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Meus 4,5 leitores talvez se lembrem que há alguns meses movi guerra sem quartel contra o descaramento de Reinaldo Azevedo em afirmar, peremptoriamente e sem fundamento algum, que coisas como classificação indicativa eram redondas e pretinhas como a nossa jabuticaba pátria, e que países mais, muito mais desenvolvidos que o nosso adotavam, sem exceção, a auto-regulação.

Pois nesta segunda feira a Suprema Corte norte-americana resolveu aceitar o apelo da Federal Communications Comission (algo como se fosse uma mistura de Anatel com Ancine, só que com ainda mais poderes) e revisar o caso daquela agência contra uma emissora de TV que permitiu o uso da “F-word” em sua programação. Trata-se de um acontecimento de monta, pois é a primeira vez em 30 anos que aquela Corte se dignará a analisar um caso de “indecência” viajando no éter do grande irmão ao norte.

O apelo foi feito na tentativa de reverter o julgamento de uma corte inferior, que indeferiu o pedido da FCC. Como se sabe, a Suprema Corte norte-americana tem uma certa latitude a respeito de que casos ela pode dignar-se a julgar ou não; o mero fato dela aceitar o apelo da FCC já é uma grande vitória, porque a Corte poderia simplesmente virar as costas à agência, o que automaticamente transformaria a decisão da corte inferior em decisão final.

Mais surpreendente ainda é o fato de que a emissora em questão é a Fox. É mais ou menos como se, transpondo a coisa para Pindorama, um Supremo Tribunal Federal dos sonhos de Diogo Mainardi acabasse aceitando julgar uma acusação contra a Veja.

Pior: trata-se de jogada ensaiada. Foi sob Bush que a FCC começou a ficar mais assanhada para cima das emissoras, que tentam se defender apelando para a primeira emenda; foi sob Bush, também, que a Suprema Corte foi para a direita, após sucessivas indicações de “justices” conservadores.

Se bem que como vimos recentemente talvez a distinção entre regulação judicial e auto-regulação empresarial, nos EUA, esteja ficando bem tênue.

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Ops!

Via Techdirt, ficamos sabendo que os adevogados de Ashley Alexandra Dupre, a moça que tirou o governador de New York do sério e do cargo, andam ameaçando processar a imprensa pelo uso indevido das fotos da moçoila, retiradas, sem-cerimônia, de seu perfil no MySpace. Por “uso indevido” leia-se “sem pagar os devidos direitos autorais”, é claro.

A Associated Press reclamou, mas não faltou quem observasse, agudamente, que a própria Associated Press tem ameaçado blogs de crítica jornalística que usam, er, “indevidamente”, fotos sindicalizadas pela AP.

Mas ninguém nunca duvidou, realmente, que o jornalismo não fosse a verdadeira mais antiga profissão do mundo, certo?

Deu no, entre todos os lugares, Financial Times:

China’s champions: Why state ownership is no longer proving a dead hand

What we are witnessing, in other words, is an experiment in capitalism that could challenge much of the conventional wisdom about state ownership. Plenty of countries have strong state-owned companies in semi-monopolies such as telecommunications or heavily regulated sectors such as energy and mining. Yet China is trying to create a series of leading public companies in industries exposed to cut-throat competition, where technology, design and marketing are crucial features – just the sort in which state-owned companies have typically suffered at the hands of private rivals.

At a time of growing discussion about whether there is a genuine “China model” for economic development that involves a much bigger role for the state, the fate of China’s public companies could help change the terms of the debate.

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Quero aproveitar para dizer que nos últimos minutos o blog ultrapassou a barreira dos 50.000 pageviews desde sua inauguração.  O que mostra que nossos 4,5 leitores são muito ativos.  :)

Agradeço a todos que vêm aqui deixar seus dois dedos de prosa, bem como os que apenas vêm aqui para ler as bobagens que escrevo.

O Paulo ficou chateado quando eu disse que a atual crise financeira poderia ser a pior em 60 anos.  Pois estes dias Alan Greenspan disse o seguinte no Financial Times:

The current financial crisis in the US is likely to be judged … as the most wrenching since the end of the second world war. It will end eventually when home prices stabilise… Although inventories of vacant single-family homes … have recently peaked, until liquidation of these inventories proceeds in earnest, the level at which home prices will stabilise remains problematic. …

Bom…agora, eles que são Randianos que se entendam!   :)

Esse seria apenas mais um post da série “Radar”, indicando um blog interessante, o Scholars&Rogues, se eu não tivesse me deparado abruptamente com o primeiro post do blog. Sobre um livro. Chamado “The World Without Us“.

