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Seremos um imenso Portugal?

“Já se encontra disponível o mais recente Flash Report publicado pelo OberCom. O presente relatório faz uma caracterização dos Bloguers portugueses e da sua actividade de blogging, nas vertentes de consumidores e produtores de conteúdos da blogosfera, e as suas percepções acerca da credibilidade desses mesmos conteúdos comparativamente com os difundidos pelos mass media.

Com base nos dados do inquérito por questionário ‘A Sociedade em Rede em Portugal 2006’, este Flash Report pretende responder às seguintes questões:

  • Em Portugal, quantos são e quem são os utilizadores e os produtores de blogues?
  • Qual a frequência de consumo e produção de blogues pelos internautas portugueses?
  • O que motiva os internautas a navegar e a interagir na blogosfera?
  • Que credibilidade atribuem aos conteúdos que habitam a blogosfera?
  • Que segmentação temática apresenta a blogosfera.pt?
  • Quais as representações que melhor caracterizam a blogosfera.pt, em termos dos seus conteúdos e autoria desses conteúdos?

De entre as principais conclusões, é de destacar que na dieta de novos media dos portugueses, os blogues são ainda um media de introdução recente e pouco difundido, embora em crescimento. Por outro lado, no que respeita à actividade de blogging (consulta, interacção e produção de conteúdos para blogues), os bloguers portugueses têm maioritariamente um perfil jovem (adolescente e jovem adulto), sendo este perfil mais acentuado entre os produtores de conteúdos de blogues, os quais são maioritariamente indivíduos do sexo masculino, estudantes do ensino secundário e superior; enquanto os bloguers-consumidores revelam um perfil mais heterogéneo, incluindo uma maior proporção de indivíduos adultos mas não idosos, um equilíbrio entre homens e mulheres, e graus de escolaridade mais elevados.

Destaca-se ainda neste estudo a existência de vários traços que diferenciam os bloguers-produtores dos bloguers-consumidores portugueses ao nível quer das práticas de blogging quer das percepções sobre a blogosfera. Enquanto que na percepção dos bloguers-consumidores a vertente da agenda noticiosa dos mass media tem uma expressão muito significativa e marca notoriamente a blogosfera, os bloguers-produtores encaram preferencialmente a blogosfera como um espaço composto por linkblogs e lifelogs.

Ainda em contraste, entre os bloguers-produtores sobressai de forma mais acentuada o reconhecimento da blogosfera como um mundo de vozes e autorias plurais, que se consome de forma intensa mas fluida como um contínuo entre modalidades de webjournalism, linklogs e lifelogs, e onde se entrecruzam agendas públicas e privadas. São, também, os bloguers-produtores que atribuem maior grau de credibilidade à informação veiculada nos blogues, o que seria expectável devido ao próprio investimento pessoal que lhe dedicam, e são aqueles que mais utilizam a Internet nas suas várias vertentes como meio de informação e meio de entretenimento. Por último, na relação entre os novos media e os media tradicionais, enquanto os bloguers-produtores apresentam dietas online mais diversificadas e intensivas e os bloguers-consumidores são mais intensivos nas duas dietas offline; a televisão surge para ambos como um denominador comum na estrutura dos consumos mediáticos que é um dos traços mais marcantes da própria sociedade portuguesa.”

Relatório completo aqui [PDF].

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Deu no G1:

Acesso a blogs do WordPress no Brasil pode ser bloqueado

Associação de provedores diz que Justiça mandou impedir acesso a um blog.
Segundo a associação, para cumprir a ordem, outras páginas serão bloqueadas.

Uma ordem judicial expedida no final de março pode resultar no bloqueio do acesso no Brasil a todos os blogs hospedados no portal wordpress.com. A ordem tem como objetivo proibir o acesso a um blog. Mas, segundo a Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abranet), para que a decisão judicial seja cumprida, os provedores de terão de barrar o acesso a todos os sites oferecidos pelo serviço.

A Justiça não informou o nome do blog e a razão da decisão de bloquear a página.

De acordo com a Abranet, o Brasil responde por cerca de 1 milhão dos blogs hospedados no WordPress.

