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Se a direita anaeróbica tem um sonho dourado, é o de conseguir criar uma crise militar no governo Lula. A atual pendenga entre o General Heleno, chefe do comando militar da Amazônia, e o governo, por causa da demarcação de uma reserva indígena, ofereceu mais uma oportunidade para isso (a última foi durante a crise aérea e a ameaça de insubordinação dos controladores de vôo).

Obviamente, Tio Rei não iria perder esse barco. Lá no blog dele, botou o endereço de uma petição online a favor do General Heleno:

Petição de apoio ao general

Há uma petição de apoio ao general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, neste endereço:

http://www.petitiononline.com/xptoxpto/petition.html

Já assinei. Estou lá, nº 439.

Desde então, ele já repetiu o link duas vezes. Eis o texto da petição:

To: Gen.Augusto Heleno

Nós, brasileiras e brasileiros,cidadãos de bem deste País, vimos,através desta missiva,prestar toda nossa solidariedade com relação aos episódios recentes, relativos ao polêmico e delicado tema da defesa das nossas fronteiras,da defesa da soberania nacional, em especial sobre a questão da reserva “Raposa Serra do Sol”.

Apoiamos sua avaliação técnica sobre o objeto em questão,apoiamos seu direito e seu dever de informar aos brasileiros o que está acontecendo, apoiamos a defesa incondicional do nosso patrimônio natural contra a cobiça internacional e apoiamos sua defesa de criação de reservas para os índios,nossos irmãos,de forma a não haver entrega de parte do território nacional,ao contrário,fazer prevalecer o ideal de integração tão bem conduzida pelo grande brasileiro Cândido Rondon.

The Undersigned

Sincerely,

Pelo site, não dá para saber a data em que a petição foi lançada _ por alguém chamado Lia de Souza. Porém, Tio Rei postou pela primeira vez o endereço da petição às 21:00 hs do dia 18/04, e bateu no peito orgulhando-se de ser o apoiador de número 439. Suponho, portanto, que a petição tenha sido criada no próprio dia 18. Pois foi no mesmo dia 18 que o DEM soltou uma nota de apoio ao General:

Comissão Executiva Nacional – Democratas– Nota Oficial

Brasil exige luta contra o crime

A Comissão Executiva Nacional do Democratas vem a público exigir medidas efetivas contra o clima de quase insurreição que temos vivido; alertar a opinião pública para a irresponsabilidade contínua do governo no uso do dinheiro público e manifestar apoio ao comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira – ameaçado e intimidado depois que solicitou mudanças na política indigenista. Sobre essas questões, o Democratas solicita atenção da sociedade para os seguintes pontos:

1)o general Heleno Ribeiro Pereira advertiu que a questão indígena tornou-se “ameaça interna” à soberania brasileira na Amazônia referindo-se à necessidade de revisão do decreto presidencial que criou a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. A pretexto de transformar tribos em “supostas nações independentes”, ONGs estrangeiras interessadas em consolidar a invasão do território nacional, agem livremente na reserva, que faz fronteira com a Venezuela e a Guiana;

2) ao invés de levar em conta a advertência do oficial, o governo age no sentido oposto e está exigindo que ele explique afirmações feitas com base em fatos e informações incontestáveis. Com o pedido de explicações, o governo busca intimidar, ameaçar e silenciar o Comandante Militar da Amazônia com o objetivo de enfraquecer a posição de todos os que defendem a revisão da política indigenista do governo porque ela implica ameaça à segurança nacional;

3) ao mesmo tempo que sinaliza com punições contra quem age com seriedade, moderação e respeito às leis, o governo atua com permissividade e leniência ante as ilegalidades de grupos que investem contra a democracia, o estado de direito e a segurança pública. É com apoio, estímulo e financiamento público que o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, pratica ações ilegais de Norte a Sul do país e achincalha o direito de propriedade previsto na Constituição sem receber sequer uma advertência dos responsáveis pela ordem pública;

4) é o dinheiro desviado do bolso do trabalhador honrado, que tem a cultura dos direitos e deveres, que financia as ações ilegais do MST, grupo comprometido com a intolerância, a violência e o crime. Com que direito o governo transfere, sem prestar contas ao Congresso e à opinião pública, recursos públicos cada vez mais volumosos para financiar as jornadas de crime e de terror do MST? Qual a justificativa para doar verbas que deveriam acudir problemas de saúde, educação e moradia das pessoas, a quem cria ambiente de insegurança jurídica que resultará na imposição de pesados prejuízos ao país e a todos os brasileiros?

