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Bush falou ontem na TV ao povo americano.  Deu no NYT:

President Issues Warning to Americans

WASHINGTON - President Bush appealed to the nation Wednesday night to support a $700 billion plan to avert a widespread financial meltdown, and signaled that he is willing to accept tougher controls over how the money is spent.
As Democrats and the administration negotiated details of the package late into the night, the presidential candidates of both major parties planned to meet Mr. Bush at the White House on Thursday, along with leaders of Congress. The president said he hoped the session would “speed our discussions toward a bipartisan bill.”

Mr. Bush used a prime-time address to warn Americans that “a long and painful recession” could occur if Congress does not act quickly.

Our entire economy is in danger,” he said.” [grifos meus]

As possibilidades são infinitas.

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Ela não é fofa?

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“Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom”

_ Dercy Gonçalves

(estou maluco ou ela era a cara da Giulia Gam quando nova??)

Afrika Bambaataa, “World Destruction”

***

Não deixa de ser estranho que a música que é amplamente considerada como a alvorada do hip-hop, “Planet Rock“, use como base a “Trans-Europe Express” do Kraftwerk, né não?

Em post de hoje, Tio Rei faz a única mea culpa que sabe fazer: ignorar que errou.

Mas eu lhes asseguro, senhores leitores. Vão quebrar a cara. E aqui quero fazer um reparo ao que eu próprio escrevi. É claro que não é toda a Polícia Federal que está envolvida nessa história — falo de uma facção. Apontei aqui no começo do ano passado uma PF balcanizada, dividida em grupos, lembram-se? Informei aqui ontem que essa operação nem mesmo passou pelo diretor-geral da instituição. Foi conduzida pelo chefe da Abin, que é um órgão de Inteligência do Estado, Paulo Lacerda.” [grifo meu]

Subitamente, caiu a reivindicação de anterioridade. Que bom. Pena que ele não foi mais explícito…

Tio Rei produz esse parágrafo de incrível cinismo:

A coisa dá pano pra manga. A PF já reuniu o que considera “provas” de que Dantas tentou subornar o delegado. Logo, ele não pode mais obstruir o que já estaria provado, certo? Prova, mesmo, concreta, de que Dantas estava por trás do oferecimento de suborno ainda não existe. É a velha história: tudo leva a crer que sim. Para o tribunal, isso basta?

Até parece que ele lê o blog, sô!  Afinal, eu havia dito que não dá pra soltar um cara que tenta subornar o delegado.  Bem, novamente, é interessante que ele não tenha dado ao casal Nardoni esse mesmo benefício da dúvida, lá tão escassso, aqui tão abundante.  Sim, porque o que o Tio Rei está pedindo agora é a prova da prova.

Bem, o que diz a Folha sobre os dois,er, “supostos” emissários de Dantas que tentaram subornar o delegado?

Segundo a denúncia, o dinheiro teria sido oferecido ao delegado federal Vitor Hugo Rodrigues Alves por dois emissários de Dantas: Chicaroni e Humberto José da Rocha Braz –também conhecido por Guga–, assessor de Dantas e ex-diretor da Brasil Telecom, empresa que pertenceu ao grupo Opportunity.” [grifo meu]

O Sr. Chicaroni, aliás, tinha quase um milhão e meio em casa, no cofrinho.  Dindim para “azeitar as coisas” com a Lei.

Mas OK, eu também esperaria da PF um trabalho mais profissional; se chegaram ao ponto de encenar a aceitação do suborno para produzir mais provas, que fizessem o trabalho direito.  Bem, diz o Globo que eles fizeram:

A Polícia Federal está convencida que Daniel Dantas sabia de tudo e estava por trás da tentativa de suborno para se ver livre da investigação. Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostraram, segundo a polícia, conversas cifradas entre Dantas e Humberto Bráz, o assessor que ofereceu um milhão de dólares para o delegado. De acordo com a investigação Dantas era constantemente informado das negociações e pagamentos de propina.

Agora é ver o teor das conversas e o quão “cifradas” elas eram.  Se elas são realmente a “smoking gun”, vou dizer uma coisa: o Dantas está longe de ser tão esperto quanto dizem que ele é.

Ativos que não param de subir

Do Financial Times:

Heidi Klum: a model investment?

Want to outperform the Dow Jones Industrial Average? Invest in Heidi Klum.

According to the folks at Stockerblog, the Heidi Klum Stock Index - which consists of companies for which the German supermodel has acted as a spokesperson - has out shone the Dow over the past six months.

In this crisis-stricken environment, that means the HKSI is only down 4 per cent, compared with 14 per cent for the Dow.

(hat tip: Samurai)

Tio Rei faz o segundo necrológio de D. Ruth em um post hoje.  Nesse ele pegou pesado:

Aos 77 anos, podendo viver uma vida confortável, dedicar-se apenas a seus livros, aos netos, às viagens que eventualmente fazia em companhia do marido em palestras mundo afora, Ruth, não obstante, trabalhava pra valer na ONG Comunitas, sucessora do Comunidade Solidária. E com recursos que buscava na iniciativa privada — aliás, era o que fazia também o Comunidade Solidária. A ONG de Ruth era mesmo “não-governamental”. Desde que se fez professora, no Brasil ou no exílio, jamais deixou de trabalhar. E a morte a encontrou, perto dos 80 anos… trabalhando! Não é espantoso? Ruth, sozinha, era um verdadeiro Partido dos Trabalhadores.

Eu temo que algum petista vá lá no blog dele e diga, “mais respeito, babaquinha”.

Também acho que ele, sendo quem é, perdeu uma grande chance de ver o dedo do Foro de São Paulo em uma ONG que se chama, puxa vida, “Comunitas”!  Aí, está na cara que o criptobolchevismo é mera questão de erro ortográfico.

Eu não conhecia, mas parece que o Financial Times mantém um blog de aconselhamento profissional, de autoria de Lucy Kellaway, editora associada.  Uma alma torturada pediu aconselhamento, contando a seguinte história:

What should I do to avoid being made redundant?

I work for a bank that is going through a period of heavy redundancies. From the cuts made so far it seems that many of the casualties have not been chosen on the basis of ability or cost, but as a result of political horse-trading. I have a three-year record with this bank and am a solid performer, not a star. Losing my job now would be bad timing, to put it mildly – I have a young child, a pregnant wife and an eye-watering mortgage. How can I make sure the axe does not fall on me? Should I attempt to play the sympathy vote with my boss? Or is it better to embark on a shameless bout of self-promotion at the expense of my colleagues?
Analyst, male, 30

Houve quem levasse a coisa para o lado, er, espirituoso, como, de cara, logo a primeira:

Find a vocation and join the catholic church.

Gostei deste provérbio sueco:

In Sweden they say “there is no such thing as bad weather, but some people do wear bad clothes” or something of the kind. Life is tough, learn to live with it.
You apparently have a family that gives you joy, enjoy it as much as you can. Maybe you’ll need to downsize a bit at one point but hey! that’s how the world goes. Up, down, up, down… and out in the end.
Enjoy the ride!

Aparentemente é o equivalente nórdico do nosso “quem sai na chuva é pra se molhar”.  Entretanto, a idéia de fazer um “downsize” familiar me pareceu sinistra.  A propósito, essa aqui me chamou a atenção:

Even if the sky falls, take solace from the fact that you’re only 30. Something new will crop up.

“Somente 30″ me parece uma mentalidade que também é crescentemente popular no Brasil e tem a ver com um movimento de extensão da juventude.  Sim, porque há não muito tempo atrás as expectativas a respeito de um cara de 30 anos era que ele já fosse casado, tivesse filhos e uma vida estável.  A precarização (ops, “flexibilização”) das relações de trabalho é que levam a essa mentalidade da eterna juventude _ sim, mas o problema é que o cara já tem filhos.  O que nos leva diretamente à resposta mais cruel, IMHO:

“I have a young child, a pregnant wife and an eye-watering mortgage.”

Forget it. You bought into the dream and now you’re finding it’s a nightmare. If it’s any consolation, perhaps your bosses (if they’re male) will have pity on you as they have no doubt chained themselves to similar slavery in their own misguided lives.

Não é de surpreender, portanto, que no capitalismo avançado a queda da natalidade seja a regra.