A ordem de bloqueio foi enviada à Abranet, que a repassou para todos os provedores associados. “Ordem judicial não se discute, se cumpre. Mas, como não é possível bloquear especificamente o endereço solicitado, o acesso a todos os sites com a extensão wordpress.com será impedido no Brasil”, explicou ao G1 Eduardo Parajo, presidente da associação.

Parajo não especificou uma data em que esses blogs ficarão inacessíveis, mas afirmou que os provedores já estão tomando as providências para realizar o bloqueio.

Segundo a companhia de monitoramento de tráfego Alexa, o WordPress ocupa a 27ª posição entre as páginas mais acessadas do país. Se considerados os sites mais acessados de todo o mundo, os blogs do WordPress ficam em 49º lugar. Nos EUA, ele teve crescimento de 310% no período de um ano e terminou 2007 somente atrás do Blogger entre os serviços de blog mais populares do mundo.

Dificuldade técnica em cumprir a ordem

Paralelamente ao cumprimento da ordem, a Abranet pretende enviar um texto ao juiz, explicando as dificuldades técnicas dessa questão. “Nosso objetivo é esclarecer a situação e mostrar que muitas pessoas podem ser prejudicadas. A alternativa que temos para executar o bloqueio de um único blog vai afetar outras pessoas”, disse Parajo.

Uma situação parecida foi registrada no início de 2007, quando um polêmico vídeo causou o bloqueio do YouTube no Brasil – o site ficou inacessível para os brasileiros durante um dia. O arquivo continha imagens picantes da modelo Daniella Cicarelli e seu então namorado, Tato Malzoni, que abriu com um processo para proibir a veiculação do conteúdo.

Pô, Samurai, tu é pé-frio, hein? 🙂

Saudades do bordão “o petróleo é nosso”. Hoje no Estadão:

OAB tenta anular patente da rapadura feita na Alemanha

A empresa alemã Rapunzel patenteou a rapadura na Alemanha em 1989 e nos
Estados Unidos em 1993

SÃO PAULO – A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) vai tentar anular o
registro da marca Rapadura feito pela empresa alemã Rapunzel Naturkost AG,
segundo informações do Conjur. A pedido da OAB do Ceará, o presidente da
Comissão de Relações Internacionais do Conselho Federal da Ordem, Roberto
Busato, irá entrar em contato com as entidades de advogados dos Estados
Unidos e da Alemanha. Ele irá pedir ajuda dos colegas nos processos contra a
empresa. A Rapunzel patenteou a rapadura na Alemanha em 1989 e nos Estados
Unidos em 1993.

A rapadura da Rapunzel, vejam só.

De repente dei-me conta do seguinte:

Estamos discutindo a superioridade da civilização cristã ocidental sobre os índios por causa do infanticídio.

Bem, podemos não só discordar, como querer fazer algo a respeito, mas os índios fazem o que fazem por uma razão clara: no seu modo de vida, é muito difícil manter indivíduos com defeitos físicos.

Já nós precisamos de quando em vez de uma capa de Veja sobre o abuso, assassinato e tortura de crianças para demonstrar o quão evoluídos somos.

***

O problema de não manter um ceticismo relativista saudável quanto aos trabalhos de nossa própria civilização é recaírmos em uma certa crença em um progresso linear.  Um tipo de hubris que costuma atrair sua nêmesis, ao devido tempo.

O Paulo Araújo, lá no Torre de Marfim, fez o seguinte comentário, cuja resposta preferi transformar em post aqui, por longa demais. Em vermelho, meus comentários citados pelo Paulo, em azul, os comentários do Paulo, em preto, minha resposta:

“ATINI é no fundo uma entidade missionária que se esconde sob o manto de uma ong indigenista”

Os dirigentes da ATINI não escondem que são cristãos. O jeito que você escreve revela preconeito idêntico àquele que você condena em outros discursos. Aquele que vê comunista infiltrado até em fila de banco. São cristãos sim e dai? Cristãos, assim como os comunistas, não podem ter ONGs? Do jeito que você escreve parece até que os cristãos são uns demônios. Você é ateu? Eu não sou. Sou católico.

Eu não preciso fazer apologia ou condenação de culturas, sociedades ou civilizações para expressar meu pensamento sobre o infanticídio.”

