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Um filme muito superestimado.
Estréia nesta semana o “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins, o Zé do Caixão.
Pra quem não sabe, o filme é a terceira e última parte de uma trilogia:
- À Meia-Noite Levarei sua Alma ( 1964 )
- Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver ( 1967 )
- Encarnação do Demônio ( 2008 ) (!!)
No que deve ser provavelmente a mais demorada trilogia já registrada nos Annales do cinemá. “Development Hell” é pinto.
O filme tem site.
***
Esses dias fiquei pensando, “Pô, como é que a direiteca anaeróbica ainda não baixou o pau em um filme certamente produzido com recursos das leis de incentivo e com uma temática tão…demoníaca?”.
De fato, diz uma reportagem do Estadão sobre o filme, logo no início das filmagens:
“É a primeira vez em quase 30 anos que o cineasta [Mojica, Nt. Hermê] vai dirigir um longa. Também é a primeira vez que Mojica filma com verba captada pelas leis de incentivo. Para quem fazia filmes artesanais, os cerca de R$ 1 milhão que o novo filme vai custar serão suficientes para a carnificina cinematográfica.” [grifos meus]
Aí fui conferir o patrocínio no site do filme:
“Este filme foi realizado com recursos do edital para filmes de baixo orçamento Secretaria do Audiovisual / Ministério da Cultura / Governo Federal/Programa de Fomento ao Cinema Paulista e Programa de Apoio à Cultura (Lei Estadual 12.268/06) / Governo do Estado de São Paulo / Secretaria de Estado da Cultura. Apoio Institucional Prefeitura do Município de São Paulo Lei 10.923/90.“
Ah, tá explicado.
***
Curiosamente, Mojica não gastou grana em efeitos especiais. Diz o blog do Zanin:
“A facilidade de recursos não fez com que Mojica utilizasse técnicas de computador para simular efeitos. “Prefiro o método artesanal mesmo”, diz.
Por método artesanal, entenda-se que as baratas e aranhas são de verdade mesmo e que uma atriz saia do ventre de um porco e a cena se faça com a carcaça de um animal desossado. Algumas das atrizes falaram da dificuldade e dos desafios de trabalhar nessas condições. Enfim, Mojica é hard mesmo e não mudou apenas porque desta vez tinha técnicos em quantidade e qualidade como nunca e porque havia dinheiro disponível.“
Mojica explica:
“Diz que o filme ficou caro não porque tenha usado computador ou qualquer coisa sofisticada do tipo, mas porque as pessoas desta vez foram bem pagas. “E bem alimentadas”, acrescenta. “Antigamente, o que eles comiam era, no máximo, um sanduíche de mortandela.”
Tá, tá, é dinheiro público e tal. Mas é impossível não simpatizar com o cara.
***
E em seguida, eu falo sobre o Batman.
Na Folha, o Fernando Meirelles (Cidade de Deus) fala sobre novos projetos, etc. Mas a parte boa da entrevista é essa:
“FOLHA - Como está seu projeto de fazer uma série sobre procuradores?
MEIRELLES - Por enquanto não rolou, apesar de a Globo gostar. É genial esse tema de procuradores, Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, juízes.
FOLHA - A operação Satiagraha acaba sendo uma boa novela, não?
MEIRELLES - Total, total. O Gilmar Mendes dá um vilão sensacional. Pode publicar [risos].“
Indeed.

Can you avenge evil and not become it?

Será que ele fez confusão?
Deu no Estadão:
“Christian Bale é liberado após pagar fiança em Londres
LONDRES - O ator Christian Bale, que encarna o super-herói Batman, no último filme da série, Batman - O Cavaleiro das Trevas, foi posto em liberdade após pagamento de fiança. Bale foi detido nesta terça-feira, 22, por suposta agressão a dois membros de sua família, informou a polícia.
Bale, que na segunda-feira, 21, assistiu em Londres à estréia do filme, saiu em liberdade após ter sido preso na manhã desta terça, 22, ao atender ao pedido de uma comissária londrinense para ser interrogado por supostamente ter agredido sua mãe, Jenny, 61, e a irmã Sharon, 40, na suíte do hotel Dorchester, no domingo.
Ao que tudo indica, as duas mulheres, que vivem em Dorset (oeste da Inglaterra), apresentaram a denúncia na segunda, em uma delegacia local, que passou a queixa para a Polícia Metropolitana de Londres(MET).“
O Rafael Galvão fez um post sobre o Rottentomatoes, mas também sobre o filme Wall.e. Fiz lá o seguinte comentário, que transformo em post aqui, oportunisticamente:
“Paraíba,
Filmes são o que os economistas chamam de “bens de experiência”; diferentemente de uma caixa de ovos, você só pode ter noção sobre a qualidade de um filme após “experimentá-lo” (*).
A crítica existe precisamente por esse motivo. No entanto, há um grande problema quando nos vemos diante da resenha de um crítico: há uma assimetria de informação entre você e o crítico. Ele já viu o filme, você não; e a princípio, você não conhece o crítico suficientemente para saber aquilatar tudo o que ele está dizendo do filme (de bom ou ruim).
Diante disso há duas possibilidades:
a) Busque e encontre um ou mais críticos cuja sensibilidade ressoe com a sua. Neste caso você provavelmente errará pouco.
b) Busque a opinião do maior número de críticos possível e deixe que a Lei dos Grandes Números opere em seu benefício.
Qualquer das duas alternativas demandará do consumidor a utilização de uma regra básica: conhece-te a ti mesmo. No caso a) para saber se você e o crítico têm mesmo afinidade; no segundo caso, para saber se você é um contrarian avesso a tudo o que o resto da Humanidade adora.
No tocante à apreciação da obra cinematográfica em si, a coisa é um tanto complicada. Para começar, as pessoas podem apenas estar em busca de entretenimento puro e simples. Nesse caso é até admissível que sejam capazes de desenvolver um feeling para a qualidade do produto mais ligado ao pedigree dos atores, diretores, produtores, etc, do que à opinião do crítico _ simplesmente porque o produto “artístico” é mais variável e multidimensional do que o produto voltado para o “entretenimento”.