É claro que sempre aparece um tipo mais atraído pelo risco:

If it happens, embrace it and exploit it. I was made redundant twice, once at 29 and once at 39 (I’m not 45); in each case a forced change took me in an interesting new direction that I would not otherwise have taken. I’ve now ended up doing the dream job - freelance motoring journalist - that the sixteen year old me yearned for with a passion before teachers, parents and others nudged me towards the orthodox path taken by so many other FT readers - Oxbridge entrance, MBA, job in consulting and so on.

Nothing wrong with all that but now I work as much as I like, when I like and where I like. If I’d continued on my initial career trajectory, I’d have earned a lot more cash, but the way things have turned out, I’ve achieved something a lot more valuable. I’ve got a life. Remember - wage slavery is still wage slavery even if the wage is generous.

Ainda bem que ele não mora no Brasil, onde poderia estar experimentando as delícias de ser motorista de perua ou camelô.

O dia de hoje, em outras eras:

585 B.C. — solar eclipse predicted by Thales of Miletus occurs during the battle of the Halys (another possible date)

20 A.D. — Drusus “Minor”, the son of the emperor Tiberius, celebrates an ovatio for his victories in Illyricum

ca 250 A.D. — martyrdom of Heliconis

Rogue Classicism.

Explica 50%

Deu no Estadão:

Olhar e cor do uniforme influenciam defesa de pênaltis, diz estudo

A cor do uniforme e o olhar do jogador para o goleiro podem influenciar a defesa de um pênalti, sugere um estudo sobre o comportamento dos jogadores realizado na Inglaterra.

(…)

De acordo com os resultados, jogadores que usavam uniformes vermelhos e encaram o goleiro durante 90% da preparação para a cobrança causaram um impacto maior e teriam mais chances de marcar o gol.

A avaliação dos goleiros indicou ainda que a combinação mais fraca, ou seja, aquela que gerou a maior confiança na defesa do pênalti, foi a dos jogadores que vestiam branco e mantinham contato visual por apenas 10% do tempo da cobrança.

A pesquisa indica que, apesar de a cor do uniforme provocar um impacto quando o olhar diretamente para o goleiro acontecia em apenas 10% do tempo da jogada, a coloração da camiseta não influenciava a opinião do goleiro quando o olhar permanecia por 90% do tempo.

***

O Ronaldo pode até não usar vermelho, mas depois dos últimos acontecimentos tenho certeza que os goleirões vão tremer nas bases ao encarar aquele olhar fixo…

E o pior é que o Estadão revela que o Eneadáctilo foi esnobado pelo Minc:

O secretário do Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc, o primeiro a ser cogitado para o cargo, negou que tenha sido procurado pelo Palácio do Planalto, embora o governo do Rio tenha confirmado anteriormente o convite. “Eu jurei de pés juntos que não iria para Brasília”, disse Minc, relatando o teor de uma conversa que mantivera com o governador do Rio, Sérgio Cabral, na última terça, quando já embarcava em um vôo para Paris, onde está desde a manhã desta quarta-feira.

(…)

Minc disse ainda que conhecia as pressões exercidas sobre a ministra e que havia suspeitado que o clima no governo não era bom quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu à cerimônia de abertura da 3ª Conferência Nacional de Meio Ambiente. “Sou ligadíssimo à Marina. Temos uma história comum desde os tempos do Chico Mendes. Eu a conheci quando ainda era uma guria. Nem vereadora era”, justificou, demonstrando solidariedade e reiterando sua disposição de não assumir do cargo.”

***

Pô, ser esnobado pelo Minc é grave.

***

Como comentei lá no “A Volta”, como se o governo já não tivesse problemas suficientes no Senado, agora trocará um senador fiel (Sibá Machado, suplente de Marina) por uma ex-Ministra provavelmente não muito contente com o Presidente. Gênios.

michelleobama2.jpg

Como sempre, excelente apanhado das eleições americanas lá no Idelber.

A foto aí do lado eu também roubei de lá. Casal mais assanhado. Essas coisas a gente faz em casa, ô Obama!

Imaginem só, depois de 8 anos de reza braba, o que vai rolar no Salão Oval a partir do ano que vem…aquelas paredes já deviam estar saudosas de Bill Clinton. :)

Uma matéria nas páginas de Ciência da Folha podem estar antecipando a tal da revelação que a NASA quer fazer no dia 14:

Telescópio que enxerga raio X encontra matéria “perdida”

Cientistas que analisaram imagens do telescópio espacial XMM-Newton, da ESA (Agência Espacial Européia), anunciaram ontem ter encontrado uma enorme “ponte” de gás ultraquente entre dois aglomerados de galáxias. Essa grande quantidade de matéria, encontrada em uma região que antes parecia ser um colossal vazio, já havia sido prevista em teoria, mas nunca avistada.
Como a grande nuvem de gás descrita pelos cientistas é extremamente rarefeita, ela havia escapado ao escrutínio de outros telescópios. O XMM-Newton, porém, que enxerga imagens raios X em altíssima resolução, conseguiu ver a matéria perdida.
A ponte de gás encontrada fica entre os aglomerados de galáxias Abell 222 e Abell 223, a 2,3 bilhões de anos-luz da Terra. Segundo cientistas do Instituto Max Planck para Física Extraterrestre, de Garching (Alemanha), estruturas como essa são o que compõe cerca de metade da matéria comum que existe no universo.
Apesar de a descoberta do XMM-Newton ser importante, dizem os astrônomos, ela ainda não resolve o problema da chamada “matéria escura”, que não emite luz nem nenhum tipo de radiação. Apesar de não deixar traço observável, ela é responsável por mais de 85% da massa do Universo.”"

Deu na Folha:

Mulher morre atropelada pelo próprio carro no interior de SP

Uma dona de casa de 49 anos morreu no final da tarde de sexta-feira ao ficar presa debaixo de seu próprio carro, na garagem de casa, em São José dos Campos (97 km de São Paulo).

De acordo com a Polícia Civil, testemunhas disseram que a mulher tirou seu carro –um Gol cinza– da garagem de casa para que a filha pudesse tirar o carro que estava atrás. Segundo os relatos, depois da saída da filha, a mulher estacionou o Gol na garagem novamente e foi fechar o portão. Naquele momento, o carro se soltou e a atingiu.

Os gritos da mulher chamaram a atenção da filha e de testemunhas, que acionaram o resgate. Quando os socorristas chegaram, porém, ela já estava morta.

O caso foi registrado pela Polícia Civil como morte suspeita e será investigado.

***

Mais digno de um Darwin Award, no caso, não é deixar o freio de mão mal puxado, mas sim construir uma garagem com inclinação…

(clique para ampliar)

Em um post que fez até o finado Adriano do Palatando ressuscitar e entrar na thread (com pouco êxito, mas vamos dar um desconto porque ele está destreinado), Arranhaponte do Torre de Marfim escreveu o seguinte:

Ah não, o velho debate sobre se a sobrevalorização do real do Gustavo Franco foi uma idiotice total, completamente evitável (sem comprometer em nada o fim da hiper-inflação obtido pelo Real), ou se foi um erro até certo ponto compreensível diante da dificuldade política de se fazer o ajuste fiscal e da incerteza sobre se a inflação voltaria, NÃO! Tudo menos debater isso de novo.

Eu também não quero discutir isto de novo. Gostaria apenas de observar que respostas espirituosas às vezes destinam-se, voluntária ou involuntariamente, a encobrir problemas mais sérios. Afinal, se a enorme dívida pública da qual falei no outro post originou-se de esqueletos, como disse Arranhaponte, seria bom averiguar de onde vinham esses esqueletos. Ora, eles vieram (dentre outros lugares) da federalização da dívida dos estados e municípios. Mas a dívida de estados e municípios, sabe-se com certeza, não veio de Marte para o Brasil, ela foi criada aqui mesmo _ e ao que eu saiba, não por governos do PT. Aliás no mapa aí em cima vemos que a maior dívida em 2001 era a do estado de São Paulo, estado que nunca teve governador petista e sempre esteve na mão de tucanos e seus, er, “aliados” (como Orestes Quércia…). Outros estados como Minas e Bahia (aquele da face moderna do PFL DEM, ACM Neto) aparecem com dívidas expressivas. O Rio de Janeiro, bem, o Rio.

