Interessante entrevista com o brasileiro que é o rei da soja no Paraguai, no Valor de hoje:

Brasileiro é o rei da soja no Paraguai

O catarinense Tranquilo Favero, 70, radicado há 40 anos para o Paraguai, onde se tornou o maior produtos de soja e um dos maiores proprietários de terra

Com uma calculadora barata, movida a energia solar, Tranquilo Favero, um catarinense odiado e admirado no Paraguai faz as contas de quanto deve faturar este ano só com soja. “De soja, esperamos negociar 480 mil toneladas, o que dá uns US$ 190 milhões. De produção nossa, esperamos ter mais umas 135 mil toneladas, o que dá cerca de US$ 50 milhões.”

Aos 70 anos de idade, Favero se apresenta e é reconhecido no Paraguai, para onde se mudou há 40 anos, como o maior produtor individual de soja do país.

Suas terras para agricultura mecanizada chegam a 45 mil hectares – o que, mesmo para padrões brasileiros, é uma imensidão. Um dos maiores produtores de soja do Brasil, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi planta 130 mil hectares de soja. Favero ainda tem mais terras onde mantém 45 mil cabeças de gado, mas ele não revela a extensão.

“O Paraguai tem 17 departamentos e em 13 deles eu tenho propriedades com soja, milho, trigo, canola, girassol, sorgo, com gado e com silos, 18 silos no total.” Além de vender o que planta, o Grupo Favero – do qual Tranquilo é presidente e que reúne nove empresas – comercializa soja que compra de outros produtores.

A soja é o principal item da pauta de exportações do Paraguai atualmente. Segundo Favero, este ano o país terá uma produção de 7 milhões de toneladas – o que dá quase 1.000 kg per capita. Com a tonelada a US$ 400, serão US$ 2,8 bilhões em divisas. “Isso representa entre 60% e 70% das divisas que entram no Paraguai”, diz ele.

Ao contrário de muitos outros produtores brasileiros – entre 90% a 95% da soja no país está, segundo ele, nas mãos de brasileiros – Favero fala, critica e faz prognósticos sobre a política paraguaia, sobre eleições presidenciais de abril, a corrupção e as dificuldades de produção no país.

“Fernando Lugo vai ganhar. O atual governo é um desastre. E a Blanca Ovelar não tem moral”, diz ele, criticando o governo e apostando em que muita coisa deve mudar no país. Lugo, o ex-bispo da Igreja Católica que deixou a batina para concorrer, lidera as pequisas de intenção de voto. O único candidato, na avaliação do brasileiro, que seria capaz de ameaçar sua eleição é o general da reserva Lino Oviedo.

Lugo conta com o apoio de uma aliança de partidos e movimentos sociais, muitos deles com orientação de esquerda. E, quando era bispo de San Pedro, cansou de criticar Favero acusando-o de contaminar o meio ambiente com as fumigações de pesticidas nas suas extensas plantações de grãos. Favero nega as contaminações. Ovelar é candidata do governo (Partido Colorado) e afilhada política do atual presidente Nicanor Duarte Frutos – de quem Favero é desafeto.

“O meu medo é o fato que Lugo está cercado de uma esquerda comunista que não respeita direitos estabelecidos, propriedade privada”, avalia ele. “O discurso dele [Lugo] não é tão mau. O entorno dele é o que nos assusta. Mas tem o Partido Liberal [tradicional legenda que tem o vice na chapa de Lugo]. Nossa esperança é que os liberais sirvam de freio.”

O restante da reportagem abaixo do fold, para os sem-Valor.

Chamo a atenção para o último parágrafo:

Casado há 50 anos com a brasileira Verônica Comelli, Favero tem três filhas. E seis netos paraguaios. Apesar de ter constituído família no país e de cantar loas à qualidade da terra paraguaia, Favero muitas vezes projeta uma imagem do estrangeiro que enriqueceu sem dar muita atenção para a cultura e valores locais. Uma imagem antipática para muitos paraguaios. Favero fala espanhol fluentemente, mas nem uma palavra de guarani, a segunda língua oficial do país. “Sou criticado publicamente por não falar guarani, mesmo estando aqui há 40 anos. Falo para os meus netos: aprendam língua de povo desenvolvido.

Realmente, o peixe morre pela boca.  🙂


Assim como outros produtores de soja brasileiros ouvidos pelo Valor, e que pediram para não ser identificados alegando temer problemas políticos, Favero diz que sua preocupação é com a bandeira da campanha de Lugo da necessidade de uma reforma agrária. No movimento Tekojoja (palavra que em guarani quer dizer algo como “viver entre iguais”), um dos mais importantes da base de apoio de Lugo, muitos vêem como um acinte o fato de estrangeiros, em especial brasileiros, possuírem sozinhos áreas tão grandes num país como o Paraguai, onde 46% da população ainda vive no campo, inclusive muitas famílias na condição de sem-terra. “Se ele dificultar a produção agropecuária, liquida o país.”, prevê Favero. “E, se vier dor de cabeça para mim, vem para todo o país. Se dificultarem a vida de quem trabalha com transparência, como eu, o país pára.”

