Copernicus, colaborador frequente do site “Ain´t it cool”, é um astrofísico que trabalhou no SETI, dá aulas de xenobiologia, e faz algumas observações sobre a ciência por trás de Avatar.  Ele dá uma boa nota ao filme, e eu também, mas tenho algumas ressalvas às opiniões dele [extraordinariamente, estou colocando o texto traduzido pelo Google Translate - que melhorou muito ultimamente - com umas maozinhas minhas onde necessário]:

“Eu tenho uma pequena reclamação, a de que, dadas as suas capacidades de trabalhar em rede, os Na’vi não deveriam ser tão tecnologicamente inferiores aos seres humanos. Na Terra, a maior barreira à progressão tecnológica é que as informações que existiam no cérebro dos seres humanos primitivos não podiam ser facilmente compartilhadas ou conservadas. Assim que a escrita foi desenvolvida, de repente, era possível armazenar informação fora do cérebro, e gravar e produzir conhecimento. O conhecimento disponível a um ser humano ou tribo passou de um valor de um cérebro (e uma quantidade mínima de tradição oral) para os milhares, e, finalmente, milhares de milhões de cérebros . O resultado foi uma explosão tecnológica e social. Hominídeos tiveram a tecnologia como lanças por cerca de meio milhão de anos, mas apenas 7.000 anos após o desenvolvimento da escrita já tinha sido capaz de deixar o planeta. E a partilha de conhecimento ainda está passando por uma revolução com o desenvolvimento da internet. Agora temos acesso instantâneo ao conhecimento combinado de toda a história da humanidade.”

Tirando a possibilidade de que o tipo de comunicação possível pela conexão neural Na´vi seja algo bem diferente da tecnologia de informação humana _ por exemplo, o fato de você poder trocar informação com outros seres não significa que você possa usar essa capacidade para fazer cálculos, como fazemos com nossos computadores _ tenho uma objeção mais geral a essa idéia de Copernicus.  Nossa cultura atual parece pensar que TIC é condição não só necessária como suficiente para a emergência de uma civilização como a nossa.   Essa percepção me parece bastante antropocêntrica, ou pior, ingênua, mesmo do ponto de vista de nossas realizações passadas.  Tomemos como analogia o exemplo da Máquina de Anticitera, um artefato mecânico datado de 100 AC e descoberto em 1901 e que desde então vem desafiando historiadores e arqueólogos pela sua perfeição de projeto e funcionamento _ demonstrando que os gregos antigos haviam conseguido aperfeiçoar uma tecnologia de precisão que só se imaginava ter sido inventada muitos séculos depois.  Isso mostra que uma possibilidade técnica não faz, por si só, que uma inovação seja adotada pela sociedade que dela é capaz.

Mas a minha principal queixa do ponto de vista evolutivo é que não há nenhuma maneira pela qual a vida na lua Pandora evoluiria para parecer tão semelhante à vida na Terra: há humanóides, cavalos espaciais, rinocerontes com cabeça de martelo, e pseudo-pterodáctilos. E para piorar, eles têm DNA, e o DNA é parecido o suficiente do nosso próprio para que DNA Na’vi e humano pode ser combinado!

Na verdade, não vejo maiores problemas para que formas de vida em outro planeta sejam semelhantes às formas de vida terrestres.  Mesmo na biologia terrestre há casos muitíssimo curiosos de “convergência evolucionária”, em que certos tipos de animais evoluem para preencher o mesmo nicho ecológico apesar de passados evolutivos muito diferentes.  É o caso, por exemplo, do morcego e das aves, da baleia e dos tubarões-baleia (para não falar de orcas e tubarões propriamente ditos), chacais e lobos-da-tasmânia, etc.  Tal tipo de convergência provavelmente sempre acontecerá se planetas diferentes tiverem condições geofísicas que propiciem o surgimento de ecologias similares.  Talvez Copernicus fosse mais ao ponto na sua crítica ao duvidar que as condições geofísicas de uma lua de um gigante gasoso pudessem ser similares à da Terra.   Entretanto, como alguns dos exoplanetas já encontrados são justamente gigantes gasosos que orbitam muito mais próximos de suas estrelas do que os gigantes gasosos do sistema solar, não é de todo impossível que uma lua de um planeta desses possa se parecer com a Terra.

Especificamente quanto à convergência antropomórfica entre humanos e Na´vi…essa é uma questão complicada.  A verdade é que não sabemos muito sobre o “nicho” ecológico que ocupamos, e portanto não dá pra saber se uma generalização é possível.  Aparentemente, somos uma espécie social e “generalista”, que terminou desenvolvendo um raciocínio simbólico por razões ainda não totalmente claras (embora imagine-se que a própria sociabilidade humana tenha desempenhando um papel importante aí).  Mas não sabemos se a forma humana é a “única” capaz de preencher esse “espaço” na paisagem adaptativa da ecologia terrestre (ou de um planeta similar).

Quanto à questão do DNA, acho que é uma questão difícil.  Temos poucos exemplos de moléculas como o DNA, mas é possível que a evolução na própria Terra tenha destruído todas as outras macromoléculas capazes de transmitir informação e concorrer com o DNA.   Assim, a “inevitabilidade” da participação do DNA na constituição da vida é um tópico em aberto, eu acho.

Finalmente, quanto à Física do filme, propriamente:

Mas o meu maior problema com a negociação que Cameron fez entre a Física e os efeitos visuais é com aquelas malditas montanhas flutuantes. Sério, montanhas flutuantes? Como diabos elas ficam lá em cima? Isto é um desrespeito tão flagrante às leis da física que certamente há algum raciocínio por trás disso.”

Pra ser sincero, no post-script do post alguém deu para Copernicus a mesma explicação que eu havia pensado: as montanhas são do material supercondutor unobtainium, e supercondutores levitam na presença de campos magnéticos.  É claro que isso faria com que fosse necessário explicar porque então o lugar da cidade da árvore, que foi destruída pelos humanos para que eles pudessem escavar ali já que havia uma imensa jazida de unobtanium por debaixo, não saía voando por aí… Mas a MINHA bronca com essa história do unobtanium é que não dá pra acreditar que uma vez conhecida a composição do material não fosse mais fácil tentar produzi-lo na Terra do que minerá-lo e transportá-lo por distâncias interestelares (*).   Segundo Copernicus, a equipe que criou o filme também elaborou uma Pandorapedia que está online.  O site dá algumas respostas a várias perguntas que eu ainda faria _ como por exemplo porque a nave-mãe em órbita de Pandora não detonou algumas armas nucleares sobre os Na´vi;  é que segundo o site a RDA, empresa que detém o monopólio de exploração de Pandora, está obrigada por tratado a não utilizar armas de destruição em massa.  Sei.   :)

***

Uma outra vertente a ser explorada, é claro, é quanto à racionalidade econômica da exploração interestelar, em particular quanto ao comércio interestelar de bens.  Paul Krugman endereçou este problema em um paper de 1978, escrito sob o impacto de uma sessão de Star Wars, cujo abstract é o que se segue:

(clique para ampliar)

O leitor interessado também pode se dirigir a este post do Marginal Revolution sobre o mesmo febricitante tema.

***

(*) E sim, eu sei que o unobtainium não é uma invenção do Cameron mas sim uma tradição na ficção científica simbolizando qualquer material que tenha propriedades exóticas e seja, por definição, difícil de arranjar…

About these ads