Para piorar, essa dívida foi potencializada pela Selic estratosférica.

Ocorre que a partir de 1996 o governo FHC, de olho em aprovar a emenda da reeleição _ o que lhe tomou praticamente a metade do mandato _ desistiu de fazer reformas que mitigassem o gasto público (aquilo que hoje cobram do atual governo, com razão, aliás). Aliás, neste mister, operou um timing para as reformas constitucionais totalmente perverso incoerente, pelo menos com a racionalidade econômica _ as reformas estruturais, evidentemente, permitiriam alterar a trajetória da dívida pública e teriam permitido ao governo operar com uma taxa de juros bem menor. Porém FHC atirou-se às chamadas “reformas econômicas”, como as privatizações. Eu defendo as privatizações com unhas e dentes como algo que contribuiu para aumentar a eficiência da economia brasileira, mas reconheço que a justificativa dada então pelo governo _ usar os recursos da privatização para amortizar a dívida pública _ era risível diante da política monetária praticada. E justificativas de eficiência, por mais bem intencionadas, não minoram o fato de que as privatizações poderiam esperar até que a equação macroeconômica estivesse resolvida _ a não ser, é claro, que a racionalidade empregada tenha sido a política, e não econômica.

Isto para não falar que FHC atirou-se a um populismo cambial de deixar a classe “média” brasileira contentíssima _ teve ano do contingente brasileiro ser o maior consumidor entre os turistas em New York.

Mas talvez pessoas sofisticadas não queiram discutir essas coisas tão aborrecidas. :)

Matéria da Folha de hoje:

África sofre com alimentos mais caros

Elevação dos preços ameaça trazer mais pobreza, mas também se apresenta como oportunidade para a agricultura

O problema é que o risco é imediato e as possibilidades são de longo prazo, mas leva tempo ensinar agricultores a usar técnicas modernas

***

Gostaria de saber se para os entusiastas da “mão visível” a solução para essa inflação seria aumentar os juros africanos.

***

Tudo a ver com o debate que está havendo entre o Tyler Cowen do Marginal Revolution e o Dani Rodrik sobre o efeito da liberalização do comércio mundial dos produtos agrícolas. O debate é interessante, e claramente há um problema intertemporal aí.

Diz Cowen:

O comércio mais livre poderá encher a tigela de arroz do mundo

A alta nos preços dos alimentos representa a fome para milhões de pessoas e também a instabilidade política, como já se viu no Haiti, Egito e Costa do Marfim. Sim, a energia mais cara e o mau tempo devem ser considerados culpados em parte, mas a verdadeira questão é saber por que o ajuste não está sendo mais simples. Um grande problema é que o mundo não tem um comércio que baste em matérias-primas para alimentação.

O dano causado pelas restrições ao comércio é provavelmente mais evidente no caso do arroz. Embora o arroz seja a principal matéria-prima para metade do mundo, é altamente protegido e submetido à regulamentação. Apenas entre 5% a 7% da produção de arroz do mundo é negociada entre países; isso é extraordinariamente pouco para uma commodity agrícola.

Então, quando o preço sobe - na verdade, muitas variedades de arroz praticamente dobraram de preço desde 2007 - esse mercado bastante segmentado indica que o comércio com arroz não flui nos locais de demanda mais elevada.

O baixo rendimento com o arroz não é o principal problema. A Organização para Alimentos e Agricultura da ONU calcula que a produção global de arroz tenha aumentado em 1% no ano passado e diz que deve aumentar 1,8% este ano. Isso não é impressionante, mas não deveria provocar mortes pela fome.

O dado mais significativo é que durante o próximo ano o comércio internacional de arroz deve declinar em mais de 3%, quando deveria estar-se expandindo. O declínio é atribuído principalmente às recentes restrições sobre a exportação de arroz nos países produtores de arroz, como Índia, Indonésia, Vietnã, China, Camboja e Egito.

À primeira vista, parece compreensível, porque um país pode não querer enviar valiosas matérias primas para o exterior em uma época de necessidade. Apesar disso, os incentivos de prazo mais longo são contraproducentes.

Tais restrições à exportação indicam aos produtores agrícolas que suas safras são menos rentáveis exatamente quando são mais necessárias. Existe pouco incentivo ao plantio, colheita ou armazenagem de arroz suficiente - ou de qualquer outro plantio, por essa razão - como uma proteção contra os maus tempos.

Essa tendência de desvio das leis da oferta e procura também é aparente nas Filipinas, onde o governo está perseguindo e prendendo açambarcadores de arroz que, é claro, estão simplesmente armazenando arroz ante a possibilidade de chegarem tempos ainda mais difíceis.

Nos mercados de commodities não é raro que a elevada demanda cause acentuados aumentos de preços; no curto prazo, em geral, é difícil conciliar a nova demanda com os novos fornecimentos. A questão é saber se o suprimento e o comércio podem aumentar para compensar o aperto no mercado.

As restrições sobre o comércio de arroz trazem o risco de tornar permanentes a escassez e os preços elevados. As restrições às exportações ameaçam tornar o comércio e a produção de arroz em um jogo de compensações onde os ganhos de um país são conquistados à custa de outro. Isso dificilmente seria a melhor forma de se progredir em uma economia mundial que cresce rapidamente.

Essa falta de apoio ao comércio reflete uma tendência mais ampla e perturbadora. Uma crescente porcentagem da produção mundial, incluindo aquela para a agricultura, vem dos países pobres. No geral, isso é bom para os países ricos, que podem se concentrar na criação de outros bens e serviços, e para os países pobres, que estão produzindo mais riqueza. Mas pode desacelerar a velocidade do ajuste para as condições globais em transição.

Por exemplo, se cresce a demanda pelo arroz, os produtores agrícolas vietnamitas - que continuam cativos das duradouras regulamentações do comunismo - nem sempre têm condições de dar uma resposta rápida.

Eles não têm nem mesmo a liberdade completa de embarcar e comercializar o arroz dentro de seu próprio país.

Os países mais pobres também tendem a ser os mais protecionistas. Para piorar as coisas, cerca de metade do comércio global de arroz é controlado por conselhos estatais de caráter político.

A realidade é que grande parte da escassez atual em commodities, incluindo a que existe pelo petróleo, acontece porque cada vez mais a produção e o comércio ocorrem em países relativamente pouco eficientes e sem flexibilidade. Estamos acostumados ao tempo de resposta do Vale do Silício, mas quando se trata da produção de commodities, muitas das mais importantes instituições do exterior têm apenas um pé na era moderna. Em outras palavras, a mesa das commodities do mundo está longe de ser plana.

Muitos países pobres, incluindo alguns da África, poderiam estar produzindo muito mais arroz do que produzem agora. Os principais culpados por isso incluem a corrupção na cadeia de abastecimento de arroz, sistemas de irrigação mal planejados, estradas terríveis ou não existentes, instáveis direitos de propriedade, reformas agrícolas mal avaliadas e controles de preço sobre o arroz.

A capacidade de produção de arroz de um país depende não só de seu clima, mas também de suas instituições. Burma, agora Mianmar, já foi o principal exportador de arroz do mundo, mas agora é um país mal administrado e grande parte de sua população passa fome.

Claro, os países ricos são parcialmente culpados também. Japão, Coréia do Sul e Taiwan protegem os produtores nativos de arroz; também se verá o arroz sendo produzido na Espanha e na Itália, com a ajuda dos subsídios da União Européia e do protecionismo. Os Estados Unidos gastam bilhões em subsídios aos produtores domésticos de arroz.

No curto prazo, a existência desses produtores domésticos de arroz aponta para menos pressões sobre a demanda no mercado mundial, o que pode ser uma boa coisa. Mas de novo, os efeitos no longo prazo, são perniciosos.

A produção de arroz de baixo custo em países como a Tailândia não é voltada para o atendimento a uma demanda estrangeira mais elevada, como o seria em um mercado mais livre. Quando se precisa de mais arroz, a capacidade é limitada e é lento o fornecimento dos grãos. E o arroz protegido dos países ricos é simplesmente caro demais para aliviar a fome nos países muito pobres.

