Alguns dos meus fiéis 4,5 leitores têm me cobrado uma manifestação a respeito do blog da Petrobrás.
Bom, sobre o blog propriamente dito: já disse lá no blog do Sergio Leo que acredito que, assim que a poeira em torno do assunto Petrobrás-CPI baixar, várias empresas privadas imitarão a idéia. Já li por aí, aliás, que várias instituições nos EUA já têm coisas assim. Péssimo para os jornais, que vão ter que correr atrás de um jornalismo mais investigativo e mais caro, em tempos de vacas magras. Shit happens.
Só acho o jeitão do blog esquisito. Tenho que concordar, por exemplo, com a Nariz Gelado: porque diabos ele foi hospedado no WordPress, e não na página corporativa da Petrobrás? Ou foi feito às pressas, ou, o que é mais provável, foi uma decisão imposta de cima, sem apoio da burocracia de RP da empresa.
Do ponto de vista puramente tático, francamente, não acho que tenha sido uma boa idéia. Tanto é, aliás, que aparentemente a empresa já recuou da decisão (mas não fechou o blog, ehehehe).
Sobre o affair Petrobrás em si, tenho a dizer duas coisas.
Primeiro: estatais são usadas para várias coisas. Uma delas é o seu objeto propriamente dito, que está nas suas obrigações estatutárias, e é de conhecimento público. No caso da Petrobrás, por exemplo, é:
“Art. 3º A Companhia tem como objeto a pesquisa, a lavra, a refinação, o processamento, o comércio e o transporte de petróleo proveniente de poço, de xisto ou de outras rochas, de seus derivados, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos, além das atividades vinculadas à energia, podendo promover a pesquisa, o desenvolvimento, a produção, o transporte, a distribuição e a comercialização de todas as formas de energia, bem como quaisquer outras atividades correlatas ou afins.“
Infelizmente, as estatais também cumprem objetivos políticos, um deles sendo o de facilitar a composição de maiorias parlamentares que assegurem a governabilidade _ um capítulo da política recomendável apenas àqueles que fazem check-up cardíaco regularmente.
Pode-se especular qual o interesse que teriam os políticos em nomear pessoas próximas para cargos nas estatais. Acho que uma olhada rápida nos acórdãos do TCU é esclarecedora quanto a este ponto.
O que não é invenção do governo do PT, obviamente. Ser velho tem muitas desvantagens, mas nos dá o benefício da memória. E eu me lembro de uma matéria do longínquo ano 2000, que curiosamente nem se acha mais na internet, mesmo usando o Google, e cuja sinopse reproduzo abaixo:
“Governo usa 600 cargos para controlar Congresso
- O presidente Fernando Henrique controla o Congresso com os 600 cargos do Governo federal que distribuiu aos líderes e parlamentares dos partidos aliados. O mapa do poder na burocracia do Governo foi fornecido pelo ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas, que abriu sua caixa-preta e entregou ao professor da Universidade de Brasília Carlos Pereira um disquete com os cargos reservados aos políticos – foi Eduardo Jorge quem controlou esta distribuição no primeiro mandato de Fernando Henrique.
Em crise com a base parlamentar e ameaçando fazer retaliações contra os infiéis, o Presidente terá de voltar a redistribuir alguns desses 600 cargos, que representam 10% da máquina federal de livre nomeação, para garantir a aprovação do salário mínimo de R$ 151 no próximo dia 10.
O estudo do professor Carlos Pereira mostra a relação direta entre a fidelidade dos partidos ao Governo nas votações no Congresso, o preenchimento de cargos e a liberação de verbas para o pagamento de emendas de deputados e senadores. (pág. 1 , 3 a 5)“
Eu só me lembro disso porque conheço o Carlos Pereira, que foi, aliás, processado pelo Eduardo Jorge depois que essa história vazou.
Apesar disso, o governo do PT, que eu saiba, foi o único que, naqueles espamos contraditórios entre política e correção na gestão pública, tentou dar uma moralizada nessa história das estatais. Em um Decreto de janeiro de 2007, o governo criou um troço chamado Comissão Interministerial de Governança Corporativa e de Administração de Participações Societárias da União – CGPAR, da qual você, que me lê, provavelmente nunca ouviu falar. Suas atribuições, entre outras, são:
“Art. 3o Compete à CGPAR:
I – aprovar diretrizes e estratégias relacionadas à participação acionária da União nas empresas estatais federais, com vistas à:
a) defesa dos interesses da União, como acionista;
b) promoção da eficiência na gestão, inclusive quanto à adoção das melhores práticas de governança corporativa;
c) aquisição e venda de participações detidas pela União, inclusive o exercício de direitos de subscrição;
d) atuação das empresas estatais federais na condição de patrocinadoras de planos de benefícios administrados por entidades fechadas de previdência complementar;
e) fixação da remuneração de dirigentes;
f) fixação do número máximo de cargos de livre provimento;
g) expectativa de retorno do capital dos investimentos com recursos da União;
h) distribuição de remuneração aos acionistas; e
i) divulgação de informações nos relatórios da administração e demonstrativos contábeis e financeiros, no caso das empresas públicas e sociedades de capital fechado;” [grifo meu]
Você sabe se a CGPAR definiu alguma coisa quanto a isso, e em particular, sobre o item f)? Pois é, eu também não.
