You are currently browsing the monthly archive for janeiro 2008.

plantadonautilus.jpg

Developing a taste for engineering 

O Inagaki fez uma promoção (só vi agora..) perguntando qual o livro que mais marcou a infância dos seus leitores.

O meu é Vinte Mil Léguas Submarinas, o primeiro livro que li, em uma edição de bolso da Ediouro que meu pai me deu. Meu pai morreu e até hoje eu não sei porque ele me deu esse livro. Eu fantasio que devia ter uns 8 anos. Mas pode ter sido aí pelos 10, 11. Eu fui um leitor voraz desde que aprendi a ler _ e, detalhe, não me lembro do processo de aprendizado, ele foi apagado da minha memória. Só me lembro de ver figurinhas e de “de repente” ser capaz de ler o que estava escrito nelas.

Muitos e muitos anos depois, lendo a série sobre a ditadura militar do Elio Gaspari, fui descobrir que os livros prediletos do pequeno Geisel eram as obras de Júlio Verne _ em sua pobreza riograndense da colônia, que não tem nada a ver com a miséria dos grandes centros de hoje, ele tinha a coleção completa em casa. E parece que Geisel atribuía a isso o seu pendor pela tecnologia e pelo desenvolvimento.

Assino embaixo.

Anúncios

arnoldantesdepois.jpg

Em termos

Deu no Estadão:

Schwarzenegger deve anunciar seu apoio a John McCain

Ex-astro de Hollywood decide após Rudy Giuliani desistir de concorrer à candidatura republicana

LOS ANGELES, EUA – O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, apoiará a campanha do republicano John McCain para a Presidência dos Estados Unidos, disseram assessores do candidato na quarta-feira, 29. Republicano moderado, o ex-astro de Hollywood deve formalizar o apoio quando os dois aparecerem juntos durante um evento em Los Angeles, nesta quinta.(…)

***

Diz o Tapped, blog coletivo do American Prospect, embora pinte-o como não suficientemente ousado em termos ambientais, mostra que McCain pelo menos tem um histórico melhorzinho que a média do Great Old Party nessa matéria. McCain declara, por exemplo, que mudança climática será um dos 3 pontos principais de sua agenda (os outros dois são manter a presença americana no Iraque e uma política mais benigna sobre imigração). Com direito a piadinhas _ ele disse que o Arizona (estado dele) é tão seco que as árvores procuram os cachorros.

O problema agora é determinar suas possibilidades. Dos candidatos, ele parece ser o que tem mais chances de angariar algumas simpatias entre independentes e até alguns democratas. Porém, ele aliena parte do eleitorado republicano, para quem McCain é “liberal demais”.

Há quem diga que sua candidatura teria problemas. Primeiro, por ser muito velho para um presidente em primeiro mandato (ele vai fazer 73 anos). Segundo, porque sua agenda não casa bem com as alas do partido republicano _ ele não pode querer manter a carta de “conservador fiscal” mantendo a escalada no Iraque, não pode agradar as corporações (e eu concordo com o Mark Thoma aqui) e ser favorável a uma agenda ambiental mais ousada, etc.

Acho que McCain vai ganhar muito chumbo até levar a candidatura no GOP. E mais ainda depois.

(…) parece ser uma regra universal o fato de que quanto mais você sofistica o seu gosto, mais cordial você se torna por fora, e mais intolerante por dentro.

Evelyn, no Valquirianas.

tu24-20080125_lg.jpg

Enquanto estamos todos preocupados com problemas bem mais terrenos, no dia 29 desse mês escapamos de ser alvejados pelo TU24, um asteróide que passou bem próximo à terra para os padrões cósmicos: 538,000 quilometros, o equivalente a 1,4 a distância da Terra à Lua. O TU24 tem cerca de 250 metros de diâmetro, e sua queda teria um impacto equivalente a uma bomba de…1.500 megatons. Para se ter uma idéia, o mais potente artefato nuclear jamais criado, a Bomba Czar soviética, tinha cerca de 100 megatons de potência, e jamais foi detonada com carga total por temor sobre seus reais efeitos.

Se esse asteróide caísse no mar _ o que seria o mais provável dado que 2/3 da superfície terrestre está coberta pelos oceanos _ veríamos um tsunami de proporções desagradáveis, principalmente para as regiões costeiras mais próximas do impacto.

Não é à toa que o juiz Richard Posner, em seu livro sobre riscos e catástrofes, faz um alerta sobre este tipo de risco, que pare ele é subdimensionado pelos políticos.

Aquela velha e surrada metáfora _ ferramentas como extensões das pessoas, instrumentos como extensões dos sentidos etc. _ não é uma metáfora.

Nick Carr do Rough Type comenta um artigo da Science sobre uma pesquisa feita com macacos por um time da Universidade de Parma, na Itália, que mostra que o truque empregado pela evolução para possibilitar aos primatas o uso de ferramentas envolve uma alteração do sentido de propriocepção que faz com que o cérebro interprete as ferramentas como sendo uma parte do próprio corpo.  A descoberta envolve usar sensores para descobrir como os neurônios da parte motora do cérebro se comportam; o que a equipe verificou é que os mesmos neurônios que comandam a ação da mão sozinha são ativados, na mesma sequência, quando se usa uma ferramenta.

Aqui, há um artigo interessante do mesmo pesquisador de Parma sobre “mirror neurons”.  Em termos simples, os “mirror neurons” é que explicam uma coisa que ocorre com quase qualquer espectador de jogos de futebol _ aquele chute involuntário que damos quando o ponta esquerda de nosso time fica cara a cara com o gol.  O motivo é que uma parte importante da percepção que nosso cérebro tem sobre as ações de outras pessoas envolve o funcionamento de neurônios que “simulam” essas ações _ e quando há uma “desinibição” suficientemente forte, a gente se vê repetindo os gestos de outros.

A coisa não pára aí, porém.   Há fortes suspeitas de que os “mirror neurons” estão envolvidos em coisa maior: na nossa própria capacidade de “ler mentes“, isto é, adivinhar as intenções alheias _ mesmo a níveis mais abstratos do que o puro movimento físico.  A ponto de V.S. Ramachandran, diretor do Center for Brain and Cognition  e um dos mais destacados neurocientistas de nossa época, dizer que a descoberta dos “mirror neurons” será para a neurociência e a psicologia o mesmo que a descoberta do DNA foi para a genética.

Como sabem os meus 3,5 leitores, a Internet nasceu de um projeto militar.  Nos anos 60, muita gente estava desconfiada quanto à confiabilidade da rede de comunicações da AT&T no caso de um ataque nuclear, e um estudo foi comissionado para fazer um diagnóstico e propor alternativas.   Foi aí que nasceu a idéia de transmissão de dados por pacotes, o protocolo IP e a Internet: a idéia básica é que, com um sistema altamente descentralizado, os pacotes podem fluir pela rede e chegar ao seu destinatário rapidamente,  aproveitando os vários caminhos possíveis na rede, aumentando a robustez do sistema.

Ontem, uma âncora de navio rompeu dois cabos óticos no Mediterrâneo, próximo a Alexandria.  Como resultado, boa parte do Oriente Médio e do sul da Ásia ficaram sem acesso à Internet.  O Cairo sofreu um apagão geral, e o tráfego na Índia teve entre 50 a 60% de redução de capacidade.  Segundo a Salon, trata-se de um cabo que vai de Alexandria, no Egito, até Palermo, Itália, ligando Europa e Oriente Médio.

O reparo pode demorar até dois dias, porque é preciso enviar navios, achar o cabo, suspendê-lo e consertá-lo, o que evidentemente não é como trocar uma lâmpada.

A reportagem lembre que em 2006  algo semelhante ocorreu na Ásia, quando um terremoto destruiu cabos submarinos próximos a Taiwan.

Tio Rei tem um post tão anaeróbico, hoje, que só pode ser lido de escafandro:

OS NÚMEROS DA VIOLÊNCIA E POR QUE AS ESQUERDAS FAZEM MAL AO PAÍS

Caros,
O texto que vai abaixo é longo, bem longo, mas está, a meu juízo, entre os mais importantes que escrevi neste blog. Passem-no adiante, divulguem-no, façam panfletagem se necessário. Uma grande trapaça política, intelectual e moral está em curso. Denunciemo-la.

Deu pra sentir o drama, né?

Lá vai ele:

O que eles dizem
A Folha foi ouvir especialistas. A USP tem um tal Núcleo de Estudos da Violência (NEV). Jamais o vi reconhecer a eficiência da Polícia paulista. Leiam o que disse ao jornal o pesquisador do NEV Marcelo Batista Nery: “Se você perguntar para o poder público, ele vai dizer que foram as suas intervenções, como o policiamento; outros vão dizer que foram as ações das ONGs, que melhoraram as inter-relações sociais entre as pessoas. Para mim, foi tudo isso junto”. Uma pinóia, meu senhor! Acima, eu exibi dados. E não sou “pesquisador”. Quais são os seus sobre a efetividade do trabalho das “ONGs” para reduzir a violência? Quais trabalhos? Quais organizações? Onde estão os números? (…)

Agora leiam o que diz Paula Miraglia, diretora-executiva do Ilanud, órgão da ONU (aquela entidade de petralhas globais) sobre delitos e tratamento do delinqüente: “Não há uma causa única para essa queda expressiva. Há uma tendência clara de queda em São Paulo desde 1999. Até agora, nenhum trabalho deu uma resposta conclusiva para esse fato”. Não deu porque a moça não quer. Porque as esquerdas adoram odiar a Polícia.

Aí Tio Rei apresenta os números:

A taxa de homicídios na cidade e no estado de São Paulo vem caindo de forma continuada e sustentada desde 1999 (tabela aqui). “Qual será o segredo?”, perguntam-se os especialistas. Eu tenho uma explicação objetiva, material, aritmética:
– São Paulo tem 40% dos presos do país — não prende demais, não; os outros é que prendem de menos;
– Existem 227,63 presos por 100 mil habitantes no Brasil; em São Paulo essa relação salta para 341,98 por 100 mil habitantes;
– Em 2001, o estado de São Paulo tinha 67.649 presos; em 2006, eles eram 143.310 — mais do que o dobro.
– Entre 1996 e 2006 (ano do levantamento divulgado ontem), o número de presos aumentou 10 vezes;
– Até julho de 2006, haviam ingressado no sistema prisional do estado 4.832 pessoas — 800 por mês ou um preso por hora.

Só eu tenho esses números. Não! São públicos. Todo mundo tem.

E é assim que Tio Rei se transforma na prova viva de que embora todo mundo possa “ter os números”, isso não quer dizer que os entenda. Então, lá vamos nós.

taxamediadehomicidios.jpg

Esse aí é o mapa da taxa de homicídios, por município. Quem olha o mapa, entende que um dos motivos pelos quais São Paulo está tão atrás dos demais municípios em termos de homicídios é porque um grande número de municípios violentos são também aqueles “de fronteira”, onde conflitos fundiários e a ausência do Estado propiciam um clima de faroeste. E, bem, São Paulo deixou de ser fronteira há muito tempo.

A tabela a seguir mostra a evolução dos homicídios por armas de fogo em alguns municípios (e conjuntos de municípios) selecionados:

obitosporarmadefogo.jpg

O que se vê é que realmente o número de óbitos por arma de fogo caiu muito em São Paulo, de 2002 para cá. Na verdade, se tirarmos o estado de São Paulo da amostra, a taxa total até sobe. Mas a coisa não é linear. Por exemplo, o estado do Rio de Janeiro _ logo quem _ teve uma redução bastante pronunciada dos óbitos por arma de fogo, também.

O quê explica isso? Poderíamos pensar que é o crescimento econômico. Vamos ver.

A tabela a seguir mostra a evolução do PIB por estado entre os anos de 2002 e 2005:

pibdosestados.jpg

Pois é. Como vemos, o desempenho de São Paulo, em termos relativos, não é lá dos melhores, com o Rio de Janeiro apenas ligeiramente melhor. E curiosamente alguns dos estados com municípios mais violentos são também estados com crescimento econômico pujante nesse período, como é o caso do Mato Grosso e de Rondônia.

Finalmente, a tabela a seguir mostra a distribuição dos recursos do Bolsa Família, por estado:

bolsafamilia.jpg

Como vemos, São Paulo é o terceiro maior receptor. Mato Grosso e Rondônia estão lá no fim da fila.

***

Para chegar a alguma conclusão mais sólida, seria preciso muito mais sistematização dos dados, e alguns cálculos mais sofisticados do que simplesmente tabelar números. Essa conclusão é monótona, mas é precisamente aquela a que quero chegar: Tio Rei pega uns números e acha que eles confirmam a sua teoria, sem mostrar nenhuma preocupação com outras variáveis que podem estar impactando o resultado final.

Eu, particularmente, sou da opinião de que MESMO que fosse possível demonstrar inequivocamente a redução da criminalidade em São Paulo pela expansão da população carcerária, não deveríamos basear nossa estratégia de segurança pública na paulatina transformação do país em um Estado de apartheid radical (que é o que o sistema prisional termina sendo). Existem muitas formas de chegar a certos resultados, e algumas delas são mais aceitáveis que outras. Da minha parte continuo me espantando com os conservadores anaeróbicos que acham que o direito à vida começa na concepção e acaba no nascimento.