Não foi só Lugo que escolheu Favero como alvo de críticas. O próprio presidente do Paraguai, Duarte Frutos, também tornou pública sua antipatia a ele, acusando-o de ser multimilionário, dono de 1 milhão de hectares no país e que, ao lado de outros brasileiros, forma a “pátria sojeira”, que investe no Brasil os milhões de dólares qua ganha no Paraguai. Favero diz que investe sim no Paraguai, onde têm 1.500 funcionários registrados. Do maquinário que compra, no entanto, 90% vem do Brasil.

“Ele deu muito pau nos sojeiros, achando que faz média com os camponeses”, diz Favero. A antipatia teria como base a crença de que o brasileiro estaria ajudando algum candidato da oposição e não Blanca Ovelar.

Em entrevista ao jornal “Última Hora”, a presidente da Associação de Produtores de Soja, a paraguaia Cláudia Ruser, disse que Duarte Frutos alertou os produtores de soja que, se eles não colaborassem com a campanha de sua candidata, Lugo venceria. “Eu não dou dinheiro para políticos. Gasto em pesquisa, em treinamento de universitários paraguaios. Mas não ajudo políticos”, disse Favero.

O brasileiro conta que na última vez que Duarte Frutos o recebeu, há cerca de um ano e meio, os dois “se pegaram” e “brigaram”. Segundo Favero, a conversa degringolou quando ele, durante a reunião, defendeu a terceirização das ferrovias, como forma de evitar corrupção. “O presidente ficou irritado, dizendo que eu estava afirmando que o governo era corrupto.”

Favero se esquiva quando perguntado quantas vezes políticos nos governos paraguaios pediram dinheiro a ele. “Isso eu não vou responder porque não tenho como provar.”

“O problema do Paraguai é a corrupção”, diz, pedindo que parte de seus comentários não sejam anotados. “A corrupção é um câncer aqui e está generalizada.” Segundo ele, até ajuda internacional que o governo de Taiwan dá com freqüência a Assunção acaba desviada. A ajuda é uma contrapartida ao Paraguai por reconhecer Taiwan. Recentemente, foram cerca US$ 5 milhões, a fundo perdido, para a construção de casas populares. “Taiwan dá esmola ao Paraguai. Quero que me ajude, não quero esmola. E esse dinheiro se presta à corrupção, porque o governo não tem de prestar contas.”

O que incomoda Favero e outros grandes sojeiros paraguaios é que, em troca dessa ajuda recebida pelo reconhecimento de Taiwan, o Paraguai tem dificuldades nas relações comerciais com a China. A China considera Taiwan uma sua província rebelde. “Eu quero vender para a China. São 1,3 bilhão de bocas.”

O grupo vende parte de sua soja não processada para a ADM, Cargil, Bunge e Dreyfus e diz que, por meio delas, o grão paraguaio chega ao mercado chinês.

Por causa da restrição à soja transgênica imposta pelo governo do Paraná, Favero e os demais produtores paraguaios já não podem embarcar o grão por Paranaguá. “A maior dificuldade é o escoamento dessa safra.” A saída pelo Uruguai passou a ser mais usada. Segundo ele, 90% de sua produção segue pelos rios Paraná e Paraguai até Palmira, no Uruguai. O porto é mais adequado por ter capacidade para receber navios maiores, de até 200 toneladas. Na Argentina, no rio da Prata, só navios capazes de levar 60 toneladas ou 70 toneladas conseguem chegar, diz Favero.

O que baratearia tremendamente esse transporte, segundo ele, seria uma rede ferroviária com energia elétrica – recurso que o Paraguai, com Itaipu, tem com abundância à disposição. Favero disse que, na última reunião com Frutos, também defendeu a energia elétrica como incentivo à industrialização do país. “O país daria energia ao empresariado pelo preço que o Brasil paga ao Paraguai, cerca US$ 3 por mWh (mega watt/hora)”, valor referente apenas à compensação pela cessão de energia. “O governo não estaria desembolsando nada.” A idéia, aparentemente, não agradou o gabinete presidencial.

Neto de italianos de Treviso, que imigraram para o Brasil antes da Primeira Guerra, Favero nasceu e foi criado em Videira, Santa Catarina. Já plantava soja no Paraná antes de comprar as primeiras terras no Paraguai durante o governo do general Alfredo Stroessner. Favero naturalizou-se paraguaio e se tornou um dos maiores empresários do país. Em 2004, a revista britânica Trade & Forfaiting publicou uma longa reportagem sobre sua empresa e sobre um financiamento de US$ 15 milhões concedido pelo ABN Amro ao Grupo Favero – no primeiro acordo para o setor de commodities firmado pelo banco no Paraguai.

Casado há 50 anos com a brasileira Verônica Comelli, Favero tem três filhas. E seis netos paraguaios. Apesar de ter constituído família no país e de cantar loas à qualidade da terra paraguaia, Favero muitas vezes projeta uma imagem do estrangeiro que enriqueceu sem dar muita atenção para a cultura e valores locais. Uma imagem antipática para muitos paraguaios. Favero fala espanhol fluentemente, mas nem uma palavra de guarani, a segunda língua oficial do país. “Sou criticado publicamente por não falar guarani, mesmo estando aqui há 40 anos. Falo para os meus netos: aprendam língua de povo desenvolvido.”