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Meu nome é Sinfrônio. Filolau Sinfrônio.

Se eu fosse um cara com mais sorte, minha história teria dado um film noir. Mas meu filme queimou ainda na caixinha, e a piada que eu chamava de vida transformou-se em uma película velada, apagada. Negra como a consciência de certos beletristas paulistas. Como não pude ser o produto acabado, talvez  um famoso ator de film noir, tive que me contentar em ser matéria prima _ um investigador particular.  Filolau Sinfrônio Investigações, fornecemos toda a verdade que você  puder pagar”, em até dez vezes no cartão. É verdade que sofri um processo por direitos autorais de uma igreja pentecostal, mas o juiz, um cara vaidoso e bem apessoado estreante na primeira instância, acabou decidindo a meu favor. Eu já investigara a jovem e brejeira mulher de um velho desembargador uma vez, muito conhecida do juiz, o que facilitou a vida da Justiça, da qual sempre se pode dizer que é cega, mas nunca burra.

Descobri esta minha facilidade para desvendar casos de adultério no dia em que cheguei em casa e repentinamente intuí que havia um homem pelado em minha cama. As pistas ajudaram: havia uma cueca vermelha em cima da cômoda (todas as minhas cuecas são marrons, por uma questão de higiene), um sapato com um chulé que não era o meu na porta do quarto, e além disso, afinal, o cara estava em minha cama, e também não era eu. E _ sinal da transfiguração de todos os valores que caracteriza os dias que correm _ a Maria, aquela galega da minha ex-esposa, tinha se escondido dentro do armário. Como estava desempregado, botei os dois pra fora, apossei-me do terno que o otário esqueceu em cima do sofá da sala e comecei a fornecer serviços de detetive particular. Filolau Sinfrônio, caçador de verdades sutis, a seu dispor.

Claro, a sorte me sorriu de imediato, mas só depois de algum tempo é que entendi do que é que ela estava rindo. Na verdade, isso só ficou completamente claro meses depois que aquela dona, muito bem apertada por uma saia de desenho hidrodinâmico, entrou no meu escritório e perguntou, como se sua quente e úmida existência dependesse disso:

_ Sinfrônio ? Filolau Sinfrônio ?

Nunca ninguém antes fora capaz de pronunciar “Filolau” de forma tão sexy. Em sua boca de lábios carnudos, o Filolau agigantava-se, adquiria entonações que até então me eram desconhecidas, as vogais se tornavam mais lânguidas e as consoantes, enrijecidas, e finalmente a palavra saía, gutural  e fumegante por detrás daqueles dentes perolados. Na verdade, durante toda minha vida só me chamaram de Sinfrônio, que não é tão sexy quanto Filolau. Quer dizer, exceto naquela ocasião em que visitei uma fazenda de avestruzes e…mas, divago.

O fato é que a loura escultural acabara de retirar um lencinho branco e perfumado de sua Prada e usava-o para enxugar delicadamente as janelas de sua alma. Com certeza, dentro daqueles olhos seria possível contemplar todos os mistérios da vida, mas o problema é que ela estava chorando e arfando, o que, aliado aos efeitos especiais produzidos pelo seu decote, propiciava um espetáculo que chamava minha atenção para longe dos tais mistérios da vida, menos dois deles, alvos e empinados.

_ O Sr. é detetive, não é ?

_ Claro. Formado na escola da vida. Sente-se, por favor. Qual é o problema ?

Ela se sentou e cruzou as pernas. E eu pensei ter visto Deus sob a forma de uma calcinha de renda preta.

_ Bem…não sei como dizer…

Eu já estava acostumado. Elas chegavam sempre frágeis e chorosas, mas tão logo começavam a desfiar o longo rosário da problemática conjugal, era questão de minutos até se transformarem em uma materialização de uma das Parcas. As Parcas, aqui no meu escritoriozinho no centro, valha-me São Jorge Guerreiro.

No entanto, não foi bem isto que aconteceu. Sua voz chorosa formou uma nuvem, que choveu estas palavras sobre minha mesa:

_ ….enfim…o problema é meu marido…ele tem um blog.

_ Isto é grave _ eu disse.

_ Sim, é grave.

Nunca há muito a dizer depois de uma revelação deste calibre.  Constrangidos, olhamos cada um para um lado. Ela com seu lencinho, adejando no ar como um colibri ocupado em sorver o néctar daqueles olhos verdes como a folha da carnaúba, e eu tamborilando os dedos sobre a fórmica da mesa, imaginando o que dizer. Maristela, a barata com síndrome do pânico que havia fixado residência em minha mesa no dia em que eu distraidamente esqueci meu vidro de Prozac aberto na gaveta, explorava o mundo exterior com suas inocentes anteninhas, apalpando nervosamente o ar pela fresta da gaveta. Eu a alimentava com pedacinhos de pão e fragmentos de pistas usadas. Ocasionalmente ela fazia um servicinho involuntário para mim, como a identificação de entorpecentes e psicotrópicos _ a único tipo de refeição que a fazia sair da gaveta e voar em torno da luminária.  Depois de alguns segundos que pareceram séculos, fiz a Pergunta:

_ Ele usa Movable Type ?

Minha experiência indicava que maridos que usavam o Movable Type nos seus blogs estavam, invariavelmente, a um passo da perdição.

_ Usa. E Haloscan também.

Talvez ela tenha percebido o deslocamento infinitesimal de minha mandíbula em direção ao chão, porque a frequência e a modulação do seu arfar alteraram-se sutilmente, trazendo considerável agitação hormonal aos fluidos deste calejado profissional das ruas. Compreenda-se: meu estado civil, na época, era o estado de sítio, e a mulher era um pedaço de mau caminho, daquelas de fazer parar ônibus fora do ponto. Se ela soubesse o que era um ônibus, o que certamente não era o caso.

_ O meu marido, bem… _ começou ela, em uma tímida tentativa de se transformar em Parca _ é uma pessoa muito sofisticada. Cheia de wit. Sabe ?

Eu sabia. Muitos amigos meus compravam wit na 25 de março. Segundo os médicos, excesso de wit gera dependência, seguida de um tipo de decadência elegante muito frequentemente associada a distúrbios de personalidade e delusions of grandeur. Amigos meus haviam partido desta para a melhor em uma última viagem de wit. Salvador de La Plata foi encontrado morto em uma mesa do Deux Magots, em Paris, com um livro do Mencken nas mãos. O livro era uma publicação em francês e estava virado de ponta cabeça, pois Salvador não lia francês. Mario Dragonetti Versal Júnior morreu congelado dentro da neve fofa após um tombo em uma estação de esqui nos Alpes. Morreu apenas porque decidiu aceitar a situação. Antípedes Florinto foi comido vivo por um tubarão branco na Cotè dAzur. O tubarão foi encontrado apenas alguns metros depois da carcaça semidevorada do Antípedes. Morto e envenenado. Por excesso de absinto. Wit. 

<março de 2005>

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