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Hoje, o governador de New York foi autuado por agentes federais por servir-se de um serviço de prostituição de luxo, o Emperor’s Club, um serviço que atende senhores em NY, Washington, Miami, Paris e Londres, e onde as modelos recebem entre mil e 5 mil dólares por hora de entretenimento.

Na mesma semana, o presidente Bush vetou o projeto de Lei que proibiria o uso do waterboarding, uma técnica de tortura, em prisioneiros interrogados pela CIA.

***

A moral americana é uma coisa.

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“Basketball _ a dreary game played by physical freaks in which nothing happens till the last minute”

_ professor universitário anônimo

Aqui, uma carta de John Rawls explicando porque o baseball (sic) é o maior esporte de todos os tempos.

(hat tip: Crooked Timber)

E no blog do Ordem Unida Livre, Pedro Sette Câmara destrói a idéia de direito autoral:

Ainda existe, como no caso do livro escrito por Polzonoff, o problema da citação de poemas. Além de não ter gostado do que leu, o responsável pela obra de Bandeira reclamou de três poemas citados sem permissão. Ainda que eu saiba que a legislação brasileira (e até a americana) estabelece que é preciso pedir permissão, não posso deixar de perguntar: como alguém fica mais pobre por ver um poema de seu antepassado reproduzido sem permissão legal? O poema não é perdido. O poema não é como um bolo que, se for comido, deixa de existir. Ele pode ser reproduzido indefinidamente. E, se o objetivo declarado é “não deixar a obra morrer”, é melhor que falem dela de algum jeito do que não falarem de jeito nenhum porque aquele algum jeito não agrada o detentor dos direitos.

Sadly, No!:

Art. 33. Ninguém pode reproduzir obra que não pertença ao domínio público, a pretexto de anotá-la, comentá-la ou melhorá-la, sem permissão do autor.

Parágrafo único. Os comentários ou anotações poderão ser publicados separadamente.”

(Lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que “Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências“. )

E eu que pensava que copyleft era coisa de esquerdista…vamos ver se Pedro continuará acalentando estas idéias quando for tão famoso quanto Manuel Bandeira.

***

Agora, o texto citado por Sette Câmara, onde o Polzonoff escreve em represália ao comportamento dos herdeiros de Manuel Bandeira…bem, o cara confessa que escreveu a biografia do Bandeira porque ganhou uma bolsa:

Sei que muita gente vai rir, mas a verdade é que não escrevi o livro pensando no PNLD, até porque não sabia como funcionavam estas coisas quando me sentei para escrevê-lo. Na época, ganhei uma bolsa de pesquisa (que me permitiu comprar um computador – que tal?) e um prazo apertado. E só. Ingênuo ou burro – chame como quiser – escrevi o livro para me ocupar. Eu estava prestes a me mudar para os Estados Unidos e a oportunidade de escrever o perfil apareceu como que para aplacar uma natural ansiedade.

E depois, sobre o objeto do livro, diz o seguinte:

É por isso que a obsessão destas pessoas me soa tão ridícula. Não é por nada, mas eu acho que isso dá até câncer. Será que estas pessoas realmente acham que eu sou um destes pobre-diabos que vai ficar brigando por causa de um livro sobre um poeta que ninguém, a não ser aqueles que vivem na realidade irreal dos meios literários, conhece?

OK, acho que é possível simpatizar com a posição do Polzonoff de várias maneiras.  E também confesso que é meio difícil saber ao certo o quão justa é a acusação dos herdeiros sem ter lido o livro, é claro.  Eu sei por razões pessoais _ namorei uma moça que era neta (ilegítima) de Manuel Bandeira _ que o sujeito não era nenhum santo (ninguém é, certo?).  Mas a estratégia de Polzonoff de vingar-se dos herdeiros cuspindo no prato em que comeu pode voltar-se contra ele _ afinal, como se interessar por um autor que confessa ser um “escritor de aluguel” capaz de escrever sobre os temas mais insignificantes?