Pura sincronicidade, porque por estes dias eu vi um documentário na TV _ talvez no Discovery, não sei _ que certamente era a versão multimídia do mesmo livro. No programa, o narrador nos mostrava um exemplo prático do que seria “o mundo sem nós” _ uma cidade abandonada devido ao desastre nuclear de Chernobyl. Para sentir o clima do livro, eis dois exemplos retirados da Amazon:

From Publishers Weekly
Starred Review. If a virulent virus—or even the Rapture—depopulated Earth overnight, how long before all trace of humankind vanished? That’s the provocative, and occasionally puckish, question posed by Weisman (An Echo in My Blood) in this imaginative hybrid of solid science reporting and morbid speculation. Days after our disappearance, pumps keeping Manhattan’s subways dry would fail, tunnels would flood, soil under streets would sluice away and the foundations of towering skyscrapers built to last for centuries would start to crumble. At the other end of the chronological spectrum, anything made of bronze might survive in recognizable form for millions of years—along with one billion pounds of degraded but almost indestructible plastics manufactured since the mid-20th century. Meanwhile, land freed from mankind’s environmentally poisonous footprint would quickly reconstitute itself, as in Chernobyl, where animal life has returned after 1986′s deadly radiation leak, and in the demilitarized zone between North and South Korea, a refuge since 1953 for the almost-extinct goral mountain goat and Amur leopard. From a patch of primeval forest in Poland to monumental underground villages in Turkey, Weisman’s enthralling tour of the world of tomorrow explores what little will remain of ancient times while anticipating, often poetically, what a planet without us would be like.

From The New Yorker
Teasing out the consequences of a simple thought experiment—what would happen if the human species were suddenly extinguished—Weisman has written a sort of pop-science ghost story, in which the whole earth is the haunted house. Among the highlights: with pumps not working, the New York City subways would fill with water within days, while weeds and then trees would retake the buckled streets and wild predators would ravage the domesticated dogs. Texas’s unattended petrochemical complexes might ignite, scattering hydrogen cyanide to the winds—a “mini chemical nuclear winter.” After thousands of years, the Chunnel, rubber tires, and more than a billion tons of plastic might remain, but eventually a polymer-eating microbe could evolve, and, with the spectacular return of fish and bird populations, the earth might revert to Eden.

O que serve como um bom intróito para a conclusão do post propriamente dito:

Make no mistake, as vital as this book is—as thoughtful and thought-provoking as it is—The World Without Us is not for the weak of heart. Most readers will hardly be able to believe the precarious condition our planet is really in.

“[W]e don’t get out of this life alive—and neither will the Earth,” Wesiman says.

In a stirring coda, “Our Earth, Our Souls,” Weisman links the post-human world to the post-world human, touching on the religious implications of the world without us. He smartly avoids any long theological discussions by taking a broader approach that examines the ethical implications of what our presence on the planet now will mean once we’re gone.

“Worldwide, every four days human population rises by 1 million,” he says. “Since we can’t really grasp such numbers, they’ll wax out of control until they crash, as happened to every other species that got too big for this box.”

“About the only thing that could change that…is to prove that intelligence really makes us special after all,” Weisman continues. “The intelligent solution would require the courage and the wisdom to put our knowledge to the test.”

In other words, if everyone knew what scientists all around the world already know and what Weisman has written about, and if everyone applied that knowledge, we could save the earth. Such a solution, he says, would be “poignant and distressing…but not fatal.”

On the other hand, by 2050 the earth’s population will balloon to 9 billion people—and there just aren’t enough resources on the planet to support that kind of population. The planet only seems big, and resources only seem endless, but the human race is careening toward a hard, abrupt lesson about sustainability and the finite nature of nature.

O que levanta algumas questões interessantes. Como, por exemplo, qual o real papel da inteligência nisto. Talvez neste caso seja um erro realmente fatal continuar insistindo no sonho iluminista que o post parece partilhar _ “if everyone knew what scientists all around the world already know (…) we could save the earth” _ principalmente porque, puxa vida, afinal foi nossa esperteza que nos trouxe até aqui. O Iluminismo confunde muito rapidamente “inteligência” com “sabedoria”, talvez porque a primeira seja mais facilmente identificável que a segunda.