5) o Brasil não construiu a democracia para favorecer ilegalidades, seja a pretexto de proteger os índios, seja com a desculpa de combater injustiças ou sob a alegação de pretensas reparações a comunidades remanescentes de quilombos. A sociedade brasileira lutou para conquistar um Estado democrático de direito onde ninguém pudesse agir ao arrepio da lei. É preciso dar um basta aos que se escondem por trás de supostos movimentos sociais para aumentar o controle estatal da sociedade. Em vez de luta de classes, o país exige luta contra o crime.

Brasília, 18 de abril de 2008

Rodrigo Maia

Presidente

Curiosamente, o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio, teve uma reação mais interessante:

Não estou defendendo o governo Lula. […] Considero que um general da ativa deveria se abster de opinar sobre questões políticas. Quero militares bem armados, bem equipados e bem pagos, mas não os quero determinando os rumos da política nacional.”

O que explica isso? Provavelmente o fato de que enquanto o ex-PFL, atual DEM, rolou na lama com o governo militar, boa parte do PSDB não teve vida fácil durante a ditadura, sendo que muitos de seus atuais líderes tiveram que puxar o carro _ incluindo FHC e José Serra. O próprio Arthur Virgílio, aliás, foi do PCB e deve ter levado suas cacetadas quando participou do Movimento Estudantil na década de 70.

***

Curiosamente, nem o DEM nem Reinaldo Azevedo parecem se incomodar muito com as denúncias de que um oficial reformado do exército da Venezuela esteve dando treinamento de guerrilha aos arrozeiros que serão desalojados da Reserva, muito menos com os fazendeiros norte-americanos que estão comprando milhares de hectares de fazenda no Brasil. Perigosos mesmo são os índios da Raposa do Sol.

O pior é que o próprio General Heleno confessa, no Estadão, a incapacidade do Exército em defender nossas fronteiras, com ou sem reserva indígena:

Amazônia oriental é o ponto mais vulnerável da fronteira

Apenas 17 soldados protegem uma faixa de 1.385 quilômetros de divisa no extremo norte do Pará

José Maria Tomazela

Dos 25 mil homens de que o Exército dispõe para defender a Amazônia de ameaças que vão do tráfico de drogas à cobiça internacional pelas nossas riquezas naturais, apenas 240 vigiam mais de 2 mil quilômetros de fronteira com as Guianas e o Suriname, na chamada Amazônia oriental. Destes, um contingente de 17 soldados tem a missão de proteger uma faixa de 1.385 quilômetros de fronteira seca no extremo norte do Pará. Se fossem distribuídos nesse território, caberia a cada homem a vigilância sobre 12.150 quilômetros quadrados, dez vezes a área da cidade do Rio de Janeiro.

A região é vista como o ponto fraco do sistema brasileiro de defesa e preocupa o chefe do Comando Militar da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira. “O contingente é muito pequeno. A distância entre dois pelotões passa de 400 quilômetros sem ligação por terra.

Bom, qualquer um que tenha morado no Rio sabe do enorme contingente do Exército estacionado naquele estado da federação, sem razão aparente já que o Rio não é mais a capital do país há quase cinquenta anos. Então porque diabos o Exército não realoca esse pessoal?

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Soldado da 173rd Aerotransportada monta guarda no campo petrolífero de Kirkuk, Iraque.

Um texto bem interessante no NYT de hoje sobre a “sede de petróleo”. Eis o link e alguns trechos traduzidos:

Considere alguns números: A população do planeta deverá crescer em 50 por cento para nove bilhões de pessoas em algum momento no meio deste século. O número de carros e caminhões irá duplicar em 30 anos – para mais de dois bilhões – à medida em que as nações em desenvolvimento modernizam-se rapidamente. E duas vezes mais aviões passageiros, mais de 36.000, irão com toda a probabilidade estar cruzando os céus em 20 anos.

Tudo isso vai exigir muito mais petróleo – o suficiente para que o consumo global de petróleo salte cerca de 35 por cento até ao ano 2030, de acordo com a Agência Internacional de Energia, uma líder mundial em projeções energéticas para os Estados Unidos e outras nações desenvolvidas. Para os produtores, isto significa a necessidade de encontrar e bombear mais 11 bilhões de barris de petróleo a cada ano.