Por outro lado, se formos falar de “arte”, aí recairemos na espinhosa tarefa de ter primeiro que definir o que significa tal conceito. Eu não vou nem tentar fazer isso, mas tenho uma intuição de que experiência e mais fundalmentamente a idade (porque há coisas incompressíveis no tempo, o que a experiência por si só não abarca) alteram sensivelmente a nossa capacidade de se espantar com alguma coisa (o que acho que deveria fazer parte de um conceito de arte, embora seja apenas um fator) ou achá-la bela (o que é um outro fator).
Nesse sentido muito particular, eu, diferentemente de você, acho que o filme inovou bastante na narrativa sim, se olharmos do ponto de vista de um público…adulto. Em boa parte do filme, saber o que está acontecendo não é nada trivial, e exige uma certa quantidade de pressupostos dos quais talvez não estejamos cientes em uma primeira olhada. Em outras palavras, eu conheço um bom contingente de adultos que não entenderia esse filme. Mas me parece que as crianças já estão adaptadas a esse tipo de linguagem, talvez até por causa dos games.
E isso, eu imagino, é só um exemplo do “the shape of things to come”…“
(*) a rigor, um ovo também só pode ser conhecido após deglutido, ou cheirado. Mas a questão é que filmes são produtos muito menos padronizados que ovos.
Fui ver. Gostei. Lógico que como em toda grande antecipação o filme não é aquilo que eu esperava, mas é bom.
Por enquanto eu só tenho a dizer o seguinte: é muito estranho quando aquilo que foi novidade para nós passa a ser citação para nossos filhos.
“Shit, Piss, Fuck, Cunt, CockSucker, MotherFucker, Tits”
Estas são as “sete palavras que não podem ser ditas em um programa de TV” nos EUA e que, ao contrário do que muita gente parece pensar, subsidia a ação da regulação federal em cima da TV aberta norte-americana.
A coisa hoje é tão séria que veículos liberais como o Reason já começam a se insurgir contra a epidemia de decência na mídia norte-americana, que já fez surgir até mesmo um prêmio para filmecos bem-comportados, o CAMIE - Character and Morality in Entertainment, criado pelo Dr. Glen Griffin, um médico pediatra de Salt Lake City que era também um entusiasta da abstinência sexual (dá pra notar). Deve ser por isso que a imagem plasmada na pequena estátua do prêmio tem um certo ar virginal, em contraste com o priápico Oscar.
Pois George Carlin, o sujeito que foi o pivô da ação judicial que culminou na regulamentação do palavreado indecente na TV dos EUA, morreu esses dias, de infarte, aos 71 anos. Pra quem não sabe, ele foi o primeiro apresentador do “Saturday Night Live”, em 1975.
Carlin era uma estrela da contracultura e entre suas várias cruzadas estava o combate aos eufemismos na mídia norte americana. Ele notou, aliás, que a cultura do eufemismo estava tão difundida no noticiário que ninguém mais podia simplesmente “morrer”. Deve ser por isso que a msnbc noticiou seu passamento simplesmente assim: “Comedian George Carlin dies at 71“. Vai com fé, Carlin.
***
Não deixa de ser um tributo ao diuturno trabalho das esquerdas gramscianas para solapar a fibra do mundo ocidental que ao buscar “CAMIE Awards” no modo imagem no Google acabamos recebendo a seguinte sugestão:
Você quis dizer: COMMIE Awards
Esse mundo tá perdido.

E já que andamos falando tanto de filmes, eis algumas páginas interessantes:
a) Memória da Censura no Cinema Brasileiro
Um verdadeiro tesouro. Eis o texto do parecer 4.799/79, assinado pela Censora Federal Yêda Lúcia Netto Pelas (sim, existia uma carreira de Censor Federal na Polícia Federal) , liberando o filme “Histórias que Nossas Babás Não Contavam”, com Costinha e Adele Fátima:
“Produção nacional desenvolvida segundo resumo em anexo.
Explora, de maneira picante e maliciosa, o tema da conhecida cara (sic) da literatura infantil conhecida como “Branca de Neve e os Sete Anãos .(sic)”.
Contém inúmeras e demoradas cenas de relacionamentos íntimos, entre diferentes casais em todo o decorrer da película além de várias tomadas de nudez masculina e feminina (parcial e total).
A linguagem coaduna-se com a natureza da película, apresentando palavras chulas e vulgares.
Trata-se de mais uma pornochanchada, com os elementos próprios do gênero, cujo objetivo é fornecer ao público um espetáculo erótico. Entretanto, o clima de comicidade, criado, sobretudo, pelo exagêro e deformação da imagem original de cada personagem, torna viável a exibição do filme aos maiores de 18 (DEZOITO) anos.
Brasília, 09 de outubro de 1979.”
Como sabem, existia uma luta de gato e rato entre produtores e censores. Pareceres da Censura criavam “jurisprudência”. Não investiguei, mas é possível que a esta altura (1979) o texto desse parecer já fosse um “padrão” para filmes deste tipo, o que explicaria o porquê dos filmes eróticos terem um viés cômico _ e daí a enorme produção do que chamamos “pornochanchada”, uma forma de driblar a censura, ainda assim produzindo um produto de consumo garantido, o filme erótico.
Um blog com vários fotografamas, pequenos vídeos e fotos raras da pornochanchada nacional (tem até umas raras fotos da supracitada Adele Fátima).
No Crooked Timber uma sugestão para um meme que provavelmente já existe: qual o pior filme que você já viu?
Fiquei forçando a memória aqui. Esta é uma pergunta difícil, não apenas por causa do meu inexcedível bom gosto, que me impede de assistir filmes ruins, como também porque minha mente tem propriedades auto-regenerativas que apagam instantaneamente as memórias dos filmes ruins que eu acaso tenha chegado a ver. “Cinderela Baiana” provavelmente seria de rigueur, se eu tivesse visto tal coisa.
Eu gostei deste comentário, embora, raios, eu tenha gostado de Contatos:
“In terms of Hollywood, ‘Contact’ was pretty bad. As the guy says in South Park: ‘I wait two hours for the alien and it’s her goddammned father!’.
Tim Burton’s Planet of the Apes also deserves some kind of award for simple relentless incomprehensibility, including a twist ending that negates the rest of the movie and can only be explained if the cocaine which drives LA is now regularly cut with angel dust.“
O comentário #137 é surpreendente porque traz à baila um treco chamado “Liquid Sky”, que fui ver na década de 80 em algum festival de cinema no Rio com meu dileto amigo Samurai no Outono _ só que o filme não era dublado e eu ainda não conseguia entender inglês falado muito bem na época.
Sirvam-se.
O tosco existe, manda lembranças e pede passagem.
E depois tem gente que fala mal do Bressane, aquele gênio!
Matéria no Estadão informa que o famoso chapéu do Indiana Jones, marca registrada do personagem, foi desenvolvido por uma empresa brasileira:
““Exporto para o mercado americano há pelo menos 40 anos. Um dos meus clientes nos EUA patrocinou o filme e me pediu que preparássemos a carapuça, isto é, o chapéu semi-acabado para um personagem de aventura”, diz Paulo Cury, um dos sócios da fábrica.
Indiana Jones foi descrito em detalhes para os Cury, mas ninguém na fábrica sabia que ele seria interpretado por Harrison Ford. Nem que o filme seria aquele. “Só descobri quando fui ao cinema e vi meu chapéu na tela. Não é que não dei importância. Fiquei feliz, claro, mas não imaginava a repercussão”, conta o empresário. A Cury fez oito chapéus para serem usados no figurino, do primeiro ao mais recente filme. “Quando os diretores pegaram a encomenda, já pediram mais 40 mil a 50 mil carapuças, para mandarmos os chapéus semi-acabados. Eles previam que ia ter alguma repercussão.”
De 1981 para cá, a fábrica produziu aproximadamente 500 mil unidades do modelo Indiana Jones, entre os pelo menos 16 milhões de chapéus confeccionados pela fábrica. De acordo com Zakia, há 70 modelos em produção, mas esse número pode subir para 300 se forem contados aqueles feitos para os chamados clientes especiais.
O “chapéu do Indiana Jones” é feito em duas versões: com lã ou com pêlo de coelho. A primeira custa, na loja, R$ 85. A versão mais elaborada, a mesma usada por Harrison Ford, chega a R$ 170. “Na verdade, existem materiais coadjuvantes, mas o pêlo e a lã são os principais.“
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Agora resta saber em que sex-shop brasileira George Lucas encomendou o chicote.
O Guardian tem um obituário de Woody Allen:
“The ex cathedra pronouncement that Woody Allen comedies were no longer in vogue came as no great shock to most regular moviegoers, and certainly not to people under the age of 30 (sticklers who prefer comedies that are actually funny), as it had been widely reported in other outlets that the once-revered actor/ writer/director hadn’t made a film worth seeing in years, and nothing vaguely approaching the quality of Annie Hall, Broadway Danny Rose, Manhattan, The Purple Rose of Cairo, or even Bullets Over Broadway. People didn’t talk about Woody Allen movies any more, not even people who had been breathlessly waiting for his latest release since their university days. Allen was a spent force, and - because of his unorthodox parenting style, his unseemly custody battles with ex-partner Mia Farrow and the distressing allegations of child abuse that arose from this contretemps - an embarrassment.“
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De minha parte já não consigo mexer meus pés em direção ao cinema para ver um filme de WA há anos. Acho que “deu” pra mim no episódio dele do “Contos de Nova York”, que muita gente amou e eu detestei.
É triste quando um artista não sabe quando parar. Quando este blog começar a ficar insuportável, por exemplo, por favor me avisem. ![]()
Quem acha que Rafael Correa do Equador é um terrorista ensandecido não perde por esperar. Deu na Folha:
“Indígenas pedem levante contra presidente Correa
O movimento indígena equatoriano de oposição convocou ontem outros setores para organizar um levante contra o presidente Rafael Correa, diante de um impasse quanto à exploração de recursos naturais.
O presidente afirmou que o Estado continuará a decidir sobre a exploração de petróleo ou de minérios em seus territórios e que não aceitará que as comunidades tenham esse poder.
Marlon Santi, chefe da Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), disse que a instituição pode se organizar para defender a soberania alimentar.“
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O Equador tem um movimento indígena fortíssimo. Inclusive, os indígenas são maioria dentro do Exército equatoriano e tem larga tradição castrense. Vai ser de fazer Evo Morales parecer um líder sensato e prudente.
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Não deixa de ser interessante assistir a esta ressurreição indígena na América do Sul, mais de 500 anos após a descoberta do continente e conquista dos povos nativos. Por mais que se esperneie, a coisa é previsível, depois de tanto tempo de domínio das elites criollas, as quais, apesar do nome, são formadas pelos descendentes brancos dos colonizadores. E a coisa está acontecendo em vários quadrantes, desde a política, até a língua e mesmo a religião.
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E em um último backlash contra os pilares da civilização ocidental, revelou-se recentemente que os crânios de cristal presumidamente maias que inspiraram o mais novo e possivelmente (espera-se…) último filme da franquia “Indiana Jones” são uma elaborada fraude. Feita por um francês. É a vingança de Montezumá! La merde!
“Written and directed by Richard Kelly; director of photography, Steven Poster; edited by Sam Bauer; music by Moby; production designer, Alexander Hammond; produced by Sean McKittrick, Bo Hyde, Kendall Morgan and Matthew Rhodes; released by Samuel Goldwyn Pictures. Running time: 144 minutes.
WITH: Dwayne Johnson (Boxer Santaros), Seann William Scott (Roland Taverner/Ronald Taverner), Sarah Michelle Gellar (Krysta Kapowski/Krysta Now), Curtis Armstrong (Dr. Soberin Exx), Joe Campana (Brandt Huntington) and Nora Dunn (Cyndi Pinziki).“
Perdível? Dificilmente.