Na onda do 1808, andam escavando muita coisa.  Na Folha de hoje, a genealogia do sistema tributário brasileiro:

“Especialistas criticam herança burocrática deixada por d. João ao sistema tributário

WANDERLEY PREITE SOBRINHO
Colaboração para a Folha Online

O Planalto anunciou o envio de mais uma proposta de reforma tributária para o Congresso. A aprovação da proposta não deve ser fácil, principalmente em ano eleitoral. Para alguns especialistas, parte do caos tributário de hoje é herança do Brasil colonial e do período em que a família real portuguesa se instalou no Rio de Janeiro há 200 anos.

Em 1808, a maior parte dos impostos não era cobrada diretamente pela coroa. “Quem fazia a cobrança eram os ‘contratadores'”, afirma o historiador Carlos Gabriel Guimarães, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Esses contratadores eram grandes comerciantes portugueses espalhados por todo o império. Eles compravam do Erário Régio (o Tesouro Nacional de hoje) o direito de explorar algum serviço público. A partir de então, tudo o que era arrecadado em forma de impostos ficava com eles.

“Os contratadores já existiam desde o período colonial, mas eles se multiplicaram depois que a família real portuguesa desembarcou no Brasil”, afirma a historiadora Wilma Peres Costa, professora da Unifesp.

É que, a partir de então, algumas famílias influentes nascidas no Brasil passaram a reivindicar o mesmo privilégio. “Era uma moeda de troca. Como d. João acabara de se instalar no Brasil e precisava do apoio de pessoas influentes, ele concedia a elas o direito de explorar os impostos”, afirma a historiadora.

Segundo Guimarães, o sistema gerava muita confusão e falcatrua. “Essa foi a grande herança para o sistema tributário de hoje”, diz. “Era uma mistura de interesse público e privado. Não é à toa que a força da lei não vinga até hoje.”

Impostos mais conhecidos

O historiador lembra que o Erário Régio gastava muito mais do que arrecadava. “Uma das soluções encontradas foi a criação de impostos para tampar buracos”, diz.

Havia imposto para tudo. Pagava-se para utilizar os rios, para transportar escravos do Rio de Janeiro para Minas Gerais e para vender aqueles que conheciam algum ofício. Um dos tributos mais importantes era a cobrança de 10% sobre a herança e rendimento dos imóveis, criado em junho de 1808.

“Era o início do imposto predial”, afirma o tributarista Alcides Jorge Costa, professor da faculdade de direito do Largo São Francisco, da USP (Universidade de São Paulo). “D. João criou tantos impostos que deixou o sistema bastante caótico”, afirma.

Apesar do caos, Wilma diz que a criação de mais impostos era indispensável para a corte, que acabara de se instalar no Brasil e precisava arcar com o alto custo de transferir para o Rio de Janeiro todo o aparato administrativo que estava em Lisboa. “Isso significou uma das principais mudanças no sistema tributário nacional”, diz a historiadora.

É que, até então, cada capitania encaminhava sua arrecadação para o Erário Régio em Lisboa. “Quando o Erário veio para o Rio, começou um conflito entre algumas capitanias, que resistiam em enviar sua arrecadação para outra capitania”, diz Wilma.

Ela diz que Bahia, Recife e São Paulo, por exemplo, ficaram ressentidas com a nova posição ocupada pelo Rio. “Além disso, a abertura dos portos permitiu a entrada de recursos. Elas não queriam se desfazer de um dinheiro que antes não existia.”

“A tributação foi um das motivações para a Revolução Pernambucana de 1817”, afirma a historiadora. “A tensão entre as partes era muito grande. É o embrião do que conhecemos hoje como guerra fiscal.”

Burocracia portuguesa

Para o advogado Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), a maior herança de d. João deixou para o sistema tributário brasileiro é a burocracia.

“Herdamos muitos tributos que eram portugueses”, diz. “O sistema da época tinha como objetivo gerar receita o mais rápido possível e mandá-la para a coroa.”

Ele afirma que essa mentalidade de receita rápida não mudou nem com a independência nem com a proclamação da República. “Uma reforma profunda só começou a ser discutida no Brasil no começo do século 20.”

Para melhorar o perfil do sistema de arrecadação, o Planalto envia uma nova proposta de reforma tributária para o Congresso.