Recentemente tornou-se moda afirmar que, nessa época de turbulência nos mercados financeiros, os ensinamentos de Milton Friedman, voltados para o mercado, pertencem mais ao passado que ao futuro. A triste realidade é que quando se trata da produção de alimentos - sem dúvida a mais importante de todas as atividades humanas - as idéias de livre comércio de Friedman ainda não viram a luz do dia.

Ao que Rodrik retruca:

A falácia “livre comércio reduz preços”, mais uma vez

Desta vez, o culpado é Tyler Cowen. Em sua coluna para o New York Times de hoje, Cowen argumenta que o livre comércio de produtos alimentares como arroz seria benéfico para o abastecimento global e ajudaria a reduzir os preços. Ele está provavelmente certo sobre o primeiro efeito, mas não sobre o segundo. O efeito de livre comércio sobre os preços domésticos dos alimentos depende de saber se um país é importador ou exportador de alimentos. O livre comércio pode reduzir os preços dos alimentos (em relação a outros preços) só nos países que são importadores de alimentos. Os países exportadores experimentariam um aumento do preço relativo dos alimentos, e simplesmente não há maneira de escapar dessa realidade.

O comércio internacional funciona aliviando a escassez relativa de bens. A chave aqui é o termo “relativa”. Nos países importadores são os alimentos que são escassos, e à medida que há abertura do comércio, o preço relativo dos alimentos cai. Mas se você for a Tailândia ou a Argentina, onde outros bens são escassos em relação aos alimentos, livre comércio significa preços relativos dos alimentos mais elevados, e não menos. E todas as vantagens induzidas na eficiência de curto versus longo prazo que sobre as quais fala Cowen não têm qualquer influência sobre esta conclusão: no fim alguns países tem de ser importadores líquidos, e outros, exportadores líquidos.”

***

Alguns pitacos:

Evidentemente o problema é que a escala de tempo considerada por um e por outro não é a mesma. Na tréplica dada por Cowen no Marginal Revolution, este comentário do Rodrik deixa isso claro:

Talvez queiramos mesmo o livre comércio de arroz, mas duvido que pelas razões apresentadas por Cowen em sua peça no NYT. O livre comércio de arroz faria pouco para atenuar a crise alimentar que estamos a enfrentar, e, na realidade, iria provavelmente torná-la pior, no curto prazo, uma vez que daria origem a um novo aumento do preço real do arroz no mercado mundial (de acordo com o Banco Mundial e outras estimativas). Pode-se contar obviamente todo o tipo de fábulas sobre efeitos dinâmicos relacionadas com a dimensão e os efeitos no investimento de longo prazo que possam reverter os efeitos do impacto. Mas sugiro que se comece com aquilo que sabemos razoavelmente bem antes de se especular.

Um comentador lá na tréplica do Cowen faz um comentário interessante que ilumina o real problema:

Se o comércio de arroz for liberalizado, como defende Cowen, o preço do arroz subiria nos países pobres que têm um déficit na produção de arroz? A curto prazo (digamos que o curto prazo é de um ano), haveriam mais pessoas com fome, ou haveriam menos pessoas fome?

Quem produz arroz no mundo? Eis um quadro com dados de até 2003 que achei aqui:

(clique para ampliar)

E quem são os grandes importadores de arroz? Achei esta lista:

  1. Nigeria … 1.4 million tons (4.8% of global rice imports)
  2. Saudi Arabia … 1.2 million tons (4.2%)
  3. Philippines … 1 million tons (3.6%)
  4. Bangladesh … 991,810 tons (3.4%)
  5. Iran … 986,000 tons (3.4%)
  6. China … 928,210 tons (3.2%)
  7. Cote d’Ivoire … 868,320 tons (3.0%)
  8. Brazil … 852,080 tons (2.9%)
  9. Senegal … 822,550 tons (2.8%)
  10. South Africa … 744,840 tons (2.6%)
  11. United Arab Emirates … 717,710 tons (2.5%)
  12. North Korea … 702,000 tons (2.4%)
  13. Japan … 662,020 tons (2.3%)
  14. Russia (Europe) … 618,460 tons (2.1%)
  15. United Kingdom … 569,560 tons (2%)
  16. Malaysia … 523,660 tons (1.8%)
  17. United States … 480,750 tons (1.7%)
  18. Benin … 476,490 tons (1.6%)
  19. France … 474,270 tons (1.6%)
  20. Mexico … 459,210 tons (1.6%)
  21. Russian Federation … 454,710 tons (1.6%)
  22. Indonesia … 390,830 tons (1.3%)
  23. Singapore … 346,700 tons (1.2%)
  24. Canada … 334,320 tons (1.2%)
  25. Hong Kong … 326,230 tons (1.1%)
  26. Yemen … 322,240 tons (1.1%)
  27. Sri Lanka … 240,700 tons (0.8%)
  28. Syria … 236,710 tons (0.8%)
  29. South Korea … 209,320 tons (0.7%)
  30. Kuwait … 150,620 tons (0.5%)
  31. Oman … 149,830 tons (0.5%)
  32. Jordan … 135,890 tons (0.5%).

Essas outras duas listas mostram os países com o maior incremento e com a maior queda nas importações de arroz (2004):

Maiores incrementos:

  1. Sri Lanka … 240,700 tons (up 597.3% in 2004)
  2. China … 928,210 tons (up 129.4%)
  3. Benin … 476,490 tons (up 124.8%)
  4. Saudi Arabia … 1.2 million tons (up 78%)
  5. Oman … 149,830 tons (up 64.5%)
  6. Kuwait … 150,620 tons (up 54.2%)
  7. South Korea … 209,320 tons (up 46%)
  8. Malaysia … 523,660 tons (up 42.1%)
  9. United Arab Emirates … 717,710 tons (up 28.6%)
  10. Canada … 334,320 tons (up 26.3%).

Maiores quedas:

  1. Indonesia … 390,830 tons (down 76% in 2004)
  2. Bangladesh … 991,810 tons (down 20.7%)
  3. Brazil … 852,080 tons (down 20.1%)
  4. Nigeria … 1.4 million tons (down 12.6%)
  5. North Korea … 702,000 tons (down 12.5%)
  6. Mexico … 459,210 tons (down 8.6%)
  7. Senegal … 822,550 tons (down 7.6%)
  8. Japan … 662,020 tons (down 6.2%)
  9. South Africa …744,840 tons (down 5.8%)
  10. Russia (Europe) … 618,460 tons (down 4.1%).

Do exame das listas fica claro que os países que estão empurrando a demanda por arroz são países ricos, sejam os países petroleiros, seja a China e a Coréia do Sul, cujas fortunas advém da exportação de manufaturados.

Como responder à pergunta lá em cima, do comentador do Cowen?

Com menores barreiras ao comércio, os preços evidentemente subiriam. Pessoas que vivem em países como Arábia Saudita, Kwait, Canadá e Chna poderiam comer mais arroz, pois poderiam pagar por ele. Em outros países os produtores desviariam sua produção para aqueles primeiros, encarecendo ou mesmo desabastecendo o comércio local. Se estamos falando de países pobres, como os da África, possivelmente haverá mais famintos. No caso do Brasil haverá aumento de preços, mas como já estamos vindo em uma trajetória de queda da importação _ provavelmente por expansão da área plantada _ o mais provável é que mais adiante o investimento em expansão da produção compense a maior demanda.

Qual o efeito líquido? Levando em conta que os países onde o consumo está aumentando são países de alta ou média renda, certamente o cerceamento da sua demanda não implicaria em fome naqueles países, e o aumento do consumo reflete a elasticidade-renda do produto. Por outro lado os países pobres realmente sofreriam o impacto do aumento do produto até que produtores como o Brasil e outros expandissem a produção até o preço cair novamente. Os países mais pobres dificilmente veriam alguma vantagem no processo, pois países como o Brasil, com uma agroindústria mais desenvolvida, teriam maior facilidade de expandir a produção rapidamente e aumentar sua participação no mercado mundial de arroz. Então:

_ países mais ricos teriam efeito líquido de aumento no bem estar;

_ países produtores teriam diminuição do bem estar no curto prazo, mas aumento no médio/longo;

_ países pobres teriam diminuição de bem estar no curto prazo, sem benefícios visíveis no médio/longo.

Os senhores leitores estão convidados a fazer seus comentários.