Em seu livro “The Big Switch”, Nicholas Carr, o blogueiro do Rough Type, alerta para os efeitos econômicos da Web 2.0 (a qual pode ser razoavelmente equacionada como “disseminação da banda larga” + “ferramentas cooperativas”). Entre outros, estão o aumento da produtividade e o fato de que ferramentas colaborativas permitem às empresas prescindir de empregados (pense bem: o YouTube é o que é porque é você quem entra com o conteúdo, não o Google). Na prática, porém, o efeito líquido até agora tem sido o de aumentar a desigualdade, concentrando cada vez mais renda nas mãos de poucos. No seu livro, o próprio Nick mostra algumas estatísticas interessantes sobre desemprego causado pela internets _ e não é de se admirar que boa parte dele, no momento, se concentre nas redações de jornais. Segundo Carr, um estudo da American Society of Newspapers Editors descobriu que entre 2001 e 2005 o staff dos jornais nos EUA declinou em 4%, com uma perda líquida de 1.000 repórteres, 1.000 editores e 300 fotógrafos e artistas. Curiosamente, no mesmo período, o emprego das redações online também declinou em 29% _ o que motivou o seguinte comentário sarcástico de Floyd Norris, comentarista econômico do New York Times: “a internet é a onda do futuro, mas não tente arrumar um emprego ali“.
Neste início de 2008 começaram a pipocar na rede notícias de que mais uma classe dos artistas da pena assalariados está encontrando sua nêmesis na internets: os críticos de cinema. Aparentemente, há uma onda de demissões de críticos nos jornais americanos _ e a preocupação não aflige apenas os próprios críticos. Hollywood também está preocupada, pois julga que essa onda pode impactar diferencialmente os filmes. Explica-se: grandes blockbusters, com uma enorme estrutura publicitária por trás deles, não serão afetados. Mas filmes “sérios”, mais intelectuais, podem sofrer, pois sua ecologia depende basicamente da opinião dos outros.
Mais a fundo: filmes são “bens de experiência”. Tecnicamente, você só pode saber se gostou ou não de um filme após vê-lo. Hollywood, porém, criou um “gênero”, o blockbuster, que praticamente deixa de ser um “bem de experiência”: são filmes-espetáculo, de estrutura quase ritualística (grandes efeitos especiais, vilão-mocinho-mocinha, o bem vence no final, aqui e ali toques cômicos para relaxar a trama dramática), aquilo que os gringos chamam de “formulaic”. No fundo, o que acontece é que todo mundo, ou quase todo mundo, se obriga a vê-los (eu, por exemplo, gostei de Homem Aranha Um, não gostei do segundo e detestei o terceiro, mas provavelmente irei ver um quarto. E sei que não vou resistir ao “Homem de Ferro” e ao “Cavaleiro das Trevas”).
Com filmes “sérios”, porém, é diferente - justamente por causa de sua extrema variabilidade. Não há uma “fórmula” para um filme sério. Assim, cada filme impactará de forma diferente o grande público. Por isso, os filmes sérios dependem do chamado “efeito cascata” _ o boca a boca, que acontece quando seu amigo ou amiga disse que viu o filme tal e gostou muito, o que te estimula a ir ver o filme. O problema é: hoje, as salas de exibição são um prêmio cobiçado. Regras estranhas determinam se um filme fica mais uma semana ou não em um determinado cinema. Isso faz com que a bilheteria da primeira semana seja muito importante na história do filme _ se ele não se sustentar na primeira semana, não haverá tempo para que o “boca a boca ” se alastre e motive as platéias a vê-lo. É aí que entra o crítico: o crítico essencialmente é um sujeito que já viu o filme (razão das avant-premiéres) e é alguém em que você confia (porque já leu críticas de sua autoria sobre filmes de que você gostou).
Para muita gente, porém, a crítica não acabou _ apenas migrou para canais de nicho, os blogs e sites na internet especializados em crítica. O que não importa muito para quem perdeu o emprego.
***
Por falar nisso, toda essa longa digressão, porém, foi apenas para dizer que eu acho que alguns críticos merecem mesmo o seu destino, o olho da rua. Vejam estes dois parágrafos finais da crítica de “Os Reis da Rua” feita por Neusa Barbosa, do Cineweb, para o UOL:
“Frequentando os círculos mais perigosos de gângsters e traficantes de Los Angeles, os dois encaram a morte de frente. Ludlow, com um instinto suicida e que não inspira muita simpatia, parece mais um vingador desajustado, chefiado por um capitão à altura.
Neste papel, aliás, Forest Whitaker está mais do que nunca parecido com o papel que lhe deu o Oscar em 2007, em “O Último Rei da Escócia”. Parece um Idi Amin de terno, para se encaixar na paisagem de Los Angeles.“
O pior é que a chamada para a crítica, na página do UOL, é: “Os Reis da Rua trava diálogo com Tropa de Elite“. Céus.
A supremacia do Ocidente
O Science Blogs nos informa, hoje, de que a Chita (é, aquela do Tarzan) está fazendo 76 anos hoje.
É o mais velho primata não-humano ainda vivo conhecido atualmente.
Ela vive em uma espécie de “retiro dos artistas” para primatas, a C.H.E.E.T.A. (Creative Habitats and Enrichment for Endangered and Threatened Apes), e sua biografia, Me Cheeta, será publicada por estes dias.
Nunca vou conseguir dissociar o nome de Charlton Heston dessa cena.
No entanto, infelizmente, apesar de todo o seu impacto _ certamente é um dos finais mais impactantes da história do cinema _ a tal cena é altamente improvável. Dois motivos:
a) Canonicamente, os astronautas chegam ao “planeta” no ano de 3.978 (ou 3.955), ou seja, uns dois mil anos após o ano de lançamento da espaçonave (canonicamente, 1972). Não sei quanto tempo se passa entre a chegada do Coronel Taylor (o personagem vivido por Heston) e a cena final, mas certamente é um intervalo pouco significativo diante do total. Ainda, segundo a cronologia mais provável dos acontecimentos, a guerra nuclear que se seguiu à revolta dos macacos e destruiu todas as maiores cidades humanas ocorreu em 1992 _ logo, a Estátua da Liberdade esteve entregue à sua própria sorte por quase dois mil anos. O problema é que, sendo a Estátua de cobre, ela provavelmente não poderia ter sobrevivido intacta todo este tempo(*). A cronologia do “mundo sem ninguém” a que já me referi em um post anterior diz que em apenas 200 anos as estruturas internas de várias construções humanas, incluindo a Estátua, cederiam diante da corrosão. No caso da Estátua a situação seria ainda mais dramática, já que como se vê na cena, ela continua no litoral, exposta aos efeitos corrosivos da maresia.
b) Um problema sério é a representação da Estátua semi-enterrada ao lado de um penhasco. Nem mesmo os efeitos conjuntos de uma ou várias explosões nucleares na região de Nova Iorque e de um eventual aquecimento global no ano de 3978 seriam capazes de explicar a geologia desta cena.
(*) para ser ainda mais chato do que o Arthur disse que eu sou, uma observação: de fato, os engenheiros franceses responsáveis pelo design na Estátua foram muito inteligentes, porque o cobre, ao se oxidar, forma uma pátina protetora que diminui os efeitos da corrosão. Ainda assim a Estátua não sobreviveria tanto tempo.

“Star-crossed lovers”
Trata-se de um novo filme nacional que foi objeto de jabá no Estadão de hoje. A trama:
“Argumento
Este filme é um musical brasileiro a partir da história de dois jovens numa favela carioca. Livremente inspirada em Romeu e Julieta, é um resgate da nossa extrema musicalidade, da atualidade da nossa dança contemporânea e dessa estranha mistura que encontramos hoje nas favelas, onde a violência convive com possibilidades artísticas trazidas por projetos sociais.
“Maré, Nossa História de Amor” conta a história de Analídia e Jonatha, dois jovens moradores da Maré, favela carioca que das palafitas dos anos 60 passou por diversos planos de urbanização chegando hoje a uma população de cerca de 140 mil pessoas. A Maré é dividida hoje entre dois grupos que dominam o tráfico de drogas e que talvez se odeiem mais do que à própria polícia. Quem mora num lado da comunidade não pode ter contato com o outro, sob pena de punição.
Analídia é prima do chefe do tráfico de um dos lados e Jonatha é amigo de infância do chefe do outro lado. Ambos estudam num grupo de dança patrocinado por uma ONG, que fica exatamente no meio dos dois grupos e é dirigido pela ex-bailarina Fernanda (Marisa Orth),
Os absurdos decorrentes de toda essa situação fazem parte desse filme. Como também faz a nossa riquíssima tradição em música e dança. Na proposta de “Maré, Nossa História de Amor” a contribuição milionária de muitos gêneros, numa tentativa de se chegar a uma maneira nossa e contemporânea de trabalhar um musical.“
E mira, com direito a “soviético” e tudo.
A princípio, nada contra a adaptação de peças saxônicas que galgaram o status de canône universal. Kurosawa fez isso, e pedindo vosso perdão por citar tais coisas na mesma frase, afinal já tivemos que aguentar DiCaprio e JetLi no papel de Romeu, puxa vida.
Minha grande expectativa é o que vai acontecer quando resolverem filmar “O Mercador de Veneza” nesse contexto aê, PCC style.

Sou, mas hoje eu não tô boua, tá?
Spoiler do Estadão sobre o “Homem de Ferro”:
“O longa vai contar a história de Stark, inventor e industrial bilionário que é seqüestrado durante uma inspeção em uma das fábricas de armas no Vietnã, e forçado a construir uma arma devastadora para seus captores. Porém, com toda sua genialidade, ele criou uma armadura de alta tecnologia e escapou de seu cativeiro. De volta aos Estados Unidos, Stark descobre um maligno complô com implicações mundiais e, para combatê-lo, veste novamente seu traje e adota definitivamente a identidade secreta do Homem de Ferro. A armadura escondia um homem de saúde frágil, por conta de um estilhaço de granada que se alojara perto de seu coração.“
Vamos lá, pessoal: “pedaços de granada perto do coração” é fofo.

Diretor e produtores buscando um entendimento.
No Guardian, uma dissecação de 10.000 AC:
“Roland Emmerich clearly doesn’t care much for the critics. As he stated in a recent interview with The Guardian, the German director’s celluloid heroes have always been those who achieve the greatest spectacles, rather than those with the greatest amount of art-house kudos.
All this is probably a good thing, because 10,000BC is currently languishing on a mere 10% on the movie rating website Rottentomatoes.com. To put things in perspective, Eddie Murphy’s shocking, Razzie-winning Norbit got 9%.
“Cheesier than a four-cheese pizza and marginally more accurate than the Flintstones, 10,000 BC is not a film to be taken too seriously,” writes Paul Arendt of the BBC, while Screenjabber’s Cassam Looch calls it “another turgid, messy and technically incompetent effects movie”.
“Don’t expect Roland Emmerich’s 10,000BC to make much sense, historically, geographically or logically,” writes The Times’ Wendy Ide. “This is an effects-driven action flick that happens to be wearing a leather loincloth and brandishing a spear.”
Finally, our own Peter Bradshaw says: “Roland Emmerich’s great big CGI blockbuster lumbers along like one of the woolly mammoths that roam across the screen. There are some very good setpieces, but this is just too derivative, and particularly looks pinched from Mel Gibson’s far superior Apocalypto.”
Did you catch 10,000BC at the weekend? Is this one of those instances where po-faced critics have missed the point of a crowd-pleasing blockbuster? Or does Emmerich deserve to be torn limb from limb by one of those (apparently rather disappointing) sabre-toothed tigers? Let us know your thoughts.“
E eu que esperava algo razoavelmente ombreável com “A Guerra do Fogo”…
Sinopse no Correio Braziliense:
“Em março, um jovem que vive em uma tribo primitiva se apaixonará por uma princesa acima de sua casta social. Quando os caçadores da tribo são escravizados e a princesa é seqüestrada, caberá ao rapaz entrar em ação para que seu povo não seja extinto. “
No site do filme, um complemento:
“Driven by destiny, the unlikely warriors must battle prehistoric predators while braving the harshest elements. At their heroic journey’s end, they uncover a lost civilization and learn their ultimate fate lies in an empire beyond imagination, where great pyramids reach into the skies.