O fato é que nós já estamos presenciando o início desta tendência. O atual boom das commodities, o decoupling, e a fortuna que vem beneficiando a economia brasileira _ tudo isso é parte de um enredo mais geral que tem a ver com o fato de que repentinamente cerca de um sexto da Humanidade _ a China _ pôde ter acesso a um padrão de consumo mais próximo ao dos países afluentes do Ocidente. Este impacto já está sendo percebido no preço das terras, por exemplo, e na dificuldade crescente de evitar um maior desmatamento na região amazônica. Se nos próximos cinquenta anos essa tendência continuar em relação aos prováveis 9 bilhões de pessoas que existirão então, é fácil perceber que estaremos diante de um provável colapso.

É claro que a esta altura a palavra “Malthus” já deve estar se formando na cabeça de alguém. A debacle do malthusianismo é sempre lembrada como a nêmesis do ceticismo. O primeiro problema é que Malthus pode muito bem estar certo, mas ter sido um homem adiante do seu tempo. Como a hipótese de Malthus é praticamente uma aplicação do bom senso, é evidente que a aposta contra ela é fazer profissão de fé em que a mente humana sempre será capaz de produzir boas respostas em termos de manutenção da sua existência. O problema é que nossa inteligência pode ter andado jogando jogos perigosos, comprando uma sobrevida no curto prazo mas sacando a fundo perdido contra o futuro a longo prazo. O aquecimento global pode muito bem ser o início da cobrança desta conta _ mas pode ser apenas o início.

Uma outra forma de abordar a questão é começar não pela Terra, mas pelo espaço. Mais especificamente, recolocando na mesa o famoso Paradoxo de Fermi, articulado pela primeira vez por ele mesmo, Enrico Fermi, o cientista italiano a quem devemos a bomba atômica: “se as chances da existência de civilizações avançadas lá fora é tão grande, porque será que já não as vemos ou ao menos ouvimos?”. A elevada chance referida no paradoxo é derivada da chamada Fórmula de Drake, uma fórmula que, a partir de certos pressupostos, produz a quantidade de mundos que devem abrigar vida inteligente em certo momento do tempo.

O fato de que não vemos nem ouvimos ninguém traz algumas hipóteses. A primeira delas é a de que somos, inexplicavelmente, a primeira civilização tecnológica que já existiu no Universo. A segunda é a de que embora outras civilizações existam, elas, por algum motivo, são indetectáveis por nós. Finalmente a terceira hipótese é a de que civilizações tecnológicas não duram muito, e por algum motivo entram em colapso relativamente cedo. Como nosso planeta parece não exibir nenhuma característica completamente especial, a primeira hipótese não parece razoável. A segunda hipótese também é pouco provável, pois não parece haver razão aparente para que TODAS as outras civilizações sejam indetectáveis. Portanto, a terceira hipótese é a que hoje parece mais provável aos olhos dos estudiosos do assunto.

O que pode fazer de “The World Without Us” o último best-seller.

***

Aqui, um interessante cronograma mostrando o que aconteceria em um mundo sem ninguém.

***

PS: Quando eu falo na diferença entre inteligência e sabedoria, não falo de conceitos abstratos. Falo de coisas como essa:

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As quais, aliás, às vezes me fazem pensar que um mundo sem ninguém não seria uma idéia tão má.

 Ainda quanto ao post “Gincana Presidencial”, o Rafael Figueira comentou:

Se agruparmos os anos pelos governos brasileiros, o Brasil acompanha o crescimento/retracao americano e europeu, com exageros (ou “dilatacao de amplitude” como dizem os estatisticos) principalmente em epocas de rebound, e com a separacao (”decoupling” como ja’ se comentou aqui) durante FHC-Lula. Ainda assim, a influencia do mercado global e’ obvia.

O gráfico a seguir exprime bem o que quero dizer:

pibpaises.jpg

Minha impressão sobre o discurso do Rafael _ e me corrija se eu estiver errado, Rafael _ é que ele pressupõe uma certa ineficácia da política em matéria de crescimento econômico, já que o crescimento do PIB sob diversos presidentes estaria explicado pelo ambiente global.

Eu até acredito que o ambiente global seja um dos fatores a serem considerados, mas não o único. Basta ver que diferentes países mostram diferentes comportamentos no seu crescimento _ e não apenas na magnitude como até na direção. Eis porque ainda acho que a política econômica imposta pela coalizão política no poder é um fator preponderante no crescimento de um país.

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