A new kind of rapture

Göbekli Tepe.

Pouca gente já ouviu falar desse lugar, mas trata-se, nada mais nada menos, do que de uma das mais relevantes descobertas arqueológicas dos últimos anos (décadas? séculos?).

À primeira vista, o conjunto arqueológico parece apenas mais um agregado de menires, formando um círculo. A princípio, algo definitivamente menos impressionante do que Stonehenge, por exemplo.

O único problema é que Göbekli Tepe é mais antiga do que Stonehenge. Bem mais antiga. Na verdade, antecede Stonehenge em 6.000 ou 7.000 anos. A beleza da coisa é que, em sendo assim, Göbekli Tepe foi construída antes do início da agricultura.

Não se conhecem, porém, construções monumentais de antes do início da agricultura. Imaginava-se até bem pouco tempo que apenas a domesticação de espécies vegetais e animais poderia sustentar a quantidade de pessoas necessárias para a construção de grandes obras de engenharia monumental. Göbekli Tepe prova que isso não é bem verdade.

***

A existência de Göbekli Tepe, porém, não é algo que chegaria a surpreender o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins. Afinal, foi ele que em 1996 propôs a idéia de que as sociedades de caçadores-coletores seriam, de fato, a “original affluent society“, a sociedade da afluência original. Para resumir, a tese é a de que, longe de estarem sempre a um passo da morte por inanição, as sociedades de caçadores coletores eram sociedades com muito tempo livre dado que suas necessidades de reprodução eram facilmente atendidas.

Em seu livro “Maps of Time“, o historiador David Christian se estende um pouco sobre esse assunto, com base em outros estudos:

Qual era a qualidade de vida das pessoas no Paleolítico? Um morador de uma cidade moderna que fosse transportado para o Paleolítico não acharia a vida fácil, mas o pressuposto popular - o de que a vida de sociedades de caçadores-coletores era intrinsecamente difícil é exagerado. É provavelmente igualmente verdade que um cidadão do Paleolítico Siberiano subitamente transportado para o século XXI iria encontrar dificuldades em viver hoje, ainda que de diferentes formas. Num ensaio deliberadamente provocativo publicado em 1972, o antropólogo Marshall Sahlins descreve o mundo da Idade da Pedra como “a sociedade da afluência original”. Ele argumenta que uma sociedade afluente é “aquela em que todas as necessidades materiais da população sejam facilmente satisfeitas”, e ele sugere que por certos padrões, as sociedades da Idade da Pedra cumpriram este critério melhor do o fazem as modernas sociedades industrializadas. Ele ressalta que a riqueza pode ser alcançada seja pela produção de mais mercadorias para satisfazer mais desejos ou pela limitação dos desejos àquilo que está disponível (a “estrada Zen para a afluência”). Usando dados antropológicos recentes para ganhar algum conhecimento sobre a experiência de vida nas sociedades Paleolíticas, ele admite que os níveis de consumo material, sem dúvida, foram baixos entre os povos da Idade da Pedra. Na verdade, o nomadismo, pela sua própria natureza, desincentiva a acumulação de bens materiais, pois a necessidade de transportar o que se possui impõe limites a qualquer desejo de acumular bens materiais. Estudos sugerem que sociedades nômades modernas podem também deliberadamente controlar o crescimento da população utilizando diferentes métodos, incluindo um prolongado período de amamentação das crianças (o que inibe a ovulação), e também técnicas mais brutais, tais como o abandono de crianças em excesso ou de membros mais velhos já não capazes de se mover com o resto da comunidade. De qualquer maneira, Sahlins argumenta que os níveis normais de consumo nessas comunidades era mais que adequado para suprir as necessidades básicas.” (tradução Hermenauta)

Descobertas recentes, analisando os restos mortais de humanos procedentes das antigas comunidades agrícolas vis a vis os de grupos caçadores-coletores, mostra que estes últimos tendiam a ser maiores, mais fortes e mais saudáveis. De fato, o tempo médio diário de “trabalho”, definido como o tempo dedicado a atividades necessárias para a sobrevivência, subiram de cerca de 6 horas nas sociedades caçadoras-coletoras paleolíticas para 7,5 horas no início da agricultura e cerca de 9 horas nas atuais sociedades industrializadas.

Levando em conta, adicionalmente, o fato de que nosso atual padrão de consumo provavelmente não é sustentável, acho que continua sendo uma boa idéia nos perguntarmos sobre o quão realmente nossa sociedade ocidental industrializada é realmente “superior” às demais.

A propósito da idéia exposta no último parágrafo, reproduzo, abaixo, texto do Paul Krugman no New York Times traduzido pela Folha de São Paulo de hoje.

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Se a direita anaeróbica tem um sonho dourado, é o de conseguir criar uma crise militar no governo Lula. A atual pendenga entre o General Heleno, chefe do comando militar da Amazônia, e o governo, por causa da demarcação de uma reserva indígena, ofereceu mais uma oportunidade para isso (a última foi durante a crise aérea e a ameaça de insubordinação dos controladores de vôo).

Obviamente, Tio Rei não iria perder esse barco. Lá no blog dele, botou o endereço de uma petição online a favor do General Heleno:

Petição de apoio ao general

Há uma petição de apoio ao general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, neste endereço:

http://www.petitiononline.com/xptoxpto/petition.html

Já assinei. Estou lá, nº 439.

Desde então, ele já repetiu o link duas vezes. Eis o texto da petição:

To: Gen.Augusto Heleno

Nós, brasileiras e brasileiros,cidadãos de bem deste País, vimos,através desta missiva,prestar toda nossa solidariedade com relação aos episódios recentes, relativos ao polêmico e delicado tema da defesa das nossas fronteiras,da defesa da soberania nacional, em especial sobre a questão da reserva “Raposa Serra do Sol”.

Apoiamos sua avaliação técnica sobre o objeto em questão,apoiamos seu direito e seu dever de informar aos brasileiros o que está acontecendo, apoiamos a defesa incondicional do nosso patrimônio natural contra a cobiça internacional e apoiamos sua defesa de criação de reservas para os índios,nossos irmãos,de forma a não haver entrega de parte do território nacional,ao contrário,fazer prevalecer o ideal de integração tão bem conduzida pelo grande brasileiro Cândido Rondon.

The Undersigned

Sincerely,

Pelo site, não dá para saber a data em que a petição foi lançada _ por alguém chamado Lia de Souza. Porém, Tio Rei postou pela primeira vez o endereço da petição às 21:00 hs do dia 18/04, e bateu no peito orgulhando-se de ser o apoiador de número 439. Suponho, portanto, que a petição tenha sido criada no próprio dia 18. Pois foi no mesmo dia 18 que o DEM soltou uma nota de apoio ao General:

Comissão Executiva Nacional - Democratas– Nota Oficial

Brasil exige luta contra o crime

A Comissão Executiva Nacional do Democratas vem a público exigir medidas efetivas contra o clima de quase insurreição que temos vivido; alertar a opinião pública para a irresponsabilidade contínua do governo no uso do dinheiro público e manifestar apoio ao comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira – ameaçado e intimidado depois que solicitou mudanças na política indigenista. Sobre essas questões, o Democratas solicita atenção da sociedade para os seguintes pontos:

1)o general Heleno Ribeiro Pereira advertiu que a questão indígena tornou-se “ameaça interna” à soberania brasileira na Amazônia referindo-se à necessidade de revisão do decreto presidencial que criou a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. A pretexto de transformar tribos em “supostas nações independentes”, ONGs estrangeiras interessadas em consolidar a invasão do território nacional, agem livremente na reserva, que faz fronteira com a Venezuela e a Guiana;

2) ao invés de levar em conta a advertência do oficial, o governo age no sentido oposto e está exigindo que ele explique afirmações feitas com base em fatos e informações incontestáveis. Com o pedido de explicações, o governo busca intimidar, ameaçar e silenciar o Comandante Militar da Amazônia com o objetivo de enfraquecer a posição de todos os que defendem a revisão da política indigenista do governo porque ela implica ameaça à segurança nacional;

3) ao mesmo tempo que sinaliza com punições contra quem age com seriedade, moderação e respeito às leis, o governo atua com permissividade e leniência ante as ilegalidades de grupos que investem contra a democracia, o estado de direito e a segurança pública. É com apoio, estímulo e financiamento público que o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, pratica ações ilegais de Norte a Sul do país e achincalha o direito de propriedade previsto na Constituição sem receber sequer uma advertência dos responsáveis pela ordem pública;

4) é o dinheiro desviado do bolso do trabalhador honrado, que tem a cultura dos direitos e deveres, que financia as ações ilegais do MST, grupo comprometido com a intolerância, a violência e o crime. Com que direito o governo transfere, sem prestar contas ao Congresso e à opinião pública, recursos públicos cada vez mais volumosos para financiar as jornadas de crime e de terror do MST? Qual a justificativa para doar verbas que deveriam acudir problemas de saúde, educação e moradia das pessoas, a quem cria ambiente de insegurança jurídica que resultará na imposição de pesados prejuízos ao país e a todos os brasileiros?