Para Amaral, o projeto é tímido e a histórica burocracia deve continuar. “O que foi anunciado pelo governo é insuficiente para resolver o problema”, afirma. “No ano passado, foi prometida uma grande simplificação nos impostos, mas o que foi apresentado mexe pouco na burocracia.”

Malan no Estadão.  Apesar de citar o livrinho editado pelo Vilósofo, há que se reconhecer que o sujeito tem classe:

Heranças

Pedro S. Malan

Recorrer a um “discurso incompreensível” é um dos 38 estratagemas discutidos por Schopenhauer em seu fascinante Como vencer um debate sem precisar ter razão. O antepenúltimo estratagema, com o título acima, consistiria em “desconcertar, aturdir o adversário com um caudal de palavras sem sentido”. O estratagema está baseado em uma observação de Goethe: “Muitos, ao escutar apenas palavras, acreditam que também deve haver nelas algo para pensar.” Exemplos de uso intensivo desse estratagema não faltam “en latinoamerica” – e em nosso próprio país.

Por exemplo, do ponto de vista da retórica, entendida como arte da persuasão, parece haver uma estrutura básica, uma matriz, digamos assim, preconceitual, que permite a nosso bravo presidente, e a muitos de seu governo, abordar qualquer tema com ardente eloqüência e, aparentemente, total e absoluta convicção.

Simplificando ao extremo, e correndo o risco de não fazer justiça às sutilezas do pensamento presidencial, esta estrutura básica poderia, talvez, ser assim enunciada: “Problemas de hoje – quaisquer que estes sejam – são facilmente explicáveis porque no passado não foram resolvidos como deveriam.” Entenda-se por passado qualquer subperíodo anterior ao início de 2003, de 1500 ao final de 2002. Portanto, o atual governo, que está no poder há apenas 5 anos, 2 meses e 1 semana, não pode ser responsabilizado por “coisas”, que outros (governos, elites, direitas) não puderam, não quiseram ou não tiveram a competência para resolver, como estaria – e só agora – resolvendo o atual governo.

Para a opinião pública minimamente informada, este discurso do nunca antes jamais e da herança maldita definida genericamente como qualquer coisa pré-2003 que possa ser encaixada no improviso do momento, virou parte do nosso folclore, para não dizer do nosso anedotário político. E sua infindável repetição, milhares de vezes (à Goebbels) assegura que muitos acreditem (à Goethe) que deva haver ali algo de verdade ou pelo menos algo para pensar.

Não quero, no que se segue, desconhecer os acertos do atual governo, que certamente existem. Apenas chamar a atenção para a necessidade de um mínimo de senso de perspectiva e de noção de que na vida de qualquer país há processos que se desdobram no tempo, complexas interações entre continuidade, mudança e consolidação de avanços. O Brasil não é exceção a essa regra.

Para ficar apenas no mundo da economia e no período de tempo que Ivan Lessa imortalizou com seu chiste “a cada quinze anos o Brasil esquece tudo o que aconteceu nos últimos quinze anos”, pense o leitor se não há algum significado no seguinte: quatorze anos de inflação civilizada, nove anos de regime de metas de inflação, nove anos de regime de câmbio flutuante, oito anos de Lei de Responsabilidade Fiscal. Quinze anos de maior abertura comercial. Quinze anos do início dos processos de privatização. Quinze anos desde a renegociação da dívida externa do setor público. Quase quinze anos de maior integração financeira com o resto do mundo e desenvolvimento no mercado de capitais no Brasil. Uma década pós-saneamento do sistema bancário.

Ao longo dos últimos cinco anos, esta herança – que nada tem de maldita – juntamente com uma política macroeconômica responsável, permitiram que o Brasil pudesse aproveitar-se do extraordinário favorável contexto internacional que prevaleceu no qüinqüênio 2003-07 para aumentar não apenas o seu crescimento potencial, mas também a capacidade de nossa economia enfrentar crises externas – como a atual – com seus inevitáveis custos, riscos, incertezas e volatilidades, procurando assegurar a continuidade do processo – em curso há pelo menos uma década e meia – de gradual conversão do Brasil num país mais “normal”, vale dizer, um pouco mais previsível e confiável.

