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Luciano Coutinho é o entrevistado da 2a na Folha, hoje:

FOLHA – Quais são os três principais entraves da economia brasileira?
LUCIANO COUTINHO
– Nós temos um desafio importante que é sustentar o processo de expansão do investimento. É fundamental compatibilizar crescimento acelerado e estabilidade de preço, por meio da criação de oferta suficiente. Para isso, temos de elevar a capacidade de poupança e investimento da economia e sustentá-la. Esse é um desafio, não é um entrave.
Segundo desafio importante é fazer isso incorporando capacidade inovadora. É preciso transmitir e enraizar a inovação no sistema empresarial brasileiro de uma maneira muito mais forte e afirmativa.
Um terceiro desafio é melhorar a capacidade de planejamento, regulação e desenvolvimento institucional. É preciso retomar a capacidade de planejar e pensar o médio e o longo prazo. Algo que foi perdido por conta de vicissitudes do processo inflacionário que obscurecia a capacidade de olhar de longe.

FOLHA – Ainda é válida a regra de bolso citada por economistas de que, para termos expansão sustentável acima de 5%, só com taxa de investimento de 20% a 25% do PIB?
COUTINHO
– Essa regra depende do grau de inovação e de produtividade. Você pode pensar numa faixa. Estou apenas relativizando porque existe todo um debate a partir do qual se pensa na idéia de produto potencial e se diz “eu não posso crescer mais de tanto”…

FOLHA – Mas dá para crescer 5% com a atual taxa de investimento na casa dos 18%?
COUTINHO
– Acho que dá para crescer. Para crescermos a 5%, 5,5%, temos que puxar a formação de capital para perto de 21%, 21,5% do PIB e mantê-la.
Se faço ganhos de produtividade mais firmes e mais sustentáveis, posso crescer não a 5%, mas a 5,5% ou 6%. É perfeitamente possível que o país possa crescer mais, sustentadamente. Tem de aumentar o esforço de poupança e investimento e sustentá-lo persistentemente ao longo do tempo.

FOLHA – Mas o problema hoje é que estamos numa velocidade de crescimento de 6%, o que estaria gerando pressões inflacionárias pelo aquecimento da demanda. Isso sinaliza que a taxa de investimento ainda não sustenta esse ritmo?
COUTINHO
– As pressões inflacionárias têm vindo mais de fatores externos e acidentalidades. Veio de produtos agrícolas, entressafra e commodities por conta da excitação do preço no exterior. Os elementos internos de formação do preço não mostram excitação alarmante.
A formação de capital tem avançado fortemente. Um sintoma inequívoco do amadurecimento dos investimentos é que o nível de uso da capacidade industrial, que havia subido para 83% e tanto, caiu. Está cedendo nas últimas leituras e nossa percepção é que vai continuar caindo devagarinho. A formação de capital na esmagadora maioria dos setores da indústria tem permitido evitar a formação de gargalos de inflação por conta de uso de capacidade estourado.
O nível de uso de capacidade está alto o suficiente para estimular o investimento e numa faixa ainda confortável para não produzir estresse inflacionário, daí o desafio de continuar mantendo a formação de capital em ascensão para criar capacidade de oferta.
Há uma arte de calibrar no curto prazo a demanda agregada, os estímulos fiscais e monetários da economia que não está na minha esfera. Toda a análise que fiz foi estrutural, não queira colocar na minha boca uma avaliação crítica à política macroeconômica. O BC e o Ministério da Fazenda têm de cuidar da inflação, da calibragem da economia para manter a estabilidade e o controle sobre as expectativas de inflação.
Tenho uma tarefa importante que é ajudar a sustentação do investimento, de tal maneira que não se formem pressões inflacionárias generalizadas.
Mantida a confiança e a sustentação do crescimento, em algum momento futuro o BNDES poderá repensar o seu perfil de financiar coisas que tipicamente o mercado não financia bem. Neste momento, o BNDES está sobrecarregado.

FOLHA – Neste momento o BNDES precisa atuar na função de manter essa taxa de investimento subindo para evitar gargalos inflacionários. Quais os setores que o senhor identifica em que o BNDES precisa atuar?
COUTINHO
– Os setores-chave são os chamados de insumos de amplo uso industrial, os insumos básicos, porque eles têm um peso importante na formação de custos de vários setores.