Shit happens.
A segunda coisa que eu queria dizer é que, apesar de tudo, também tenho a convicção de que o PSDB e o DEM não são vestais em busca do bem maior. São políticos, fazendo o jogo da política. O grande interesse deles na CPI da Petrobrás é paralisar os investimentos da estatal e assim preservar uma das bandeiras da oposição para o ano que vem: a não-execução das obras do PAC.



15 comments
Comments feed for this article
Junho 11, 2009 às 4:01 pm
Lauro Mesquita
Caro Hermenauta, não sei qual é a plataforma de publicação do site da Petrobrás, mas é um site corporativo, não sei se tem espaço para comentários etc.
Acredito que eles hospedaram esse blog no WordPress para coloca-lo no ar com mais urgência. Afinal é uma ferramenta de blog gratuita que não precisa passar por processo de licitação (publicação de edital, eventuais recursos etc.).
A favor ou contra, foi uma ferramenta bem sucedidade de comunicação corporativa. Esvaziou as matérias negativas sobre a empresa e colocou uma interrogação no comportamento da cobertura que era feita sobre a Petrobrás.
Tem de ver agora como vai ser a tal “transparênca” vai funcionar …
Junho 11, 2009 às 9:21 pm
ohermenauta
Lauro,
Olha, eu duvido que a Petrobrás não disponha de uma equipe de informática capacitada a botar um blog pra funcionar na sua página no momento que quisesse. Depois, que eu saiba, o WordPress para rodar em servidor é “de grátis”, então não precisaria de uma licitação…
Junho 11, 2009 às 4:18 pm
Leandro Faclão
Hermê, eu n consigo entender uma coisa apenas – me perdoe a ignorância, caro amigo: pode-se afirmar categoricamente que a Petrobras é uma estatal? Afinal, não há qualquer ingerência dos outros acionistas nas ações estratégicas da empresa, como, por exemplo, redução ou aumento nos preços dos combustíveis?
Uma vez mais, perdão pela intervenção descabida e ignorante, mas é que isso n me sai da cabeça e acho fulcral discutir esse lado da empresa.
p.s.: parabéns por prestar um serviço à blogosfera brasileira com suas análises e opiniões.
Junho 11, 2009 às 9:14 pm
ohermenauta
Leandro,
Obrigado pelo incentivo. Na verdade, a maior parte do capital da Petrobrás, hoje, é privado. Ocorre porém que o governo é o controlador, quando se olham apenas as ações ordinárias, isto é, com direito a voto _ das quais a União detém 55,7%, mais 1,9% pertencente ao BNDESPar. Assim, de fato, os demais acionistas só tem mesmo os direitos mais básicos estabelecidos na legislação das S/A garantidos aos preferenciais _ receber dividendos, etc. Há um tempo rola um papo da Petrobrás aderir ao Nível II de governança corporativa da Bovespa, o que daria direito de voto aos acionistas preferenciais em algumas questões, mas essa adesão foi questionada pela Procuradoria Nacional da Fazenda Nacional – PGFN.
Junho 11, 2009 às 5:46 pm
joaogi
me deculpe pelo comentário longo, mas este editorial de um jornal em 2007 põe as coisas em seu devido lugar. o título é oportuno: barganha nasceu com a democracia. vamos lá:
“As nomeações políticas para cargos e a liberação dos recursos do Orçamento, via emendas de parlamentares, são instrumentos do presidencialismo brasileiro usados pelos governos para garantir apoio político no Congresso. A prática ganhou evidência na redemocratização e cresce a cada governo. Durante a Constituinte (1987-1988), no governo José Sarney (PMDB), seus adversários, incluindo os senadores Mario Covas (PMDB-SP) e José Richa (PMDB-PR), o acusaram de ter promovido, pelas mãos de seu ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães (PFL), uma derrama de concessões de emissoras de rádio e TV para garantir a aprovação do mandato de cinco anos.
Outro grande escândalo da Nova República foi a divulgação de um acordo assinado entre os presidentes regionais do PMDB, Odacir Klein, e do PFL, Carlos Chiarelli, no Rio Grande do Sul. No documento que celebrou o acordo, eles partilhavam dezenas de cargos federais no Estado, tendo como contrapartida o apoio de suas bancadas às propostas do governo no Congresso Nacional.