5) o Brasil não construiu a democracia para favorecer ilegalidades, seja a pretexto de proteger os índios, seja com a desculpa de combater injustiças ou sob a alegação de pretensas reparações a comunidades remanescentes de quilombos. A sociedade brasileira lutou para conquistar um Estado democrático de direito onde ninguém pudesse agir ao arrepio da lei. É preciso dar um basta aos que se escondem por trás de supostos movimentos sociais para aumentar o controle estatal da sociedade. Em vez de luta de classes, o país exige luta contra o crime.

Brasília, 18 de abril de 2008

Rodrigo Maia

Presidente

Curiosamente, o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio, teve uma reação mais interessante:

Não estou defendendo o governo Lula. [...] Considero que um general da ativa deveria se abster de opinar sobre questões políticas. Quero militares bem armados, bem equipados e bem pagos, mas não os quero determinando os rumos da política nacional.”

O que explica isso? Provavelmente o fato de que enquanto o ex-PFL, atual DEM, rolou na lama com o governo militar, boa parte do PSDB não teve vida fácil durante a ditadura, sendo que muitos de seus atuais líderes tiveram que puxar o carro _ incluindo FHC e José Serra. O próprio Arthur Virgílio, aliás, foi do PCB e deve ter levado suas cacetadas quando participou do Movimento Estudantil na década de 70.

***

Curiosamente, nem o DEM nem Reinaldo Azevedo parecem se incomodar muito com as denúncias de que um oficial reformado do exército da Venezuela esteve dando treinamento de guerrilha aos arrozeiros que serão desalojados da Reserva, muito menos com os fazendeiros norte-americanos que estão comprando milhares de hectares de fazenda no Brasil. Perigosos mesmo são os índios da Raposa do Sol.

O pior é que o próprio General Heleno confessa, no Estadão, a incapacidade do Exército em defender nossas fronteiras, com ou sem reserva indígena:

Amazônia oriental é o ponto mais vulnerável da fronteira

Apenas 17 soldados protegem uma faixa de 1.385 quilômetros de divisa no extremo norte do Pará

José Maria Tomazela

Dos 25 mil homens de que o Exército dispõe para defender a Amazônia de ameaças que vão do tráfico de drogas à cobiça internacional pelas nossas riquezas naturais, apenas 240 vigiam mais de 2 mil quilômetros de fronteira com as Guianas e o Suriname, na chamada Amazônia oriental. Destes, um contingente de 17 soldados tem a missão de proteger uma faixa de 1.385 quilômetros de fronteira seca no extremo norte do Pará. Se fossem distribuídos nesse território, caberia a cada homem a vigilância sobre 12.150 quilômetros quadrados, dez vezes a área da cidade do Rio de Janeiro.

A região é vista como o ponto fraco do sistema brasileiro de defesa e preocupa o chefe do Comando Militar da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira. “O contingente é muito pequeno. A distância entre dois pelotões passa de 400 quilômetros sem ligação por terra.

Bom, qualquer um que tenha morado no Rio sabe do enorme contingente do Exército estacionado naquele estado da federação, sem razão aparente já que o Rio não é mais a capital do país há quase cinquenta anos. Então porque diabos o Exército não realoca esse pessoal?

E tudo graças a um menino maluquinho

Deu no Estadão:

Massacre de Virginia Tech rende indenização milionária

WASHINGTON - Os parentes das vítimas mortas por um estudante sul-coreano que atacou há um ano a Universidade de Virginia Tech receberão uma indenização de US$ 11 milhões, informaram hoje fontes judiciais.

Advogados das 21 famílias disseram que o valor foi decidido em um acordo extrajudicial com o estado da Virgínia para evitar processos posteriores.

“Nossos corações estão com nossos clientes que nos confiaram esta importante responsabilidade”, indicaram os advogados em uma declaração.

Em 16 de abril do ano passado, o estudante sul-coreano Seung-hui Cho matou 32 pessoas e feriu mais de dez na Virginia Tech. Após o ataque, cometido em um dos establecimentos do instituto, Cho se suicidou.

Os advogados indicaram que só divulgarão os detalhes do acordo quando forem acertados os detalhes definitivos.

***

Feitas as contas, cada família levou para casa mais ou menos o mesmo que o Ziraldo. Com a vantagem, sobre a família do Ziraldo, que sem o Ziraldo.

Já dizia Churchill: “the empires of the future will be empires of the mind“. Artigo na Wired sobre a próxima fronteira da luta pelos direitos civis: a mente.

O início do artigo já me impressionou:

Trolling down the street in Manhattan, I suddenly hear a woman’s voice.

“Who’s there? Who’s there?” she whispers. I look around but can’t figure out where it’s coming from. It seems to emanate from inside my skull.

Was I going nuts? Nope. I had simply encountered a new advertising medium: hypersonic sound. It broadcasts audio in a focused beam, so that only a person standing directly in its path hears the message. In this case, the cable channel A&E was using the technology to promote a show about, naturally, the paranormal.

I’m a geek, so my first reaction was, “Cool!” But it also felt creepy.

Na mesma tecla, Nick Carr sobre Neuromarketing no Guardian.

Uma agenda que aproveita todos os espaços

Como era de se esperar, a Veja saiu com uma capa acerca das recentes notícias sobre maus-tratos a crianças.  No post “Seletividade”, eu havia especulado sobre os motivos pelos quais alguém como Reinaldo Azevedo não falaram, até agora, de crimes como o da empresária Sílvia Calabresi Lima, que torturava sistematicamente meninas “adotadas” e empregadas domésticas.  Bem, a “Veja” resolveu enfrentar o desafio em reportagem assinada por Jerônimo Teixeira.  Reinaldo Azevedo, por ser pago para isso, fala da reportagem da revista, mas se exime de falar de Silvia _ prefere restringir-se ao recente caso da menina Isabela, um prato cheio para a classe média.

Eis a salva inicial:

O mal está presente em toda parte. Na grande arena da política internacional pode-se divisá-lo no genocídio de Darfur, na repressão política em Cuba e no Tibete, no terrorismo da Al Qaeda e das Farc, na leniência do governo americano com práticas de tortura. Esse tipo de mal é mais assimilável, pois se esconde atrás de razões de estado e de pretensas causas nobres.

Mas como metabolizar na alma o mal doméstico, que vem nu, sem disfarces, sem o véu de sofismas que poderiam desculpá-lo e torná-lo suportável pela racionalização de sua origem? Como entender que o sorriso lindo e angelical de Isabella possa ter sido substituído pela máscara da morte no frescor de seus 5 anos de vida? Esse tipo de mal não cabe sequer na aceitação de que coisas ruins podem acontecer a pessoas boas. Esse tipo de mal parece ser uma zona de sombra que aprisiona a alma humana. Esse tipo de mal simplesmente existe. Isso é o que o torna mais assustador.

O interessante aqui é que o texto, embora estabeleça uma “divisão” entre o mal global e o local, claramente unifica os acontecimentos sob a mesma ordem: o “Mal”.  Isto prepara o terreno para um exercício de reafirmação de uma concepção de mundo onde história, geografia, economia e política não parecem existir a não ser como fantoches manipulados pelo “Mal” _ e certamente, também pelo seu duplo por enquanto oculto, o “Bem”.  A coisa continua:

Pelos séculos afora teólogos e filósofos tentaram ajudar a humanidade a conviver com o mal. Mais recentemente as explicações desceram do plano metafísico para se tornar objeto de estudo da sociologia, da psicologia e das ciências biológicas. Nenhuma teoria, porém, é capaz de abarcá-lo, de amainar o choque que ele provoca no corpo e na alma ou a destruição que causa no seio das famílias e no julgamento que fazemos de nós mesmos ao deparar com seres humanos agindo como bestas. Talvez a única certeza sobre o mal seja esta: ele é incontornável.