FOLHA – Há uma grande dúvida se vocês terão condições de ter os recursos necessários, como para bancar as metas da política industrial. O ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento) disse que o banco terá até R$ 250 bilhões para financiá-la.
COUTINHO
– Bom, acho que ele está incluindo nosso orçamento de R$ 80 bilhões nos próximos três anos. Não é uma conta discrepante. Conto com a ajuda do ministro Miguel Jorge para ajudar o banco a chegar nos duzentos e tantos bilhões de reais.
Existem mecanismos para chegar, mas não posso falar de mecanismos que ainda estão em estudo. Uma parte disso pode vir de “funding” de mercado.

FOLHA – O banco pode fazer um grande desinvestimento?
COUTINHO
– Uma parte pode vir de captação de mercado, pode vir de captação externa, de desinvestimento. Parte pode vir de desinvestimento da carteira, parte pode vir de outras fontes.

FOLHA – Quando se observa o balanço do banco nos últimos meses, as exportações caem sucessivamente. A nova política industrial vai criar algum mecanismo no banco de estímulo à exportação?
COUTINHO
– Não posso falar sobre a nova política industrial, mas posso dizer que a política industrial tem entre seus componentes o apoio a exportação.

FOLHA – A queda no superávit da balança comercial preocupa num cenário de médio e longo prazo, podendo reverter o quadro atual?
COUTINHO
– Assustou a velocidade de deterioração da conta comercial. E há uma certa percepção nossa de que existiram fatores conjunturais que deram uma impressão mais alarmante do que de fato imagino. Mas isso no curto prazo. Obviamente no médio e longo prazo é importante não permitir uma expansão do déficit em conta corrente para níveis que representem uma retomada de um processo de endividamento em moeda forte acelerado. Porque isso irá, a médio prazo, desfazer a robustez externa recém-conquistada. Se ingressar num processo acelerado de endividamento continuado, vai desfazer a robustez externa, que foi crucial para estabilizar a taxa de câmbio, para o controle das próprias condições de operação da política monetária.
Então, há uma cautela que deve ser pensada. Um dos fatores será reforçar a capacidade competitiva, exportadora do Brasil por meio de medidas da política industrial. Outras medidas deverão ser pensadas, como evitar que o déficit de conta corrente cresça de forma continuada e exagerada. Aí há um antídoto que é o próprio regime de câmbio flutuante. Ele tem a grande vantagem de estabelecer um piso para a apreciação do câmbio na medida em que o déficit em conta corrente aumente. O próprio mercado tende a corrigir.

FOLHA – O FMI alertou de que o Brasil deveria se preocupar com suas contas externas, diante do risco de juros mais altos criarem um problema maior para o câmbio. Como o sr. disse, o câmbio flutuante tende a ajustar a taxa cambial, mas com juros elevados isso pode levar mais tempo do que o necessário?
COUTINHO
– Eu tenho idéias a respeito, mas não vou me estender sobre elas. Eu acho essa uma boa pergunta para o ministro Guido Mantega e para Henrique Meirelles.

FOLHA – Qual é a sua boa resposta?
COUTINHO
– O que eu posso dizer é que nós estaremos remando com toda nossa força para ajudar no sentido de mitigar o problema, para evitá-lo. O que podemos fazer? Apoiar fortemente a exportação.

FOLHA – No Palácio do Planalto, já há quem lembre aquela frase do economista Mário Henrique Simonsen, “inflação aleija, mas câmbio mata”. Está chegando a esse risco?
COUTINHO
– Não, estamos longe. O déficit em conta corrente projetado para este ano vai chegar no máximo a 1%. É um déficit pequeno, não pode é deixar ele ficar aumentando.

FOLHA – Mas, quando o sr. disse que ele assustou…
COUTINHO
– Foi mais pela velocidade. O que acho é que a médio e longo prazos não é bom permitir uma abertura continuada do déficit. Um déficit crescente, que represente um processo crescente e continuado de necessidade de endividamento externo, é perigoso.