Paulo, vou chocá-lo: sim, eu sou ateu (soam as trombetas do Apocalipse).

Agora, vou chocá-lo ainda mais: não, eu não apóio o infanticídio.

Porém:

a) Não é bem verdade que os dirigentes da ATINI não escondam que são cristãos. Por exemplo, a mais vocal das dirigentes, Maíra de Paula Barreto, assim se apresenta no site da ATINI:

Maíra de Paula Barreto é uma das maiores autoridades brasileiras na questão do infanticídio nas tribos indígenas. Maíra é Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Maringá e doutoranda em Direitos Humanos pela Universidad de Salamanca (tema: Culturalismo y Derechos Humanos en Brasil: la posición del gobierno frente al homicidio de neonatos indígenas). Além disso, é mestranda em Direitos da Personalidade pelo Centro Universitário de Maringá e membro do International Law Association.

O expediente aqui é mostrar credenciais profissionais, o que, é claro, não é proibido. Mas serve para escamotear o fato de que a moça tem uma agenda, e ela está oculta, nesse texto.

b) A questão da agenda oculta é importante por um único motivo: a verdadeira razão pela qual estas entidades, e estes porta vozes em particular, estão batendo o bumbo em torno da FUNAI e seu “relativismo cultural” é porque o alvo principal é outro. Ofereço o seguinte texto, de um simpatizante, como evidência:

A cultura da morte, que vitimiza todas as culturas, é promovida pelo “relativismo cultural“, pelo pensamento de que um mal, como o infanticídio, pode ser um mal numa sociedade e um bem em outra.

Não por acaso esta é a bandeira de organizações que promovem o discurso pró-aborto no Brasil. Seus militantes (su@s militantes, para sermos politicamente corretos) sabem que o embrião, o feto, o bebê estão vivos. Contudo, por meio de estratégias discursivas, esforçam-se para impor sua cultura de morte às demais culturas, numa clara demonstração de etnocentrismo: “vale minha cultura de morte, não vale sua cultura de vida”.

Estratégias que têm no relativismo cultural seu maior aliado. Não surpreende que os debates pró-aborto sustentem um relativismo “científico” sobre o início da vida, sobre o significado da própria vida humana.”

E se for preciso uma “smoking gun“, eis a lista das entidades que abaixo-assinaram a Carta de Brasília, contra a legalização do aborto:

Os membros e representantes da

Frente Parlamentar da Família e Apoio a Vida,
Frente Parlamentar Contra a Legalização do Aborto,
Frente Parlamentar Evangélica,
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Lideranças Nacionais de Denominações Evangélicas,
Movimento Nacional Pró-vida Pró-Família,
Movimento Pró-Vida Família de Anápolis,
Associação Nacional Mulheres Pela Vida,
Missões Evangélicas Brasileiras,
Federação Paulista dos Movimentos em Defesa da Vida,
Associação Brasileira dos Juristas pela Vida,
LIBRA – São Paulo – Liga das Mulheres Eleitoras do Brasil,
Associação dos Ex-Alunos de Direito Canônico da Arquidiocese de São Paulo
ATINI – Voz Pela Vida,
e ainda, de diversas entidades da sociedade civil,

reunidos na cidade de Brasília-DF, no dia 08 de maio de 2007, durante manifesto público com o tema: “GRANDE CLAMOR AOS CÉUS CONTRA A LEGALIZAÇÃO DO ABORTO NO BRASIL”, firmam a presente Carta de Brasília, dirigida ao Presidente da República, ao Presidente do Congresso Nacional e à sociedade brasileira, de forma geral, apresentando posição contrária à legalização do aborto no Brasil, considerando que(…)

Isso a despeito do fato de que se você fizer uma busca no google pela palavra aborto no site da ATINI, você não encontrará nada.