Here they will take their stand against a tyrannical god who has brutally enslaved their own. And it is here that D’Leh finally comes to understand that he has been called to save not only Evolet but all of civilization.“
Não consigo deixar de imaginar que veremos uma trama banal, ótimos efeitos especiais e um sub-A Guerra do Fogo… make your bets.
Não, não é um pedido para você deixar de ir ver seu filminho no fim de semana pra poder guardar uns trocados.
É que o FED de Dallas tem um concurso anual para o pessoal do segundo grau, e o tema deste ano é “A Economia no Cinema“. Os candidatos devem escrever uma pequena dissertação abordando os seguintes temas:
1) você se lembra de idéias ou ensinamentos econômicos contidos na trama do filme ou na história dos personagens?
2) o filme ilustra alguma verdade bem conhecida sobre a Economia?
3) como os conceitos econômicos afetam as decisões dos personagens?
Vamos lá.
***

a) O Salário do Medo, 1953
Em um remoto país latinoamericano, há um povoado, Las Piedras, que subsiste às custas do capricho de uma multinacional do petróleo. Há na cidade uma mistura de nativos e homens estrangeiros que foram parar ali em busca de fortuna mas com o tempo perceberam ter caído em uma arapuca e só querem dinheiro para poder sair dali. O filme mostra as tribulações de quatro homens desses homens, estrangeiros, contratados pela multinacional para levar uma carga de nitroglicerina até um poço de petróleo descontrolado, onde ela seria usada para explodir a boca do poço e conter o incêndio. Os quatro receberiam dois mil dólares por caminhão, e dirigiriam em duplas. Os caminhões, é claro, não possuem nenhum equipamento especial para conter a nitroglicerina, que é muito volátil _ o que significa que os caminhões podiam explodir a qualquer momento, matando-os. Evidentemente, trata-se de uma aplicação da idéia de salário de eficiência, isto é, a tese de que as empresas obteriam melhores resultados econômicos ao pagar a seus funcionarios salários superiores aos estabelecidos pelo mercado.
***

b) Tron
Mas também, claro, “Eu, Robô”, “Terminator”, e incontáveis outros filmes. O plot genérico é breve: programa de computador criado para administrar um determinado sistema rapidamente realiza que é muito mais capaz que os humanos que o criaram e resolve “tomar conta do loja“. O paralelo aqui é com a “Conjectura de Coase“, segundo a qual um bem durável (e softwares costumam ser exemplos de manual) termina por competir com ele mesmo (justamente por ser durável), prejudicando a posição de um produtor monopolista, que não conseguirá extrair preços de monopólio de seu produto, a menos, por exemplo, que o monopolista embuta princípios de obsolescência programada em seu produto. Já adivinho que alguns economistas acharão este exemplo inconsistente, mas nesse caso diríamos que de fato a tomada do poder por um software inteligente pouco inclinado a ser substituído por sua versão 2.0 seria uma solução drástica para o problema posto pela Conjectura de Coase, ainda que não do ponto de vista do produtor e/ou do consumidor, é claro.
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c) Species (”A Experiência”)
Para facilitar, uso a sinopse da Wikipédia em português: Cientistas enviam mensagens para o espaço e recebem de volta uma sequência de DNA e instruções sobre como devem combiná-la. Eles então criam um ser alienígena, que aparenta ser uma menina, e que se desenvolve rapidamente. Quando os cientistas recebem uma ordem para matar a criança, ela foge do laboratório e se transforma numa bela mulher que deseja acasalar rapidamente para proliferar a sua espécie.
Claramente, está envolvido aqui um caso clássico de seleção adversa: uma mó gostosa como a Natasha Henstridge aparece na sua frente, toda serelepe e te dando o maior mole, e você acha que não vai se dar mal, de alguma forma??
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Bem, e agora, inevitavelmente, vou “memeficar” este post, e pedir pra minha mãe, meu pai e a Xuxa que o propaguem. Não, não, vou pedir para o Leonardo Monastério, o Dayvan Cowboy do uberspazzen e para o Naprática. Mas se nenhum dos três quiser embarcar nesta furada eu entendo. ![]()
Via Inagaki, achei um vídeo no YouTube onde aparece a cena final de Cloverfield sugerindo o momento em que o bicho chega à terra, caindo no mar.
Não foi à toa que eu não vi o negócio no cinema, mesmo sabendo. O splash no oceano é quase imperceptível.
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E eis aí o motivo de tanto mistério sobre a imagem do monstro Cloverfield, o qual até agora é bem difícil de encontrar no Google: a Hasbro (grande fabricante de brinquedos) acaba de lançar a “action figure” do monstro. Ou seja, rolou um contrato entre a produção do filme e a Hasbro para “turbinar” as vendas de mais um produtinho do filme. Muito esperto.



Bom, eu vi o filme.
Terão sido merecidos os prêmios?
Minhas especulações aqui são guiadas, em sua maioria, apenas pelas qualidades intrínsecas do filme, já que ainda não vi nenhum dos outros filmes que competiam com OFNTV _ logo, fica difícil fazer um exercício comparativo.
O de Javier Bardem, seguramente. Ele é sem sombra de dúvidas o melhor ator do filme _ e olhe que o filme tem outros ótimos atores, embora a atuação de Tommy Lee Jones tenha me feito esperar pela aparição repentina de alguns alienígenas, em certos momentos (ou de um poço de petróleo, com aquele sotaque). Bom, não que o personagem de Bardem já não fosse suficientemente estranho.
O dos irmãos Coen pela direção…provavelmente, pois o filme realmente me prendeu na cadeira, ainda que empregando vários truques sujos, dos quais o mais sujo ocorre logo no início e justifica toda a trama _ que é a volta de Llewelyn Moss ao deserto para levar água a um mexicano moribundo. De qualquer forma os Coen são mestres no que fazem, o que está excessivamente demonstrado na cena em que o assassino psicopata finalmente encontra Moss no hotel.
