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Uma agenda que aproveita todos os espaços

Como era de se esperar, a Veja saiu com uma capa acerca das recentes notícias sobre maus-tratos a crianças.  No post “Seletividade”, eu havia especulado sobre os motivos pelos quais alguém como Reinaldo Azevedo não falaram, até agora, de crimes como o da empresária Sílvia Calabresi Lima, que torturava sistematicamente meninas “adotadas” e empregadas domésticas.  Bem, a “Veja” resolveu enfrentar o desafio em reportagem assinada por Jerônimo Teixeira.  Reinaldo Azevedo, por ser pago para isso, fala da reportagem da revista, mas se exime de falar de Silvia _ prefere restringir-se ao recente caso da menina Isabela, um prato cheio para a classe média.

Eis a salva inicial:

O mal está presente em toda parte. Na grande arena da política internacional pode-se divisá-lo no genocídio de Darfur, na repressão política em Cuba e no Tibete, no terrorismo da Al Qaeda e das Farc, na leniência do governo americano com práticas de tortura. Esse tipo de mal é mais assimilável, pois se esconde atrás de razões de estado e de pretensas causas nobres.

Mas como metabolizar na alma o mal doméstico, que vem nu, sem disfarces, sem o véu de sofismas que poderiam desculpá-lo e torná-lo suportável pela racionalização de sua origem? Como entender que o sorriso lindo e angelical de Isabella possa ter sido substituído pela máscara da morte no frescor de seus 5 anos de vida? Esse tipo de mal não cabe sequer na aceitação de que coisas ruins podem acontecer a pessoas boas. Esse tipo de mal parece ser uma zona de sombra que aprisiona a alma humana. Esse tipo de mal simplesmente existe. Isso é o que o torna mais assustador.

O interessante aqui é que o texto, embora estabeleça uma “divisão” entre o mal global e o local, claramente unifica os acontecimentos sob a mesma ordem: o “Mal”.  Isto prepara o terreno para um exercício de reafirmação de uma concepção de mundo onde história, geografia, economia e política não parecem existir a não ser como fantoches manipulados pelo “Mal” _ e certamente, também pelo seu duplo por enquanto oculto, o “Bem”.  A coisa continua:

Pelos séculos afora teólogos e filósofos tentaram ajudar a humanidade a conviver com o mal. Mais recentemente as explicações desceram do plano metafísico para se tornar objeto de estudo da sociologia, da psicologia e das ciências biológicas. Nenhuma teoria, porém, é capaz de abarcá-lo, de amainar o choque que ele provoca no corpo e na alma ou a destruição que causa no seio das famílias e no julgamento que fazemos de nós mesmos ao deparar com seres humanos agindo como bestas. Talvez a única certeza sobre o mal seja esta: ele é incontornável.

A palavra “mal” tende a levantar objeções dos céticos. Não será uma superstição religiosa que a modernidade superou? Não, não é. Na semana passada, veio à luz o caso de um menino de 9 anos que, por capricho de dois trabalhadores de uma fazenda em Aurilândia, em Goiás, teve o corpo queimado com um ferro de marcar gado. Não existe qualificação mais precisa para o ato de queimar um garoto por diversão: trata-se de maldade.

O problema aqui, creio, seja a mistura de conceitos: uma coisa é o mal como “pathos”, outra coisa é o mal como agente.  Explico: o mal como um sentimento é plenamente compreensível em seres inteligentes.  O problema entre seres inteligentes é que eles são dados a, sempre que possível, materializar causas.  Assim, fenômenos da natureza como o furacão Katrina podem ser prontamente explorados por líderes religiosos como “castigo” de uma divindade.  Isto não acontece por acaso.  Em sua obra “The Evolution of Cooperation“, Robert Axelrod sugere uma forma pela qual comportamentos cooperativos emergem espontaneamente entre agentes dotados de algum nível de inteligência.  O corolário é que provavelmente todos nós, se não nascemos necessariamente bons, temos embutida dentro de nós uma expectativa de que se nos comportarmos bem o “outro” também se comportará bem.  Eis o motivo profundo pelo qual temos dificuldade em aceitar que coisas más podem acontecer a pessoas boas.  No caso de catástrofes naturais, o mais razoável é simplesmente aceitar que o mundo natural pouco se importa com o destino das vidas humanas, mas esta é uma opção inexistente para teístas, que estão assim obrigados a resolver de alguma forma o que percebem como “o problema do mal” (e as diferentes respostas a essa questão estão por trás da grande diversidade encontrada entre as religiões humanas, existentes e extintas).