Mas deve ser notado que há resistências de peso a este processo. Em dois artigos recentes na Folha de S.Paulo, o ex-ministro José Dirceu repete inúmeras vezes a cantilena da herança maldita (afirmando, como Sartre definindo o inferno, que os adeptos de Goebbels “são os outros”) e se dirige a uma militância do tipo bolivariana “nossos sonhos estão mais vivos do que nunca… mantemos nossos compromissos históricos, nossa moral socialista e nossa missão no combate do povo brasileiro por sua libertação”.

Mas os dois artigos são importantes porque explicitam o que o núcleo duro do petismo, tão bem representado pelo autor, considera o cerne da “herança maldita”. Escreve o ex-ministro: “O governo Lula, repito, recebeu uma herança maldita. Faz parte desse inventário macabro a abertura descontrolada de nossa economia e do sistema de telecomunicações ao capital internacional… este crime de lesa-pátria… vender empresas estatais na bacia das almas é o mais hediondo de todos, porque atenta contra os direitos do povo e ameaça a soberania nacional.” E o tom triunfante leva o ex-ministro, mesmo reconhecendo não estar em pauta a recuperação do controle estatal sobre companhias privatizadas, à sua conclusão taxativa: “Mas é obrigação do governo intervir para bloquear e reverter a desnacionalização de setores fundamentais da economia.”

Aprendi, com Montaigne, que não há argumento que não tenha um contrário, que não há nada certo exceto a incerteza, nada mais mísero e vaidoso que o homem e que ninguém está isento de dizer e escrever tolices – o mal está em fazê-lo com pompa, levando-se por demais a sério.

Por isso creio que precisamos de um pouco menos de arrogância, um pouco mais de humor, um pouco menos de palanque e um pouco mais de racionalidade no debate público ao longo dos próximos dois anos e meio, quando, na prática, este governo terá concluído sua herança. E espero que a esta se lhe faça justiça, algo que este governo não consegue fazer com a herança que recebeu, e sem a qual (e a situação internacional favorável) não chegaria onde chegou.

Deu no Estadão:

Vaticano divulga lista de novos pecados capitais

Manipulação genética e uso de drogas foram alguns dos incluídos na nova lista

ROMA – A manipulação genética, o uso de drogas, a desigualdade social e a poluição ambiental estão entre os novos pecados capitais pelos quais os cristãos devem pedir perdão, segundo a nova lista apresentada no domingo, 9, pela Santa Sé.

O Vaticano atualizou a lista de pecados capitais para adaptá-la à “realidade da globalização”. Os novos pecados capitais – merecedores de condenação segundo a Igreja Católica – serão agregados aos anteriores: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça.

Publicada no domingo no jornal do Vaticano, Osservatore Romano, a lista foi divulgada depois que o Papa Bento 16 denunciou a “queda do sentimento de pecado no mundo secularizado”, em meio à redução no número de católicos que praticam a confissão.”

Alhures, consegui a lista completa. Na verdade não são só “novos pecados”: são SETE novos pecados:

(1) modificações genéticas;

(2) experimentos em humanos;

(3) poluição do meio ambiente;

(4) injustiça social;

(5) causar a pobreza;

(6) ambição financeira;

(7) ingestão de drogas.

Cada um dos pecados listados causa algumas apreensões e suscita discussões interessantes.

(1) a terapia genética é, evidentemente, um tipo de modificação genética. Vai ser proibida pela Igreja? O Vaticano deseja mesmo comprar MAIS esta briga?

(2) waterboarding é um experimento em humanos?

(3) praticamente toda atividade humana é poluente, de uma forma ou de outra. O Vaticano definirá o nível de poluição que constitui um pecado? Aliás, o aquecimento global é um pecado? Dá para excomungar George Bush por não ter ratificado o tratado de Kyoto?

(4), (5) e (6) seriam uma ressureição do pecado da usura?

(7) álcool entra nessa?