E esse cenário está a apenas 22 anos de distância, um piscar de olhos para a indústria do petróleo, onde o ritmo para localizar e desenvolver novos fornecimentos é medido em décadas.

A procura de petróleo vai ser apenas parte do desafio da energia. A demanda total de energia do mundo – incluindo petróleo, carvão, gás natural, a energia nuclear, bem como as fontes de energia renováveis como a energia eólica, solar e energia hidroeléctrica – irá aumentar 65 por cento ao longo das próximas duas décadas, de acordo com a AIE.

(…)

Ao mesmo tempo, as principais empresas petrolíferas como a Exxon Mobil, BP e Chevron estão encontrando mais dificuldades de competir a nível mundial, com as empresas petrolíferas nacionais a corroer suas posições uma vez dominantes. Quatorze das Top 20 companhias petrolíferas do mundo hoje são gigantes estatais, como a saudita Aramco e a russa Gazprom. Isso deixa as empresas petrolíferas ocidentais no controle de menos de 10 por cento das reservas mundiais de petróleo e gás.

Enfrentando custos mais elevados, essas empresas também estão tendo mais dificuldade em localizar novas jazidas de petróleo. Apesar de gastos mais de US $ 100 bilhões em exploração no ano passado, as cinco maiores companhias petrolíferas internacionais encontraram menos petróleo no ano passado do que aquele que elas bombearam para fora do solo.

(…)

Assim como nos Estados Unidos, grande parte do aumento da demanda de petróleo da China provém da paixão deste país pelos automóveis. O número de veículos na China aumentou sete vezes entre 1990 e 2006, para 37 milhões. A China já ultrapassou o Japão e Alemanha, para se tornar o segundo maior mercado de automóveis do mundo, e prevê-se que irá ultrapassar os Estados Unidos próximo a 2015. A China poderá vir a ter 300 milhões de veículos em 2030.

William Chandler, um especialista em energia do Carnegie Endowment for International Peace, estima que, se os chineses usassem tanta energia como os americanos, a utilização de energia global iria duplicar de um dia para o outro e mais cinco Arábias Sauditas seriam necessárias apenas para atender a demanda de petróleo. A Índia não está muito para trás. Até 2030, os dois países vão importar tanto petróleo quanto os Estados Unidos e o Japão hoje.

E oque se passa com os Estados Unidos? O país tem demonstrado pouca disponibilidade para enfrentar suas necessidades energéticas de uma maneira racional. James Schlesinger, o primeiro secretário de energia do país, na década de 1970, disse uma vez os Estados Unidos foram capazes de apenas duas abordagens para a sua política energética: “complacência ou crise”.

Os Estados Unidos são o único grande país industrializado a ver o seu consumo de petróleo crescer desde os choques petrolíferos de 1970 e 1980. Isto pode ser parcialmente explicado pelo fato de que os Estados Unidos têm sua gasolina a um dos preços mais baixos do mundo, têm os carros menos eficientes em termos de combustível nas estradas, os menores impostos sobre energia, bem como o tempo de comutação para o trabalho de qualquer nação industrializada. O resultado: cerca de um quarto do petróleo mundial vai para os Estados Unidos, todos os dias, dos quais mais de metade vai para os seus carros e caminhões.

(…)

“O país vive além dos seus meios”, disse Vaclav Smil, um proeminente energia especialista da Universidade de Manitoba. “A situação é preocupante. Precisamos de fazer certos sacrifícios. Mas as pessoas não percebem o quão difícil é a situação.

***

Na verdade, os EUA, ou pelo menos sua elite neocon e seu presidente texano, reconhecem o quão difícil é a situação, sim. Mas preferiram exportar os sacrifícios do ajuste _ ou melhor dizendo, do não-ajuste. Como disse Alan Greenspan em suas memórias:

I am saddened that it is politically inconvenient to acknowledge what everyone knows: the Iraq war is largely about oil“.

Coisa que qualquer Objetivista devia saber…

Written and directed by Richard Kelly; director of photography, Steven Poster; edited by Sam Bauer; music by Moby; production designer, Alexander Hammond; produced by Sean McKittrick, Bo Hyde, Kendall Morgan and Matthew Rhodes; released by Samuel Goldwyn Pictures. Running time: 144 minutes.

