Maria Cristina Fernandes, ecoando interessante tese de Werneck Vianna no Valor de hoje:

O árbitro diante da prorrogação

Um governo que abriga no primeiro escalão personagens tão díspares quanto Rolf Hackbart (Incra) e Reinhold Stephanes (Agricultura), ou Henrique Meirelles (BC) e Luiz Marinho (Previdência), estava marcado para cavalgar sobre o vácuo desta discussão do terceiro mandato. A fórmula para dispor esses contrários ao longo da Esplanada dos Ministérios é exclusiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. São os riscos resultantes da necessidade de reformular a relação entre os pólos opostos contemplados por este governo que alimentam o qüiproquó da sucessão lulista.

A tese, sustentada por Luiz Werneck Vianna, professor do Iuperj, em artigo disponível na internet ( http://www.acessa.com/gramsci/ ), confronta a versão corrente de que o combustível do terceiro mandato é o espetáculo do crescimento. Não é por comandar a bilheteria que Lula desperta tamanho falatório, mas por arbitrar a guerra das torcidas adversárias.”

O resto abaixo do fold, para os sem-Valor.

Os ruídos do noticiário político, sem liga com os indicadores econômicos, revelam o que Werneck chama de assincronia de projetos de sociedade desconfortavelmente abrigados neste governo. De um lado estão os partidários de um modelo em que gastos sociais e máquina pública são vistos como obstáculo aos investimentos necessários à alavancagem da produção. Do outro, estão aqueles que vêem como papel do Estado a submissão do desenvolvimento econômico à universalização do acesso à Saúde e Educação, com fortalecimento da legislação trabalhista e previdenciária.

Os conflitos dessa convivência de contrários ora tomam a forma dos embates Meirelles x Guido Mantega sobre os rumos da política econômica, ora da disputa em torno do imposto sindical, da discussão sobre os índices de produtividade da propriedade agrícola para fins de desapropriação ou até mesmo dos limites da participação privada na exploração do campo de Tupi. São conflitos que tomam as cores da conjuntura mas têm dramatizado a cena política desde, pelo menos, o início da formação do Estado nacional no primeiro governo Vargas.

O PT nasceu rejeitando essa herança varguista – “Quando surgiu na cena política Lula chamava a CLT de o AI-5 dos trabalhadores”, lembra Werneck – mas, nesse segundo mandato, tornou-se, definitivamente, um partido de Estado. Tomou um lado, apesar de ainda não ter candidato.
Inversamente, a oposição, que tem muitos candidatos, ainda não tem um lado definido. Vide a votação da CPMF. Os dois principais candidatos da oposição, os governadores de Minas e São Paulo, Aécio Neves e José Serra, foram ambos favoráveis à prorrogação da contribuição, colidindo com os interesses empresariais que, apesar de confortavelmente abrigados na coalizão lulista, lhes são simpáticos.

É a equação lulista de poder que alimenta tese

No embate macroeconômico que hoje divide o governo, a frente que resiste à elevação na taxa de juros tem a ativa participação do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, cujas formulações são próximas de Serra. É difícil imaginar que ambos, no comando do manche, colocariam um Henrique Meirelles no Banco Central, o que não parece tão improvável assim numa gestão Aécio Neves.

Numa demonstração de que está disposto a embaralhar a equação de governo montada por Lula, Aécio já começou a montar seu front sindical. Foi peça decisiva na sessão da madrugada que aprovou, no Congresso, o reconhecimento das centrais, e levou o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a Belo Horizonte, para apalavrar o apoio do PDT à coalizão do que arrisca a ser uma candidatura sem oponentes do secretário Márcio Lacerda à prefeitura da capital mineira.

Ao longo do governo Lula, ambos os pólos em disputa no interior do Estado tiveram avanços na institucionalização de suas posições. A Lei de Falências e o reconhecimento das centrais são apenas dois exemplos. A dúvida é se esses conflitos continuarão amortizados na ausência de Lula. “Seu terceiro mandato pode nascer de um contexto em que a incerteza impere – a ambição de todos em ganhar tudo vindo a ameaçar o que cada um já tem”, diz Werneck.

Ele receia que o histórico de sucessos que Lula vem colhendo o tenham feito desaprender a temer os riscos e o jogue na aventura de um terceiro mandato. Outra aposta, que mantém sob vigília os passos do enxadrista mineiro, é que, a enfrentar riscos gigantescos, como o de um Judiciário hostil, a reconhecida sensibilidade política do presidente o resguardaria a observar os passos de seu sucessor. Deste posto, apostaria que, como nunca na história deste país, ninguém se lhe igualou, ele seria chamado de volta em 2014.

Na melhor das apostas, a sucessão de Lula resultaria numa nova equação de poder que, resguardando as conquistas da maioria, prescinda de sua arbitragem.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

mcristina.fernandes@valor.com.br

Anúncios