***

É um fenômeno bem conhecido de que o estabelecimento de proibições e tabus, embora a princípio soem como uma forma um tanto irracional de se buscar adeptos, na verdade atendem a uma demanda realmente existente, que é a da sensação de pertencer a um grupo. Isso existiu em todas as civilizações e em todas as épocas, e implica em que o custo individual de respeitar os tabus certamente é compensado por um benefício intangível que é o do pertencimento a um grupo social. Daí que em sociedades primitivas, por exemplo, existam elaborados ritos de passagem, envolvendo todos eles algum grau de dor e/ou desconforto _ pois quanto maior o grau de dor ou desconforto, mais convencidos estarão os integrantes do grupo de que o novato postulante a participação será realmente confiável, já que decidiu incorrer neste custo. Esta lógica continua sendo comum à maioria dos grupamentos sociais, seja o de caçadores tribais, gangs criminais, sociedades estudantis, círculos acadêmicos e religiões.

Portanto, considero que analistas conservadores que aplaudiam o “endurecimento” da Igreja em relação aos temas tradicionais que sempre lhe foram caros não estavam longe da razão _ não que eu concorde com eles, apenas concordo em que ali, tratava-se de uma estratégia de sobrevivência da Igreja.

O problema, porém, é que estes 7 novos pecados (tirando a ingestão de drogas) não são individuais, são sociais. Isto fica explícito na continuação da matéria:

Em entrevista ao Osservatore Romano, monsenhor Gianfranco Girotti, responsável pelo tribunal da Cúria Romana que trata das questões internas do Vaticano, afirmou que, ao contrário dos anteriores, os novos pecados vão além dos direitos individuais e têm uma dimensão social.

Há várias áreas relacionadas aos direitos individuais e sociais dentro das quais incorrer em atitudes pecaminosas. Antes de mais nada, a área bioética, dentro da qual não podemos deixar de denunciar algumas violações de direitos fundamentais da natureza humana, através de experiências e manipulações genéticas, cujos êxitos são difíceis de prever e manter sob controle“.

Na avaliação do prelado, a injustiça social e os crimes ambientais também estão na lista das novas ofensas pelas quais os fiéis devem pedir perdão e fazer penitência. “A desigualdade social, onde os ricos se tornam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres, alimentam uma insuportável injustiça social. Depois tem a área da ecologia, que hoje desperta grande interesse”, apontou o responsável pelo tribunal vaticano.

Na entrevista, Girotti citou ainda o uso de drogas como um dos novos pecados que merecem condenação. “A droga enfraquece a psique e obscura a inteligência, deixando muitos jovens fora do circuito da Igreja”, explica.

Na interpretação de monsenhor Girotti, o pecado deixou de ser apenas uma questão pessoal e passou a ter maior influencia na sociedade. “Antes, o pecado tinha uma dimensão individual, hoje tem uma impacto social, principalmente por causa da globalização. A atenção ao pecado agora é mais urgente devido aos reflexos maiores e mais destruidores que pode ter“, disse Girotti.

O problema desse raciocínio é que não é muito fácil obter desses pecados o mesmo tipo de “certificação” perante o grupo que os pecados tradicionais, calcados sobre o comportamento do indivíduo (com a possível exceção da ingestão de drogas). Afinal, na maior parte dos casos, é muito difícil para um membro de uma comunidade detectar se outro membro está “poluindo o ambiente” (exceto, talvez, se ele dirige um SUV), ou se ele promove a injustiça social.

Neste caso, acho que mesmo do ponto de vista da lógica de sobrevivência da Igreja como instituição este movimento só tem apelo de marketing, mas é um balão de ar quente no que toca à sua real efetividade.

Eu bem que avisei.  Duas vezes.  Agora não adianta chorar

noir.JPG

Meu nome é Sinfrônio. Filolau Sinfrônio.

Se eu fosse um cara com mais sorte, minha história teria dado um film noir. Mas meu filme queimou ainda na caixinha, e a piada que eu chamava de vida transformou-se em uma película velada, apagada. Negra como a consciência de certos beletristas paulistas. Como não pude ser o produto acabado, talvez  um famoso ator de film noir, tive que me contentar em ser matéria prima _ um investigador particular.  Filolau Sinfrônio Investigações, fornecemos toda a verdade que você  puder pagar”, em até dez vezes no cartão. É verdade que sofri um processo por direitos autorais de uma igreja pentecostal, mas o juiz, um cara vaidoso e bem apessoado estreante na primeira instância, acabou decidindo a meu favor. Eu já investigara a jovem e brejeira mulher de um velho desembargador uma vez, muito conhecida do juiz, o que facilitou a vida da Justiça, da qual sempre se pode dizer que é cega, mas nunca burra.