WITH: Dwayne Johnson (Boxer Santaros), Seann William Scott (Roland Taverner/Ronald Taverner), Sarah Michelle Gellar (Krysta Kapowski/Krysta Now), Curtis Armstrong (Dr. Soberin Exx), Joe Campana (Brandt Huntington) and Nora Dunn (Cyndi Pinziki).

Perdível?  Dificilmente.

Southland Tales.

José Gregori, presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, hoje na Folha:

Tenho acompanhado o caso do assassinato da menina Isabella de forma ansiosa, mas ao mesmo tempo tenho refletido sobre a cobertura dada ao caso pela imprensa e pela mídia de nossa sociedade do espetáculo.
Sim, porque embora os veículos de comunicação devam cumprir o seu dever/ dogma de reportar a notícia, verificamos que a violência inominável contra uma criança serve como desculpa para a montagem de um show em capítulos.
A verdade objetiva manda dizer que o fato das instituições, cujo caso está afeto, terem demorado em demasia na apuração dos fatos contribuiu para isso.
Conforme as investigações prosseguem, novos indícios apontam para esta ou aquela direção -negligência, barbarismo ou fatalidade-, mas uma coisa é certa: o inquérito não está concluído.
Até quando teremos que ouvir no Brasil -“o laudo técnico estará concluído em 15 dias”? E enquanto isso, muitos foram julgados em praça pública. Infelizmente, o sigilo na investigação nunca existiu, apesar da tentativa de um juiz em fazer respeitá-lo.
Não se trata de privar os cidadãos do direito à informação -repito, dogma da democracia-, mas de tratar um tema tão delicado da forma correta. Causa choque ler e ouvir nos meios eletrônicos supostos detalhes do estado do corpo da criança e de como foi a sua queda. A cada instante, uma nova especulação é noticiada por um veículo, seguida de um desmentido. Tem razão o cientista social Sergio Miceli, que afirma que o jornalismo televisivo está cada vez mais próximo das novelas, mas talvez possamos ampliar essa conceituação para os demais. A notícia é tratada como um enredo que o público ávido acompanha a cada instante, com diversos atores buscando o seu lugar ao sol: a suposta testemunha aqui, o promotor lá, a teatralidade de uma delegada acolá.(…)

Notícia na mesma Folha, por Daniel Castro:

Caso derruba comerciais por 3 h na Globo

O caso Isabella derrubou ontem um dos pilares da política de qualidade da Globo: o respeito aos intervalos comerciais.
Para transmitir o deslocamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina, até uma delegacia, a Globo jogou fora na Grande SP toda a sua programação infantil e exibiu um “SP TV” “especial” com três horas e 16 minutos de duração.
A emissora derrubou todos os intervalos comerciais das 9h30 às 12h31. Na sexta anterior, a “TV Globinho” (programação infantil) teve três intervalos.
A Globo argumenta que o corte da “TV Globinho” se justifica porque foi “um dia jornalisticamente relevante”. A emissora avaliou que o caso Isabella seria esclarecido ontem.
A Globo informa que os anúncios da “TV Globinho”, por serem segmentados, não entraram no “SP TV”. Os anunciantes serão compensados.

Não é reação
A emissora nega que a transmissão de mais de três horas ininterruptas de um caso policial seja reação às recentes derrotas para a Record, no mesmo horário. A opção por Isabella deu certo: o longo “SP TV” marcou 13 pontos, contra 9 da Record, segundo dados preliminares.

Com a suspensão da “TV Globinho”, a Globo igualou o caso Isabella a coberturas de alta relevância, como o 11 de Setembro, os ataques do PCC (2006) e a visita do papa (2007).

