plcultrev.jpeg

O Grande Timoneiro e seu psitacídeo Polly

No último domingo o Fantástico apresentou uma reportagem sobre a gravidez precoce. Na matéria, contrapunha-se uma jovem pobre do interior do Piauí, que aos 19 anos rumava para o terceiro filho, a uma outra jovem de Brasília, classe média alta, moradora do Lago Sul.

Como é de se imaginar, enquanto a jovem pobre do Piauí não tem acesso a contraceptivos _ os programas de distribuição de pílulas e camisinhas do povoado mais próximo são totalmente insuficientes _ a jovem de Brasília e seu namorado tomam todas as precauções possíveis.

A jovem do Piauí não tem muita educação nem oportunidades de entretenimento. Trabalha e durante a noite, quando pode, vai a bailes. Como se sabe, entre as poucas opções de lazer dos pobres figura com grande destaque aquela que a Natureza naturalmente nos dotou, a capacidade de ter prazer com o sexo.

Em grande contraste, a jovem de Brasília tem praticamente tudo que o mundo moderno tem a oferecer. E mais, uma consciência de que a gravidez precoce atrapalha. Entrevistados em um barzinho junto com vários colegas, o casal deixou muito claro que não pretende ter bebês tão cedo, que isto seria um estorvo _ sentimento compartilhado por todos os amigos.

Diante do muro dessa realidade, eis o que pontifica Reinaldo Azevedo, em artigo no Mídia Sem Leitura:

Não se tocou uma miserável vez na moral individual dos praticantes de sexo e fazedores de filho. Atenção: não estou pedindo o fim da distribuição de camisinhas. Que se distribuam. Não estou pedindo o fim da distribuição de pílulas. Que se distribuam. Pessoalmente, sou contra. Mas esse é outro problema. Que o governo siga a lei. Que o Estado leve a sério a sua política. Não haverá, no entanto, menos gravidez indesejada no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo até que os indivíduos não sejam chamados à sua responsabilidade.

Reinaldo Azevedo é daqueles que gosta de amolar o boi. Sempre que pode dar um jeito de ser contra, ele é. Sempre que pode dar um jeito de desancar os utópicos projetos socialistas de controle e alteração da natureza humana, ele o faz (no que está certo). Curiosamente, em sendo tão cioso das liberdades individuais e crítico de qualquer ideologia exótica que queira fazer tábula rasa dessa mesma natureza, ele é pródigo em torcê-la a seu modo, quando isto se torna uma exigência da sua própria e lunática versão de ideologia exótica.

Ora, Reinaldo Azevedo, com tal prédica, nos faz lembrar de Pol Pot ou dos piores momentos da Revolução Cultural chinesa:

Sem contar, obviamente, que, tanto no caso da jovem mãe a caminho do terceiro filho, de três pais diferentes, como no do casal-bacana-e-informado, há um valor subjacente: a prática do sexo, além de ser entendida como uma espécie de direito público a ser regulado pelo Estado, é evidenciada como uma quase obrigação, um ato corriqueiro que independe de valores individuais, familiares, comunitários, religiosos, culturais.

Felizmente, lá está Reinaldo Azevedo, o intelectual orgânico da vanguarda anaeróbica, para nos dizer quais são os “valores individuais, familiares, comunitários, religiosos, culturais” que devemos abraçar.

Como se sabe, este tipo de coisa não costuma acabar bem.

<novembro de 2005>

Anúncios