O Valor de hoje tem uma matéria imensa sobre “o futuro do New York Times”, com ênfase nas dificuldades porque passa o jornal.  Trecho:

O balanço da The New York Times Company de 2008 é uma leitura deprimente, escrita com letras vermelhas. A receita, de US$ 2,95 bilhões, foi 7,7% inferior à do ano anterior e próxima à de US$ 2,94 bilhões de 1998, uma indicação de que a companhia não conseguiu crescer durante uma década. Em um ano, a receita com publicidade encolheu 13,1% e em dois anos, 19,5%; no último trimestre, com a acentuada deterioração da economia, a queda foi de 17,6%. 

A conta de resultados é ainda mais dramática. Frente a um lucro de US$ 208,7 milhões em 2007, conseguido principalmente com a venda de ativos, a empresa teve no ano passado um prejuízo de US$ 57,8 milhões, devido à reavaliação negativa – isto é, sem desembolso de caixa – de negócios deficitários ou pouco rentáveis comprados nos anos de prosperidade. As atividades operacionais da empresa, em si, foram ligeiramente rentáveis, dado o esforço para reduzir os custos, mas insuficientes para compensar as perdas contábeis.

Essa é a situação econômica. O panorama financeiro é ainda pior. A empresa tem uma dívida de US$ 1,1 bilhão, dos quais uma linha de crédito de US$ 400 milhões vence em maio, uma de US$ 99 milhões em novembro e outra de US$ 250 milhões em 2010. O dinheiro disponível em caixa era de apenas US$ 42 milhões e os bancos não parecem muito dispostos a abrir novas linhas de financiamento. Pela avaliação das agências avaliadoras de crédito, a dívida da empresa está classificada quase como “junk” – ou seja, como lixo.

This is frightening:

Chegou a revolução

O que está ocorrendo é uma profunda revolução provocada pela internet e acelerada pela contínua expansão da banda larga, com efeitos de longo prazo semelhantes aos da introdução da imprensa por Gutenberg, no século XV. A revolução atual está afetando todos os meios – revistas, rádio, TV -, e não apenas os jornais, e também as maneiras de comunicação entre as pessoas. Ainda é cedo para fazer qualquer afirmação categórica sobre os efeitos das mudanças que a internet e a banda larga estão provocando. Mas pode afirmar-se que todos os meios sairão desse processo muito diferentes do que eram 15 anos atrás.
Para os jornais, a internet representou inicialmente um extraordinário meio de transmissão de seu conteúdo. Suas informações e análises podiam chegar instantaneamente muito além do limitado raio permitido pela distribuição física da edição impressa. Conseguiram um grande aumento do número de leitores e de influência. Hoje, os grandes jornais têm vários milhões de usuários únicos – o nome aos leitores na internet -, igualando ou superando em penetração muitas emissoras de televisão.
Mas cometeram o grave erro – um verdadeiro pecado original – de oferecer grátis seu conteúdo. Como recentemente disse Steve Brill, um empresário que lançou nos EUA vários meios de comunicação, ele pagava algumas centenas de dólares por ano para receber em sua casa de Nova York a seção “Style” do “The Washington Post”. “Então, Donnie Graham – presidente e principal acionista do ‘Post’ – decidiu que eu precisava de um subsídio. Agora me mandam a seção ‘Style’ grátis por e-mail.” E comentou: “Isso é uma loucura.” A imprensa, em sua opinião, está se autodestruindo e tem que parar de se suicidar dando informação de graça. “Comecem a cobrar e a acreditar em seu produto”, disse, acrescentando que os editores de jornais têm que recuperar sua autoestima
.”

Mais frightening ainda:

Keller sugere que o “Times” vai encontrar uma maneira de obter receita com o conteúdo na internet. Disse não acreditar num princípio teológico segundo o qual a informação “tem que ser grátis”; a informação de alto nível tem que ser paga. Quem paga, hoje, são os anunciantes, mas afirma que o jornal está discutindo as maneiras de fazer que o leitor também pague. E aponta como exemplo a decisão de Rupert Murdoch de continuar cobrando pelo acesso ao conteúdo do “The Wall Street Journal”. Keller, porém, acha que o sítio do “Times” gera mais receita que o do “Journal”. E confirma que o “Times” estuda seriamente a possibilidade de introduzir o sistema de micropagamentos, como fazem Apple e iTunes.

Um mundo com um NYT pago será um mundo mais triste, mas um mundo sem um NYT será pior ainda.

Eu QUASE havia feito um post sobre isso aqui (ando muito lento _ eu também QUASE havia feito um post sobre um contrapé do Tio Rei que Sergio Leo captou de forma magistral), uma matéria sobre o NYT na The Atlantic, onde o autor, Michael Hirschorn, advoga o uso de um sistema de micropagamentos para salvar o jornalão.  Nick Carr faz uma discussão mostrando os dois lados da questão _ tanto a dos entusiastas dos micropagamentos (“afinal, funciona com o iTunes!“) como a dos céticos ou simplesmente contrários (“a informação quer ser livre!“).