Lá no Torre de Marfim, uma crítica ao pessimismo:

O profeta do caos

“The US has already entered into a recession and this recession will be much uglier than the mild recessions of 1990-91 and 2001 as a shopped out, saving less and debt burdened consumer is on the ropes and faltering.

The world will not decouple from the US hard landing; there will be significant recoupling and a sharp global economic slowdown. When the US sneezes the rest of the world catches the cold; and today the US will not experience just a simple common cold but rather a protracted and severe case of pneumonia; thus, the real and financial contagion to other economies will be severe.

Whatever the Fed does now is too little too late; the Fed had a wrong diagnosis of the economy and was behind the curve for over a year. The Fed claimed that the housing slump would bottom out a year ago; instead we have the worst housing recession in US history still getting much worse now.”

As palavras são de Nouriel Roubini*, economista da Universidade de Nova York e criador do RGE Monitor. Roubini vive os seus momentos de glória. Nos últimos anos, enquanto a maioria dos analistas mantinha o otimismo em relação às perspectivas da economia global, Roubini foi um dos poucos, ao lado de Stephen Roach, a traçar quadros pessimistas. Errou o timing da crise, mas pode hoje cantar vitória. Ele vinha alertando há muito tempo para os riscos da bolha imobiliária americana, assim como para o déficit das contas externas dos EUA.

Roubini decidiu dobrar a aposta. Não basta ter acertado que haveria uma crise séria. Ele tem que dizer que não haverá apenas uma recessão, mas uma recessão severa. O descolamento do resto do mundo dos EUA é bobagem. A economia global passará por uma forte desaceleração. Tudo o que o Fed fizer será insuficiente, e será tarde demais. Você acha que o negócio está ruim? Vai piorar muito antes de melhorar.

Eu discuti o apocalipse de Roubini com um economista que admiro. Ele não compra o cenário apocalíptico. Acha que Roubini está aproveitando a onda como profeta do caos. Lembra que ele tem previsto uma recessão nos últimos 10 anos – uma hora ele tinha acertar. “Minha impressão é que, agora que tirou a sorte grande, ele quer quebrar a banca”.

***

Vá lá que seja. O Roubini até tem direito a ser pessimista: afinal, ele é um judeu que nasceu no Irã.

Porém, em um mundo onde o segundo maior banco de um país desenvolvido tem controles internos que possibilitam que ele perca mais de 7 bilhões de dólares nas mãos de um trader médio, cuja “genial” fraude consistia apenas em inventar operações inexistentes que enganavam o sistema do banco _ bem, em um mundo assim não há mesmo muitas razões para otimismo. Pior: não foi a primeira vez. E nem será a última.

***

E há razões mais fortes para o pessimismo. Já devia estar claro a esta altura, mesmo para as cacholas mais duras, que a mágica do mercado só funciona dentro de determinados limites, limites estes postos por instituições. Isso, de fato, não é nada de mais e economistas velhos de guerra já sabiam, de longa data, que até mesmo os direitos de propriedade são uma invenção, uma convenção social. O diabo, porém, é quando o mercado é deixado a deriva para se virar. E isso não acontece à toa, acontece por construção.

Enters OIRA.

OIRA é a sigla para o Office of Information and Regulatory Affairs, um órgão do governo americano ligado ao Office of Management and Budget, o qual, por sua vez, está dentro da estrutura da Casa Branca. O OIRA foi criado por Ronald Reagan, inicialmente para administrar um programa de redução da burocracia (“paperwork“). Aos poucos, porém, o OIRA foi ganhando poderes especiais através de uma série de decretos presidenciais (alguns deles expedidos por Bill Clinton), e hoje atua como um “watchdog” das agências reguladoras norte-americanas (exceto as criadas pelo Legislativo, como a FCC e a FTC, por exemplo). Por longo tempo avolumam-se as críticas de que a OIRA, sob a hegemonia republicana, converteu-se de algo relativamente benigno em uma forma criativa de desmantelar o Estado. O processo chegou a um paroxismo em 2007, mas o processo foi paralisado pelo novo congresso democrata, como narra o The Gravel, o blog de Nancy Pelosi na condição de “speaker” da Câmara dos Deputados:

House Committee on Science and Technology Investigations and Oversight Subcommittee Chairman Brad Miller (D-NC) and Chair of the Subcommittee on Commercial and Administrative Law Linda Sanchez (D-CA) introduced an amendment which would prohibit the White House Office of Management (OMB) including OIRA from using funds appropriated in this year’s Financial Services Appropriations Act to implement Executive Order 13422.

This action follows two oversight hearings held by Chairman Miller which concluded that under the Bush order, political appointees would be able to dictate health and safety decisions at federal agencies out of the shadows, even if impartial scientific experts decided otherwise. The Subcommittee concluded the Executive order was another avenue for special interests to slow down and prevent agencies from protecting the public.

“This amendment stops the provisions of the order that flagrantly claim for the President the power to rewrite almost every law Congress passes without answering to Congress or the American people,” said Chairman Miller.

The new executive order revised the rules for federal agencies to use a standard of “market failure,” which means determining whether private markets can correct a social problem like pollution on their own, before deciding if government should step in. A Bush political appointee in each agency would be empowered to stop agencies from even beginning a move towards regulation.

“Under the Bush order, political appointees could have overruled the professionals at each agency in secret with no accountability to anyone,” said Chairman Miller. “Public safety decisions are supposed to be made in the open, not in closed rooms on the basis of improper political considerations.”

Nesse vídeo, uma discussão sobre o decreto contra o qual os democratas se rebelaram:

Em particular, a OIRA, conjuntamente com o OMB, é responsável por elaborar o Plano Regulatório dos EUA, um documento que estabelece as prioridades para a regulação dos mercados naquele país. Desnecessário é dizer que nos últimos anos o Plano Regulatório perseguiu uma agenda de DESregulação. Eis o que diz o Plano Regulatório de 2003 sobre a questão das hipotecas:

Strengthening Economic Performance

One of the Administration’s primary goals is to strengthen the country’s economic performance. Agencies across the Federal Government are actively pursuing this goal through regulatory changes.The Department of Housing and Urban Development is undertaking rulemakings on simplifying and improving the process of obtaining mortgages to reduce settlement costs to consumers. The rule simplifies the mortgage application process and allows a greater understanding of the upfront and long-term costs of a mortgage. The rule should strengthen market competition among mortgage providers and ultimately lower costs to consumers.

Bem, não que tenha havido falta de aviso.

Elizabeth Warren é uma professora de Direito em Harvard que há tempos se bate por um arcabouço regulatório mais eficaz e abrangente, não só para as hipotecas, como também para cartões de crédito. Eis aqui seu “manifesto” (é preciso registrar-se para ler; eu o transcrevi abaixo do fold), e aqui, um bom post do Felix Salmon sobre o assunto.

***

Enquanto isso, no Financial Times

Corporate America braced for recession

Leading US companies are shifting into recession mode and preparing to cut costs, freeze hiring and reduce capital spending as they brace for an economic slowdown, senior executives and industry experts said.

Their concerns are likely to be reinforced by the International Monetary Fund, which slashed its forecast for US growth and warned that no country would be completely immune from what it termed a “global slowdown”.

Separately, a US study due out today shows that chief financial officers’ views of the economy are the most pessimistic in nearly four years.

Business leaders say rising oil prices, sagging consumer confidence and the on-going credit crunch are prompting them to put in place contingency plans to protect against the expected economic downturn.

E o pior é que a senha está dada: se você é pessimista, é porque você quer “aproveitar a onda como profeta do caos”. E ainda é capaz de ser acusado de causar a recessão, com seu pessimismo contagiante agindo como aquele grão de areia na ostra, gerando a pérola da self-fullfilling prophecy
Continue lendo »

Pois é.

Fui lá no blog do Ordem Livre, babando, esfregando as mãos, pronto para escrever mais um post sob a bandeira tremulante da tag “Fire at Will”, que nem Nelson em Trafalgar. Dei com os burros n´água.

Encontrei este post tremendamente interessante do…Pedro Sette Câmara. Tá bom, o que é mais interessante mesmo é o assunto, mas nem por isso posso deixar de concordar inteiramente com Seu Sette. O tema: o site de Paulo Coelho onde ele “pirateia” suas próprias obras, o Pirate Coelho. Diz o Pedro:

Sempre que leio algum debate sobre copyrights, tenho a impressão de estar vendo uma batalha entre um modelo de negócios que não aceita sua morte iminente, um modelo em que o provedor de conteúdo tem o controle absoluto, e uma nova geração que já se acostumou a ter controle total sobre a informação que recebe e que está à espera de um novo modelo de negócios. Não se trata, como demonstram os fãs de Paulo Coelho, de uma geração que deseja tudo de graça: se você, como já dizia Ludwig von Mises, atender às expectativas dos consumidores, eles alegremente pagarão por seus produtos e serviços.

Não há dúvida de que em certa medida a distribuição on-line está a favor do próprio escritor. Aliás, anos atrás o Slashdot pariu um post sobre a experiência online de Stephen King que reproduz exatamente a lição ensinada por Paulo Coelho.

Não que isto seja novidade.  Os traficantes já descobriram há muito tempo que dar um pozinho de graça para criar o interesse em futuros clientes é uma “estratégia vencedora”, e antes deles os feirantes já faziam a mesma coisa.

E hoje muitos escritores fazem o mesmo _ e nem todos eles se chamam Biajoni.

A rigor, a estratégia tem nome, embora ele seja pouco conhecido fora de círculos especializados em marketing ou organização industrial:  loss-leader.

Raramente vou lá no FYI sem encontrar um motivo para sorrir.  Como tive que ir lá para escrever o post abaixo, encontrei esta pérola:

Pior inverno em 50 anos isola centro econômico na China

Snow slams China; half million stranded at train station

Bem, a maioria dos blogs e sites que discutem aquecimento global a sério já montaram FAQ’s para lidar com estes casos de “serial denying“.

O Grist tem um especialmente bom, que dá esta resposta ao tipo de argumento pouco sofisticado que o Paulo apresenta:

(Part of the How to Talk to a Global Warming Skeptic guide)

Objection: It was way colder than normal today in Wagga Wagga, proof that there is no global warming.

Does this even deserve an answer? If we must …

Answer: The chaotic nature of weather means that no conclusion about climate can ever be drawn from a single data point, hot or cold. The temperature of one place at one time is just weather, and says nothing about climate, much less climate change, much less global climate change.
 Pois é.

Paulo veio aqui e disse, a respeito do post anterior:

Spertao

First of all, a tag cloud do technorati eh diferente da tag cloud do wordpress. Va la e veja a minha pelo technorati e vera que capitalismo, economia e miscellaneous sao tao promenientes quanto left-wing e Brazil.

Segundo, olha como vc labeled o post sobre meu blog:
“Business, as delícias do mercado”

Se vc tivesse um label right-wing e marcasse todos os posts (incluindo do Reinaldo) com essa tag seria sem duvida sua maior.

***

Certo.

Eu posso estar louco, mas a tag cloud do blog do Paulo no Technorati que eu estou vendo é esta:

fyitagcloudtechnorati.jpg

Onde, de fato, as tagsBrazil” e “left-wing” continuam aparecendo com maior destaque _ talvez um pouco menos do que no WordPress, mas isso se deve ao fato de que o tamanho de fontes na tag cloud do wordpress é customizável, e o do Technorati, não.

Paulo se esquece do fato de que o post dele que suscitou minha resposta fala sobre…negócios e mercado. Natural que eu apusesse estas tags no meu post, portanto.

Finalmente, que eu saiba jamais jurei sobre a caveira dos meus antepassados que a razão de ser deste blog _ “navegar no oceano dos sentidos” _ não passasse também pela crítica às tontices anaeróbicas. Nem firmei o compromisso de não comentar posts alheios, nem de nunca mais permitir comentários, etc. Além disso, minha tag mais frequente _ “the world out there” _ tem tudo a ver com a minha navegação semântica.

Eu resto o meu caso.

hermetagcloud.jpg

Hummm.

Essa aí é a tag cloud do Hermenauta no Technorati.

Não é lá grandes coisas, mas pelo menos ela não delata um comportamento absolutamente contrário àquele que o blogueiro gosta de proclamar.

buscasnoherme.jpg

Embora “carla bruni naked” ainda seja disparadamente o termo mais utilizado por quem chega a este blog através de um motor de busca, vemos que começa a haver uma diversificação, ao menos em termos de quantidade.

Já a qualidade desta diversificação talvez deixe a desejar.   Nem imagino que tipo de mente _ mente não, mentes, pois foram dois _ doentia chega ao Hermenauta procurando por “Rudy Giuliani travesti“.  E eu não quero nem saber se esse doente foi a mesma pessoa que buscou por “borehole packers” por aqui.

Para não falar do sujeito à procura de um tal “John Barba”.  Eu, hein!

Deu no Estadão:

Impostos 157% maiores

Carga sobre paulistano fica 120% acima da inflação

Marcos Burghi, marcos.burghi@grupoestado.com.br

Cada morador da Capital pagou em média, no ano passado, o equivalente a R$ 1.918,95 em tributos municipais, como Imposto Predial Territorial Urbano(IPTU) e Imposto sobre Serviços(ISS), entre outros, um valor 157,91% maior que os R$ 744,02 registrados em 2000. Os dados são do Impostômetro, painel instalado na região central da Cidade, numa parceria da Associação Comercial do Estado com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) que simula o quanto os contribuintes pagam aos cofres públicos de municípios, Estados e União em impostos, taxas e contribuições. No período, a inflação foi de 72%.

