Rosângela Bittar no Valor de hoje, sobre a ressurreição da idéia de um terceiro mandato para o Eneadáctilo:

O centro do jogo do presidente Lula

O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), amigo de fé, aliado incondicional e uma espécie de porta-voz do presidente da República nas questões partidárias voltou esta segunda-feira a defender, em discurso na tribuna da Câmara, a realização de um plebiscito sobre o terceiro mandato consecutivo para Luiz Inácio Lula da Silva. Um plebiscito, por sinal, dada a popularidade imutável do presidente, de resultado previamente conhecido.

O irmão e camarada apenas vocalizou o que, no Congresso, já havia saído da hibernação e estava novamente no centro das conversas de políticos do governo e dos temores da oposição. Lula teria afastado publicamente a hipótese do terceiro mandato, meses atrás, não por convicção, mas por tática. Para não se queimar, para negociar a aprovação de assuntos do governo com a oposição, para esperar melhor momento pois julgava, à época, com a derrota da renovação do imposto do cheque, a CPMF, que não estava forte o suficiente para conduzir sua base de sustentação à aprovação de tão polêmico projeto.

O presidente voltou a acalentar a idéia de permanecer no poder, por eleições evidentemente, a partir da constatação de que sua maioria no Congresso é mesmo folgada – como teria ficado demonstrado na aprovação do Orçamento da União de 2008 e da TV Pública – e bem mobilizada não se furta a atender pedidos do governo. Estas duas votações fizeram com que o presidente voltasse a ter consciência de que é forte no Parlamento.”

Restante abaixo do fold, para os sem-Valor.

É possível que o Eneadáctilo tenha pensado assim: se o Uribe pode, porque eu não posso?

Sim, sim. O peixe morre pela boca.


Além das informações que já circulam sobre o desejo presidencial, alimenta o retorno do fantasma do terceiro mandato a constatação de que, pela intensa campanha eleitoral que vem conduzindo em todo o país e os movimentos fragmentados e erráticos em torno de várias candidaturas à sua sucessão, ao mesmo tempo, o presidente Lula demonstra que o centro do seu jogo é não permitir a consolidação de nenhuma candidatura especificamente, agora. Ele segue em campanha, viaja o Brasil, discursa e ataca seus opositores, inaugura telecentro por telecentro, só pensa na sucessão e abandonou Brasília para cuidar dos votos pelo país afora. Avisou que a palavra de ordem é inaugurar obras. Quer melhorar sua performance onde foi mal nas últimas eleições e consolidar a vantagem onde sempre esteve bem.

A análise que se faz internamente no próprio PT, por exemplo, é que a candidatura Dilma Rousseff, já turbinada com slogan de mãe do PAC e com orientação profissional do publicitário João Santana, é a melhor situada hoje no partido porque, embora não deixe de afagar os outros candidatos – como Tarso (Segurança) Genro, Patrus (Bolsa Família) Ananias -, o presidente a teria colocado no trono porque de lá pode tirá-la quando quiser. Lula quer fidelidade deste tipo e, nesta avaliação, foi esta a razão de não ter permitido que uma candidatura viável do PT surgisse, como, por exemplo, seria a de Marta Suplicy.

Apoio a tudo e a todos esconde 3º mandato

O mesmo raciocínio empregado no caso Dilma se repete com o candidato Ciro Gomes, do PSB, que tem conversado muito com o presidente. Recolheu-se um pouco a conselho de Lula, a ele foi recomendado que se aproximasse mais do PT para não ter a oposição intransigente do partido, e atrelou seu futuro político às ordens lulistas. Diz um aliado de ambos: “Ciro aceita ser ungido, mas se o presidente disser que é melhor ele ser vice do PT, ou vice do Aécio se o governador de Minas passar para o PMDB, ou vice do próprio Lula, ele vai”.

Os movimentos de Lula, nota-se, realmente evitam o fortalecimento de uma candidatura, animam sua própria campanha e definem, desde logo, um adversário, seja para quem for.

As últimas pesquisas de opinião que mostraram o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) em primeiro lugar na preferência do eleitorado, em qualquer cenário, para 2010, levaram o presidente a aumentar sua aposta “contra Serra”, como definem dois dos intérpretes dos movimentos da campanha presidencial. Lula trabalha para enfraquecer Serra, mas nenhum gesto neste sentido foi mais claro que o apoio explícito e inspiração às alianças de Aécio Neves, governador de Minas, principalmente com o P T, mas também com outros partidos da aliança lulista.

A cúpula do PT está convencida, por exemplo, para citar duas iniciativas, de que o presidente está não só por trás da aliança PSDB-PT em Belo Horizonte, em torno de um candidato do PSB, amigo e aliado de Ciro Gomes, como também esteve por trás da decisão de Tilden Santiago, ex-embaixador do Brasil em Cuba, de integrar o governo de Aécio, contra a orientação do partido. A reunião do diretório nacional do PT, na próxima segunda, dia 24, convocada para analisar alianças, terá presente esta realidade.

Lula tenta cercar Serra por todos os lados para que esta candidatura não lhe escape do controle. O governador de São Paulo tem feito um esforço grande para tranquilizar o presidente. Emissários seus já informaram a Lula que, se eleito, Serra não será motivo de preocupação para o presidente, “não vai ter acerto de contas, não vai ter herança maldita, não vai ter revanchismo”.

Nada acalma o presidente ou o faz tirar Serra do foco de sua atenção na marcha para 2010, que foi precipitada, por vontade dos dois partidos protagonistas – o PT e o PSDB – nestas eleições que seriam municipais. O movimento de redução da força de Serra e seu isolamento político envolvem Lula, Aécio e Ciro em um só lance. Resta medir a possibilidade de sucesso do plano de Aécio dentro do próprio PSDB.

Se for para o PMDB, uma hipótese de difícil concretização, Aécio transforma-se em instrumento dos planos presidenciais. Mas há a chance, bastante elevada hoje, de as manobras políticas em Minas deixarem Serra numa situação mais difícil ainda no partido, e o PSDB concluir que é possível ter tudo: um candidato a presidente e um candidato à reeleição ao governo de São Paulo, ambos viáveis, sem brigas.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras