Alguns leitores me enviaram e-mails perguntando porque raio de motivo eu não fiz um post acerca do affair “ditabranda”. Atendendo a estes pedidos é que faço este pequeno obituário.
Sabem, eu não sou contra qualquer revisionismo. Sou daqueles que acham que, para o bem ou para o mal, Fernando Collor será um presidente lembrado pelos livros de História como de muito maior importância do que aquela que lhe damos hoje _ mesmo qeu ele se encarregue de acabar com sua reputação na atual legislatura como Senador.
Revisionismos da ditadura já aconteceram vários. Elio Gaspari, creio eu, deixa alguns de seus protagonistas ao menos (Golbery e Geisel) em muito melhor luz do que era comum que eles aparecessem. O Antonio Barros de Castro escreveu um livrinho, “Economia Brasileira em Marcha Forçada”, que vai na contramão do consenso da ortodoxia econômica sobre a importância do II PND para o Brasil.
Eu não tenho a menor dúvida que o regime de exceção promovido pelos militares a partir de 1964 tinha realmente características algo distintas das que distinguiram da maior parte das ditaduras latino-americanas, africanas, asiáticas e européias que lhe foram contemporâneas. Os militares _ ou parte deles, já que o “movimento” não era homogêneo _ realmente tentaram preservar um resquício de legitimidade democrática, mantendo viva em cativeiro uma oposição chamada MDB _ cujo pecado original gravado no DNA do partido revela-se hoje na mariposa que nasceu daquela crisálida, o PMDB.
Não obstante, as palavras têm seu valor, e chamar de “branda” uma encarnação autoritária do Estado brasileiro que se comprazia em censurar a Imprensa me parece uma atitude um tanto desavergonhada da parte de uma personalidade jurídica que diz ser um jornal.
Do cadáver insepulto em que se transforma a Folha de São Paulo, acho que o mínimo que podemos esperar, agora, é um editorial contra a universalização da internet _ algo cujo advento lhe despejaria na testa a última pá de cal.



23 comentários
Feed de comentários deste artigo
março 6, 2009 às 4:13 pm
carcamano
Para mim a ditabranda é balão de ensaio, um teste do estilo Veja. A FSP já anunciou que irá deixar o mercado de hard news para investir em jornalismo interpretativo. Mas, aí já é especulação minha, eles estejam se preparando para vender diariamente ideologias acabadas, visões de mundo fechadas que, eventualmente, tenham algo a ver com o factual. Tal como o modelo adotado pela revista dos Civita, que deve fazer sentido financeiramente.
março 6, 2009 às 4:14 pm
googala
Já estão com óxido de cálcio nas narinas. Não precisa de pá nenhuma, só esses espirros diários concluirão o sepultamento.
abç
março 6, 2009 às 6:14 pm
Laila
“Sou daqueles que acham que, para o bem ou para o mal, Fernando Collor será um presidente lembrado pelos livros de História como de muito maior importância do que aquela que lhe damos hoje _ mesmo qeu ele se encarregue de acabar com sua reputação na atual legislatura como Senador.”
Mas livros de História de quando? E que importância além de derrotar Lula, ser derrubado e abrir caminho para o tradicionalmente ruim de voto FHC virar presidente? E sinceramente não sei de onde você tirou que ele ainda tem uma reputação para colocar em risco.
março 6, 2009 às 7:00 pm
googala
Laila, qq um que se eleja desde vereador, imagine então Senador, tem uma reputação a colocar em risco.
No caso dele uma reputaria mesmo.
março 6, 2009 às 7:06 pm
marcos
Laila, porque não é só de política que vive a história; é de economia também.
O impechment ainda vai virar anedota em nota de rodapé, pode apostar.
março 6, 2009 às 7:20 pm
ohermenauta
Hum, parece que meus leitores foram mais rápidos do que eu.
Sim, quando digo que Collor ainda será lembrado nos livros de história futuros _ eu não sei muito bem quanto tempo os livros de história levam pra se reciclar, mas vamos botar aí uns 100 anos _ não me refiro à política, mas sim à economia. Que no frigir do ovos é muito mais importante.
E é claro que Collor ainda tem algo parecido a uma reputação, pelo menos entre seus eleitores e viúvas.
março 6, 2009 às 8:11 pm
Laila
“… eu não sei muito bem quanto tempo os livros de história levam pra se reciclar, mas vamos botar aí uns 100 anos _ não me refiro à política, mas sim à economia. Que no frigir do ovos é muito mais importante.”
Mas de que vocês estão com tanta saudade afinal? Dos congelamentos, do confisco, da inflação ou da tímida abertura econômica quando até o secretário-geral do PCUS e o secretário-geral do Partido Comunista Chinês estavam abrindo a economia? Quanto à reputação de Collor com seus eleitores: o homem foi o primeiro presidente a sofrer impeachment na História do Brasil e foi afastado devido à maior reação popular contra um escândalo de corrupção na história nacional, tudo isso temperado pelo caos econômico. O que ele teria que fazer para perder a reputação imaculada que vocês acham que os eleitores dele enxergam nessa figura política? Incendiar Roma? Criar um Reich de mil anos? Com a esquerda ainda grogue com a queda do Muro e, diante da suposta superioridade do liberalismo econômico, qualquer político conservador teria feito as reformas econômicas e, talvez, sem confisco, com mais equilíbrio e sem ser derrubado- como, aliás, provam os oito anos de FHC. Sinceramente, se os historiadores de daqui a 100 anos vão reabilitar Collor, então, por definição, o Brasil não tem muito futuro. Respeito a opinião de vocês, claro, mas acho que as poucas reformas do governo collorido vão ser eclipsadas pelos terríveis desastres políticos, econômicos e sociais da Era Collor.
março 6, 2009 às 9:15 pm
Rodrigo
Não é questão de reabilitar, mas, me corrijam se estiver errado, não foi ele quem abriu a economia brasileira às importações?
março 6, 2009 às 11:29 pm
Andre Kenji
Talvez os historiadores do futuro se toquem que Collor poderia ter provocado uma guerra civil ou fortes instabilidades quando confiscou a poupança, ou que sem a inflação poderia haver uma corrida aos bancos que criaria uma crise fiscal de proporções a la 1929.
março 7, 2009 às 12:30 am
Rodrigo
Voltei do post do Idelber a esse respeito, e li parte dos muitos comentários lá. Ok, foi um episódio lamentável — menos o “ditabranda” num editorial (por equivocado que seja, ainda não é crime ser revisionista e dizer uma eventual besteira, embora eu tenha entendido muito bem o que pareciam querer dizer, na questão numérica) do que a réplica grosseira aos dois acadêmicos. Mas me parece uma tempestade num copo d’ água. Tem gente falando em pavimentar o caminho para PSDB-DEM por meio da relativização do mal da ditadura. Pelo amor de Deus…
março 7, 2009 às 12:50 am
Roberto
Me parece mais abrindo caminho pro Serra, mesmo. Afinal, ele foi oprimido pela ditadura * — mas ele não foi UM FASCÍNORA CRIMINOSO TERRORISTA QUE PEGOU EM ARMAS E APONTOU BALAS EM PAIS DE FAMÍLIA INOCENTES, né!
*(e olha que nem sequer chamo de “ditabranda” ou “ditamole”. Viu, quer dizer que não concordo) **
- Clone de filho de general britânico falando sobre os homens de George Washington.
(e, sim, já ouvi muitas vezes esse argumento)
** O velho estilo Ann Coulter/ Malkin de se remarcar o centro para a direita: fale algo tão absurdo que os extremistas parecerão mais amenos quando mostram um leve distanciamento delas.
março 7, 2009 às 1:57 am
Ollie
“Mas me parece uma tempestade num copo d’ água. Tem gente falando em pavimentar o caminho para PSDB-DEM por meio da relativização do mal da ditadura. Pelo amor de Deus…” (Rodrigo)
——————-
Então… E é exatamente nesse ponto, quanto tentam transformar o pedantismo burro do jornalista da Folha, metido a historiador e analista de ditaduras, num ato político para tentar favorecer uma possível candidatura de um candidato do PSDB-DEM é que o pessoal ‘das esquerdas’ figurativamente “peida na tanga”.
Ou “viaja na maionese” como costumavam dizer alguns anos atrás. ☺
março 7, 2009 às 2:00 am
Ollie
Sem deixar de mencionar que esse termo “ditabranda” é ridículo prá dedéu.
março 7, 2009 às 9:33 am
Rodrigo
Bem, em todo caso, a julgar pela repercussão, e provavelmente não vi nem 5% dela, prevejo duas coisas: a Folha saiu com a imagem arranhada para os internautas mais politizados, e em duas semanas ninguém mais lembrará disto.
março 7, 2009 às 9:56 am
ohermenauta
Laila,
Estou começando a desconfiar que você ou não sabe ler, ou lê em excesso. Ninguém disse que os historiadores do futuro “reabilitarão” Collor. Não tenho a menor saudade de Collor e me parece que a maioria dos que escreveram aqui também não. Dizer que os livros de História o verão sob uma luz diferente da que a sociedade o vê agora não significa que estou a ponto de deflagrar um movimento de sebastianismo político. Apenas estou acentuando o fato de que enquanto Collor estiver por aí, vivo e atuante, não haverá clima para uma avaliação histórica sobre seu governo. Collor ainda é matéria para o jornalismo, a doença infantil da História.
Também ninguém está dizendo aqui que só Collor poderia ter feito o que fez, por suas qualidades. Lembre-se que o homem é o homem e suas circunstâncias. Se você acha que “qualquer político conservador” estaria à mão, é bom explicar porque Covas e Guilherme Afif Domingos, que concorreram na mesma eleição, não viram o segundo turno.
março 7, 2009 às 10:49 am
Laila
Gostei dessa “doença infantil da História”!! Desculpe se eu pareço implicante, não tive intenção. Só quero deixar claro o que eu penso: já tivemos tempo e distanciamento suficientes para julgar o Governo Collor embora, claro, nossas informações e interpretações valiosas possam surgir. O homem é um cadáver político há mais de 16 anos e ficou inelegível metade desse tempo.
O que eu disse é que, qualquer político conservador, chegando ao poder- ou seja, batendo Lula e Brizola- teria que fazer uma abertura. Com mil diabos, a União Soviética estava fazendo a abertura. O candidato do PCB foi Roberto Freire do atual PPS. E outro conservador-vide FHC- poderia ter feito uma abertura mais profunda, equilibrada, buscado diálogo com o Congresso sobre as não ter confiscado a poupança e não ter sido derrubado no mais marcante escândalo de corrupção da história da pátria. A única contribuição de Collor foi ser mais demagogo que Lula, Brizola e Maluf juntos e ser derrubado, abrindo caminho para a Era FHC: ou seja, um Jânio da vida.
março 7, 2009 às 2:01 pm
marcos
Nossa, imagina o que seriam as privatizações do FFHH se não houvesse ocorrido o impeachment…
março 7, 2009 às 2:08 pm
opatriarcacontemporaneo
Sobre a suposta “ditabranda”:
Não me lembro a cronologia certinha das ditaduras na região, mas as pessoas esquecem de um argumento: talvez a ditadura aqui no Brasil tenha sido mais branda, com poucos revoltosos e mortes, porque havia o TEMOR de que poderia vir a ocorrer algo como nas ditaduras-duras das sociedades vizinhas.
Ou seja, a procriação de ditadoras na América Latina e suas minhares de vítimas ajudaram a inibir e criar o clima de terror que impediria uma reação e conseqüente contra-reação mais dura dos militares tupiniquins..
Já pensaram nisso?
março 7, 2009 às 3:42 pm
Laila
“Nossa, imagina o que seriam as privatizações do FFHH se não houvesse ocorrido o impeachment…”
Sem o impeachment FHC não teria se tornado ministro, não teria sido associado ao Real e não teria se tornado presidente. Collor tirou a presidência de Lula em 1989, com a estória da namorada grávida e dos sequestro de Diniz, e em 1992 ao cair e abrir espaço para FHC.
março 7, 2009 às 9:19 pm
marcos
opatriarcacontemporaneo, tanto foi branda a ditadura por aqui que tem gente que diz que ela foi de esquerda (esse povinho que não sabe fazer nada direito).
