<janeiro 2005>

Our life is bounded by two silences
the silence of stars and that of graves

_ Thomas Carlyle

Hoje me disseram que Deus existe porque todo homem dele se aproxima ao morrer. Tomam assim um efeito como causa. Pergunto-me se não está mais que claro que é totalmente racional que uma pessoa, ao ver chegar sua hora final, aferre-se a qualquer chance de prolongar a vida, que dirá de ver a luz de uma vida eterna.

Bem, isso é medo. Puro medo, e medo incutido em nós pelo processo da seleção natural _ porque obviamente todos os seres que não tinham medo da morte provavelmente se expunham a riscos excessivos e morreram antes de deixar descendência, aniquilando este trato comportamental muito rapidamente.

E mesmo eu que sou ateu posso muito bem, no fim da vida, atirar-me abjetamente aos pés de alguma divindade que me pareça oferecer uma perspectiva minimamente crível de continuar vivendo. Entretanto eu gosto de me propor um experimento mental que me tranquilize e me livre, no futuro, de situação tão desmoralizante.

Ora, a religião fala muito da nossa futura vida após a morte, mas poucas nos falam da vida antes da morte. Aliás para o católico ela não existe. Está posta então a condição para algum alívio:  a maioria das pessoas só consegue se lembrar de eventos acontecidos até os cinco, seis anos de vida. Alguns poucos têm acesso a memórias mais antigas, e há quem diga ter reminiscências da vida intra-uterina. Mas, além daqueles que se entregam ao delírios hipnóticos da regressão, não há ninguém que se lembre do que andava fazendo antes de nascer.

E é exatamente essa a fonte da tranquilidade. Pois já estávamos mortos antes de nascer. E mortos estaremos novamente quando deixarmos de viver. Assim, apenas recuperaremos uma condição na qual já havíamos estado. E na qual passaremos, aliás, a maior parte da existência do Universo. Assim é, assim será, assim tem que ser.

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