E no resto do estado de São Paulo?

Impostos estaduais

Ainda de acordo com os dados do Impostômetro, em relação aos impostos estaduais, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e o Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), cada contribuinte do Estado pagou, em média, em 2007,

R$ 1.835,82, valor 117% maior que o desembolsado em 2000. Para o advogado tributarista Gilberto do Amaral, presidente do IBPT, esses e outros aumentos dos gastos com tributos são reflexos da elevação na carga tributária. Em 2000, afirma ele, a arrecadação representava 30,7% do Produto Interno Bruto (PIB), e o resultado de 2007 deve chegar perto dos 36%. No mesmo período, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 71,96%.

O que dizem os responsáveis?

Procurados pela reportagem do Jornal da Tarde , Prefeitura e governo do Estado informaram, por meio de suas assessorias de imprensas, que não falariam sobre o assunto.

Estou ansioso para saber o que o “reservoir dog” da Veja acha disso.

Serão as baleias mais inteligentes que os humanos?

Of Whales and Men

Call me Ishmael for making conjectures unflattering to humankind, but could Moby Dick have been smarter than captain Ahab? Melville certainly seemed to think so. Moby clipped off one of the captain’s legs and then, years later, in a brilliant move of cetacean jujitsu, drowned poor Ahab by towing him into the abyss by the harpoon rope tangled around Ahab’s remaining leg. “From Hell’s heart I stab at thee!” Gulp.

We humans pride ourselves on our big brains. We never seem to tire of bragging about how our supreme intelligence empowers us to lord over all other animals on the planet. Yet the biological facts don’t quite square with Homo sapiens’ arrogance. The fact is, people do not have the largest brains on the planet, either in absolute size or in proportion to body size. Whales, not people, have the biggest brains of any animal on earth.

Just how smart are whales? Why do they have such big brains? Bigger is not always better; maybe the inflated whale brain is not very sophisticated on a cellular level. We’re closer to answering such questions now, for a couple of recent papers address them squarely. What they find is helping separate fact from fiction.” (artigo integral aqui)

***

Frase preferida no artigo (alusões teleológicas divertidas são permitidas entre darwinistas adultos consentidos):

Dramatic transformations in physiology and body structure were required to realize the hippo’s dream of roaming supreme in the ocean.

***

E isto aqui é interessante:

Mark Fisher é um artista californiano com uma paixão por “arte acústica”. Ele tem um site (e também um blog) dedicado a isso. Eis o que ele diz em seu primeiro post, em 2005:

I do pictures of sounds. For the last five years, pictures of the sounds of whales. Now I’m doing music videos, pictures of the sound of music. And pictures of people’s voices. And pictures of the songs of birds, and so on.

Como ele mesmo diz, uma das vertentes do seu trabalho é digitalizar sons de cetáceos e trabalhar na sua representação visual, visando chegar a efeitos estéticos interessantes. E também _ é aí que reside o maior interesse _ altamente complexos.

Diz Mark, sobre o seu trabalho com os sons de uma baleia azul:

Well, simply put, the higher I went in scale with this sound, the clearer the picture got. After analyzing thousands of sounds, I can state categorically that this is a very unusual thing to do. Typically as you went up in scale the image of a sound eventually faded to noise– but the image of the sound of a Blue whale just became more clear! It was puzzling.

Um exemplo de representação visual dos sons da baleia azul:

(a lista completa está aqui)

***

A major difficulty in comparing the intelligence of man with that of dolphins is the fact that we have evolved into two such different environments. The so-called “environment factor”, which makes comparisons between even different ethnic groups of men extremely difficult, becomes almost an impenetrable barrier when comparing men and dolphins.

_ Horace Dobbs in Follow A Wild Dolphin

Sempre gostei da frase de William Churchill segundo a qual “os impérios do futuro serão impérios da mente“. A pergunta é: será que os cetáceos, vivendo em um ambiente tão diferente e não possuindo órgãos manipuladores, possuem uma vida inteligente (ainda que bastante diferente da nossa inteligência), mas puramente mental? Roedy Green, autor de Follow A Wild Dolphin, tem alguns palpites:

I once asked Dr. John Lilly what he thought dolphins did with their large fore-brains. “Something else“ he replied. I asked if there was any way I could get an inkling of what that “something else” was. He said “Yes, swim with them”. I did. It was “something else”. until you have had that experience you are like a child pontificating on sex.

Sheldon The Dog Judges My Intelligence

Imagine my beagle/greyhound cross Sheldon (now deceased) trying to judge my intelligence. He would note that I had no ability to remember where bones were buried. He would note I was totally incapable of even detecting when a human or canine female was in heat, even when I was in the same room. I could not jump anywhere near as high as he, or run as fast. He would have no understanding of or appreciation for the long hours I put in front of the computer. He would consider me a pretty pathetic excuse for a creature, were it not for my uncanny ability to beg dog food from the supermarket lady.

Speculation: When you judge whale intelligence by human standards you are doing the same thing.

Como não podemos entrar na mente de uma baleia, os pesquisadores começaram então a estudar o cérebro dos cetáceos ao nível micro, celular. Eis o que acharam:

The researchers’ cellular census revealed that the total number of neocortical neurons in the Minke whale was 12.8 billion. This is 13 times that of the rhesus monkey and 500 times more than rats, but only 2/3 that of the human neocortex.

What can account for the fact that whales have bigger brains — and similarly thick neocortexes — but fewer neurons? Eriksen and Pakkenberg found that there were 98.2 billion non-neuronal cells, called glia, in the Minke whale neocortex. This is the highest number of glial cells in neocortex seen in any mammal studied to date. The ratio of neocortical glial cells to neocortical neurons is 7.7 to 1 in Minke whales and only 1.4 to 1 in humans. This finding may indicate a tendency for larger glia/neuron ratios as brain mass increases to support the growing neurons. But when one considers other recent research revealing that glia play an important role in information processing (see “The Other Half of the Brain,” fromn Sci. Am. April 2004), one is left to wonder. Is the whale brain intellectually weaker than the human brain, or just different? They have fewer neurons but more glia, and in traditional views of the glia, the neurons count for much more. But if glia process information too, does the different ratio in Minke whales mean they think not more weakly but just much differently?

Talvez estudos mais aprofundados, usando ressonância magnética funcional, trouxessem mais luz a esse debate. Como certamente deve ser meio difícil colocar um cetáceo dentro de um aparelho de ressonância magnética, provavelmente isso vai demorar, a menos que você tenha montanhas de dinheiro. Eu disse montanhas de dinheiro?

Enters the Space and Naval Warfare Systems Center, um pessoal que sabe como gastar:

Functional Imaging of Dolphin Brain Metabolism and Blood Flow

25 MAY 2006Abstract : This report documents the first use of magnetic resonance images (MRls) of living dolphins to register functional brain scans, allowing for the exploration of potential mechanisms of unihemispheric sleep. Diazepam has been shown to induce unihemispheric slow waves (USW), therefore we used functional imaging of dolphins with and without diazepam to observe hemispheric differences in brain metabolism and blood flow. MRIs were used to register functional brain scans with single photon emission computed tomography (SPECT) and positron emission tomography (PET) in trained dolphins. Scans using SPECT revealed unihemispheric blood flow reduction following diazepam doses greater than 0.55mg kg-I for these 180-200 kg animals. Scans using PET revealed hemispheric differences in brain glucose consumption when scans with and without diazepam were compared. The findings suggest that unihemispheric reduction in blood flow and glucose metabolism in the hemisphere showing USW are important features of unihemispheric sleep. Functional scans may also help to elucidate the degree of hemispheric laterality of sensory and motor systems as well as in neurotransmitter or molecular mechanisms of unihemispheric sleep in delphinoid cetaceans. The findings also demonstrate the potential value of functional scans to explore other aspects of dolphin brain physiology as well as pathology.

Infelizmente, a parte de publicações do site não vai além do ano de 1998. Um site que resume a pesquisa sobre as habilidades cognitivas dos cetáceos informa:

Research difficulties

Knowledge about the capabilities of the dolphin brain is limited because of major research difficulties. Research of cetacean behaviour in the wild is among the most expensive and difficult to carry out, owing to the nature of the environment they inhabit. There have therefore been relatively few scientific studies of dolphins in the wild, and most direct observations are anecdotal. Studies based on captive dolphins have limits, because it is not clear how natural their behaviour is under those conditions. In addition, the United States Navy has allegedly carried out a substantial amount of research which has not been put in the public domain. The US Navy does acknowledge that its dolphin programme has trained dolphins to search and tag mines and warn of divers approaching installations. Rumours circulate about less benign uses, but these are unsubstantiated.

***

Um dado interessante da morfologia cerebral dos golfinhos é que eles mostram um padrão de organização bastante diferente de outros mamíferos, e principalmente dos mamíferos que mostram um grau de complexidade cognitiva semelhante _ os primatas, incluindo nós mesmos. Um artigo de Lori Marino, uma pesquisadora de Emory University (hein? hein?) dedicada à cognição em cetáceos (é de sua autoria a pesquisa que determinou a presença de auto-consciência em golfinhos, usando espelhos e marcas corporais), resume:

The study of cetacean neocortex has been limited to a few species and a subset of neocortical areas. However, there is a certain combination of shared haracteristics that, despite variation across species, can be identified as distinctly cetacean. The cetacean brain has apparently exploited a highly conserved neocortical organizational scheme to evolve an extremely elaborated brain capable of complex cognitive processing. The maintenance of a conservative neocortical theme is thought to be due to the early divergence of cetaceans from other mammal lineages. The large cetacean neocortex represents a striking alternative to the forms of elaboration one sees in other large brains, such as those of primates. For this reason, the cetacean brain is uniquely valuable for revealing the wide range of structural and functional possibilities that the mammalian neocortex can express.” (grifo meu)

Isso é interessante, e me desperta reflexões exobiológicas.

A coisa está feia mesmo.

O Financial Times tem uma seção chamada “Ask the Expert”, onde os leitores podem fazer perguntas a profissionais sobre temas pré-selecionados.

O tema de hoje é: “Essa é a hora certa para fazer um MBA?

This month’s worldwide financial volatility has thrown the MBA business into turmoil. Over the past six months applications have been strong and job offers have been flowing in, but it is a brave business school dean who will predict that these trends will continue. Is this the right time to study for an MBA?

Considerando que a maré baixa é a hora certa para se preparar para a maré cheia, eu até diria que sim.  O problema é, em quê?

Ralações Internacionais.

Da grife Sergio Leo.  🙂

Tio Rei pirou de vez.

Primeiro, ele fez um post sobre a “intolerância dos tolerantes”. Trata-se de um straw man contra a intolerância autoritária daqueles que ele considera “de esquerda”, um libelo construído em cima de…um filme. Sim, o filme “O Último Jantar”, onde um grupo de “liberals” (esquerdistas à americana) chamam direitistas para jantar, discutem questões polêmicas com eles durante a refeição, os envenenam e enterram no quintal.

Bem, não é mesmo preciso ser um observador muito arguto para notar que Tio Rei atravessa a fronteira entre o real e o imaginário com grande facilidade. Mas agora, ao invocar uma obra de ficção como testemunha de acusação, acho que ele se superou.

***

Talvez percebendo a mancada, Tio Rei resolveu achar um exemplo mais concreto:

Há um episódio da intolerância dos tolerantes que ilustra à perfeição o que quero dizer. No dia 29 de setembro de 2003, o jornalista, poeta e tradutor Nelson Ascher escreveu um artigo sobre o pensamento de Edward Said, o polemista que se dizia refugiado palestino, radicado nos EUA, e que havia morrido dias antes. Ascher concentrou a sua crítica na obra mais famosa de Said: Orientalismo — basicamente, uma coleção de falsas evidências que atribui ao Ocidente a criação do “outro” oriental. Ascher foi duro, sim, mas jamais desrespeitoso. Leiam um trecho do texto (em azul). A íntegra está aqui (link aberto):

Seu “clássico” é uma diatribe confusa, desinformada e raivosa que se resume na aplicação a um caso particular da batida tese genérica de acordo com a qual intelectuais são, em sua maioria, lacaios da classe dominante.

Etc, etc. (note-se que o texto “duro, mas jamais desrespeitoso” de Ascher chama o texto do outro de “diatribe confusa, desinformada e raivosa” _ não bastasse o fato de ter sido escrita com o cadáver ainda quentinho). A “intolerância” detectada por Tio Rei foi o fato dos esquerdistas terem ido pegar Nelson Ascher de porrada na saída da Folha? Não. Foi o fato dele ser demitido da Folha? Não, ele trabalha lá até hoje. Foi o quê?

Ah, pra quê! A intolerância dos tolerantes aflorou com uma fúria rara. A malandragem dos “progressistas” se manifestou. Ascher é judeu — e, portanto, estaria proibido de pensar certas coisas só porque ELE ERA ELE — ou ainda: ele NÃO era ele. Deixava de existir como alguém com direito a uma voz e a um texto para ser um JUDEU. Como sujeito “coletivizado”, poderia ter escolhido, segundo a esquerdopatia, ser um PROGRESSISTA ou um REACIONÁRIO, um “judeu da turma do Said” ou um “judeu sionista”. Ascher era, assim, expropriado do seu direito de ser um indivíduo.