FOLHA – Em que estágio da crise financeira americana ainda estamos?
COUTINHO
– Ainda há um rescaldo que durará um bom tempo. O que está mais ou menos claro é que a economia americana já se desacelerou, vai passar por um período de desaquecimento, de recessão talvez. A dúvida fundamental é calcular o rebatimento da crise sobre o resto da economia internacional. Algum rebatimento haverá, na medida em que 20% da economia chinesa depende de exportação. Acho que um desaquecimento moderado pode ser até bom para a economia brasileira porque vai moderar as pressões das commodities, que têm sido um fator preocupante de controle inflacionário.
É possível que tenhamos um cenário global menos favorável, mas não é catastrófico. Nesse cenário, o quadro de liquidez internacional será muito favorável, porque, para administrar a crise americana, será necessário a sustentação de juros muito baixos. Isso significa que a liquidez pode passar por ciclos muito seletivos, de estresse, mas estruturalmente o mundo será de grande liquidez.
Nesse contexto, a economia que demonstrar capacidade de crescimento vai atrair capitais e se descolar. Tenho a percepção de que o Brasil pode se descolar do ciclo, como a China. E por quê? Por uma coisa relativamente intuitiva, depois de 25 anos de investimento travado, criamos uma carteira de investimentos necessários, de alto retorno e risco relativamente baixo.

FOLHA – Qual a expectativa do sr. para a decisão do Copom?
COUTINHO
– É um prognóstico difícil. Como colega de governo, eu acho que o Copom tem toda autonomia para decidir e eu não devo opinar sobre isso.

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Artigo do Renato Janine Ribeiro na Folha de hoje:

Superávit etário

AUMENTO DA EXPECTATIVA DE VIDA TORNARÁ PRIORITÁRIO, NO SÉCULO 21, O DEBATE SOBRE O SENTIDO DA EXISTÊNCIA

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Questões de valor são eminentemente filosóficas: constituem a matéria-prima da ética. Nos últimos anos, boa parte da discussão pública sobre o bem agir tratou de temas que colocam em foco a própria vida. Isso pode ter começado com a proposta de descriminar o aborto e depois passou para a pergunta sobre a boa morte.
Se há um ponto em comum entre as discussões sobre o aborto, a eutanásia (e as formas de morte voluntária digna) e o uso das células-tronco para pesquisa, é este: a vida se tornou objeto de intensa discussão ética.
Esse debate não é fácil, porque coloca em cena a vida que não virá à luz, no caso do aborto ou talvez dos embriões, ou a vida que tenha fim abreviado. Em outras palavras, é um debate sobre a vida que inclui a morte ou a não-vida. Daí que seja muito delicado, fácil de tomar pelas paixões.

Transcrevo o resto da matéria abaixo do fold, para os sem-Folha.

É um texto com algumas boas questões, creio eu. Curiosamente, hoje mesmo, ao ver uma velhinha na fila do açougue, aparentemente bastante idosa mas ao mesmo tempo bastante saudável e lúcida, eu pensava sobre estas coisas. Por exemplo: suponho que em não mais que vinte anos será possível suprir a falência de órgãos a partir de transplantes feitos a partir de células do próprio doente. Isso provavelmente aumentará a sobrevida humana em muitas décadas. Muito antigamente, antes da invenção dos antibióticos, morria-se de infecções e septicemias; depois foi a era da morte por problemas cardíacos; e hoje vivemos a era do câncer. Talvez em mais algum tempo vivamos na era da morte por Alzeheimer ou de pura senilidade, ou falta de vitalidade do sistema nervoso central. O texto do Janine coloca alguns pontos interessantes:

Simone de Beauvoir tem um belo romance, “Todos os Homens São Mortais”. Um personagem vive séculos. Cansa-se. Estaremos perto disso? Vivemos uma situação em que o estoque de vida possível ultrapassa a possibilidade de lhe atribuirmos valor, sentido, dignidade?

Será possível cansar de viver? Depende. Em primeiro lugar, depende de em que condições físicas e mentais se dá essa sobrevivência, é claro: não parece haver grande vantagem em viver por longo tempo, mas em más condições de saúde. Evidentemente essa afirmativa deve ser relativizada à luz de certos resultados dos estudos sobre “felicidade”. Por exemplo, recentemente ficou claro que pessoas que são submetidas a amputações retornam rapidamente a um estado de felicidade subjetiva comparável ao que tinham antes. Um novo estado de saúde pode ser muito menos suportável quando pensamos nele antes de efetivamente estarmos nele.

