Gol – e a Vasp (hoje falida) chegaram a protestar junto ao Departamento de Aviação Civil (DAC), que suspendeu algumas promoções. O Cade decidiu que se a promoção é por tempo delimitado e para um número determinado de assentos, é válida. “O objetivo dessas promoções era atingir um público que antes viajava de ônibus e, agora, poderia usar o avião”, afirmou o conselheiro. “Então, aceitamos essas promoções, pois beneficiavam os consumidores e aumentavam a competição entre as empresas.”

Para Cueva, muitos promotores usam os TACs porque esse instrumento funciona bem em outras áreas. No meio ambiente, os TACs levam o agente causador de um dano a tomar medidas para restaurar e preservar o local. Com isso, evita-se que o caso fique anos em debates na Justiça e obtém-se solução imediata. “Mas, em se tratando de defesa da concorrência, os TACs podem gerar distorções”, alerta Cueva.

Na área de combustíveis, os promotores também têm assinados TACs para impedir aumentos excessivos nos preços da gasolina. O problema é que o efeito acaba sendo o contrário. Há duas semanas, o órgão antitruste julgou acordo assinado pelo MP de Jataí, no interior de Goiás, com o Procon e donos de postos locais. Pelo TAC, ficou determinado que o preço da gasolina não poderia ultrapassar determinado teto. O resultado, porém, foi que todos os postos passaram a cobrar pelo teto. Ou seja, a gasolina aumentou e acabou a concorrência entre os postos, que passaram a cobrar o mesmo preço.

O representante do Ministério Público Federal junto ao Cade, procurador José Elaeres, lamenta que casos como o de Jataí sejam comuns em vários municípios. “Os promotores fazem os TACs com boa intenção, mas a falta de conhecimento na área de defesa da concorrência faz com que eles errem.

Elaeres admite que há grande dificuldade de compreensão da área antitruste por parte dos integrantes do MP. No MP Federal, Elaeres tem promovido cursos há três anos para aumentar o conhecimento na área. “Nós temos que pensar numa forma de expandir esses cursos nos Estados, porque os problemas começam na mesa do promotor local. Ele recebe uma reclamação e, logo, propõe um TAC na tentativa de resolver o caso. Só que é preciso ter certa cautela quando se vai atuar no mercado, pois qualquer medida que você adote gera repercussões enormes e o prejudicado acaba sendo o consumidor.

***

A meu ver está mais do que na hora de criar varas especiais na Justiça brasileira para julgar casos que envolvam alguns tipos de casos na área econômica, como defesa da concorrência e propriedade intelectual. Essas áreas exigem conhecimento mais qualificado e em geral não convém aplicar o senso comum em tais julgamentos, que é o que os juízes, infelizmente, acabam fazendo.

Recentemente, a Federal Trade Comission norte-americana, que junto com a Antitrust Division do Ministério da Justiça lá deles são as autoridades da concorrência dos EUA em nível federal, apresentaram um texto interessante junto à OCDE, intitulado “Techniques for Presenting Complex Economic Analysis to Judges“. Neste trabalho eles estabelecem 3 princípios básicos que devem ser seguidos na apresentação de casos antitruste junto às cortes:

Although the best practices in any particular case will depend on the particularities of the case and applicable procedural rules, the experience of the U.S. enforcement agencies suggests three general principles for efficiently and effectively presenting complex economic analysis to judges.

First, economic analysis should be fully integrated into the presentation of the case. It generally is counterproductive to treat economic analysis as a separate and discrete element of proof. Second, economic analysis should be fully and carefully explained in terms that are understandable, or a judge is not likely to rely on it. Third, the opinions of economists should be firmly grounded in the models and methods of economics and, when appropriate, be empirically validated. Economists are most persuasive when they do not stray outside their areas of expertise and do not adopt an advocacy posture in particular litigation.

É claro que o grande problema está no segundo princípio, já que por melhor que seja um expositor, dificilmente se chegará a algum lugar se o receptor não tiver a capacidade de receber a mensagem.

Deu no JC Online (sic):

Retomada busca por padre que voava com balões em SC
Publicado em 22.04.2008, às 08h08

Um grupo com mais de 50 pessoas – com o auxílio de um helicóptero da Polícia Militar de Santa Catarina, duas embarcações da Marinha, um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e outro do governo do Paraná, além de vários pescadores voluntários – reinicia, nesta terça-feira (22), a busca ao padre paranaense Adelir De Carli, de 41 anos, que está desaparecido desde a noite de sábado, quando tentava fazer um vôo de 20 horas, sentado em uma cadeira amarrada a mil balões de festas, cheios de gás hélio.