“Eu me posiciono sobre os fatos que conheço. Há uma fartura deles sobre o número de crianças mortas nas tribos indígenas. Sou favorável a uma intervenção para cessar essas mortes. Os nossos antropólogos ateus são, na sua esmagadora maioria, defensores do relativismo cultural. Veja o absurdo que segue:

“Quando se pratica infanticídio, do ponto de vista cultural -não do biológico-, ainda não se está considerando um ser como completo. A antropologia analisa desse modo. Sob essa lógica cultural, não é uma desumanidade.” (Mércio Pereira Gomes, que foi presidente da Funai nos quatro primeiros anos do governo Lula)

Esse senhor está expressando um pensamento que foi reproduzido à farta aqui nos comentários. O que esse senhor não diz é que quem pensa assim são os adeptos da antropologia que advoga o relativismo cultural. Esse pensamento é hegemônico e cúmplice de uma prática que deve ser coibida. Sob a lógica cultural é aceitável. Isso quer dizer que a defesa da cultura é preferível à defesa da vida humana. Para mim isso é uma falácia. É uma mentira. É coisa de gente doente, degenerada.”

Tomei a liberdade de checar se o Mércio falou isso mesmo. Encontrei o blog dele, onde ele comenta a reportagem:

De minha parte, fui entrevistado e a matéria reflete parte do que eu disse. A questão do infanticídio precisa ser tratada com respeito e com diálogo. Disse que vivi um dilema muito profundo em minha vida enquanto presidente da Funai. Disse que a Funai tem que ser forte e ativa, a saúde tem que estar na Funai, ou a Funai na saúde, para termos os dados corretos, uma avaliação perfeita das situações e possibilidades maiores de ter a confiança dos povos indígenas. Disse também que conversei sobre esse assunto com Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Eugênio Salles, e que eles foram muito compreensivos e queriam ajudar. Mas essa parte não saiu na entrevista abaixo.

Por outro lado, a questão do infanticídio não é uma mera questão de saúde. É uma questão ética, em que dois pontos de vista cultural são confrontados. O mundo precisa de filósofos, éticos, antropólogos, indigenistas e do diálogo franco, aberto e intercultural com os povos indígenas.

Lei por si só não vai funcionar. Ou surgirá como repressora, ou não “pegará”. O que vai valer é o diálogo intercultural, e para isso a Funai tem que estar à frente.

A Funai não serve só para demarcar terras indígenas e proteger os índios. Serve em especial para manter o diálogo intercultural, para fazer com que os índios se sintam parte da nação brasileira, e de que devem ser bem quistos por todos os brasileiros. Seguir normas ou leis brasileiras devem ser consequência dessa atitude, não obrigação. Daí porque Rondon dizia, em 1910, que os índios constituíam “nações autônomas com as quais devemos criar laços de amizade”. Essa atitude está em vigor, mas como expectativa não ainda como realização.

Embora ele esclareça mais a questão, parece que ele realmente não nega ter dito o que disse. Isso eu reconheço que foi demasiado, e infelizmente dá panos para mangas para os anti-abortistas.

Por outro lado, há um problema muito maior por trás de tudo isso. Eu suspeito que as atualizações dos diplomas legais vêm andando em descompasso com o delineamento de políticas públicas governamentais. Explico: o Brasil tem mania de ratificar textos de tratados internacionais, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, sem que se averigue em extensão sua compatibilidade com todas as políticas adotadas pela administração. Por exemplo, vejam esta notícia a respeito da primeira confirmação da Convenção pelo Judiciário:

26/02/2007 – 16:08 – Justiça reconhece aplicação da Convenção 169 da OIT a comunidades quilombolas

O juiz José Carlos do Vale Madeira, da 5a. Vara Federal do Maranhão, concedeu um mandado de segurança, confirmando decisão liminar de setembro de 2006, que desautoriza o diretor-geral do Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA) a impedir que um grupo de 47 integrantes de comunidades de remanescentes de quilombos colham ou façam roças em suas áreas tradicionais, de onde foram deslocados na década de 80 para instalação da base aeroespacial.

Esta é a primeira decisão obtida da Justiça Federal reconhecendo a aplicabilidade da convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) como garantidora de direitos quilombolas – em seu artigo 14 a Convenção dispõe, referindo-se às comunidades remanescentes de quilombos, que “deverão ser reconhecidos os direitos de propriedade e posse dos povos em questão sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.