A palavra “mal” tende a levantar objeções dos céticos. Não será uma superstição religiosa que a modernidade superou? Não, não é. Na semana passada, veio à luz o caso de um menino de 9 anos que, por capricho de dois trabalhadores de uma fazenda em Aurilândia, em Goiás, teve o corpo queimado com um ferro de marcar gado. Não existe qualificação mais precisa para o ato de queimar um garoto por diversão: trata-se de maldade.

O problema aqui, creio, seja a mistura de conceitos: uma coisa é o mal como “pathos”, outra coisa é o mal como agente.  Explico: o mal como um sentimento é plenamente compreensível em seres inteligentes.  O problema entre seres inteligentes é que eles são dados a, sempre que possível, materializar causas.  Assim, fenômenos da natureza como o furacão Katrina podem ser prontamente explorados por líderes religiosos como “castigo” de uma divindade.  Isto não acontece por acaso.  Em sua obra “The Evolution of Cooperation“, Robert Axelrod sugere uma forma pela qual comportamentos cooperativos emergem espontaneamente entre agentes dotados de algum nível de inteligência.  O corolário é que provavelmente todos nós, se não nascemos necessariamente bons, temos embutida dentro de nós uma expectativa de que se nos comportarmos bem o “outro” também se comportará bem.  Eis o motivo profundo pelo qual temos dificuldade em aceitar que coisas más podem acontecer a pessoas boas.  No caso de catástrofes naturais, o mais razoável é simplesmente aceitar que o mundo natural pouco se importa com o destino das vidas humanas, mas esta é uma opção inexistente para teístas, que estão assim obrigados a resolver de alguma forma o que percebem como “o problema do mal” (e as diferentes respostas a essa questão estão por trás da grande diversidade encontrada entre as religiões humanas, existentes e extintas).

O problema da formulação de Axelrod, porém, é que ela só vale no contexto de jogos repetidos, e jogos repetidos só são compatíveis com o nível local, onde se pode prever com razoável precisão que as pessoas interagirão muitas e muitas vezes.  Nas nossas sociedades ampliadas, essa expectativa não funciona mais, o que sugere que comportamentos oportunistas terão certa chance de sucesso (entendido como “ação sem punição”), a menos que se crie artificialmente uma forma de coibir a ação oportunista.  E assim, no meu entendimento, nasce o Estado.

Mas a matéria continua, e fala especificamente sobre o caso de Silvia:

A hipótese de uma psicopatia é forte no caso de Sílvia. O psicopata entende intelectualmente a diferença entre o bem e o mal, mas é desprovido de piedade, empatia, remorso – emoções que estão na base do senso moral das pessoas. Contrariando as ilusões de certo humanismo que acredita na possibilidade de reeducar qualquer criminoso, indivíduos assim são irrecuperáveis. Com recurso a técnicas recentes como a ressonância magnética funcional, a ciência tem se dedicado a mapear as áreas do cérebro responsáveis pelas decisões morais – áreas que apresentam atividade reduzida nos casos de psicopatia. As causas do distúrbio, porém, ainda não são compreendidas. O problema do mal dificilmente será resolvido nos laboratórios de neurociência. “O mal é um conceito humano, social. A neurociência não pode dizer o que é ou não mau”, diz o neurocientista Jorge Moll Neto, do Instituto de Pesquisa da Rede Labs-D’Or, no Rio de Janeiro.

A matéria não volta a falar do caso de Silvia, e nem dá maiores dicas sobre como chegou à conclusão de que “a hipótese de psicopatia é forte no caso de Sílvia“.  Será que é porque ela é empresária?  Ela mesma disse que não é louca.  Que eu me lembre outros perpretadores de crimes horríveis que aconteceram de provir de outro estrato social, como Champinha, não mereceram tamanha deferência da revista.  Mas eu posso estar exagerando.

Este outro parágrafo é interessante:

A perspectiva religiosa sobre o mal tende a enfatizar as escolhas individuais. O cristianismo vê o mal como fruto do orgulho humano (ou angélico, se pensarmos em Lúcifer, o anjo que cai da graça divina por sua soberba). É por imaginar a si mesmo como auto-suficiente, como uma espécie de divindade, que o homem se sente no direito de humilhar, ferir, matar o próximo. Mas a natureza cega do mal – especialmente do mal da natureza, os terremotos, enchentes, incêndios e outras catástrofes – coloca um problema para os religiosos: se Deus é bom, por que coisas más acontecem até mesmo aos justos? Que sentido pode ter, por exemplo, o drama de Madeleine McCann, a menina inglesa que sumiu de seu quarto de hotel em Portugal, em maio de 2007, e nunca foi reencontrada? Os grandes pensadores do cristianismo tentaram resolver esses dilemas. Santo Agostinho, por exemplo, dizia que, se bons e maus sofrem igualmente, é para que os primeiros possam provar sua virtude. Assim como o fogo “transforma a palha em cinza e faz brilhar o ouro”, o infortúnio purifica os virtuosos e destrói os perversos, diz Agostinho em A Cidade de Deus.

Essa passagem é especialmente capciosa.  Lembremo-nos por exemplo de um célebre episódio da perseguição aos cátaros na França medieval, onde um oficial, ao inquirir um prelado enviado pelo Papa sobre como distinguir entre um cristão e um cátaro na hora de executá-los, foi instruído a matar a todos, já que “Deus saberá identificar os seus“.  Certamente algum douto da Igreja pode surgir para mostrar como o prelado agiu contrariamente às Escrituras e aos ensinamentos da Igreja, mas persiste o fato de que até mesmo um inteléqtual como Reinaldo Azevedo ensina que há um modo cristão de matar.  O que parece nos dar uma pista sobre uma característica importante do pensamento religioso: de fato, religiões estão no negócio de fazer o homem se pensar como “auto-suficiente”, ainda que esta seja uma auto-suficiência refletida, à qual ele tem direito por atuar em linha direta com as necessidades e desejos da divindade.  O fato evidente, mas insatisfatoriamente apreciado, de que a divindade é inventada, é claro, é o grande truque na história.

Encerro o post comentando este parágrafo:

Na história do pensamento ocidental, foi o cristianismo que aprofundou a noção de mal. Os filósofos gregos não se dedicaram tanto ao tema. O estoicismo, escola de pensamento grega e latina que pregava a aceitação serena do mundo, praticamente recusava a noção. “A natureza do mal não existe no mundo, pois não se concebe um fim destinado a não se realizar”, dizia Epicteto, um dos mestres estóicos (talvez não seja por acaso que o imperador romano Marco Aurélio, outro clássico do estoicismo, mandava crucificar cristãos). A filosofia por muito tempo desconfiou da concepção de mal – seria um problema do domínio da teologia. Mas pensadores como Kant se esforçaram para dar uma dimensão laica ao mal. O mal é um conceito difícil, sem dúvida, mas hoje está bem estabelecido que se pode defini-lo sem recurso à fé. “O mal é toda ação voltada para eliminar as condições de uma existência racional”, diz o filósofo Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor de Retratos do Mal. Nesse conceito cabem, por exemplo, da violência contra uma criança ao atentado de 11 de setembro – todas ações que atentam contra a racionalidade.

Me parece estranho que seja logo eu, um ateu, a achar estranha essa curiosa naturalização da racionalidade operada pelo texto da Veja.  Bom, basta nos lembrarmos de filmes como “A Profecia” para nos darmos conta de que a decisão de fazer ou não mal a uma criança depende muitíssimo da racionalidade em vigor _ e o filme nos transporta para uma racionalidade religiosa onde fazer o mal ao Anticristo não seria uma má idéia, exceto, é claro, do ponto de vista de radicais da Bíblia que acham que as Escrituras têm que ser cumpridas até o seu final.