Descobri esta minha facilidade para desvendar casos de adultério no dia em que cheguei em casa e repentinamente intuí que havia um homem pelado em minha cama. As pistas ajudaram: havia uma cueca vermelha em cima da cômoda (todas as minhas cuecas são marrons, por uma questão de higiene), um sapato com um chulé que não era o meu na porta do quarto, e além disso, afinal, o cara estava em minha cama, e também não era eu. E _ sinal da transfiguração de todos os valores que caracteriza os dias que correm _ a Maria, aquela galega da minha ex-esposa, tinha se escondido dentro do armário. Como estava desempregado, botei os dois pra fora, apossei-me do terno que o otário esqueceu em cima do sofá da sala e comecei a fornecer serviços de detetive particular. Filolau Sinfrônio, caçador de verdades sutis, a seu dispor.

Claro, a sorte me sorriu de imediato, mas só depois de algum tempo é que entendi do que é que ela estava rindo. Na verdade, isso só ficou completamente claro meses depois que aquela dona, muito bem apertada por uma saia de desenho hidrodinâmico, entrou no meu escritório e perguntou, como se sua quente e úmida existência dependesse disso:

_ Sinfrônio ? Filolau Sinfrônio ?

Nunca ninguém antes fora capaz de pronunciar “Filolau” de forma tão sexy. Em sua boca de lábios carnudos, o Filolau agigantava-se, adquiria entonações que até então me eram desconhecidas, as vogais se tornavam mais lânguidas e as consoantes, enrijecidas, e finalmente a palavra saía, gutural  e fumegante por detrás daqueles dentes perolados. Na verdade, durante toda minha vida só me chamaram de Sinfrônio, que não é tão sexy quanto Filolau. Quer dizer, exceto naquela ocasião em que visitei uma fazenda de avestruzes e…mas, divago.

O fato é que a loura escultural acabara de retirar um lencinho branco e perfumado de sua Prada e usava-o para enxugar delicadamente as janelas de sua alma. Com certeza, dentro daqueles olhos seria possível contemplar todos os mistérios da vida, mas o problema é que ela estava chorando e arfando, o que, aliado aos efeitos especiais produzidos pelo seu decote, propiciava um espetáculo que chamava minha atenção para longe dos tais mistérios da vida, menos dois deles, alvos e empinados.

_ O Sr. é detetive, não é ?

_ Claro. Formado na escola da vida. Sente-se, por favor. Qual é o problema ?

Ela se sentou e cruzou as pernas. E eu pensei ter visto Deus sob a forma de uma calcinha de renda preta.

_ Bem…não sei como dizer…

Eu já estava acostumado. Elas chegavam sempre frágeis e chorosas, mas tão logo começavam a desfiar o longo rosário da problemática conjugal, era questão de minutos até se transformarem em uma materialização de uma das Parcas. As Parcas, aqui no meu escritoriozinho no centro, valha-me São Jorge Guerreiro.

No entanto, não foi bem isto que aconteceu. Sua voz chorosa formou uma nuvem, que choveu estas palavras sobre minha mesa:

_ ….enfim…o problema é meu marido…ele tem um blog.

_ Isto é grave _ eu disse.

_ Sim, é grave.

Nunca há muito a dizer depois de uma revelação deste calibre.  Constrangidos, olhamos cada um para um lado. Ela com seu lencinho, adejando no ar como um colibri ocupado em sorver o néctar daqueles olhos verdes como a folha da carnaúba, e eu tamborilando os dedos sobre a fórmica da mesa, imaginando o que dizer. Maristela, a barata com síndrome do pânico que havia fixado residência em minha mesa no dia em que eu distraidamente esqueci meu vidro de Prozac aberto na gaveta, explorava o mundo exterior com suas inocentes anteninhas, apalpando nervosamente o ar pela fresta da gaveta. Eu a alimentava com pedacinhos de pão e fragmentos de pistas usadas. Ocasionalmente ela fazia um servicinho involuntário para mim, como a identificação de entorpecentes e psicotrópicos _ a único tipo de refeição que a fazia sair da gaveta e voar em torno da luminária.  Depois de alguns segundos que pareceram séculos, fiz a Pergunta:

_ Ele usa Movable Type ?