Resolveram contestá-lo com artigos, demonstrando, então, que estava errado ou era, vá lá, um sionista delirante? Não! Isso era muito pouco. Fez-se um abaixo-assinado. Sim, isto mesmo: 187 “personalidades”, entre acadêmicos, jornalistas e roqueiros, resolveram acusar Ascher de “racismo” e de se opor aos esforços para celebrar a paz entre palestinos e judeus.

É isso aí! Esses intolerantes safados perpetraram a indizível violência de ORGANIZAR UM ABAIXO ASSINADO contra as idéias de Ascher. Um absurdo.

Em tempo: ao contrário do que afirma Tio Rei, o manifesto que encima o abaixo assinado não contém uma mísera palavra sobre a etnia de Nelson Ascher.

***

Ser intolerante, para Reinaldo Azevedo, é alguém cometer o erro de acreditar em algo diferente do que ele acredita.

Nas últimas semanas, na esteira da crise das subprimes, vários analistas têm apontado dedos acusadores para os milionários esquemas de remuneração dos executivos das altas finanças.  Segundo os críticos, estes esquemas incentivam comportamentos de risco, voltados para o curto prazo.

Pois parece que também há problemas de incentivos errados entre os peixes pequenos.  No International Herald Tribune, uma matéria sobre Jerome Kerviel, o operador que detonou o segundo maior banco francês, nos informa que Kerviel parece ter feito o que fez apenas para aumentar seu prestígio como operador e aumentar o seu bônus anual _ as investigações até agora não parecem mostrar que ele tenha auferido algum lucro imediato a partir de suas arrojadas operações.

Kerviel ganhava €100,000, ou cerca de US$147,000, anuais.  E ganhou ano passado um bônus (um adicional de produtividade) de cerca de €1,500 _ a despeito de, segundo ele, ter ganho um bilhão e meio de euros para o Societé Generale no mesmo período.

É claro que 12.000 dólares mensais é um bom salário para os padrões brasileiros, mas não é de fato um salário extraordinário na França.  Principalmente porque Jerome vivia em um bairro da alta burguesia francesa e, embora sendo um tipo retraído e tímido, devia imaginar que merecia ter um padrão de vida mais adequado.

Abraçando a brisa com suas lágrimas,

límpida, junto ao mar, ela espera.

E o que espera ela? Que o grande céu líquido

se mova, constelações dispostas ao presságio,

ante suas retinas que inteiras se molham?

Que o doce hálito da miragem, desde

a fímbria do Ocidente, venha a sussurrar:

“Está vindo, está vindo…”, é o que ela espera?

Cerrando os olhos, talvez possa ler

os sinais salgados na própria face:

haverá, no sopro oceânico, mensagem?

Esse perfil se esfumando ao longe

é o fruto do trabalho dos seus dias.

Tudo que ela sabe está aqui, condensado

no instante: interrogar os deuses, o Deus,

perder-se. Para que se cumpra o milagre.

Na sua tapeçaria de algas, uma linha prateada

se desmancha no ponto exato

onde o céu se liquefaz:

os nautas lhe chamam “horizonte” .

***

A Dama Oculta.

People are always amazed by how much “free time” I have.
They’re also amazed that I don’t know who Ally McBeal is.
Frankly, I’m amazed that they can’t make the connection.

                                                                            — Robert Wenzlaff

k2yaurvrp4kn24q8v1uafss2_500.jpg

2223143541_d082f3a39f.jpg

Sleevefaces.

Um esclarecimento sobre o post “Califado Apostólico Romano de Olinda e Recife”:

Não estou convencido de que a distribuição gratuita da pílula do dia seguinte no Carnaval seja das melhores idéias que já atravessou as mentes do pessoal da saúde pública.  Pelo seguinte motivo: diferentemente da distribuição de camisinhas, ela realmente pode induzir a um aumento das DST’s, inclusive a AIDS.

Pelo seguinte mecanismo: é fato conhecido que, mesmo hoje, muitos homens se recusam a usar camisinha.  Uma jovem disposta a agradar esse homem poderá, então, anuir ao seu desejo, achando que pelo menos não correrá o risco de engravidar, graças à pilula do dia seguinte.  O que é verdade, mas não significa que ela não possa ser contaminada por uma DST _ coisa que a pílula, diferentemente da camisinha, não tem o poder de evitar.

Claro que em um mundo ideal, onde as pessoas já estivessem suficientemente conscientizadas sobre a necessidade de se proteger contra as DST’s, a distribuição das pílulas poderia de fato ser de alguma utilidade.  Duvido, porém, que seja este o caso do carnaval pernambucano.

Por outro lado, minhas razões para um certo ceticismo quanto à razoabilidade da medida nada têm a ver com os motivos, consideravelmente mais retrógrados, da Arquidiocese de Olinda e Recife para ir à justiça contra as Prefeituras.

No The Big Picture, uma discussão sobre otimismo ou pessimismo nos mercados financeiros.  O blogueiro comenta uma matéria do The Times crítica aos blogueiros tidos como “bearish”, pessimistas, baseada em um post chamado “Why are Financial Blogs so Bearish?” .  E então o blogueiro do BP se sai com esta:

That post reminds me of this The Daily Show exchange:   

Rob Corddry: How does one report the facts in an unbiased way when the facts themselves are biased?

Jon Stewart: I’m sorry, Rob, did you say the facts are biased?

Rob Corddry: That’s right Jon. From the names of our fallen soldiers to the gradual withdrawal of our allies to the growing insurgency, it’s become all too clear that facts in Iraq have an anti-Bush agenda.

É por essas e outras que eu amo blogs.

blococarnavalescodaarquidiocesederecife.jpg

Bloco carnavalesco da Arquidiocese de Olinda e Recife

Deu no Globo:

Pílula do dia seguinte gera crise entre Prefeitura de Recife e a igreja

RECIFE – Polêmica em Recife. A prefeitura da capital resiste à pressão da Igreja Católica e informa que vai manter a iniciativa de disponiblizar a pílula do dia seguinte para mulheres que tenham mantido relações sexuais durante o carnaval sem camisinha ou que tenham sofrido estupro. Duas prefeituras de Pernambuco vão distribuir o medicamento, mas a Pastoral de Saúde da Arquidiocese de Olinda e Recife considera a medida promíscua, quer vetá-la e promete ir até à justiça se as autoridades não desistirem da iniciativa. A Pastoral tem reunião programada para a tarde desta quarta-feira para voltar a discutir o assunto.

E mais:

– É uma decisão criminosa porque fere todos os princípios de defesa da vida e da sua concepção. A gente entende que a vida tem início a partir da fecundação. A prefeitura tem que orientar a população a não tomar esse caminho de cultura da morte – disse Vandson Holanda, da Pastoral da Saúde.

***

Acho que chega daquele discursinho safado de que a Igreja quer apenas orientar os seus fiés, tão caro a anaeróbicos carolas.  É evidente que a Arquidiocese de Olinda e Recife tem dificuldade de conviver com um Estado laico, que não aceita suas opiniões como ordem divina e natural das coisas.  A Arquidiocese de Olinda e Recife gostaria de ver triunfar a lei de Deus em Pernambuco, o que é a mesma coisa que dizer que ela gostaria de uma sharia só pra ela.

novocomplexopf.jpg

(clique para ampliar)

Hoje no Correio Braziliense, uma matéria sobre a nova sede da Polícia Federal.  A sede da autarquia deixará o prédio que hoje a abriga (conhecido em Brasília como o “Máscara Negra”, tristemente famoso no tempo do regime militar) e aportará em um novo complexo constituído por 4 torres de 17 andares.  A matéria não traz o quanto custará a novidade.

Bem, tudo bem, não serei eu a discutir que organizações como a PF precisam de fato de boas condições de trabalho, instalações condizentes, etc.  A reportagem diz que no complexo haverá um estande de tiro, salas de treinamento, academia de ginástica e musculação, aulas de defesa pessoal etc.

O que me deixou pasmo foi o seguinte.  As quatro torres terão nomes retirados da mitologia grega.  A primeira se chamará Athena, representando a sabedoria, e abrigará o gabinete do diretor geral e das demais diretorias.  A segunda, Ícaro, representará a ousadia e a coragem e será ocupada pela área-meio.  A terceira será batizada de Artemis, a deusa da caça, representando “a atitude incasável da perseguição criminal”, abrigará os departamentos operacionais.  Finalmente, a quarta torre abrigará as áreas de investigação e inteligência, e se chamará…Aquiles (sic).

O que mostra, penso, que o calcanhar de Aquiles da Polícia Federal continua sendo o seu departamento de criação.

fyitagcloud.jpg
Tag cloud do FYI

Sabem, o Paulo do FYI é um sujeito engraçado.

Em 2006 ele escreveu um post intitulado 5 coisas que eu não entendo onde um dos desentendimentos dele era o seguinte:

1 – Ateus (de blogueiros à cientistas) que se preocupam com qualquer religião.

Bem, isso é interessante.

O Paulo é um simpatizante do Objetivismo randiano e é declaradamente um right-winger (ainda que da variedade perna-de-pau). Mora nos EUA e tem um blog chamado For Your Information cuja razão de ser, segundo ele mesmo, é:

(…) just to list recent news/articles I’ve read for later reference. Another goal was to share those with whoever was interested. But that was it.

Nesse caso parece curioso que as tags que apareçam com maior destaque em sua tag cloud sejam, justamente, “Brazil” e “left-wing“. Isso me parece muito semelhante ao caso de um ateu que não pára de falar de religião.

Afinal, em setembro de 2006, por razões de “time management“, Paulo tomou as seguintes decisões:

Turn off comments: Most of the posts are not a question (for posts that are indeed questions I will enable it). I do try to find alternative point of views for all matters, but I noticed that the (few) people who actually respond a blog post are not interested in debate. They are interested in proving you wrong. That is a huge waste of time. More on that in a later post.
Write posts in English: I know this will alienate most of the people who come here, but at this point it seems like a good trade-off. I waste enormous amounts of time revising and “acentuando”.
Get less involved in other blog’s discussions: This is basically point 1 applied to other people’s sites.

Quem vê o blog dele hoje percebe que ele só conseguiu se manter (mais ou menos) fiel a uma dessas decisões. Vai ver ele ganhou mais tempo livre, sei lá. Mas eu sempre suspeitei que essas medidas foram apenas um ato preventivo para algo que estava por vir e que Paulo não conseguia suportar. Ele é assim, sabem.

***

Em seu último post ele tece algumas reflexões sobre a recente declaração de George Soros de que a atual crise seria a pior em 60 anos. Infiel à sua decisão de “get less involved in other blog’s discussions“, ele citou este post meu. Como um ateu que não consegue parar de falar em religião, o Paulo não consegue parar de criticar quem não compartilha de sua visão de mundo. Ótimo: acho isso muito humano. Quem sabe ele pare de se achar tão olímpico, doravante.

Na caixa de comentários do post que ele citou, ele mesmo chegou a comparar Soros a Fidel e Chavez, alcunhando-o, ainda, como uma das pessoas “mais declaradamente left-wing do mundo” (sic). Isso porque o homem mantém uma fundação de caráter intimamente popperiano chamada, claro, “Open Society”, e teve um papel importante na queda do muro, dando dinheiro a rodo para Lech Walesa e seu sindicato Solidariedade.

O problema do Paulo é que ele é realmente incapaz de análises que precisem de certa sofisticação. Claro, Paulo não gosta de Soros porque Soros não gosta de Bush. Mas há maneiras e maneiras de não gostar de alguém, e a razão pela qual Soros não gosta de Bush não é das mais esquerdistas possíveis, como se pode ver neste perfil do homem:

So why is he so upset with Bush? The answer is simple. Soros is angry not with Bush’s aims – of extending Pax Americana and making the world safe for global capitalists like himself – but with the crass and blundering way Bush is going about it. By making US ambitions so clear, the Bush gang has committed the cardinal sin of giving the game away. For years, Soros and his NGOs have gone about their work extending the boundaries of the “free world” so skilfully that hardly anyone noticed. Now a Texan redneck and a gang of overzealous neo-cons have blown it.

É a mesma falta de sofisticação que impede Paulo de ver o que Soros queria dizer quando afirmou que vivemos a pior crise em 60 anos. Paulo deixa claro e transparente que está pensando no curto prazo; pergunta-se qual o motivo de tanta preocupação, quando o crash de 87 deu um tombo maior no mercado do que o havido até agora, etc. Só que Soros não está olhando para o curto prazo. Ele está identificando uma mudança de estado de fase no capitalismo mundial, com o fim de uma era de crédito fácil em cima da bolha consumista americana e do poder do dólar (com as agências de rating, por exemplo, em pandarecos). E, bem, muita gente boa está nessa.

***

Gostaria de fechar com Paulo de 2008 comentando o Paulo de 2004. O Paulo de 2008 diz isso aqui, no mesmo post referido aí em cima:

It is somewhat ironic to remember that this whole subprime issue became polemic when congress a few years ago forced lenders to not “discriminate” against people with bad credit.

Já o Paulo de 2004 dizia o seguinte, em um post intitulado, vade retro, “o que falta na economia brasileira“:

Os EUA oferecem vários outros bons exemplos do que poderia ser feito. Poderia se criar um mercado secundário de hipotecas (é o que faz a empresa que trabalho por aqui, a segunda maior instituição financeira dos EUA)

Paulo poderia ser um pouquinho mais honesto, portanto, e reconhecer de vez que a origem da cagada foi mesmo a desregulamentação federal (cortesia do Great Old Party) , como por exemplo o fato de uma agência federal do governo Bush, a pedido dos bancos norte-americanos, ter resolvido proibir os estados de construírem legislação dificultando o desenvolvimento de um mercado secundário em cima de créditos podres.