Laila, foi você quem sugeriu FFHH (ou algo parecido com ele) no lugar de Collor, oras… Eu apenas me deixei levar pela idéia de até onde iriam as privatizações (e as negociatas) se não houvesse havido um impeachment ou uma crise política tão séria.
março 9, 2009 às 11:53 am
Gustavo Tavares
Laila,
Com relação ao “mais marcante escândalo de corrupção da história da pátria” eu acredito que você esteja equivocada. O escândalo das privatizações e posteriormente o do mensalão foram muito mais marcantes e maiores. O que acontece é que em ambos os casos (privatizações e mensalão) os principais beneficiários (FHC e Lula) estavam escorados em amplas bases de apoio no congresso.
O problema do Collor não foi o escândalo. O problema do Collor foi sua independência e arrogância no trato com os “vetustos” congressistas da época. Pressão popular ali foi só a cereja do bolo….
julho 28, 2009 às 12:56 pm
Dalton C. Rocha
Collor caiu por não subornar o Congresso, a CUT,MST, TV Globo,etc.
Todo o tal “Esquema PC Farias” arrecadou US$15 milhões ou cerca de R$15 milhões.E nunca se provou que Collor soubesse que Ana Acioly recebia dinheiro do PC Farias.
José Dirceu foi o mais poderoso ministro de Lula, enquanto PC Farias nunca teve nenhum cargo, no governo Collor.
A Ford antes do Collor vendia uma “carroça” Del Rey mais caro aqui, que um BMW custava aos americanos.Antônio Ermírio Ermírio antes do Collor vendia cimento a preço mais de 1000% mais caro, que fora do Brasil.Antes do Collor existia reserva de mercado(proibição de importações) de tudo, desde palito de fósforo a carros e computadores.Privatização “inevitável” em 1989?
Abertura econômica “inevitável”, num país que proibia a importação de tudo, desde pasta de dentes até automóveis e computadores?
Contem estas piadas para o Lula e para os fantasmas de Leonel Brizola, Mário Covas e Ulisses Guimarães.Quatro estatistas, protecionistas, empreguistas,etc. derrotados por Collor, em 1989.
Ninguém sério pode ter dúvida de que entre Lula, Brizola e Covas, Collor era melhor em tudo que eles, inclusive no ítem moralidade.Em patifarias, os irmãos siameses Lula e Sarney seguem tão imbatíveis hoje,quanto em 1989.
Collor foi audaz, corajoso e sábio.Ele abriu e modernizou o país.
Lembra quando ele disse que “O carro brasileiro é uma carroça!”.E era mesmo!Quer comprar um Del Rey ou um Opala?Lembra que Lula, Ulisses Guimarães, Covas, etc. foram contra a liberação de importação de carros, feita por Collor?
Lembra que antes de Collor, o “computador” típico do Brasil era o CP-400 da Prológica?Quer comprar um TK-2000?Lembra que Lula, Ulisses Guimarães, Covas, etc. foram contra o fim da tal reserva de mercado da informática, feita por Collor?Lembra que em 1992, 100% das bancadas do PT e PC do B votaram contra a extinção da reserva de mercado da informática?
Alguém escreveu:”A economia brasileira precisaria ser desregulamentada, a privatização era inevitável, assim como a abertura econômica”.
Se a privatização era “inevitável”, em 1989 e 1990, por que ela não é feita hoje, pelo Lula?
Se a abertura econômica era “inevitável” em 1989-1990, por que nem Lula, nem FHC abriram o Brasil em nada?Se a abertura econômica era “inevitável” em 1989-1990, por que 100% da bancada do PT votou contra o fim da reserva de mercado em 1992?
julho 28, 2009 às 1:32 pm
ohermenauta
“E é claro que Collor ainda tem algo parecido a uma reputação, pelo menos entre seus eleitores e viúvas.”
Viu, Laila?