Minha experiência indicava que maridos que usavam o Movable Type nos seus blogs estavam, invariavelmente, a um passo da perdição.

_ Usa. E Haloscan também.

Talvez ela tenha percebido o deslocamento infinitesimal de minha mandíbula em direção ao chão, porque a frequência e a modulação do seu arfar alteraram-se sutilmente, trazendo considerável agitação hormonal aos fluidos deste calejado profissional das ruas. Compreenda-se: meu estado civil, na época, era o estado de sítio, e a mulher era um pedaço de mau caminho, daquelas de fazer parar ônibus fora do ponto. Se ela soubesse o que era um ônibus, o que certamente não era o caso.

_ O meu marido, bem… _ começou ela, em uma tímida tentativa de se transformar em Parca _ é uma pessoa muito sofisticada. Cheia de wit. Sabe ?

Eu sabia. Muitos amigos meus compravam wit na 25 de março. Segundo os médicos, excesso de wit gera dependência, seguida de um tipo de decadência elegante muito frequentemente associada a distúrbios de personalidade e delusions of grandeur. Amigos meus haviam partido desta para a melhor em uma última viagem de wit. Salvador de La Plata foi encontrado morto em uma mesa do Deux Magots, em Paris, com um livro do Mencken nas mãos. O livro era uma publicação em francês e estava virado de ponta cabeça, pois Salvador não lia francês. Mario Dragonetti Versal Júnior morreu congelado dentro da neve fofa após um tombo em uma estação de esqui nos Alpes. Morreu apenas porque decidiu aceitar a situação. Antípedes Florinto foi comido vivo por um tubarão branco na Cotè dAzur. O tubarão foi encontrado apenas alguns metros depois da carcaça semidevorada do Antípedes. Morto e envenenado. Por excesso de absinto. Wit. 

<março de 2005>

O Poder Executivo federal desenvolveu uma série de medidas para resolver os chamados “conflitos de interesse”_ situações comuns, por exemplo, quando um ex-empregado governamental vai trabalhar em alguma empresa cujos negócios dependiam das ações deste ex-empregado. Hoje, existem dispositivos que exigem a quarentena de altos executivos públicos desligados de seus postos, por exemplo.

Mas então o que fazer com a manchete a seguir?

Pessoal do ramo

No rodízio das comissões temáticas da Câmara, pólo de atração dos lobistas que freqüentam a Casa, pelo menos um terço dos novos presidentes são deputados cujas campanhas foram abastecidas por doações de setores interessados nos assuntos ali decididos.
A de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, por exemplo, será chefiada por Jilmar Tatto (PT-SP), que em 2006 recebeu R$ 173 mil de uma indústria de resina e de construtoras. Para a Comissão de Minas e Energia foi eleito Luiz Fernando Faria (PP-MG) -R$ 450 mil de mineradoras, siderúrgicas, empreiteiras e petroquímicas. Viação e Transportes ficou com Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) -R$ 608 mil de montadoras, locadoras de carros, concessionária de rodovias e postos de gasolina.

Didática. O deputado João Matos (PMDB-SC), que conseguiu a presidência da cobiçada Comissão de Educação e Cultura, recebeu R$ 100 mil para o caixa de sua campanha do dono da Brink Mobil, grande fabricante de brinquedos pedagógicos, uniformes e equipamentos escolares.

Francamente, uma coisa é a representação de interesses, outra bem diferente é a desintermediação do lobbismo. Se os senhores representantes do “povo” não têm decoro suficiente para ver isso por si mesmos, acho que alguma medida institucional devia ser tomada.

We are fascists as much as Hitler was a painter

Laibach.

(hat tip: dayvan cowboy)

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