No entanto, duvido muito que se possa definir o mal dessa forma _ “toda ação voltada para eliminar as condições de uma existência racional ” _ sem imediatamente divinizar a razão, ou pior, uma dada racionalidade dentre outras.

Está cogitando trocar o vício do cigarro por outro mais saudável, Paris.

Elite Triste.  O anti-Sebastião Salgado.

“Sou fotógrafo e o meu trabalho é captar as expressões de tristeza da elite brasileira, afinal rico também tem o direito de sofrer.

Onde houver uma lágrima de Perrier, estarei lá para registrar.”

figueiredo.jpg

Never gonna let you down
Never gonna run around and desert you
Never gonna make you cry
Never gonna say goodbye
Never gonna tell a lie and hurt you

E não é que de todos os blogs que ando vendo aí só o Pedro Dória lembrou que ontem foi aniversário da Redentora???

oneringbush.jpg

Para os Reis Elfos sob o céu, Três Anéis são;
Sete para os Lordes Anões, abrigados em seus salões;
Nove para o Homem: a morrer condenado;
UM para o Lorde Negro em seu trono sentado
na Terra de Mordor, onde as sombras vão repousar.
UM Anel para achá-los, para a todos governar.
UM Anel para reuni-los e para, na treva, os atar
na Terra de Mordor, onde as sombras vão repousar.

Entrevista com o especialista em mineração de ouro Keith Slack na Der Spiegel, traduzida pela Folha:

Spiegel - Quanto resíduo é produzido para extrair ouro suficiente para um anel de casamento?
Slack -
Isto produz 20 toneladas de resíduos.

Spiegel - Isto é apenas rocha solta que pode ser removida para outro lugar, ou é resíduo tóxico?
Slack -
O problema é que a rocha tratada com cianeto, quando exposta ao ar, produzirá ácidos sulfúricos, como aqueles contidos nas baterias dos automóveis. Este processo continua para sempre e pode contaminar permanentemente a água subterrânea. Até mesmo as minas operadas pelos romanos onde atualmente é a França ainda emanam estas substâncias.

É por isso que eu digo aos jovens:  não se casem.  Se casarem, não usem anel.

Transcrevo a matéria na íntegra abaixo do fold.

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Cortesia: DARPA

Deu no Estadão:

PF do Rio recupera equipamentos furtados da Petrobras

Além de reaver o material, a polícia prendeu quatro empregados do terminal de contêineres Poliportos, no Rio

RIO - Agentes do Setor de Inteligência da Polícia Federal do Rio recuperaram nesta quinta-feira, 28, os equipamentos da Petrobras que haviam sido furtados quando eram transportados da Plataforma de Petrolífera da Bacia de Santos para Macaé. O furto foi descoberto no dia 31 de janeiro, mas anunciado só no dia 14 deste mês. Quatro empregados do terminal de contêineres Poliportos, na zona portuária do Rio, foram presos. Com eles, além do material furtado da Petrobras, a PF localizou outros equipamentos de informática que também tinham sido levados do mesmo terminal. Para chegar aos quatro funcionários, os agentes trabalharam em cima das equipes da Poliportos que trabalhavam nos dias em que foram constatados casos de furtos de material, inclusive de outras empresas. 

A PF descarta, inicialmente, a hipótese de espionagem industrial no caso. Os laptops recuperados nesta manhã estavam nas residências dos funcionários da Poliportos e, aparentemente, serviam para uso pessoal.

Assim não dá.

Cravo:

Studies Say Clearing Land for Biofuels Will Aid Warming

Clearing land to produce biofuels such as ethanol will do more to exacerbate global warming than using gasoline or other fossil fuels, two scientific studies show.

The independent analyses, which will be published today in the journal Science, could force policymakers in the United States and Europe to reevaluate incentives they have adopted to spur production of ethanol-based fuels. President Bush and many members of Congress have touted expanding biofuel use as an integral element of the nation’s battle against climate change, but these studies suggest that this strategy will damage the planet rather than help protect it.

One study — written by a group of researchers from Princeton University, Woods Hole Research Center and Iowa State University along with an agriculture consultant — concluded that over 30 years, use of traditional corn-based ethanol would produce twice as much greenhouse gas emissions as regular gasoline. Another analysis, written by a Nature Conservancy scientist along with University of Minnesota researchers, found that converting rainforests, peatlands, savannas or grasslands in Southeast Asia and Latin America to produce biofuels will increase global warming pollution for decades, if not centuries (..)“.

Ferradura:

Contra desflorestamento, governo prepara anistia para desmatadores

Ante alta da devastação, idéia é reduzir área intocada das propriedades de 80% para 50% e reverter perda total

João Domingos

Para tentar reduzir e compensar o desmatamento na Amazônia Legal, o governo planeja dar uma anistia a quem derrubou ilegalmente a floresta.

Pela medida em estudo nos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, empresas e agricultores poderão manter 50% das fazendas desmatadas, voltar à legalidade e ter direito ao crédito agrícola oficial se aceitarem recuperar e repor a floresta dos outros 50% das propriedades. Feitas as contas, se a decisão for adotada, o governo vai legalizar em torno de 220 mil quilômetros quadrados de Amazônia desmatada ilegalmente, uma área correspondente à soma dos Estados do Paraná e Sergipe.

A obrigatoriedade estabelecida no Código Florestal, de manter reserva legal correspondente a 80% do tamanho do imóvel, podendo desmatar e produzir nos demais 20%, continuará valendo para quem não derrubou a mata ou para quem adquirir propriedade nova.

O dano ambiental já ocorreu, a área já está desmatada. Esse é o fato. Permitir que a recuperação nas áreas de uso intensivo seja de 50% é uma forma de diminuir a pressão por novos desmatamentos”, disse ao Estado o secretário-executivo do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, um dos defensores da idéia.

Embora a medida funcione como uma anistia, o secretário não aceita essa definição. Para ele, trata-se de uma medida excepcional, destinada a resolver um problema urgente.

No final de janeiro, Capobianco divulgou dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) segundo os quais em novembro e dezembro houve aumento de desmatamento na Amazônia.

***

Para quem não se lembra, eis o que se dizia no ano passado, quando se discutia as alterações no Código Florestal:

Depois de passar silenciosamente pelo Senado, o Projeto de Lei 6424/2005, do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que propõe alterações no Código Florestal de 1965, ganhou novos atributos na Câmara dos Deputados. Antes focado na permissão do plantio de espécies exóticas para recuperação de áreas degradadas, o texto foi influenciado por setores produtivos, ganhou relatório do deputado Jorge Khoury (DEM-BA) e, segundo ambientalistas, traz agora enorme risco para a Amazônia, o Cerrado e outros biomas brasileiros.

(…)

As críticas se dirigem principalmente à possibilidade de se recuperar 30% da reserva legal na Amazônia, que é de 80%, com vegetais exóticos para produção de biocombustíveis, de se compensar reservas legais fora da bacia hidrográfica de origem e até em territórios de populações tradicionais ou assentamentos rurais, e ainda a possível sobreposição de reservas legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs). A maioria das propriedades rurais brasileiras não possui as APPs e reservas legais recomendadas pelo Código Florestal.

Nada contra

Enquanto as ONGs estão de cabelo em pé com a passagem do PL 6424 pela Comissão de Agricultura, o Ministério do Meio Ambiente ameniza possíveis prejuízos ao Código Florestal. Conforme o secretário-executivo do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, seu ministério não tem estratégia específica para o assunto. “Não temos nenhuma estratégia. O projeto é do legislativo e nosso papel é apenas interagir e trabalhar para que ele garanta e aprimore dispositivos legais em favor do meio ambiente”, minimiza.Segundo ele, o manifesto ambientalista “não faz o menor sentido” porque as negociações na Câmara estavam avançadas e o projeto de lei trazia pontos positivos, como transformar desmate de reserva legal em crime ambiental e permitir ao Executivo proibir por tempo indeterminado o desmatamento em pontos críticos do território, como municípios da Amazônia. “Não sabemos exatamente qual o texto que chegou à Comissão de Agricultura, mas vários pontos que estavam em discussão eram positivos”, pondera Capobianco.”

Claro, claro.

Quem é Amy Winehouse?

Pronto, perguntei.

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_ Zulfikar Ali Bhuto, pai de Benazir