(…)

O magistrado entendeu que:

“não pode o Estado negligenciar a proteção constitucionalmente eleita como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, qual seja, “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem,raça, sexo, idade e quaisquer formas de discriminação” (CF/88, art. 3º, IV), incluindo, assim, as comunidades remanescentes de quilombos (…)”

“conforme destacado pelo ilustre Representante Ministerial em seu Parecer, pelo Estado Brasileiro estou confirmado seu entendimento em estabelecer políticas públicas voltadas ao combate à discriminação dos modos de vida tradicionais dos povos indígenas e tribais, quando da edição do Decreto Legislativo nº 143/2002, ratificando a Convenção nº 169/ da OIT, que dispões em seu art. 14 que “deverão ser reconhecidos os direitos de propriedade e posse dos povos em questão sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.

“não obstante a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara e o desenvolvimento regular de suas atividades, não podem os Impetrantes ver-se vitimados por este fato da administração, quando o próprio modo de vida tradicional das comunidades quilombolas determinou formas de produção, que foram estabelecidas historicamente visando à sua subsistência”.”

A questão em tela era justamente a dos direitos das comunidades sobre a terra, principalmente as terras tradicionais _ discussão toda ela muito calcada sobre a questão dos recursos naturais, principalmente minerais. Isto também fica evidente da leitura das notas da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, que discutiu o tema antes da aprovação do Decreto Legislativo que introduziu a Convenção em nosso ordenamento legal. Eis, por exemplo, a manifestação do Senador Tião Viana, relator, na sessão de 11 de maio de 1999:

Penso que seria útil mostrar, em síntese, os dispositivos da Convenção que foram objeto de discussão de modo geral por parecerem contradição com normas constitucionais brasileiras. Refiro-me aos artigos 14, 15, 16, 17 e 32.
Um dos pontos polêmicos da Convenção, o artigo 14, versa sobre a necessidade de reconhecer aos povos interessados os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Os Governos deverão adotar as medidas necessárias para garantir a proteção efetiva dos mencionados direitos de propriedade e de posse e instituir procedimentos adequados no âmbito do sistema jurídico nacional para solucionar as reinvindicações de terras formuladas pelos povos interessados.
O artigo 15 estabelece que os direitos dos povos interessados aos recursos naturais existentes nas suas terras deverão ser especialmente protegidos e abrangem o direito de participar da utilização, da administração e da conservação dos recursos mencionados. Em caso de pertencer ao Estado a propriedade dos minérios ou dos recursos existentes nas terras, os Governos deverão estabelecer, ou manter, procedimentos com vistas a consultar os povos interessados a fim de se determinar se seus interesses seriam prejudicados antes de empreender ou autorizar qualquer programa de prospeção ou exploração. Os povos interessados deverão participar sempre que possível dos benefícios que estas atividades produzam e receber indenização eqüitativa por qualquer dano que possam sofrer como resultado dessas atividades.
O artigo 16 permite que, excepcionalmente, se efetue o traslado e o reassentamento desses povos, desde que sejam considerados necessários e com o consentimento dos mesmos, concedido livremente com pleno conhecimento de causa.
O artigo 17 preceitua que devem ser respeitados os modos de transmissão dos direitos sobre as terras estabelecidos por esses povos; eles devem ser consultados sempre que for considerada sua capacidade de alienação de suas terras ou a transmissão de seus direitos sobre essas terras para fora de sua comunidade.
O artigo 32 proclama os governos a adotarem medidas apropriadas, inclusive mediante acordos internacionais para facilitar os contatos e a cooperação entre povos indígenas e tribais, através das fronteiras nas áreas econômica, social, cultural, espiritual e do meio ambiente.
(…)
O Projeto de Decreto Legislativo nº 34, de 1993, ora em discussão, que aprova o texto da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho, sobre povos indígenas e tribais em países independentes, têm, para esses povos, importância comparável àquela atribuída à Declaração Universal dos Direitos do Homem aprovada em 1948 pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Isso, porque estabelece parâmetros que objetivam viabilizar a adoção por parte dos Estados signatários de medidas que garantam o respeito às diferenças étnicas, à identidade cultural e aos direitos políticos, culturais e econômicos das populações indígenas; populações essas que, ao longo da história, têm sido sistematicamente vilipendiadas em seu direito à integridade física e sócio-econômica.”