Nessas horas é melhor parecer um Chicken Little do que cantar de galo e ir parar na panela.

Soylent Green passou hoje, no TCM, um canal na Sky. O nome em português é “No Mundo de 2020“. É o mesmo título com que o filme passou no cinema, no Brasil; na época _ o filme é de 73, deve ter estreado no Brasil em 73 ou74 _ eu ainda não tinha idade para ver (a Censura Federal não deixava) e portanto, embora eu conhecesse a história, realmente jamais havia visto o filme.

Eis a sinopse oferecida pela Sky:

No ano de 2022, a população da Terra vive em desespero. Alimentos naturais como frutas, vegetais e carne estão agora extintas. O planeta está superlotado e a cidade de Nova York está tomada por 40 milhões de pessoas famintas e miseráveis. A única forma de sobrevivência é a água, racionada, e uma comida misteriosa chamada Soylent.

Um detetive investiga o assassinato do presidente da companhia que fornece o Soylent. A verdade que ele descobre é perturbadora, e o caos na Terra aumenta quando vem à tona o ingrediente secreto do tal alimento.

***

Interessante como o filme, apesar de sua mensagem distópica, parece menos moderno em sua execução do que outras produções anteriores a ele, como por exemplo “Planeta dos Macacos”, que é de 1968 _ tanto em termos dos efeitos especiais como da própria condução da direção, os planos e tomadas, etc.

Em todo caso vale a pena ver. É uma relíquia da década de 70. Cacem-no no TCM, deve passar de novo.

A discussão continua; Rafael M treplicou no Idelber e no blog dele, eu respondi no Idelber e transcrevo aqui:

“Muito bons argumentos, Rafael M. Vamos lá:

a) Você foi ao ponto: no espírito da gestão moderna, esta é uma discussão que sem dúvida traz à baila o assunto “relação custo/benefício”. O próprio conceito de “custo/benefício” é um tanto controverso nas ciências sociais (menos, é claro, na Economia), mas vamos por agora adotar uma postura benevolente para com a técnica. Problema: entra aí o Princípio Precaucionário. Há muitas formas de enunciá-lo, mas a mais comum é esta: se existe uma ação, ou política, cuja adoção pode significar um dano irreparável à comunidade, o ônus da prova de que esse risco é inexistente está com os proponentes da ação e não com seus opositores.

O Princípio, é lógico, causa uma controvérsia por si só no mundo dos tomadores de decisão; por isso, por enquanto, a não ser que provocado, vou deixar a coisa nesse pé. Só aduzo que mesmo intelectuais públicos insuspeitos de “progressismo”, como o Juiz Richard Posner, tido com um dos criadores da law&economics, acham o seguinte:

Question: … Nothing in the Constitution does (or could) provide a guarantee of safety. I suspect that I am statistically much more at risk of being run over by a car than of being killed by a terrorist (even though I live within five miles of the White House). Should the government ban all automobiles to protect me?

Richard Posner: If your premise were correct, your conclusion would follow. But how do you know you’re at less risk of being killed by a terrorist than being run down by a car? The risk in the sense of probability of being killed by a nuclear bomb attack on Washington, a dirty-bomb attack, an attack using bioengineered smallpox virus, a sarin attack on the Washington Metro (do you ever take the metro?), etc., etc., cannot be quantified. That doesn’t mean it’s small. For all we know, it’s great. Better safe than sorry.”

“Better safe than sorry” é uma das leituras possíveis do princípio precaucionário (embora em seu livro Catastrophe:Risk and Evidence Posner não admita que usa o princípio, mas uma variante moderada que preserva o núcleo da análise custo/benefício _ apenas, com a “aversão ao risco” inteiramente assumida).

Bem, eu acho que sendo a raça humana uma espécie totalmente social e dependente da ação coordenada e da interação social para sobreviver enquanto espécie, qualquer tecnologia que altere radicalmente os termos da interação dentro dos grupamentos humanos pode ser equiparada a uma catástrofe. E nesse caso acho que o princípio precaucionário tem validade total.

b) Incidentalmente, acho que sua avaliação do custo do controle social da pesquisa está chutadíssimo para o alto. Ele seria, provavelmente, uma fração insignicante do próprio custo da pesquisa – até porque poderia se beneficiar de efeitos de escala.

c) Sua consulta ao Proquest foi prejudicada pelo fato de que poucos pesquisadores dignos de ser chamados assim submeteriam um projeto de pesquisa com o nome “Neuromarketing” a um agente financiador público (que é responsável pela maior parte da pesquisa básica e não-protegida ou secreta). Você teria muito mais êxito utilizando outros termos, tais como “neuroeconomics”. “Neuromarketing“, por exemplo, produz 325 hits no Google Scholar, contra 1490 de “Neuroeconomics“. Para não falarmos de outros termos que poderiam ser usados; “neural correlates” mais “moral reasoning” traz mais 189 resultados, por exemplo.”

268destaqque.jpg

Bondage, James Bondage

Uma explicação para o título do novo filme, a que me referi em outro post:

The crux of the story is the emotional phenomenon the Governor calls the Quantum of Solace, the smallest unit of human compassion that two people can have. As long as that compassion exists, people can survive, but when it is gone, when your partner no longer cares about your essential humanity, the relationship is over.

ResearchBlogging.

Um blog só para peer-reviewing:

About

Do you like to read about new developments in science and other fields? Are you tired of “science by press release”? Research Blogging is your place. Research Blogging allows readers to easily find blog posts about serious peer-reviewed research, instead of just news reports and press releases.

Deu no Globo:

Menina australiana troca de tipo sangüíneo após transplante de fígado

Uma garota australiana teve seu tipo sangüíneo alterado após um transplante de fígado, o que, segundo os médicos, é um caso inédito na literatura científica e poderá ajudar, no futuro, a combater a rejeição de órgãos transplantados.

Demi-Lee Brennan tinha 9 anos e estava seriamente doente, com falência do fígado, quando recebeu o transplante. Nove meses depois, os médicos descobriram que ela tinha trocado de tipo sangüíneo, e seu sistema imunológico agora era igual ao do doador do fígado que ela recebeu. Aparentemente, isso aconteceu depois que células-tronco de seu novo fígado migraram para sua medula óssea.(…)

O que não deixa de ser um tipo de vampirismo.

Tio Rei tem um post chamado “Um caso escandaloso de infiltração na Igreja Católica“. É um dos seus posts-denúncia, e no caso as vítimas são o CDD (a ONG “Católicas pelo Direito de Decidir”) e o ex-padre Nelson Tyski. O barraco é o seguinte: segundo Tio Rei, o CDD conseguiu inserir uma mensagem em um DVD da CNBB sobre a Campanha da Fraternidade deste ano. E embora segundo Reinaldo a campanha, intitulada “Fraternidade e Defesa da Vida”, seja anti-aborto, a mensagem (de cinco minutos) do CDD no DVD é pró-escolha.

O interessante é que ele faz uma escolha bastante criteriosa dos trechos do texto-base da Campanha (que ele defende) para colocar em seu post. São eles:

Lêem-se coisas como:
– Com o individualismo, o utilitarismo e o desenvolvimento científico, novas violações à vida não só são praticadas, mas consideradas lícitas e até desejáveis.
– A consciência tem cada vez mais dificuldade em perceber a distinção entre o bem e o mal .
– No aborto, uma nova vida torna-se sinal de desesperança. Na eutanásia, matar é visto como ato de amor.
– Quem defenderá a justiça e o bem comum quando não se tiver mais a noção do que é o bem e do que é o mal?

Ou ainda:
– Numa visão tecnicista em relação à vida sexual e afetiva, as técnicas contraceptivas definem as condutas sexuais:
– Para uns a liberdade sexual e o controle da natalidade acontecem com o uso de preservativos, o aborto, etc.
– Outros atribuem à propaganda e ao uso de tais métodos a desordem afetivo-sexual da atualidade.
– Nessa perspectiva, o problema fica reduzido à questão da informação e distribuição dos recursos contraceptivos.
– Para quem tem uma visão não-tecnicista, o problema reside na correta compreensão da relação entre afetividade e sexualidade. O problema central passa a ser o da educação para uma vida afetivo-sexual integral.

No que escolhe ignorar trechos como:

Em nossa sociedade, uma das principais estratégias de dominação é fazer com que não olhemos para nós mesmos com realismo.

O poder quer que pensemos que nossos desejos e necessidades são aqueles determinados pela mídia e repetidos pela maioria.

Desejo de felicidade: uma experiência unitária e apaixonada que engloba toda a realidade.

A dominação na sociedade burguesa procura fragmentar essa experiência unitária, pulverizando-a em necessidades particulares.

Dois contra-valores básicos:

Autonomia individualista.
Êxito individual.

Em função desses contra-valores, a pessoa tem uma dificuldade cada vez maior de olhar o outro, cultivar o afeto e a solidariedade.

Pessoas e coisas passam a ter valor apenas enquanto nos servem. Os outros passam a ser descartados quando não nos interessam mais.
A partir daí crescem outros contra-valores, como o consumismo, o materialismo, o imediatismo, etc.

Ele escolhe ignorá-los porque, evidentemente, se não o fizesse teria sérios problemas não só para compatibilizar sua fé livremercadista com sua fé religiosa ( já que, como “reservoir dog” da Veja, fica meio difícil para ele ter que admitir as últimas consequências do drive medieval da fé que pretende abraçar) como também para justificar seus ataques a um certo petismo que usa teses muito parecidas à da CNBB pró-vida.

Mas digrido. O que é realmente interessante é que lá pelo final do post Tio Rei dá um “furo de reportagem”:

As “católicas” do tal CDD não se meteram no vídeo à revelia, não. Segundo o que consta em um grupo de discussão que abriram no Yahoo, com troca pública de mensagens, elas foram convidadas a participar.

No dia 12 de setembro, Dulce escrevia:
Companheiras,
Em anexo o texto da CF 2008. O Nelson – da Verbo Filmes – quer nos incluir num vídeo que eles vão fazer sobre o tema da CF. Vou ligar para saber mais sobre o vídeo, qual vai ser o roteiro – se terá perguntas, quais, etc. e que condições teremos de acompanhara produção do mesmo para saber o que vai ser editado da nossa fala. Vou repassando estas conversas, certo?
Dulce

No dia 17 de setembro, outra mensagem:
Meninas,
Lembram que eu falei sobre a nossa participação num vídeo sobre a CF 2008 da Verbo Filmes ??? Pois é, o Nelson está solicitando quando podemos fazer isso. Isso deve levar no mínimo uma hora. Conversei com a Zeca e a Yury e elas acham que é importante CDD participar. Quem poderia dar um depoimento? Precisamos definir quem e ver a disponibilidade de tempo. O que acham?
Dulce

Quem é o “Nelson”? É o ex-padre Nelson Tyski. Ele deixou o sacerdócio e trabalha na Verbo Filmes, que, atenção!, pertence à Congregação do Verbo Divino — e, pois, à própria Igreja Católica. O trabalho de Bento 16 é bem mais árduo do que parece. E temo que ele, embora brilhante, esteja sendo lento e condescendente.

Ele teria sido mais honesto se dissesse qual a fonte real dessa informação. É o Mídia Sem Máscara que, por sua vez, chupou a história de um blog intitulado “O Possível e o Extraordinário“, de autoria de um certo Wagner Moura.

Coisa feia, Tio Rei, chupar matéria alheia sem dar o crédito.

***

Mas a coisa não pára aí.

Em seu post, Tio Rei vem com aquela desculpa de praxe do conservadorismo católico:

Pois bem. Ninguém é obrigado é ser católico. Todo indivíduo, nas democracias, têm o direito de decidir.

É a aquele velho papo para boi dormir de que o discurso retrógrado da Igreja se dirige apenas ao seu rebanho.

Mas vamos dar uma olhada mais de perto na presumida inocência dessa afirmação.

O autor do blog “O Possível e o Extraordinário” aparentemente é vinculado à Renovação Carismática. Ele é fã de uma estrela emergente desse movimento, o líder carismático Ironi Spuldaro. Em um post especial para Spuldaro, Wagner Moura afirma:

Ele enfrentou políticos. Ironi Spuldaro já declarou publicamente qual a alternativa para livrar o Brasil dos políticos corruptos.

Sabidamente um blogueiro curioso, fui checar o link pois gostaria de conhecer a receita de Spuldaro para livrar o Brasil de políticos corruptos. Eis a pista:

O Ministro da Saúde disse que o aborto é muito mais que questão de saúde, é uma questão de doença. Só que muito mais que cuidar dessa saúde, nós deveríamos abortar os políticos que enchem de corrupção o nosso país; abortar os traficantes que estão matando nossos filhos.

Ironi fez um apelo ao povo, convidando todo eleitor a ficar atento na hora de votar, seja para prefeito, deputado ou presidente. Todo cristão batizado, antes de votar, deve procurar saber se o seu candidato é contra ou a favor do aborto. “Se ele for a favor, você vai abortá-lo da carreira política”, completou o pregador.