O último contato aconteceu por volta das 21 horas de anteontem (20), quando o padre avisou que estava pousando no mar, a cerca de 15 quilômetros a leste das Ilhas Tamboretes, a 5 quilômetros da costa da Ilha de São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina. O que estava prejudicando as buscas na manhã desta terça-feira era uma densa neblina na região para onde provavelmente os balões teriam levado o padre. Assim que a neblina abrandasse, as buscas continuariam com duas embarcações, um avião da FAB e outro do governo do Paraná.

***

Eu supunha que havia maneiras mais ortodoxas de se chegar ao Reino dos Céus…

Göbekli Tepe.

Pouca gente já ouviu falar desse lugar, mas trata-se, nada mais nada menos, do que de uma das mais relevantes descobertas arqueológicas dos últimos anos (décadas? séculos?).

À primeira vista, o conjunto arqueológico parece apenas mais um agregado de menires, formando um círculo. A princípio, algo definitivamente menos impressionante do que Stonehenge, por exemplo.

O único problema é que Göbekli Tepe é mais antiga do que Stonehenge. Bem mais antiga. Na verdade, antecede Stonehenge em 6.000 ou 7.000 anos. A beleza da coisa é que, em sendo assim, Göbekli Tepe foi construída antes do início da agricultura.

Não se conhecem, porém, construções monumentais de antes do início da agricultura. Imaginava-se até bem pouco tempo que apenas a domesticação de espécies vegetais e animais poderia sustentar a quantidade de pessoas necessárias para a construção de grandes obras de engenharia monumental. Göbekli Tepe prova que isso não é bem verdade.

***

A existência de Göbekli Tepe, porém, não é algo que chegaria a surpreender o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins. Afinal, foi ele que em 1996 propôs a idéia de que as sociedades de caçadores-coletores seriam, de fato, a “original affluent society“, a sociedade da afluência original. Para resumir, a tese é a de que, longe de estarem sempre a um passo da morte por inanição, as sociedades de caçadores coletores eram sociedades com muito tempo livre dado que suas necessidades de reprodução eram facilmente atendidas.

Em seu livro “Maps of Time“, o historiador David Christian se estende um pouco sobre esse assunto, com base em outros estudos:

Qual era a qualidade de vida das pessoas no Paleolítico? Um morador de uma cidade moderna que fosse transportado para o Paleolítico não acharia a vida fácil, mas o pressuposto popular – o de que a vida de sociedades de caçadores-coletores era intrinsecamente difícil é exagerado. É provavelmente igualmente verdade que um cidadão do Paleolítico Siberiano subitamente transportado para o século XXI iria encontrar dificuldades em viver hoje, ainda que de diferentes formas. Num ensaio deliberadamente provocativo publicado em 1972, o antropólogo Marshall Sahlins descreve o mundo da Idade da Pedra como “a sociedade da afluência original”. Ele argumenta que uma sociedade afluente é “aquela em que todas as necessidades materiais da população sejam facilmente satisfeitas”, e ele sugere que por certos padrões, as sociedades da Idade da Pedra cumpriram este critério melhor do o fazem as modernas sociedades industrializadas. Ele ressalta que a riqueza pode ser alcançada seja pela produção de mais mercadorias para satisfazer mais desejos ou pela limitação dos desejos àquilo que está disponível (a “estrada Zen para a afluência”). Usando dados antropológicos recentes para ganhar algum conhecimento sobre a experiência de vida nas sociedades Paleolíticas, ele admite que os níveis de consumo material, sem dúvida, foram baixos entre os povos da Idade da Pedra. Na verdade, o nomadismo, pela sua própria natureza, desincentiva a acumulação de bens materiais, pois a necessidade de transportar o que se possui impõe limites a qualquer desejo de acumular bens materiais. Estudos sugerem que sociedades nômades modernas podem também deliberadamente controlar o crescimento da população utilizando diferentes métodos, incluindo um prolongado período de amamentação das crianças (o que inibe a ovulação), e também técnicas mais brutais, tais como o abandono de crianças em excesso ou de membros mais velhos já não capazes de se mover com o resto da comunidade. De qualquer maneira, Sahlins argumenta que os níveis normais de consumo nessas comunidades era mais que adequado para suprir as necessidades básicas.” (tradução Hermenauta)

Descobertas recentes, analisando os restos mortais de humanos procedentes das antigas comunidades agrícolas vis a vis os de grupos caçadores-coletores, mostra que estes últimos tendiam a ser maiores, mais fortes e mais saudáveis. De fato, o tempo médio diário de “trabalho”, definido como o tempo dedicado a atividades necessárias para a sobrevivência, subiram de cerca de 6 horas nas sociedades caçadoras-coletoras paleolíticas para 7,5 horas no início da agricultura e cerca de 9 horas nas atuais sociedades industrializadas.