Para que os leitores possam apreciar a variedade dos argumentos apresentados naquela Comissão, coloco abaixo do fold a íntegra da transcrição da sessão do dia 26 de maio de 1999, em que a Comissão aprovou a proposta . Ela contém inclusive a informação de que em 1991, o Ministério do Trabalho era contra a sua ratificação.

Prova adicional é a forma como a coisa foi noticiada quando de sua ratificação. Podemos ver por exemplo os termos utilizados no site do Instituto Socioambiental, ONG ambientalista:

O Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 34/93, que sanciona o texto da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – agência da Organização das Nações Unidas (ONU) – sobre os povos indígenas e tribais em países independentes, aprovado no final da tarde de hoje, estabelece no Brasil as diretrizes do primeiro documento internacional a tratar de temas fundamentais em relação às populações tradicionais. Entre eles destacam-se o direito dos povos indígenas à terra e aos recursos naturais, à não-discriminação e a viverem e se desenvolverem de maneira diferenciada, segundo seus costumes.

Eis a forma como noticiou a ratificação a ONG ADITAL, ecoando um texto do próprio CIMI (Conselho Indigenista Missionário):

A Convenção 169 foi aprovada pela OIT em 1989, e substitui a Convenção 107, de 1957, ratificada pelo Brasil. Ela foi o primeiro instrumento internacional a tratar dos povos indígenas sob o ponto de vista do direito de viverem e desenvolverem-se como povos diferenciados, segundo sua própria organização.

Em suma: acreditava-se que se estava viabilizando algo que é o contrário da leitura que atores como a ATINI fazem hoje.

“O casal Suzuki, que fundou a ATINI, resolveu adotar uma indiazinha que os pais se recusaram matar (eles preferiram o suicídio). Se você se der ao trabalho de buscar fatos, vai encontrá-los aos montes no blog. São transcrições literais de artigos publicados na imprensa

http://vozpelavida-midia.blogspot.com/

A história da adoção é um capítulo à parte. Mostra como o relativismo pode ser perverso. Logo que retiraram Hakani da aldeia, os Suzuki solicitaram autorização judicial para adotá-la. O processo ficou cinco anos emperrado na Justiça do Amazonas, porque o antropólogo Marcos Farias de Almeida, do Ministério Público, deu um parecer negativo à adoção. No seu laudo, o antropólogo acusou os missionários de ameaçar a cultura suruuarrá ao impedir o assassinato de Hakani. Disse que semelhante barbaridade era “uma prática cultural repleta de significados”. (Veja 15/08/07).”

Desculpe mas não confio na Veja para coisas deste tipo. E não consegui encontrar uma confirmação independente que fosse deste relato que não fosse um eco do texto da Veja.

“Pergunta: O que você pensa sobre esse parecer do ilustre e douto antropólog? O que você pensa sobre o antropólogo ativar seu cargo no ministério público para fazer valer não a justiça, mas a imposição do relativismo cultural? De minha parte, eu penso que esse sujeito é um grandessíssimo filho da puta.”

Penso o seguinte:

Há relatos segundo os quais mais de 20% das mortes de índios nas reservas devem-se à falta de atendimento médico. Penso, assim, que há motivos palpáveis pela qual a prática do infanticídio ainda é popular entre os índios. Como sabe, os índios são entusiastas e apressados na adoção de tudo o que é tecnologia ocidental. Aposto que eles também seriam entusiastas da difusão do atendimento médico. Portanto, por mais que seja repugnante a idéia de matar crianças malformadas ou deficientes, a gritaria da ATINI e de gente como você me pareceria muito mais sincera se simplesmente TIVESSEM A DIGNIDADE DE PLEITEAR ATENDIMENTO DIGNO AOS INDÍGENAS, e não de fazer contrabando de crianças ou bater tambor por agendas que nada têm a ver com a questão indígena, como o aborto.

“Meu caro, o que está em jogo nessa antropologia são coisas nenhum um pouco relativas. O que está em jogo são posições no establishment acadêmico e estatal. São verbas do CNPq e CAPES, são cargos e salários, gratificações, passagens de avião, participação em Congressos e outras cositas mas. Tudo isso bomba carreiras e confere muito prestígio social.

Bem, agora eu não sei bem do que você está falando.