O de melhor filme…bem, essa é uma categoria onde sinto que o fato de não ter visto os outros filmes pode viesar bastante meu julgamento. Não há a menor dúvida que OFNTV é um filme acima da média, entretanto.
Minha maior bronca talvez viesse a ser com o prêmio de melhor roteiro adaptado, pois apesar de ter gostado de vários elementos do filme, confesso que fiquei um tanto desapontado _ se é este o termo _ com o final. Filmes devem contar histórias, mesmo que sejam histórias niilistas, e OFNTV deixa um sabor algo insipido ao terminar. Duas observações importantes, porém: segundo o review do NYT, OFNTV é a primeira incursão dos irmãos Coen no mundo das adaptações literárias; além disso o review diz também que o filme é uma adaptação fiel, cena a cena, do livro que lhe deu origem. Como não li o livro, reconheço que há uma possibilidade de que a aparente inconclusão do filme seja também ela uma reprodução fiel do livro. Isso poderia deixar alguma dúvida sobre a escolha da obra a ser adaptada, é claro, mas gostei o suficiente do filme para ignorar este pormenor.
Mas apesar dessa inconclusão, não é possível deixar de perceber o ethos de cada um dos 3 principais personagens: Llewelyn Moss é o homem comum, um pseudo esperto que termina encontrando suas limitações; Anton Chigurh, o psicopata maravilhosamente descrito pelo NYT como “o Beatle do Inferno” anda pelo mundo distribuindo sua justiça particular, mediada pelos ditames aleatórios de uma moeda _ mas quem diz que o próprio destino funciona de forma diferente? Finalmente, o xerife Ed Tom Bell, o homem correto, experimentado, cada vez menos adaptado a este mundo e por isso mesmo sempre o último a chegar ao lugar do crime.
O que fica é uma grande vontade de ler o livro. Quanto ao filme, talvez a melhor definição seja esta mesma proposta pelo reviewer do NYT:
“Mostly, though, “No Country for Old Men” leaves behind the jangled, stunned sensation of having witnessed a ruthless application of craft.“
Monstro de antanho
Pois é, acabei vendo “The Host” (comprei o DVD, finalmente) e “Cloverfield” (na telona).
Os dois bichos são estranhíssimos. Aparentemente os developers andam dando tratos a bola para criar formas esdrúxulas, tão esdrúxulas que o cérebro custa a apreendê-las mesmo quando você está olhando para elas.
Não que os dois filmes te dêem, de fato, ampla oportunidade para dar uma boa olhada no protagonista medonho.
Gostei do “The Host“. No duro. Para ser sincero, pensei que ia gostar mais, tanto pelo que já tinha lido (eu devo ter sido um dos primeiros blogueiros a falar nesse filme, eu acho _ não que isso seja uma grande distinção, apenas mostra o quanto eu sou nerd), quanto pela bola que o Biajoni encheu.
O filme deixa uma suspeita enorme de que você deixou de entender muita coisa, devido às prováveis referências culturais coreanas das quais a maior parte dos ocidentais não entende xongas (Dona Malla poderia nos esclarecer algo sobre este aspecto, caso tenha visto o filme). Em particular (SPOILER À FRENTE), o papel de destaque dos coquetéis molotov na fita não deve ter sido algo fortuito.
Quanto ao Cloverfield…bem, eu havia dito que o filme devia ser uma mistura de Blair Witch Project com Godzilla. E é mesmo. Mas depois de tê-lo visto, acho que ele tem componentes de mais dois filmes: primeiro de algum filme, qualquer um, que seja daqueles que você vê e sai do cinema achando que gastou dinheiro à toa (uma sensação estranha, já que acompanhei o filme com interesse); segundo, de Rashomon, porque a maneira mais óbvia de continuar com a franquia (se ela se revelar lucrativa) é continuar contando a mesma história do ponto de vista de outros protagonistas _ o Exército, um super-herói, quem sabe os alienígenas que jogaram o monstro na Terra, vai ver, vai ver, até do próprio monstro.
(SPOILER! SPOILER!) Eu não sou um cara infenso à arte e à linguagem poética, sabem, mas reconheço que às vezes sou extremamente chato no meu racionalismo. E o Cloverfield teve um detalhe que me deixou irritado, sem capacidade alguma de exercer um certo “suspension of disbelief“: bom, o monstro era ENORME, o bicho derrubava PRÉDIOS, vai dizer? E ainda assim as pessoas fogem como se o negócio deles com o monstro fosse algo assim, íntimo e pessoal. Uma menina chega a dizer, em choque, que o monstro estava “comendo as pessoas”. Bom, pelo que eu percebi, uma das patas do treco, apenas, era BEM maior do que um tanque de guerra (dos grandes). A criatura, quando andava, ficava mais ou menos da metade da altura dos prédios da cidade _ só que a cidade era Manhattan. Ou seja, a menos que o bicho fosse um tamanduá (imagine que aqui entra um tratado sobre a relação entre o tamanho de um predador e suas presas, por favor), seres humanos deveriam ser para ele quando muito uma distração. Seja lá de onde for que ele tenha vindo, ele realmente devia comer alguma outra coisa bem maior que um ser humano.
Aliás, reconhecendo implicitamente este problema de escala (que Spielberg resolveu magistralmente na sua série ao inserir os Velociraptores, um bicho que os diretores dos anos 30 não conheciam, daí seus dinossauros de trezentos metros), o diretor do filme inventou um simbionte do monstro principal, um tipo de crustáceo que caía aos montes do bichão principal e saía por aí mordendo as pessoas _ do contrário, o filme perderia muitos dos seus momentos mais aterrorizantes, como o ataque no túnel escuro do metrô (eu disse que tinha spoiler, pombas).
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Mas digrido. O que eu gostaria de saber mesmo é a origem desses monstros tão disformes. O monstro do “O Hospedeiro” parece um bagre com pernas, mas sua mandíbula não se assemelha à de nenhum animal existente que eu conheça (se bem que lembra um pouco a do “tubarão” que o Kevin Costner pesca em “Waterworld“, é verdade). Já o monstro de Cloverfield, bem, tem uma cena filmada do alto onde ele parece de fato uma alma penada humana se arrastando.