Francamente: até aí tudo bem. O pastor está pregando para o seu rebanho, e desde que ele não esteja utilizando o neuromarketing, cada um segue as palavras que lhe convém. Porém o finalzinho do texto contém palavras um pouco mais ameaçadoras:

A marcha do exército de Cristo

No encerramento da primeira pregação, todo o povo se levantou e começou a marchar, como um grande exército, assim como o povo do Senhor que, no Antigo Testamento, marchava rumo à Terra Prometida.

Ao lado de Ironi, Kátia Roldi Zavaris, membro do Conselho Nacional da RCC, convidou todo esse exército a pisar sobre o mal, sobre a cabeça do inimigo, para que a promessa do Senhor se cumprisse na vida de cada um e, enfim, todos pudessem entrar na Terra Prometida, proclamando em oração: “eu tomo posse da Terra Prometida, da promessa do Pai, desta unção de Pentecostes que o Pai e o Filho derramaram em plenitude sobre nós”.

Dado que nós que não temos a dádiva de participar da Renovação Carismática não temos, por isso mesmo, chance de participar da definição de quem é o inimigo, suponho que somos fortes candidatos a ser classificados como tal. Isso significa que o fato de alguém “não ser obrigado a ser católico”, na mente dessas pessoas, está muito mais próximo de legitimar uma fatwa do que uma sociedade pluralista.

Devo confessar que desde o início dessa história, havia uma lembrancinha no fundo do meu cérebro martelando minha memória.

Pois agora tive um estalo.

Já há coisa de alguns anos, uns cinco para falar a verdade, tive conhecimento de um grupo do Rio de Janeiro que desenvolve pesquisas sobre emoções morais usando técnicas de ressonância magnética funcional (técnica que faz parte do ferramental da pesquisa do Zamora).  Trata-se da  Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental da Rede D’Or, um grupo hospitalar privado baseado no Rio, cujo Projeto BEM (sic), e seu fundador e coordenador é o Prof. Jorge Moll Neto.  E algumas das pesquisas do grupo são bem semelhantes às do Zamora, como o demonstra estre trecho de uma matéria que saiu na Veja em janeiro do ano passado:

Os estudos científicos modernos têm concentrado esforços na análise de questões bem mais intangíveis, como a psicopatia, distúrbio psiquiátrico de diagnóstico complexo. O psicopata não é um deficiente mental e tampouco sofre de alucinações ou problemas de identidade, como pode ocorrer com as vítimas da esquizofrenia. É um sujeito, muitas vezes, com inteligência acima da média. Pode ainda ser simpático e sedutor – e usar essas qualidades para mentir e enganar os outros. Embora no plano intelectual entenda perfeitamente a diferença entre o certo e o errado, o psicopata não é dotado de emoções morais: não tem arrependimento, culpa, piedade nem vergonha. É incapaz de nutrir qualquer empatia pelo próximo. “Para um psicopata, atirar em uma pessoa e jogar fora um copo plástico são atos muito parecidos”, diz o neurologista Ricardo de Oliveira-Souza, da Unirio. Oliveira-Souza e seu colega Jorge Moll – coordenador da Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental da Rede Labs D’Or, no Rio de Janeiro, e pesquisador dos Institutos Nacionais de Saúde, nos Estados Unidos – têm feito mapeamentos do cérebro de psicopatas com técnicas de ressonância magnética de alta resolução. Em comparação com uma pessoa normal, o psicopata mostra menor atividade cerebral em uma série de áreas envolvidas no julgamento moral. As causas dessas diferenças, porém, ainda são desconhecidas. Supõe-se que um componente genético esteja envolvido. Quanto aos componentes sociais que determinam o surgimento da psicopatia, os cientistas consideram que a ocorrência de abuso infantil, por exemplo, pode ter influência no distúrbio. “Seja na forma de espancamento, seja na de estupro, o abuso é um fator de risco para a psicopatia, embora, por si só, não possa causá-la”, afirma Oliveira-Souza. (grifo meu)

Também há outra matéria na Época sobre o mesmo assunto:

Oliveira vai compartilhar com colegas do mundo todo os resultados preliminares de seus estudos sobre o mapeamento das emoções no cérebro, realizado em parceria com o neurorradiologista Jorge Moll Neto. O trabalho é inédito e foi mostrado a ÉPOCA com exclusividade. Oliveira vai apresentar o conceito de ‘psicopata comunitário’, aquele indivíduo que pode não ser um serial killer, mas causa estrago por onde passa. ‘É gente que nunca foi presa, mas que tem muito em comum com os psicopatas mais perigosos, desde traços de comportamento até o funcionamento de circuitos cerebrais’, alerta. Podem estar nessa categoria tipos como o malandro golpista 171, o sujeito que não tem emprego e vive de rolo, aquele que cultiva amizades por interesse e descarta as pessoas depois de obter o que deseja, o sujeito que vive de explorar a tia velhinha, o executivo inescrupuloso que desfalca a firma. Este último, também conhecido como psicopata corporativo ou do colarinho-branco, será o tema da conferência, no Rio, de um dos maiores especialistas do mundo, o canadense Robert Hare.

(…)Nos últimos cinco anos, Oliveira e Moll avançaram nesse mapeamento. Os dois classificaram os principais tipos de agressividade encontrados em 279 pessoas com distúrbios neuropsiquiátricos. Por meio de um teste desenvolvido por Moll, batizado de Bateria de Emoções Morais (BEM), e com a tecnologia da ressonância magnética funcional, concluíram que o cérebro de alguns indivíduos responde de forma diferente da de uma pessoa normal quando levado a fazer julgamentos morais, que envolvem emoções sociais, como arrependimento, culpa e compaixão. Diferentes das emoções primárias, como o medo, que dividimos com os animais, as sociais são mais sofisticadas, exclusivas dos humanos – têm a ver com nossa interação com os outros. Os resultados preliminares do estudo sugerem que os psicopatas têm muito pouca pena ou culpa, dois alicerces da capacidade de cooperação humana. Mas sentem desprezo e desejo de vingança. ‘As imagens mostram que há pouca atividade nas estruturas cerebrais ligadas às emoções morais e às primárias e um aumento da atividade nos circuitos cognitivos. Ou seja: os psicopatas comunitários, assim como os clássicos, funcionam com muita razão e pouca emoção’, traduz Oliveira.” (grifo meu)

Ou seja, parece que a declaração do Milton Ribeiro sobre o Zamora lá no blog do Idelber _ de que “sua maior característica é a inata perspicácia para identificar o que causa escândalo” _ está coberta de razão, pois já tem gente fazendo mais ou menos a mesma coisa, só que sem chamar tanta atenção.

Lá no blog do Idelber há um comentarista, o Rafael M, que contestou a idéia de que a pesquisa sobre o Neuromarketing deveria ser sujeita a maior controle social, expressa por mim neste post (ele tem um post relacionado ao assunto no blog dele, intitulado “Leis judaicas e uma lembrança romana“). Deixei lá na thread um comentário em resposta que transformo em post aqui. Recomendo a leitura prévia do comentário do Rafael para se entender melhor este post, mas reproduzo meu comentário aqui para deixá-lo registrado, já que se trata de uma discussão muito boa e que tem muito a ver com o espírito deste blog.

Rafael M,

Em sendo eu o sujeito que fez a alusão ao Neuromarketing, acho que me cabe fazer a réplica.

No limite eu até acho que a pesquisa em Neuromarketing não deveria ser proibida, mas sua aplicação sim (mais sobre isso adiante). O problema é que há uma lembrança, não romana, mas grega, que me deixa cético quanto a isso: a caixa de Pandora. Se for preciso explicar essa metáfora, o que quero dizer é que certas tecnologias, depois de testadas e comprovadas, são muito difíceis de serem controladas.

Agora ao Neuromarketing propriamente. É difícil falar em abstrato sobre algo que ainda não existe, mas em seu discurso, julgo vislumbrar um problema de princípio. Deixe-me reproduzir o trecho:

Se se descobrisse um método infalível (que hoje não existe) para empurrar um produto para outra pessoa, logo haverá mil e uma empresas fazendo isso, acabando com a utilidade do método. O consumidor, bombardeado de mensagens mandando ele fazer isso e aquilo, muda a forma como toma decisões, jogando no lixo anos e anos de pesquisa em neuromarketing.

Claro, há muita gente boa que acha que a ambição do neuromarketing é ilusória ou inatingível. Mas suponhamos por um momento que não. Suponhamos que seja mesmo possível desenvolver técnicas persuasivas tão poderosas que uma pessoa desavisada _ ou pior, mesmo uma pessoa ciente do que está acontecendo _ seja completamente incapaz de resistir ao apelo.

Temos aí problemas de duas ordens:

a) Você, acertadamente, lembrou a questão das externalidades dessa pesquisa, chamando a atenção de que o processo geral poderia ser usado em muitas outras coisas benignas. Faltou lembrar que ele também poderia ser utilizado para muitas outras coisas malignas. Nem preciso lembrar o problema que uma ferramenta assim representaria na mão de um regime político inescrupuloso, por exemplo _ ou mesmo nas mãos de um candidato inescrupuloso. Então a equação custo/benefício tem que ser completada em todos os seus termos.

b) Mesmo desconsiderando os outros usos potencialmente malignos da tecnologia, sua caracterização das consequencias possíveis é muito incompleta. Porque uma pessoa submetida a este tipo de propaganda não ficaria na dúvida entre dois produtos: ele compraria os dois, três, quatro, até quebrar, ou assaltar alguém para poder comprá-los. O que quero dizer é que esta tecnologia geraria efeitos muito, muito piores do que os piores pesadelos de quem é contra as drogas, por exemplo.

Particularmente, fico aqui pensando nas consequencias legais. O Código de Defesa do Consumidor, por exemplo, em seu capítulo sobre propaganda, diz o seguinte:

Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal.

(…)

Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.

§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.

§ 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.

§ 3° Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço.

Dificilmente uma propaganda turbinada pelo neuromarketing deixaria de se enquadrar na categoria “propaganda enganosa” _ e de formas muito sutis e que demandariam um tremendo esforço interpretativo do Judiciário. Porque a enganosidade, no caso, não estaria no produto ou serviço comercializado, mas na indução feita ao consumidor de que ele precisa de alguma coisa da qual REALMENTE não precisa. O mais fantástico é que não é difícil imaginar formas de demonstrar isso cabal e cientificamente.

No Guardian, comentário acre sobre o título do novo filme de James Bond: “Quantum of Solace“.

Imaginem então o título em português.

deforestation.jpg

Leia isso:

Desmatamento na Amazônia cresce e pode ter chegado a 7.000 km² entre agosto e dezembro de 2007

BRASÍLIA – Pouco mais de um mês depois de anunciar a terceira queda anual consecutiva no índice de desmatamento da Amazônia, o governo voltou a registrar um aumento das derrubadas de florestas na região. Dados preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, entre agosto e dezembro de 2007, foram destruídos 3.235 quilômetros quadrados de florestas. No entanto, como os satélites só detectam cerca de 40% das derrubadas, o governo estima que o desmatamento no período tenha chegado aos 7.000 quilômetros quadrados.”

Agora leia isso:

Critique Mounts against Biofuels

By Charles Hawley in Berlin

The European Union has announced plans to increase the use of gas and diesel produced from plants. But the critique against biofuels is mounting. Many say they are even more harmful than conventional fossil fuels.

The images are enough to soothe one’s soul. Golden fields of grain stretching as far as the eye can see; bright yellow rapeseed flower blooming in the European countryside; drivers happily cruising down the autobahn, smiling in the knowledge that the biodiesel their car is burning does no harm to the environment.

But such a bucolic view of biofuels — gas and diesel made from plants — may soon become a thing of the past. The European Union on Wednesday unveiled a far-reaching plan (more…) aimed at cutting greenhouse gas emissions by 20 percent relative to 1990 and dramatically upping the share of renewable energies in the 27-member bloc’s energy mix. The scheme also calls for 10 percent of fuel used in transportation to be made up of biofuels. That last element, though, is becoming increasingly controversial — and environmental groups, this week, are leading an aggressive charge to put a stop to biofuels.

‘No Way to Make Them Viable’

“The biofuels route is a dead end,” Dr. Andrew Boswell, a Green Party councillor in England and author of a recent study on the harmful effects of biofuels, told SPIEGEL ONLINE. “They are going to create great damage to the environment and will also produce dramatic social problems in (tropical countries where many crops for biofuels are grown). There basically isn’t any way to make them viable.

Agora me diga quanto é 2+2.

Lá no Dissidência, o André Kenji acha que a vitória democrata nos EUA é menos garantida do que se imagina, dada a incapacidade dos candidatos democratas conseguirem seduzir o eleitor branco, homem, trabalhador.  Ele debita essa incapacidade, até certo ponto, ao fato de que nem Hillary nem Obama, os candidatos democratas favoritos, têm grande experiência no Poder Executivo, não tendo sido sequer governadores.

Deixei lá o seguinte comentário:

No Brasil, não temos um ex-governador na Presidência desde Collor em 1990 _ e olhe só no que deu aquela experiência.

Nos EUA, Bush pai não foi governador, mas teve 8 anos de vice com Reagan.  Antes dele, descontando Gerald Ford que foi presidente sem ser eleito já que era vice, teve Nixon, mas esse também foi vice.  E antes dele teve Lyndon Johnson, que ganhou contra Barry Goldwater na sua segunda presidência.