O problema da formulação de Axelrod, porém, é que ela só vale no contexto de jogos repetidos, e jogos repetidos só são compatíveis com o nível local, onde se pode prever com razoável precisão que as pessoas interagirão muitas e muitas vezes.  Nas nossas sociedades ampliadas, essa expectativa não funciona mais, o que sugere que comportamentos oportunistas terão certa chance de sucesso (entendido como “ação sem punição”), a menos que se crie artificialmente uma forma de coibir a ação oportunista.  E assim, no meu entendimento, nasce o Estado.

Mas a matéria continua, e fala especificamente sobre o caso de Silvia:

A hipótese de uma psicopatia é forte no caso de Sílvia. O psicopata entende intelectualmente a diferença entre o bem e o mal, mas é desprovido de piedade, empatia, remorso – emoções que estão na base do senso moral das pessoas. Contrariando as ilusões de certo humanismo que acredita na possibilidade de reeducar qualquer criminoso, indivíduos assim são irrecuperáveis. Com recurso a técnicas recentes como a ressonância magnética funcional, a ciência tem se dedicado a mapear as áreas do cérebro responsáveis pelas decisões morais – áreas que apresentam atividade reduzida nos casos de psicopatia. As causas do distúrbio, porém, ainda não são compreendidas. O problema do mal dificilmente será resolvido nos laboratórios de neurociência. “O mal é um conceito humano, social. A neurociência não pode dizer o que é ou não mau”, diz o neurocientista Jorge Moll Neto, do Instituto de Pesquisa da Rede Labs-D’Or, no Rio de Janeiro.

A matéria não volta a falar do caso de Silvia, e nem dá maiores dicas sobre como chegou à conclusão de que “a hipótese de psicopatia é forte no caso de Sílvia“.  Será que é porque ela é empresária?  Ela mesma disse que não é louca.  Que eu me lembre outros perpretadores de crimes horríveis que aconteceram de provir de outro estrato social, como Champinha, não mereceram tamanha deferência da revista.  Mas eu posso estar exagerando.

Este outro parágrafo é interessante:

A perspectiva religiosa sobre o mal tende a enfatizar as escolhas individuais. O cristianismo vê o mal como fruto do orgulho humano (ou angélico, se pensarmos em Lúcifer, o anjo que cai da graça divina por sua soberba). É por imaginar a si mesmo como auto-suficiente, como uma espécie de divindade, que o homem se sente no direito de humilhar, ferir, matar o próximo. Mas a natureza cega do mal – especialmente do mal da natureza, os terremotos, enchentes, incêndios e outras catástrofes – coloca um problema para os religiosos: se Deus é bom, por que coisas más acontecem até mesmo aos justos? Que sentido pode ter, por exemplo, o drama de Madeleine McCann, a menina inglesa que sumiu de seu quarto de hotel em Portugal, em maio de 2007, e nunca foi reencontrada? Os grandes pensadores do cristianismo tentaram resolver esses dilemas. Santo Agostinho, por exemplo, dizia que, se bons e maus sofrem igualmente, é para que os primeiros possam provar sua virtude. Assim como o fogo “transforma a palha em cinza e faz brilhar o ouro”, o infortúnio purifica os virtuosos e destrói os perversos, diz Agostinho em A Cidade de Deus.