O ex-presidente Fernando Collor de Mello, quando estava às portas do início do processo que o levaria ao impeachment, tentou obter apoio no Congresso nomeando cardeais do PFL, como seu ex-presidente Jorge Bornhausen, para o Ministério. A sua primeira missão foi tentar convencer Pedro Collor a parar com as denúncias contra o irmão presidente.
O loteamento dos cargos também foi usado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O secretário-geral da Presidência no primeiro mandato, Eduardo Jorge Caldas Pereira, dizia, na época, que 600 cargos –considerados “filés”– eram disputados por aliados.
Para aprovar a emenda que instituiu a reeleição, Fernando Henrique distribuiu cargos e emendas. À frente dessa negociação política esteve Sérgio Motta, o todo-poderoso ministro de FH, acusado até de compra de votos de deputados para aprovar a emenda”.
Junho 11, 2009 às 8:59 pm
ohermenauta
Joaogi,
Correto, aliás, me perdoe se dei a impressão de que isso começou com FHC.
Junho 11, 2009 às 7:23 pm
Rafael M
Só uma curiosidade: Você trabalha no governo federal, não é (é o que deduzo com bases frouxas, nesses meses de acompanhar o seu blog)? Você começou no governo por indicação política ou por concurso (acho que são essas as categorias que existem, mas não tenho certeza). Trabalhava no governo antes do governo Lula?
É só curiosidade mesmo.
Junho 11, 2009 às 8:57 pm
ohermenauta
Você trabalha no governo federal?
Sim.
Você começou no governo por indicação política ou por concurso?
Concurso.
Trabalhava no governo antes do governo Lula?
Sim.
Junho 12, 2009 às 12:11 am
Porta Torta
(Sorry, postei no post abaixo mas era para este aqui!)
E aí, meu prezado, gostaria de entender, sem salamaleques, você aprova ou não?!?
Junho 12, 2009 às 12:14 am
Porta Torta
Desculpem-me, para ser estritamente objetivo, gostaria de completar a pergunta anterior: aprovar ou não Blog da Petrobrás tal qual está posto na blogosfera…
SDS
Junho 12, 2009 às 3:00 am
ohermenauta
“Do ponto de vista puramente tático, francamente, não acho que tenha sido uma boa idéia.”
Junho 12, 2009 às 10:59 am
Leandro Faclão
Hermê, muito obrigado…
Já deu pra esclarecer algumas coisas assaz importantes…
Abraços… continue o bom trabalho…
Junho 13, 2009 às 6:41 pm
Rafael M
“Trabalhava no governo antes do governo Lula?
Sim.”
Totalmente off-topic, mas continuando…
Trabalhava antes do governo FHC?
E aí? Na sua visão o que mudou em termos de governança de lá para cá? Melhoramos, pioramos? (não digo em relação a governos específicos, mas sei lá, melhorou do governo Figueiredo para cá?)
Junho 13, 2009 às 8:56 pm
ohermenauta
Rafael,
Eu trabalho no serviço público desde o governo Sarney. Como, entretanto, trabalhei em órgãos e níveis diferentes em todos esses anos, seria leviano fazer afirmativas muito categóricas nesse quesito.
Tenho a impressão que o governo Sarney contava com uma burocracia com mais ethos e que algumas coisas funcionavam bem (talvez uma herança do governo militar, que produziu coisas como o Decreto Lei 200, ordenando a burocracia estatal _ conheço velhos advogados que babam de admiração pela técnica legislativa do período). Collor foi muito nocivo neste aspecto, e consta que destruiu sistemas que só recentemente vão se recuperando (como toda a parte estatística, por exemplo).
Fernando Henrique deu início ao processo de retomada da capacidade de formulação do Estado, ao privilegiar a contratação de gente para as carreiras do chamado “núcleo estratégico do Estado”. Lula deu continuidade (turbinada) a esta política. Acho, porém, que ainda falta muito _ principalmente porque não existem formas fáceis e transparentes de verificar os benefícios deste esforço para a sociedade como um todo. Em particular, o fato de que muitos dos serviços básicos, como saúde, educação e segurança são descentralizados para os níveis municipal e estadual, com o federal apenas dando diretivas, torna tudo meio esquizofrênico, pela disparidade de meios entre estas 3 esferas.
Eu confesso que não sei bem como era o funcionamento dos governos militares quanto à construção de coalizões congressuais. Minha impressão é que eles não precisavam disso. Portanto, a democratização, infelizmente, fez cair o nível da capacidade de formulação de políticas entre ministérios, autarquias e empresas públicas, pois os cargos passaram a ser disputados a tapa pelo compadrio, nepotismo e coronelismo. E essa, como você sabe, é uma história que ainda não acabou.
Junho 15, 2009 às 1:31 pm
Rafael M
Muito interessante, obrigado.