Quem não vota em Hillary por ela ter o sobrenome Clinton ou parecer vilã de desenho animado não votaria nela nem que ela tivesse sido governadora por toda a vida.  Ela está tentando vender a imagem de experiente por ter participado ativamente do governo do marido, o que é difícil de negar.  E acho que ela angaria mais facilmente o voto feminino por causa disso do que qualquer concorrente masculino angaria o voto masculino.

E, no meio da maior crise econômica em 60 anos, McCain vem a público dizer que não entende de economia

Não dou a vitória dela como certa, mas a parada é dura.

Cadê o Palatando??

O Idelber fez um post sobre a questão da pesquisa sobre as bases neurológicas e/ou genéticas da violência.  A discussão está boa lá.

blog.jpg

Zé Trindade, economista ortodoxo

Meus 3,5 jovens leitores devem desconhecer o personagem, mas existiu, em priscas eras, um comediante relativamente bem sucedido chamado Zé Trindade.  Entre outros bordões de sucesso, havia um que particularmente me marcou: quando acontecia alguma coisa extraordinária (por exemplo, quando passava uma boazuda), Zé Trindade exclamava: “O que é a Natureza!”.

Pois Zé Trindade hoje passaria por economista ortodoxo sem problemas.  Eis alguns trechos de uma reportagem do Valor de hoje, com Claudio Haddad, diretor-presidente do IBMEC de São Paulo:

“Crise atual é da natureza cíclica do capitalismo”

O diretor-presidente do Ibmec São Paulo, Cláudio Haddad, vê com naturalidade a crise que acomete a maior economia do planeta. Para o ortodoxo economista, é normal que os EUA enfrentem uma recessão depois de anos de “alta prosperidade”, em que preços de ativos muitas vezes sobem mais do que deveriam e se cometem exageros na concessão de crédito. “É da natureza cíclica do capitalismo, da economia de mercado”, afirma ele.

O mercado exagera e testa limites, é algo inerente à sua natureza.” Segundo ele, a cada crise aprende-se com os erros cometidos. “Sempre há lições para serem aprendidas em crises como essa” diz Haddad, que vê um crescimento menor para o Brasil neste ano, num cenário de forte desaceleração da economia global.

(…)
A ação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do governo Bush não estimula o chamado moral hazard (risco moral, a percepção de que as autoridades vão agir sempre que houver algum problema mais sério)? “Na prática, o moral hazard é um preço que tem que ser pago para evitar um mal maior.” Segundo Haddad, numa situação como a atual, não há como deixar quebrar apenas quem especulou erradamente. A crise se alastra por todo o sistema financeiro, atingindo a economia real. “Nesse quadro, é melhor salvar os especuladores junto com o resto da população do que punir os especuladores e levar junto o resto da população.

Ao contrário de muitos economistas, ele não demoniza as operações complexas envolvendo derivativos de crédito, que tiveram um papel importante no agravamento da atual crise. Haddad afirma que o contágio no sistema de crédito e no consumo americanos mais rápido desta vez por conta desses derivativos, mas lembra que eles tiveram um lado positivo: por meio deles, as pessoas conseguiram mais empréstimos e financiamentos e consumiram mais, incentivando a economia, assim como as empresas geraram mais empregos e aumentaram investimentos. “A parte financeira nunca está divorciada da economia real”, diz ele, ressaltando que é importante corrigir erros, como as avaliações inadequadas de risco feitas agências de rating e as falhas de supervisão cometidas pelos bancos centrais. “É a velha história da ganância versus medo. O mercado está sempre testando as fronteiras de risco, e isso é positivo.”(…).

***

Vamos ver se o Claudio Haddad é um analista econômico com “bias” ou não, como gosta de dizer o Paulo a respeito de gente que tem opiniões diferentes das dele.  Eis um trecho de um artigo da Maria da Conceição Tavares, de 1996, época em que se pedia uma CPI por causa do PROER:

O diretor do Banco Garantia, Cláudio Haddad (ex-diretor do Bacen), em recente matéria na Gazeta Mercantil (“Os bancos no olho do furacão”, em 29/03 p.p.), confessou ter “mixed feelings” sobre a CPI dos Bancos, que apoia como cidadão, mas sobre a qual tem dúvidas pragmáticas como banqueiro, a despeito de reconhecer que não haveria risco sistêmico. O seu medo é de atrasar as “reformas”, o que segundo ele seria ruim para o país.

O Haddad, como vemos, é cheio de mixed feelings, mas para um lado só.

O interessante é que ele reconhece que a taxa de risco aceitável é socialmente determinada.  Por exemplo, em uma entrevista para o Estadao, em 2006:

Em recente seminário, o sr. deu a entender que havia um conluio entre o sistema financeiro e o Banco Central (BC) para evitar a competição do setor.
O que eu quis dizer foi que há interesses convergentes entre as instituições financeiras e o BC no sentido de restringir a concorrência e a competição por novos produtos. Do lado do banco, evidentemente, quanto menos participantes no mercado, melhor. Para o BC, há duas motivações: uma é o controle, que sempre existe em se tratando de burocracia do governo, e o segundo é o receio legítimo do BC de que abrir muito o setor pode significar aumento do risco sistêmico. Junta-se a isso a lei 4595 (que criou o BC e regula todo o sistema financeiro nacional), que é restritiva por natureza.

Que tipo de restrição essa lei impõe ao setor?
Ela foi feita numa época em que o mundo estava muito fechado e havia muito controle. Não havia praticamente produtos com grau maior de risco. E o que essa lei faz é restringir muito a inovação porque qualquer coisa tem de ser registrada no BC. Não é como nos Estados Unidos, onde o banco lança um produto novo sem registrar no BC. Na Lei 4595, você só pode fazer o que é permitido. Ao contrário das leis normais, em que você não faz o que é proibido. É um conceito muito mais restritivo. Claro que a argumentação do BC é que isso poderia reduzir o risco sistêmico. Tem mais risco. Mas tem mais oportunidade e mais ganho potencial para a economia.

***

Como se vê, o que Haddad, “ortodoxo economista”,  diz sobre a crise não é muito diferente do diagnóstico do Soros, esse esquerdista do Foro de São Paulo, segundo o Paulo.  Felizmente, porque isso nos dá a esperança de que realmente vivemos em um mundo real, concreto, não-solipsista.   O “bias” há, é claro.  Mas se manifesta de formas diferentes.  Entre adultos consentidos, porém, o “bias” é permitido, já que se espera que eles sejam capazes de identificá-lo.

Meus 3,5 leitores hão de se lembrar que, quando rolou o papo do plebiscito pela reestatização da Vale, o Tio Hermê aqui cantou a pedra de que isso era bobagem já que o governo possuía influência relevante na empresa via participação dos fundos de pensão no Conselho de Administração. Pois não deu outra. Notícia no Valor de hoje:

Governo rejeita operação da Vale para comprar a Xstrata

O Planalto não aprova a compra da mineradora anglo-suíça Xstrata pela Companhia Vale do Rio Doce. A cúpula do governo, segundo apurou o Valor, considera o negócio – que não está fechado – “caro”, “complicado” e “prejudicial aos interesses do país”. Por isso, deverá orientar os representantes do conselho de administração da Vale que têm vínculo com a União – BNDESPar e Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) – a rejeitar a operação, que depende de aprovação do conselho.

dt-ok.jpg

Carla Bruni nua, naked, nude!

Deu no Estadão:

Carla Bruni posa nua em revista masculina espanhola

Revista espanhola ‘DT’ publicará entrevista com uma foto nua da ex-modelo, diz jornal

SÃO PAULO – A ex-modelo e cantora Carla Bruni, noiva do presidente francês Nicolas Sarkozy, vai aparecer nua numa foto da próxima edição da revista DT da Espanha, segundo informou nesta quarta-feira, 23, o jornal espanhol El País. Segundo o jornal, Carla, que também deu uma entrevista para a publicação que só circulará na Espanha, vai aparecer numa foto usando apenas um anel e um par de botas. Na entrevista, o jornal afirma que Bruni não confirmaria os boatos de que havia se casado com Sarkozy na semana passada e diz ainda que não abandonou sua carreira musical.

3.jpg

Meus amigos e amigas, se você estava aplicadaço na Bolsa, ou produziu um superblockbuster com um astro que acaba de morrer, ou passa vexame porque é casado com uma dona que não lhe dá trégua, pense bem… podia ser pior.

panicbutton.jpg

O Macro Man tem um post algo antigo, mas matador, explicando porque o mandato dual do FED (estabilidade de preços, maximizando o nível de emprego) significa desastre para portadores estrangeiros de divisas em dólar.

***

Não que a Pfizer esteja reclamando.

***

No Naked Capitalism, um rolê pelo que andam dizendo por aí sobre a crise.  George Soros não deixa por menos:

The current financial crisis was precipitated by a bubble in the US housing market. In some ways it resembles other crises that have occurred since the end of the second world war at intervals ranging from four to 10 years.

However, there is a profound difference: the current crisis marks the end of an era of credit expansion based on the dollar as the international reserve currency. The periodic crises were part of a larger boom-bust process. The current crisis is the culmination of a super-boom that has lasted for more than 60 years.

Boom-bust processes usually revolve around credit and always involve a bias or misconception. This is usually a failure to recognise a reflexive, circular connection between the willingness to lend and the value of the collateral. Ease of credit generates demand that pushes up the value of property, which in turn increases the amount of credit available. A bubble starts when people buy houses in the expectation that they can refinance their mortgages at a profit. The recent US housing boom is a case in point. The 60-year super-boom is a more complicated case.

Every time the credit expansion ran into trouble the financial authorities intervened, injecting liquidity and finding other ways to stimulate the economy. That created a system of asymmetric incentives also known as moral hazard, which encouraged ever greater credit expansion. The system was so successful that people came to believe in what former US president Ronald Reagan called the magic of the marketplace and I call market fundamentalism. Fundamentalists believe that markets tend towards equilibrium and the common interest is best served by allowing participants to pursue their self-interest. It is an obvious misconception, because it was the intervention of the authorities that prevented financial markets from breaking down, not the markets themselves. Nevertheless, market fundamentalism emerged as the dominant ideology in the 1980s, when financial markets started to become globalised and the US started to run a current account deficit.

Globalisation allowed the US to suck up the savings of the rest of the world and consume more than it produced. The US current account deficit reached 6.2 per cent of gross national product in 2006. The financial markets encouraged consumers to borrow by introducing ever more sophisticated instruments and more generous terms. The authorities aided and abetted the process by intervening whenever the global financial system was at risk. Since 1980, regulations have been progressively relaxed until they have practically disappeared.

The super-boom got out of hand when the new products became so complicated that the authorities could no longer calculate the risks and started relying on the risk management methods of the banks themselves. Similarly, the rating agencies relied on the information provided by the originators of synthetic products. It was a shocking abdication of responsibility.

Everything that could go wrong did. What started with subprime mortgages spread to all collateralised debt obligations, endangered municipal and mortgage insurance and reinsurance companies and threatened to unravel the multi-trillion-dollar credit default swap market. Investment banks’ commitments to leveraged buyouts became liabilities. Market-neutral hedge funds turned out not to be market-neutral and had to be unwound. The asset-backed commercial paper market came to a standstill and the special investment vehicles set up by banks to get mortgages off their balance sheets could no longer get outside financing. The final blow came when interbank lending, which is at the heart of the financial system, was disrupted because banks had to husband their resources and could not trust their counterparties. The central banks had to inject an unprecedented amount of money and extend credit on an unprecedented range of securities to a broader range of institutions than ever before. That made the crisis more severe than any since the second world war.

Credit expansion must now be followed by a period of contraction, because some of the new credit instruments and practices are unsound and unsustainable. The ability of the financial authorities to stimulate the economy is constrained by the unwillingness of the rest of the world to accumulate additional dollar reserves. Until recently, investors were hoping that the US Federal Reserve would do whatever it takes to avoid a recession, because that is what it did on previous occasions. Now they will have to realise that the Fed may no longer be in a position to do so. With oil, food and other commodities firm, and the renminbi appreciating somewhat faster, the Fed also has to worry about inflation. If federal funds were lowered beyond a certain point, the dollar would come under renewed pressure and long-term bonds would actually go up in yield. Where that point is, is impossible to determine. When it is reached, the ability of the Fed to stimulate the economy comes to an end.

Although a recession in the developed world is now more or less inevitable, China, India and some of the oil-producing countries are in a very strong countertrend. So, the current financial crisis is less likely to cause a global recession than a radical realignment of the global economy, with a relative decline of the US and the rise of China and other countries in the developing world.

The danger is that the resulting political tensions, including US protectionism, may disrupt the global economy and plunge the world into recession or worse.

Para os fãs de HQ´s: Photon Torpedoes.

carlabruni.jpg

Como podem ver, “carla bruni naked” ainda é o termo mais utilizado por quem vem a este blog através de um motor de busca.  É incrível que a mulé ainda esteja despertando tanto interesse por aí.  Imaginem se eu escrevesse neste blog os termos “carla bruni married“, “carla bruni ass” ou “rihanna gives oral sex“.  Opa, escapou.  🙂

Agora, fico imaginando como é que alguém procurando “estagio em fabrica em sao jose” veio parar aqui.  Deve ter se decepcionado.

Como estarão lembrados, tive um educado embate com a leitora e comentadora Sueli sobre a responsabilidade ou irresponsabilidade do governo de São Paulo no que diz respeito ao roubo do MASP.