“Ora, e você vem me falar de Iraque? Em que mundo senhor vive? Naquele outro que só é possível nas cabecinhas românticas? Não dá, meu caro. To muito velho pra cair nessa esparrela. To muito velho para condescender com essa baboseira de degenerados.”

Eu vivo no mesmo mundo que você. Um mundo que não tem nada de absoluto. E onde os degenerados estão onde menos se espera.

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Então eles não estavam fazendo uma rebelião, mas um investimento.”

_ Millôr Fernandes, ao saber da indenização a Ziraldo e Jaguar

A discussão continua lá no Torre de Marfim, com uma réplica do Arranhaponte:

O Bom Selvagem II

1) O que o Matamoros quis, com razão, enfatizar é que a cultura ocidental contemporânea é muito melhor do que culturas não-ocidentais contemporâneas, como a indígena ou a islâmica (parte dela). A gente não aprova matar criança como objetivo principal de uma ação, e a gente não extirpa clitóris. Eu acho que o que falei num post recente sobre defender o capitalismo se aplica ao caso do Matamoros aqui. É óbvio que a cultura ocidental é melhor. Então por que falar nisso? Porque tem gente que diz que não, que defende a superioridade, ou pelo menos a equivalência moral, relativamente à cultura ocidental, de culturas que sancionam moralmente matar crianças como objetivo principal de uma ação, ou extirpar clitóris de meninas. A única razão para proclamar o óbvio é um certo dever cívico e humano de se contrapor à negação do óbvio, que muitas vezes tem conseqüências funestas. Aliás, há uma razão evidente para a superioridade da cultura ocidental. Nós somos mais adiantados, e eles mais atrasados (e podem me xingar de etnocêntrico, de acreditar na “miragem” do progresso humano, etc etc)

2) Quanto ao Iraque. Eu acho diferente do infanticídio. Por piores que sejam as intenções do Bush, e por mais equivocado que ele esteja, a ação americana no Iraque não tem como objetivo principal (por isto a qualificação no item anterior) matar crianças. Eu acho que é uma questão moral relativamente simples. Todos concordam que uma guerra justa deve ser travada. Todos concordam que numa guerra justa, você deve evitar ao máximo baixas civis, de mulheres, crianças e velhos. Todos concordam que, mesmo tentando evitar ao máximo, haverá baixas civis, de mulheres, crianças e velhos. E todos concordam que isto não é o mesmo que praticar infanticídio. Bem, no caso do Bush, as acusações possíveis são de que a guerra não é justa, e de que não se fez o esforço máximo para evitar baixas civis. Naturalmente, ele vai se defender negando estas duas alegações, o que mostra que, independentemente de estar certo ou errado, Bush está num plano moral superior (por estar numa cultura superior) ao daqueles que nem se preocupariam em se defender da alegação de que matam crianças, pois consideram que matar crianças como objetivo principal de uma ação é, em determinadas circunstâncias, perfeitamente válido

Por partes.

1) Eis uma discussão difícil de começar a levar dessa forma que Arranhaponte propõe. Seria preciso falar primeiro em critério. Por exemplo, o Islã cresce mais que a Cristandade. A China tem bem mais gente que EUA e Europa juntos (ainda cabem um Japão e uma Rússia). Somos superiores porque temos o McDonalds, ou mais mísseis nucleares? Todas as grandes matanças que ideólogos ocidentais de esquerda e direita gostam de brandir uns sobre os outros como prova de sua superioridade foram, de uma forma ou outra, obra da herança ocidental, tenham sido elas em nome do barbudo Cristo, do barbudo Lincoln ou do barbudo Marx. O Ocidente deu ao mundo o cartão de crédito, a China inventou a pólvora, o papel e a imprensa. Talvez só sejamos superiores porque um dia um imperador chinês resolveu mandar afundar sua frota, que era a maior do mundo. E todos nós, juntos em nossa paixão pela cultura globalizada do início do séc. XXI, podemos estar em um abraço de afogados em direção a um colapso ecológico de grandes proporções. Ocasião em que o Joe Six Pack morreria de fome abraçado com sua televisão, e a formação cultural com maior probabilidade de sobrevivência seria…a índigena. Arranhaponte: a história ainda não acabou.

2) A guerra no Iraque não é justa. Nenhum de seus pressupostos ficou de pé. Ponto final.

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