Em seu livro “The Big Switch”, Nicholas Carr, o blogueiro do Rough Type, alerta para os efeitos econômicos da Web 2.0 (a qual pode ser razoavelmente equacionada como “disseminação da banda larga” + “ferramentas cooperativas”).  Entre outros,  estão o aumento da produtividade e o fato de que ferramentas colaborativas permitem às empresas prescindir de empregados (pense bem: o YouTube é o que é porque é você quem entra com o conteúdo, não o Google).  Na prática, porém, o efeito líquido até agora tem sido o de aumentar a desigualdade, concentrando cada vez mais renda nas mãos de poucos.  No seu livro, o próprio Nick mostra algumas estatísticas interessantes sobre desemprego causado pela internets _ e não é de se admirar que boa parte dele, no momento, se concentre nas redações de jornais.  Segundo Carr, um estudo da American Society of Newspapers Editors descobriu que entre 2001 e 2005 o staff dos jornais nos EUA declinou em 4%, com uma perda líquida de 1.000 repórteres, 1.000 editores e 300 fotógrafos e artistas.  Curiosamente, no mesmo período, o emprego das redações online também declinou em 29% _ o que motivou o seguinte comentário sarcástico de Floyd Norris, comentarista econômico do New York Times:  “a internet é a onda do futuro, mas não tente arrumar um emprego ali“.

Neste início de 2008 começaram a pipocar na rede notícias de que mais uma classe dos artistas da pena assalariados está encontrando sua nêmesis na internets: os críticos de cinema.  Aparentemente, há uma onda de demissões de críticos nos jornais americanos _ e a preocupação não aflige apenas os próprios críticos. Hollywood também está preocupada, pois julga que essa onda pode impactar diferencialmente os filmes.  Explica-se:  grandes blockbusters, com uma enorme estrutura publicitária por trás deles, não serão afetados.  Mas filmes “sérios”, mais intelectuais, podem sofrer, pois sua ecologia depende basicamente da opinião dos outros.

Mais a fundo: filmes são “bens de experiência”.  Tecnicamente, você só pode saber se gostou ou não de um filme após vê-lo.  Hollywood, porém, criou um “gênero”, o blockbuster, que praticamente deixa de ser um “bem de experiência”: são filmes-espetáculo, de estrutura quase ritualística (grandes efeitos especiais, vilão-mocinho-mocinha, o bem vence no final, aqui e ali toques cômicos para relaxar a trama dramática), aquilo que os gringos chamam de “formulaic”.  No fundo, o que acontece é que todo mundo, ou quase todo mundo, se obriga a vê-los (eu, por exemplo, gostei de Homem Aranha Um, não gostei do segundo e detestei o terceiro, mas provavelmente irei ver um quarto.  E sei que não vou resistir ao “Homem de Ferro” e ao “Cavaleiro das Trevas”).

Com filmes “sérios”, porém, é diferente – justamente por causa de sua extrema variabilidade.  Não há uma “fórmula” para um filme sério.  Assim, cada filme impactará de forma diferente o grande público.  Por isso, os filmes sérios dependem do chamado “efeito cascata” _ o boca a boca, que acontece quando seu amigo ou amiga disse que viu o filme tal e gostou muito, o que te estimula a ir ver o filme.  O problema é: hoje, as salas de exibição são um prêmio cobiçado.  Regras estranhas determinam se um filme fica mais uma semana ou não em um determinado cinema.  Isso faz com que a bilheteria da primeira semana seja muito importante na história do filme _ se ele não se sustentar na primeira semana, não haverá tempo para que o “boca a boca ” se alastre e motive as platéias a vê-lo.  É aí que entra o crítico: o crítico essencialmente é um sujeito que já viu o filme (razão das avant-premiéres) e é alguém em que você confia (porque já leu críticas de sua autoria sobre filmes de que você gostou).

Para muita gente, porém, a crítica não acabou _ apenas migrou para canais de nicho, os blogs e sites na internet especializados em crítica.  O que não importa muito para quem perdeu o emprego.

***

Por falar nisso, toda essa longa digressão, porém, foi apenas para dizer que eu acho que alguns críticos merecem mesmo o seu destino, o olho da rua.  Vejam estes dois parágrafos finais da crítica de “Os Reis da Rua” feita por Neusa Barbosa, do Cineweb, para o UOL:

Frequentando os círculos mais perigosos de gângsters e traficantes de Los Angeles, os dois encaram a morte de frente. Ludlow, com um instinto suicida e que não inspira muita simpatia, parece mais um vingador desajustado, chefiado por um capitão à altura.

Neste papel, aliás, Forest Whitaker está mais do que nunca parecido com o papel que lhe deu o Oscar em 2007, em “O Último Rei da Escócia”. Parece um Idi Amin de terno, para se encaixar na paisagem de Los Angeles.

O pior é que a chamada para a crítica, na página do UOL, é: “Os Reis da Rua trava diálogo com Tropa de Elite“.  Céus.

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