De barato, a coisa já estava no papo, já que a Constituição paulista reza:

Artigo 139 – A Segurança Pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e incolumidade das pessoas e do patrimônio.

Não bastasse isso, descobri que de fato, embora o acervo do MASP tenha sido tombado pelo IPHAN (autarquia federal) em 1969, a pedido do MASP, também foi tombado pelo CONDEPHAAT, o patrimônio artístico e cultural estadual paulista, ex-officio, em 1973 _ aí embaixo reproduzo o documento que abriu o processo de tombamento (cópia integral aqui).

tombamentocondephaatmasp.jpg

(clique para ampliar)

A página do CONDEPHAAT nos informa, aliás, que o processo foi deferido e publicado no Diário Oficial paulista em 27/11/1973.

Isso quer dizer que mesmo nos termos toscos por ela colocados _ ela quer nos fazer crer que o fato do IPHAN ter tombado as obras significa que a União é a responsável pela proteção patrimonial do acervo _ o fato do CONDEPHAAT ter tombado o acervo TAMBÉM torna inescapável, para ela, a responsabilidade do governo paulista no negócio.

Descanse em paz, Sueli.

Dona Matilde Ribeiro, Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, anda fazendo das suas. Deu na Veja:

Ministra da Igualdade Racial transforma o cartão de crédito pago pelo governo num segundo salário

A assistente social Matilde Ribeiro é uma das ministras mais longevas do governo Lula. Ela comanda a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial desde março de 2003. Apesar de estar há tanto tempo no cargo, o que ela faz em Brasília ainda é um mistério. Recentemente, abriu-se uma chance de preencher essa lacuna. É possível traçar um retrato detalhado das ações e dos hábitos da ministra com base na fatura do seu cartão de crédito corporativo.

O uso desse tipo de benefício é concedido aos funcionários que ocupam os cargos mais altos da Esplanada e do Palácio do Planalto. Serve para que eles paguem algumas despesas decorrentes do exercício da função. No fim do mês, a conta é enviada ao Tesouro. Estaria tudo certo se o cartão fosse usado com critério, mas tem sempre aqueles que exageram. Matilde está entre eles.

Fechadas as contas de 2007, descobriu-se que ela torrou 171.500 reais no cartão pago pelos contribuintes. Foi de longe a ministra mais perdulária da Esplanada. Em média, foram 14.300 reais por mês, mais do que seu salário, que é de 10.700 reais. Isso, sim, é que é emenda no orçamento.

Matilde jura que só usou o cartão corporativo para pagar despesas de viagens oficiais. De fato, ela viaja tanto que poderia assumir o Ministério do Turismo. No ano passado, pagou 67 contas em hotéis – média de 5,5 contas por mês. É rara a semana em que ela não se hospeda em algum estabelecimento. Seu favorito é o confortável Pestana, um cinco-estrelas que enfeita a Praia de Copacabana. Ela esteve por lá 22 vezes no ano passado, ao custo total de 10.000 reais.

A ministra também gosta de usar o cartão para pagar contas em bares, choperias, quiosques, restaurantes, rotisseries e até padarias. No Rio de Janeiro, ela adora o restaurante Nova Capela, conhecido reduto da boemia carioca, e o bar Amarelinho, que se orgulha de servir o chope mais gelado da cidade.

Em São Paulo, Matilde é assídua na padaria Bella Paulista, que fica aberta 24 horas por dia e é freqüentada pelos notívagos paulistanos. Nas refeições, ninguém pode acusá-la de abandonar a bandeira da igualdade racial: ela usou seu cartão dez vezes em restaurantes italianos, nove em árabes e três em japoneses.

A maior parte dos gastos do cartão de crédito corporativo da ministra, no entanto, se refere a aluguel de veículos. Ela tem um carro oficial em Brasília e, quando viaja, não se arrisca a ficar a pé. Assim que desembarca em uma cidade, saca o seu cartão oficial e, zás, aluga um automóvel do seu gosto. Em 2007, ela usou nada menos que 126.000 reais com essa finalidade. Curiosamente, se decidisse alugar um Vectra, o veículo mais caro oferecido por sua locadora habitual, a Localiza, gastaria 116.000 reais por ano. Que tipo de carro será que a ministra aluga?

Matilde utilizou o cartão de crédito do governo até para fazer compras em free shop. Em 29 de outubro, gastou 460 reais em um desses estabelecimentos. Questionada por Veja, a ministra disse que, na ocasião, usou o cartão pago com dinheiro público “por engano” e que “o valor já foi ressarcido à União”. Ela passou pelo free shop na volta de uma de suas muitas viagens ao exterior. Em 2007, Matilde visitou Estados Unidos, Cuba, Quênia, Burkina Faso, Congo e África do Sul. Na semana passada, estava no Senegal. Quem sabe até o fim deste ano ela não descola também um cartão de crédito internacional?

Interessante comparar este texto com o do portal Afropress sobre a mesma notícia:

Matilde é a que mais gasta no Governo em cartão para viagens
Por: Redação – Fonte: Afropress: – 13/1/2008

Brasília – Depois de ocupar as manchetes dos grandes jornais, no ano passado, por causa de uma declaração polêmica – a de que negros teriam razão de não gostar de brancos por causa dos sofrimentos do escravismo – a ministra Matilde Ribeiro (na foto no primeiro plano), da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) volta às manchetes por uma razão menos defensável: foi a campeã de gastos entre os integrantes do Governo que utilizaram os cartões corporativos para despesas de viagem no ano passado.
Matilde gastou R$ 14,3 mil mensais, em média, – quase sete vezes mais que o segundo colocado na lista – e mais do que seu salário mensal que é de R$ 10,7 mil, somando um total durante o ano de R$ 171,5 mil em despesas. Os gastos incluíram hotéis, restaurantes e aluguéis de carros, responsáveis pela parte mais pesada da fatura: 121,9 mil, pagos sempre à mesma empresa de locação de veículos. No ano anterior – 2006 – as despesas da ministra tinham sido de R$ 55,5 mil. A explicação é que ela só teve acesso ao cartão em julho.

Ministra se defende
A ministra justificou o fato de ter sido campeã de gastos, alegando que no ano passado houve a necessidade de intensificar a relação com os novos governos estaduais para rediscutir políticas de promoção da igualdade racial. Por isso, teria sido obrigada a viajar mais.
Segundo Matilde, as despesas de viagem são integralmente feitas no cartão, por não ter estrutura nos Estados, como escritórios, carros oficiais e motoristas. Quanto ao uso da mesma locadora alegou que o desempenho vem sendo “satisfatório pelo constante atendimento a autoridades, ofertando equipe qualificada em segurança e amplitude dos serviços em todo o território nacional”. Ela não explicou, porém, porque não formaliza contrato permanente com a empresa.

Gastos dobrados
Em 2007, o governo federal mais que dobrou os gastos com cartões corporativos indicados para pagamentos de pequenos serviços a pessoas físicas, em estabelecimentos onde o cartão não é aceito ou para gastos em localidades onde a única alternativa é a quitação em dinheiro vivo. Segundo o Portal da Transparência, mantido pela Controladoria Geral da União (CGU) foram gastos R$ 75,6 milhões por meio dos cartões, 129% a mais que no ano anterior. Só para se ter uma idéia do crescimento dos gastos, o mais importante programa social do Governo – o Bolsa Família – teve uma expansão de investimentos de 14,6%.
O segundo colocado foi o secretário especial de Aquicultura e Pesca, Altemir Gregolin, que gastou R$ 22,6 mil, também com viagens. O terceiro da lista é o ministro dos Esportes, Orlando Silva, que gastou R$ 20 mil. Em seguida, vem a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que gastou apenas R$ 2,4 mil, em viagens.

Apesar de tratar-se de um portal dedicado à causa do movimento negro, a cobertura não alivia para a ministra. Talvez porque o portal esteja na oposição ao governo no tocante às políticas de igualdade racial, pois defende quea Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, “uma conquista do Movimento Negro” – ao invés de servir ao Movimento “serve como amortecedor de críticas desse setor ao próprio governo“.

O problema são alguns dos comentários à matéria do Afropress sobre a Ministra:

O símbolo do Poder é a Mordomia e deve ser exercitada plenamente por quem ocupa cargos públicos, seja branco, negro ou amarelo. Assim sempre foi e será em todo o Universo. O resto é conversa para boi dormir. Parabéns a Ministra por usufruir plenamente de um direito que está implícito na ocupação do cargo para o qual foi nomeada.

(…)

Os(As) negros(as) não podem ascender a uma posição que durante séculos foi privilégio somente de brancos(as). Que perseguição! Tantos(as) brancos(as) ultrapassam o limite de gastos e não vêem seus expostos na mídia. Por que esta supervalorização quando se trata da ministra negra da Igualdade Racial? Isto é racismo recheado de machismo. VALEU ZUMBI. A LUTA CONTINUA. Sou a favor de tratamento igual para todos(as).

***

Seria menos grave se coisa semelhante não tivesse ocorrido à Benedita da Silva, que foi ministra deste mesmo governo. E não foi por falta de aviso: quem conhece o babado na política carioca sabe que Bené nunca foi flor que se cheire.

Penso o seguinte: se tivéssemos um ministro negro na Saúde, na Agricultura, na Educação, sobre o qual pesassem essas acusações, seria algo grave. Mas termos um ministro negro da Igualdade Racial que mostre este tipo de comportamento é algo catastrófico, porque só faz reforçar o estereótipo que o próprio ministério se dedica a combater.

Podemos todos imaginar o tipo de arquitetura política que levou dona Matilde a chegar a esse cargo. A matéria do Afropress entrevistando o jornalista Marcio Alexandre Martins Gualberto (foto), da Comissão Executiva do Congresso de Negros e Negras do Brasil (CONNEB) e dirigente do Coletivo de Entidades Negras (CEN), dá algumas dicas. O entrevistado critica o governo:

Afropress – Como encarou a posição do presidente Lula que no dia 20 de Novembro disse que o Estatuto só não foi aprovado ainda por falta de união dos negros e sugeriu que “cutucassem” o Governo?
Márcio – É uma fala cínica. É a fala da elite branca de dizer que como nós somos desunidos por isso não resolvemos nossos problemas. E o paradoxal é que o pavor que eles têm é que nós possamos nos unir um dia. Veja os mucamos modernos que atendem pelo nome de Movimento Negro Socialista. Nunca existiram. Passaram a existir pra carregar o véu da saia da sinhazinha moderna chamada Ivonne Maggie. Dá pra ter respeito por essa gente? Nem um pouco. Num contexto de guerra seriam julgados em corte marcial por traição. Mas fazem bem o papel, Lula gosta deles, Maggie nem se fala, pois eles ajudam a fortalecer o discurso de que somos desunidos.
Os negros que ficam dentro dos partidos da base do governo, posando como se toda agenda do MN se resolvesse pela via partidária acabam também cumprindo esse papel e ajudam a fortalecer o discurso sem pé nem cabeça do presidente.
Agora ele está no direito dele de dizer tal bobagem e nós de darmos respostas na hora que acharmos melhor.

No entanto, eis como ele mesmo descreve o processo político do movimento negro:

Afropress – Mesmo sem citar nomes, a coordenação gaúcha responsabiliza “pseudo-lideranças que carregam histórico individual de transgressão de princípios éticos devido aos seus próprios referenciais de orientação política, que culturalmente mantêm uma relação sistemática de surrupiar os processos democráticos”. A quem estão se referindo?
Márcio – Essa é uma pergunta que deveria ser dirigida aos gaúchos. A mim já me disseram que não sou. Fiquei até feliz, porque posso até ser pseudo, mas não sou liderança de nada. Sou um militante disposto a colaborar com o pouco que sei.
Agora, de fato, precisamos considerar que se há uma crise hoje dentro do MN é exatamente de lideranças. Quem é liderança hoje dentro do MN? Quem tem poder de convocatória? Quem diz “vamos por ali” e os outros seguem?
E o próprio CONNEB, que se configura como um processo líder dentro do MN tem um problema ainda a resolver que é o fato de não ter atraído setores essenciais para essa discussão.
Agora, uma verdade precisar ser dita. Você está lidando com a multiplicidade do MN. Eu sou testemunha do esforço que cada uma das 13 organizações vêm fazendo internamente para construir o CONNEB. Eu sei das nossas conversas internas, sei das conversas e dos acordos que vimos construindo para tentar salvar determinadas questões. Agora o que pouca gente considera é que o MN tem um dinamismo próprio, e um tipo de democracia que é força e fraqueza ao mesmo tempo. Porque por mais que eu, como dirigente possa firmar algum acordo, se um militante da minha base chegar numa reunião e resolver detonar esse acordo e minha posição ele o faz sem dó, nem piedade.
Ou seja, no nosso ordenamento político interno, nós, do MN, não construímos a disciplina política de respeito aos quadros dirigentes. Essa é uma das contradições do MN com as quais o CONNEB tem que lidar cotidianamente .” (grifo meu)

Em um ambiente como esse, evidentemente quem se dá bem são as “old boys networks“. Basta ver o currículo da ministra. Somado ao fato de que frequentemente o movimento compra as brigas erradas, fico pensando que o futuro do movimento negro está…em branco.

janeiro 2008
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  
Add to Technorati Favorites

Blog Stats

  • 1,548,381 hits