Essa passagem é especialmente capciosa.  Lembremo-nos por exemplo de um célebre episódio da perseguição aos cátaros na França medieval, onde um oficial, ao inquirir um prelado enviado pelo Papa sobre como distinguir entre um cristão e um cátaro na hora de executá-los, foi instruído a matar a todos, já que “Deus saberá identificar os seus“.  Certamente algum douto da Igreja pode surgir para mostrar como o prelado agiu contrariamente às Escrituras e aos ensinamentos da Igreja, mas persiste o fato de que até mesmo um inteléqtual como Reinaldo Azevedo ensina que há um modo cristão de matar.  O que parece nos dar uma pista sobre uma característica importante do pensamento religioso: de fato, religiões estão no negócio de fazer o homem se pensar como “auto-suficiente”, ainda que esta seja uma auto-suficiência refletida, à qual ele tem direito por atuar em linha direta com as necessidades e desejos da divindade.  O fato evidente, mas insatisfatoriamente apreciado, de que a divindade é inventada, é claro, é o grande truque na história.

Encerro o post comentando este parágrafo:

Na história do pensamento ocidental, foi o cristianismo que aprofundou a noção de mal. Os filósofos gregos não se dedicaram tanto ao tema. O estoicismo, escola de pensamento grega e latina que pregava a aceitação serena do mundo, praticamente recusava a noção. “A natureza do mal não existe no mundo, pois não se concebe um fim destinado a não se realizar”, dizia Epicteto, um dos mestres estóicos (talvez não seja por acaso que o imperador romano Marco Aurélio, outro clássico do estoicismo, mandava crucificar cristãos). A filosofia por muito tempo desconfiou da concepção de mal – seria um problema do domínio da teologia. Mas pensadores como Kant se esforçaram para dar uma dimensão laica ao mal. O mal é um conceito difícil, sem dúvida, mas hoje está bem estabelecido que se pode defini-lo sem recurso à fé. “O mal é toda ação voltada para eliminar as condições de uma existência racional”, diz o filósofo Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor de Retratos do Mal. Nesse conceito cabem, por exemplo, da violência contra uma criança ao atentado de 11 de setembro – todas ações que atentam contra a racionalidade.

Me parece estranho que seja logo eu, um ateu, a achar estranha essa curiosa naturalização da racionalidade operada pelo texto da Veja.  Bom, basta nos lembrarmos de filmes como “A Profecia” para nos darmos conta de que a decisão de fazer ou não mal a uma criança depende muitíssimo da racionalidade em vigor _ e o filme nos transporta para uma racionalidade religiosa onde fazer o mal ao Anticristo não seria uma má idéia, exceto, é claro, do ponto de vista de radicais da Bíblia que acham que as Escrituras têm que ser cumpridas até o seu final.

No entanto, duvido muito que se possa definir o mal dessa forma _ “toda ação voltada para eliminar as condições de uma existência racional ” _ sem imediatamente divinizar a razão, ou pior, uma dada racionalidade dentre outras.

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Nunca vou conseguir dissociar o nome de Charlton Heston dessa cena.

No entanto, infelizmente, apesar de todo o seu impacto _ certamente é um dos finais mais impactantes da história do cinema _ a tal cena é altamente improvável. Dois motivos:

a) Canonicamente, os astronautas chegam ao “planeta” no ano de 3.978 (ou 3.955), ou seja, uns dois mil anos após o ano de lançamento da espaçonave (canonicamente, 1972). Não sei quanto tempo se passa entre a chegada do Coronel Taylor (o personagem vivido por Heston) e a cena final, mas certamente é um intervalo pouco significativo diante do total. Ainda, segundo a cronologia mais provável dos acontecimentos, a guerra nuclear que se seguiu à revolta dos macacos e destruiu todas as maiores cidades humanas ocorreu em 1992 _ logo, a Estátua da Liberdade esteve entregue à sua própria sorte por quase dois mil anos. O problema é que, sendo a Estátua de cobre, ela provavelmente não poderia ter sobrevivido intacta todo este tempo(*). A cronologia do “mundo sem ninguém” a que já me referi em um post anterior diz que em apenas 200 anos as estruturas internas de várias construções humanas, incluindo a Estátua, cederiam diante da corrosão. No caso da Estátua a situação seria ainda mais dramática, já que como se vê na cena, ela continua no litoral, exposta aos efeitos corrosivos da maresia.

b) Um problema sério é a representação da Estátua semi-enterrada ao lado de um penhasco. Nem mesmo os efeitos conjuntos de uma ou várias explosões nucleares na região de Nova Iorque e de um eventual aquecimento global no ano de 3978 seriam capazes de explicar a geologia desta cena.