Levando em conta, adicionalmente, o fato de que nosso atual padrão de consumo provavelmente não é sustentável, acho que continua sendo uma boa idéia nos perguntarmos sobre o quão realmente nossa sociedade ocidental industrializada é realmente “superior” às demais.

A propósito da idéia exposta no último parágrafo, reproduzo, abaixo, texto do Paul Krugman no New York Times traduzido pela Folha de São Paulo de hoje.

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Essa aí eu roubei do Blog do Josias.  Vale o registro do aniversário da capitá.

Como era de se esperar, minhas birutas prediletas para entender o que vai pela cabeça da direita anaeróbica apontaram para o mesmo lado.

Tanto Reinaldo Azevedo (em dois posts) quanto Nariz Gelado começaram a “criticar a crítica” ao comportamento da imprensa no caso da garota Isabella, assassinada em São Paulo há algumas semanas.

A razão para este movimento é mais ou menos óbvia: interessa ao “fascismo cívico”, uma vez que a via eleitoral encontrou-se fechada duas vezes seguidas para eles, insuflar um arremedo de movimento de massas com vistas a tentar lançar um movimento que “contamine as massas” _ cujo protótipo, aliás, foi o Cansei. Esse arremedo, que dificilmente pode ser alicerçado em bases populares, no momento, devido ao êxito, provisório ou não, das políticas de renda do Eneadáctilo, tem que ser artificialmente criado pela imprensa. Portanto, qualquer apelo à moderação da imprensa, qualquer crítica ao pré-julgamento, tem que ser combatida, pois o que a direita anaeróbica quer é manter elevada a temperatura da indignação das massas tal como medida em seu Udenômetro.

Vamo nóis:

Nariz Gelado, curiosamente, começa seu post aludindo ao caso Madeleine McCann, a garota inglesa desaparecida em um resort em Portugal:

Na manhã de 7 de setembro de 2007, às portas da Polícia Judiciária de Portimão, Kate McCann foi vaiada por centenas de pessoas que estavam instaladas ali apenas para vê-la passar. Mais cedo, a polícia deixara vazar para a imprensa que Kate McCann estava envolvida na morte da sua filha desaparecida, Madeleine. O trânsito no local fora interrompido num raio de de 100 metros da sede policial devido ao grande número de jornalista e populares que, desde o dia anterior, se amontoavam no local para assistir ao desenrolar dos acontecimentos.

A cena recente – apenas mais uma das inúmeras que a mídia ofereceu durante o ruidoso, e ainda não solucionado, “Caso Madeleine” – deveria servir para acalmar os ânimos de gente afoita como Clóvis Rossi que, na edição de hoje da Folha de São Paulo, chamou de “Talibãs” os populares que se acotovelaram diante da delegacia em que o pai e a madrasta de Isabella Nardoni estavam depondo. Também deveria servir , o caso Madeleine, para deixar constrangidos àqueles que passaram os últimos dias criticando a nossa mídia; dizendo que ela peca – e nisso difere da mídia do hemisfério norte – em dar tanta atenção ao Caso Isabella.

Não deixa de ser uma abordagem ousada, visto que, se o caso McCann nos ensina alguma coisa, é que o excesso de mídia pode transformar um caso criminal em um espetáculo onde o menor dos interesses é a elucidação do crime. Aliás, é patente, no caso de Madeleine (sequestro) que o excesso de mídia pode, pelo contrário, ter assustado o sequestrador, forçando-o a se livrar o mais rapidamente possível da prova do crime _ a sequestrada.

Nariz continua:

É claro que eu não apoio atos de violência. E penso que a polícia tem a obrigação de garantir a integridade física dos suspeitos – papel que, usualmente, ela vem desempenhando com sucesso. Mas defendo o direito de qualquer cidadão a se expressar livremente. E acho muito bom que assassinos potenciais, juízes, policiais e políticos assistam, volta e meia, em suas televisões, o povo revoltado, ao vivo, xingando e clamando por justiça.

Incitados pela mídia sensacionalista? Sim… E daí? Do público que lota o Maracanã ao eleitor que vai às urnas não há, hoje, em qualquer lugar do globo, ajuntamento de pessoas que não seja ‘incitado’ por algum tipo específico de mídia. Portanto deixemos de hipocrisia e partamos para o fato inegável: no teatro democrático, cada um tem um papel determinado a desempenhar. E, às vezes, deve-se desempenhá-lo com maior dramaticidade – a polícia de choque, que bate seus cacetetes contra os escudos em advertência, entende muito bem este jogo.”