Hoje, já a herança perdeu sentido. É rara a pessoa que, com a herança proveniente da morte dos pais, constrói sua vida. Geralmente, herda-se quando já não se precisa disso.

Isso é interessante. De fato, o instituto da herança faz sentido em um mundo onde se morre cedo, antes de os filhos serem capazes de viver por si próprios. Depois disso ele passa a ser, de fato, um instrumento de concentração de rendas. Mas que grau de concentração de renda é possível em um mundo onde o envelhecimento é bloqueado? Há uma novela de Bruce Sterling chamada “Holy Fire” onde a sociedade é uma gerontocracia, e pessoas muito velhas acumulam enormes quantidades de dinheiro, que lhes permite pagar por métodos cada vez mais sofisticados de prolongar a vida _ o que lhes permite acumular ainda mais dinheiro _ em um ciclo infindável, onde os jovens são poucos e não têm muita esperança.

Há espaço para todos? Emprego, ar, água, comida? Questões sociais, sim, de intendência, sim, mas que repercutem em nossas escolhas.”

Outro dia escutei pela primeira vez o termo “Deep Green”. Ele refere-se ao termo correlato “deep ecology“, e trata-se de uma facção do movimento ecologista (criada pelo ecologista e filósofo norueguês Arne Næss) que acredita que nossa civilização é inerentemente inimiga do meio ambiente e que sua expansão será insustentável.  Genericamente, trata-se de saber se há limites ao crescimento; na medida em que se defina “crescimento” como a agregação de mais e mais mercadorias, bens de capital, equipamentos e infra-estrutura para mais e mais pessoas, parece claro que sim, há limites ao crescimento.

Há quem advogue que o advento dos “bens de informação” altere tudo isso.  Façamos um experimento mental.

Imaginemos que mais e mais pessoas se conectem ao “Second Life“, e que se descubram maneiras de tornar a experiência virtual mais e mais realista.  Suponha que no limite seja possível recriar o mundo real com tal detalhe, e promover um tipo de conexão entre a pessoa e o mundo virtual, a ponto de ambos, mundo real e virtual se tornarem indistinguíveis um do outro.  Nessas condições, poderíamos facilmente migrar para o mundo virtual a maior parte do dia _ trabalhar, estudar e se divertir no mundo virtual, “voltando” ao mundo real apenas para realizar as atividades básicas de manutenção do corpo físico.

Isso teria muitas vantagens.  Por exemplo, poderíamos ter cada vez menos bens materiais “reais”, e cada vez mais bens materiais “virtuais”.  Poderíamos viajar instantaneamente por inumeráveis mundos virtuais.  Talvez pudéssemos ter até sexo virtual.

A questão é: mesmo nesse mundo, haveria limites para o crescimento?

A resposta a esta pergunta depende de darmos uma boa olhada no funcionamento do Linden Labs, a empresa onde funciona o Second Life atualmente.  Eis um trecho do livro “The Big Switch“, do Nick Carr, sobre o Second Life:

O programa (que gera o mundo virtual) roda em centenas de servidores que estão abrigados em dois data centers, um em São Francisco e o outro em Dallas, que não são de propriedade do Linden Labs e sim por companhias que prestam serviços de computação para terceiros.  Cada servidor contém, por sua vez, quatro computadores virtuais, cada um dos quais controlando 16 acres de território no Second Life.  Todos esses computadores virtuais e reais trabalham em conjunto para criar o vasto mundo que os residentes experimentam ao jogar o jogo.

Segundo o site da empresa, no dia 10 de abril, última estatística disponível, existiam 13,243,675 avatares (isto é, jogadores, ou habitantes) no Second Life.  É bastante gente, mas muito menos gente do que estamos falando em minha utopia virtual.  Ainda assim, Nick Carr calculou que um avatar do Second Life consome tanta energia quanto um brasileiro médio.  Wow.

De fato, apenas um dos gigantescos data centers do Google, o localizado em The Dalles, consome 103 megawatts de energia _ o suficiente para alimentar uma cidade (americana) de 82.000 habitações. Mais sobre isso aqui e aqui.  Li que recentemente o Departamento de Energia norte-americano chamou os grandes proprietários de data centers para conversar, pois seu crescimento exponencial já começa a botar pressão na geração de energia dos EUA.  E a Matrix ainda está só esquentando…

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