Estamos bem longe do mundo dos lobisomens, múmias e vampiros, seres tenebrosos tão adequados à escala humana, tão compreensíveis. Tenho algumas hipóteses para isso:
a) Red Queen: diretores de filme de monstro entraram em uma corrida armamentista para ver quem cria o monstro mais feio ou diferente do resto.
b) Because I Can: CGI, CGI, meus caros. O computer graphics ficou tão sofisticado e barato que dá pra fazer qualquer coisa, então porque não fazer?
c) Arkham Asylum: os diretores de filme de monstro são seres cada vez mais doentes.
Há pelo menos um contrafatual para b), se a memória não me falha: Alien. O primeiro Alien, e acho que pelo menos o segundo também, foi totalmente feito em animatronics (provavelmente com alguém vestido de monstro em algumas cenas, à la monstro da lagoa negra). Mas o Alien já era um lídimo representante da nascente dinastia dos monstros incompreensíveis _ como aliás seria qualquer coisa saída da mente de HR Giger (aliás, ele devia estar escalado pelo Del Toro para trabalhar em “As Montanhas da Loucura”, hein, hein?).
Embora eu não disponha de nenhuma informação em primeira mão para c) além da anedótica e pessoal (tive alguns amigos na adolescência, fissurados em coisas como “Kripta”, que eram realmente doentes e devem ter acabado ou como “serial killers” ou como desenhistas de quadrinhos, e esta dualidade já me é suficiente), eu apostaria mesmo é em a). Efeitos especiais progridem exponencialmente (provavelmente junto com a Lei de Moore), e embora o custo da “carne de vaca” caia, ninguém quer ficar na “carne de vaca” _ afinal, efeitos especiais que antes eram fabulosos hoje são coisa corrente na televisão e ninguém quer pagar para ir ao cinema e ver o que pode ver em casa.

Repete comigo, Neto: “Traduttore, traditore”! Repete, porra!
O G1 informa que foi assim que ficou na tradução para o inglês:
“Pede pra sair” = “ask to quit”
“O senhor é um moleque” = “you´re punk”
“O senhor é um fanfarrão” = “you´re a buffoon”
“Põe na conta do papa” = “On pope’s account”
“Pega o saco” = “Bring the plastic bag”
“Quebra essa” = “Can you see my point”
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É por essas e outras que
“Oscar” = “Kikito”

Cloverfield estreou no Brasil inteiro hoje.
Menos em Brasília.
Grrrrrrr!
E se o seu negócio é filme de monstro, esse é o novo blockbuster coreano: Dragon Wars.
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E eu nem vi Cloverfield ainda.
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Hoje eu pego o DVD do “O Hospedeiro” na Cultura. Depois eu conto.
(hat tip: Biajoni!)

Bondage, James Bondage
Uma explicação para o título do novo filme, a que me referi em outro post:
“The crux of the story is the emotional phenomenon the Governor calls the Quantum of Solace, the smallest unit of human compassion that two people can have. As long as that compassion exists, people can survive, but when it is gone, when your partner no longer cares about your essential humanity, the relationship is over.“
No Guardian, comentário acre sobre o título do novo filme de James Bond: “Quantum of Solace“.
Imaginem então o título em português.
E não é que o Tyler Cowen gostou do Cloverfield?
“(…) Most of all this is a movie about how the young’uns have no tools for moral discourse and that all they can do is utter banalities and take endless pictures of each other and record their lives for no apparent purpose. I can’t recall any other movie that so completely devastates its intended demographic. The integration of sound blips and flashing lights is brilliant. The homage to the tanks attacking Godzilla is loving. I didn’t even know how good this movie was until after the halfway point. Bravo.“
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Eu só acho que ele nunca viu nenhum dos “Todo Mundo em Pânico”.
No Guardian, uma matéria sobre frases ou diálogos inesquecíveis dos filmes:
“You can refer to the AFI’s 100 Greatest Movie Quotes of All Time if you want all the big lines, but, in honour of Day-Lewis and his ill-gotten shake, which, in your opinion, are the most memorably weird movie catchphrases in circulation? From the creepy banality of “All work and no play makes Jack a dull boy” (OK, I realise it’s not actual dialogue or even original to The Shining) to the splendidly OTT “That thing in the cellar is not my mother!”, what are the sick little puppies and the uncanny lines that crawl under your skin for some reason you can’t quite identify?“
Por algum motivo, o articulista se encantou com isto aqui…

Acabo de ver uma versão copyleft de “I am Legend“, com Will Smith. Que é a nova adaptação cinematográfica da história de Richard Matheson, já filmada antes (”The Last Man on Earth” e “The Omega Man“).
O livro produz, possivelmente, algumas das mais célebres “last lines” da literatura de ficção-científica:
“Full circle, he thought while the final lethargy crept into his limbs. Full circle. A new terror born in death, a new superstition entering the unassailable fortress of forever. I am legend.“
(seguem-se spoilers)
Talvez seja ocioso algum blogueiro trazer à luz mais um post sobre o quão idiotas conseguem ser os profissionais que dão nomes em português a filmes estrangeiros, mas…
Meus 3,5 leitores se lembrarão que eu fiquei bastante feliz aqui com a notícia de que Reparação, um dos romances que mais gostei dentre os que li em 2007, tinha virado filme.
Pois vai estrear no Brasil. Nome? “Desejo e Reparação“.
Sabemos de várias coisas:
a) sexo vende;
b) o diretor, Joe Wright, é o mesmo de “Orgulho e Preconceito”, e sabem os deuses do marketing o que dois substantivos separados por uma conjunção podem representar em termos de bilheteria;
c) o romance, de qualquer forma, é tido como um retorno da literatura inglesa aos píncaros de uma Jane Austen.
Ainda assim, eu tive vontade de socar alguém.
Ahhh, a babá dos meus sonhos.
Aguardem o “diário de um bebê”. X-rated.






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