Em essência, o que ela defende aí é o recurso à turba assassina e ao linchamento como forma de dissuassão dos criminosos. Infelizmente, pela falta de um “due process of law” e da abolição da presunção de inocência típicos em situações de linchamento, o que ocorre é que a dissuassão ao crime costuma ser mais que compensada pelo chamado “erro tipo II”, o linchamento dos falso-positivos. Nos vemos, assim, mais uma vez diante de uma lição exaustivamente ensinada pela história: como os liberais, incapazes de fazerem o povo apreciar as maravilhas de sua utopia laissez-fairista, apelam de novo ao fascismo, ao golpe, ao putsch _ liberando um monstro que muitas vezes não sabem como controlar. Isso fica patente em uma passagem seguinte:

E se assim é, você terá que admitir que algum tipo de pressão popular explícita – e carregada com uma boa dose de revolta – se faz necessária. Sem isso, sem eventuais demonstrações de indignação popular – com um claro, mas nunca realizado, potencial de violência – as autoridades vão ficando tranqüilas demais, lerdas demais, cínicas demais e corruptas demais.

Evidentemente, o “nunca realizado” é o x da questão – o atenuante que Nariz, entretanto, não tem como garantir.

Mas espero que Nariz não fique chateada com este tratamento que dei ao seu texto. Afinal eu abordei primeiro o seu post porque o seu texto é o melhor, comparado ao de Reinaldo Azevedo.

Pequena digressão: talvez meus 4,5 leitores tenham notado que nas últimas semanas diminuí sensivelmente o número de posts sobre Tio Rei. Isto não se deve, porém, a nenhuma estratégia de marketing de minha parte. Deve-se, isto sim, ao fato de que Tio Rei anda tão chato, tão mistificador, que ando ficando sem estímulo para tratar dos textos dele.

Ele escreveu dois posts sobre o assunto. O primeiro deles é tão primário que entrega o jogo logo no terceiro parágrafo:

E atacar “a mídia” como responsável por aquilo que noticia e/ou denuncia tornou-se um “botão quente”, um instrumento da defesa. Pouco importam evidências, mérito, contradições, absurdos até, o negócio é acusar “a mídia”. Um grupo de subjornalistas também passou a fazê-lo, como se mídia fosse sempre “o outro”. Alexandre e Anna Carolina pareciam, ontem, Tarso Genro ou Dilma Rousseff. Dossiê? Tudo coisa da mídia…”

O que fica mais patente no quinto:

Há uma corrente de opinião — ou melhor: de pressão — que quer transformar “a mídia” na principal suspeita do país. Noto isso, hoje, de forma clara no jornalismo político. E os temores saltaram também para a cobertura de um caso de polícia. E agora comento a entrevista do Fantástico.

Está claro? Ele defende o direito ao denuncismo irresponsável da mídia em casos criminais porque, justamente, defende o denuncismo irresponsável em qualquer instância (no momento, é claro), principalmente a política. Claramente, um movimento pelo comedimento da mídia em casos como esse ameaça o denuncismo. QED.

Tio Rei finaliza o primeiro post assim:

Mas o que vai nos dois parágrafos acima não muda a minha convicção de que é preciso reagir à patrulha, seja cobrindo um assassinato, seja cobrindo uma falcatrua em Brasília. A isenção ou a abertura para todos os lados de uma questão não fazem das evidências, da lógica e, a depender do caso, das provas mera expressão de um dos lados do conflito.

Se a imprensa um dia mergulhar nesse relativismo, perde a razão de existir. Sem o jornalismo, as pessoas já dizem o que bem entendem, já põem as versões para circular livremente na praça. A imprensa pode ser isenta o quanto for, mas tem de ter lado: o da democracia, o do estado de direito, o das liberdades públicas, o das liberdades individuais, o do cumprimento das leis. O “outro lado” disso é a barbárie.

Tio Rei, onde não cabe isenção e abertura para todos os lados é em jogo de futebol. Nunca ninguém jamais disse um “veja bem” no meio da Raça Rubro-Negra durante um gol do Fluminense, e por um bom motivo. No caso de crimes, porém, estamos falando de pessoas pretensamente inocentes, apesar de suspeitas. Bloquear o direito ao contraditório, prejulgar _ isso sim é barbárie.

O segundo texto do Tio Rei é francamente indigente. Eis um parágrafo que o resume:

Agora, noto, há gente achando a “culpa do povo” — coitado! — no caso Isabella. Dadas as informações que tem, que não são muito diferentes das que todos temos, ele está pedindo justiça. Não há nada de doente ou de excepcional nisso. Claro! Terá de ser tratado segundo a lei. Ele tem de saber que será a Justiça a decidir as culpas. E que nada pode ser feito fora dela.

Que eu saiba, ninguém está acusando o povo de nada. Critica-se a imprensa por uma cobertura, a princípio, irresponsável, se ela tem a dimensão de seu poder. Mas fazer o quê, no coração de todo protoditadorzinho dorme um “defensor do povo” cujo conceito de liberdade é tutela…

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