(*) para ser ainda mais chato do que o Arthur disse que eu sou, uma observação: de fato, os engenheiros franceses responsáveis pelo design na Estátua foram muito inteligentes, porque o cobre, ao se oxidar, forma uma pátina protetora que diminui os efeitos da corrosão.  Ainda assim a Estátua não sobreviveria tanto tempo.

Rotating Snakes (clique para ampliar)

Os fantásticos efeitos visuais das ilusões de ótica de A.Kitaoka.  Explicação do autor aqui.  Uma análise mais profunda da “peripheral drift illusion” (PDI), com uma sugestão do mecanismo que a origina, aqui.

Elio Gaspari, na Folha de hoje:

Um grande voto no julgamento do ProUni


O ministro Carlos Ayres Britto defendeu o programa com uma exaltação da igualdade social


BENDITA A HORA em que o DEM (ex-PFL) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino resolveram bater às portas do Supremo Tribunal Federal, sustentando a inconstitucionalidade dos atos que criaram o ProUni. Levaram para a Corte a discussão da legalidade de ações afirmativas baseadas em critérios de renda e de raça para o acesso ao ensino superior. Na semana passada, tomaram a primeira pancada, pelo voto do ministro-relator Carlos Ayres Britto.
O ProUni troca por bolsas de estudo as imunidades tributárias dadas às universidades particulares. Coisa como 10% das vagas disponíveis. O programa já atendeu 310 mil jovens oriundos da rede pública e neste ano formará a sua primeira turma, com 60 mil bolsistas. Há 100 mil estudantes pré-selecionados para a próxima rodada de matrículas. Para receber uma bolsa integral, a renda per capita familiar do candidato não pode ser superior a 1,5 salário mínimo. Por exemplo, um casal com dois filhos não pode ganhar mais de R$ 1.648. As vagas do ProUni também devem ser preenchidas favorecendo o acesso de candidatos afro-descendentes (quem não gosta da expressão pode chamá-los de “descendentes de escravos”). A concessão de bolsas deve acompanhar os percentuais de diversidade de cada Estado, conforme o censo do IBGE. Há um regime de bolsas parciais, que segue critérios semelhantes.
Segundo a Confenen e o DEM, esses critérios são inconstitucionais porque violam o princípio da igualdade entre os cidadãos. (Eles faziam outras restrições, também rejeitadas pelo relator.)
Britto julgou improcedente o pedido, argumentando em cima do nervo da questão: o que é a igualdade numa situação de desigualdade? Nas suas palavras: “Não há outro modo de concretizar o valor constitucional da igualdade senão pelo decidido combate aos fatores reais de desigualdade. (…) É como dizer: a lei existe para, diante dessa ou daquela desigualação que se revele densamente perturbadora da harmonia ou do equilíbrio social, impor outra desigualação compensatória”.
Em vez de tentar derrubar quem está em cima, empurra-se quem está em baixo. Tome-se o caso de dois jovens reprovados nos rigorosos vestibulares das universidades públicas, gratuitas. Um, de família mais abonada, vai para uma faculdade particular, paga. O outro iria à lona, mas, com o ProUni, vai à aula.
Britto buscou uma parte de sua argumentação na Oração aos Moços, de Rui Barbosa: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. (…) Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.
O voto de Britto trata só do Pro-Uni. Sua linha de raciocínio abre um guarda-chuva conceitual que antevê próximos julgamentos, quando o STF será chamado a decidir sobre a constitucionalidade do regime de cotas em inúmeras universidades públicas. Terminada a leitura, na quarta-feira, o processo do ProUni foi suspenso por um pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa e recomeçará em poucas semanas. Se o DEM e a Confenen não tivessem cutucado as togas com vara curta, essa bonita discussão não teria sido aberta.

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