Jornais vivem basicamente de 3 fontes de renda: compradores a vulso nas bancas, assinantes e anunciantes.   Jornais como o NYT (principalmente os que têm na sua base um público que tem acesso a internet) sacrificam as duas primeiras fontes quando disponibilizam conteúdo grátis na rede, e se resignam a viver da receita de publicidade _ o que é um perigo nas épocas de vacas magras como agora.

A diversidade de opiniões sobre o que fazer é grande.  David Carr, citado por Nick, parece acreditar em uma solução à la Apple: uma empresa cria um gadget que repentinamente convence os usuários a pagar por conteúdo, revertendo uma situação de pirataria extremada.  O paralelo é meio capenga, em minha opinião, porque a) os usuários continuam pirateando (“Invaders Must Die” do Prodigy será lançado dia 23 deste mês mas já está na rede) e b) a “pirataria” de conteúdo jornalístico existe (aham…), mas não é significativa e nem o maior problema dos jornais que resolveram eles mesmos disponibilizar seu conteúdo online, como é o caso do NYT e vários outros.  Já Walter Isaacson enumera várias estratégias diferentes, como a do Christian Science Monitor que simplesmente acabou com sua edição em papel (a “dead trees edition“…), ou a, er, “estratégia” que parece ser a do próprio NYT que é a de esperar que os outros jornais morram primeiro para capturar seu market-share.

[Parêntesis: Nesse particular é muito interessante a experiência do Meia Hora, um jornal popular carioca pertencente ao grupo O Dia e que já é o terceiro jornal mais vendido no Rio (tiragem de 230 mil exemplares diários).  Vejam só esse trecho da matéria que saiu na Piauí:

A sede do tablóide, que divide o andar de um prédio no bairro da Lapa com a redação de O Dia, tem paredes amarelas encobertas por um emaranhado de cartazes, cartas, capas, papéis, fotos e recortes de reportagens. Vê-se um pôster do filme Sexo no Salão 2007 – com uma loira seminua em meio a uma chuva de purpurina -, a foto-flagra de um repórter da casa beijando o derrière da ex-chacrete Rita Cadillac e outra que mostra em primeiro plano a face alegre de um ex-Big Brother. “A toda equipe do Meia Hora, com beijão carinhoso do Tinho”, dizia a dedicatória em caligrafia infantil.

(…)

A equipe do Meia Hora tem vinte jornalistas, na faixa dos 25 anos, que andam em trajes esportivos e usam tênis. Eles trabalham mais como redatores do que como repórteres. As matérias são feitas pela equipe de O Dia e enviadas à redação-irmã para que sejam reescritas e resumidas a, no máximo, cinco parágrafos. No começo de dezembro, a mesma reportagem que apareceu em O Dia como “São Cristóvão: funcionário da feira suspeito de assaltos”, no Meia Hora virou “Bandidos tocavam o terror em São Cristóvão”. ” [grifo meu]

É um nicho aproveitando economia de escopo: a equipe do jornal-mãe faz a reportagem e a equipe do Meia Hora “reempacota” o conteúdo para um outro público _ que paga pouco, mas pelo menos paga, porque não tem acesso à internet…é claro que não é uma estratégia facilmente replicável ou sustentável em longo prazo, mas é bem interessante].

Voltando ao Nick Carr, acho que ele tem um argumento bem imaginativo sobre porque motivo micropagamentos não funcionariam para notícias: porque, ao contrário de músicas, notícias são bens perecíveis.

Aqui eu tenho minhas dúvidas.  Eu acredito que a esmagadora maioria das pessoas que compra música na iTunes usa música de forma descartável.  Outro dia, por exemplo, vi um blogueiro sugerindo uma banda chamada “Weekend Vampires”.  Não há descrição da banda nem na Wikipedia nem na Last.fm.  “Vampire Weekend”.  Sua descrição no Last.fm: “Vampire Weekend é uma banda indie pop/rock com influências de afro-beat”.  Igual a centenas de outras.  Bandas hoje são descartáveis, sua música também.   

Outro argumento de Nick é o de que a música é fungível, no sentido de que eu quero ouvir a música X, não a música Y.  É meio estranho, eu acho, dizer então que a notícia Y substituiria a notícia X; é o que Nick sugere, embora de forma mais sutil (a de que o fato em si estaria reportado em outro meio qualquer de qualquer forma, o que não é exatamente verdade se os micropagamentos se espalhassem).

Já o outro argumento de Nick tem mais substância: ele diz que o ethos de gratuidade se perpetua, hoje, apenas porque com a internet repentinamente a oferta tornou-se muito maior que a demanda.  Se eu morando em Brasília só poderia ter acesso aos dois jornais locais, alguns nacionais (três ou quatro) e alguns internacionais (sempre com defasagem), hoje posso ver os jornais de qualquer lugar do mundo a um toque de teclas.  O que ele acha é que o ajuste se dará pela oferta: muitos jornais, revistas e opções de informação vão sumir.

Para defender esse argumento Nick, é claro, tem que se contrapor ao pessoal que diz que pelo contrário, a internet reduziu as barreiras à entrada no setor de informação.  Eis porque eu e milhões de outros blogueiros estamos aqui informando nosso honorável público.  Nick contra-ataca dizendo que este tipo de amadorismo jamais substituirá a produção profissional de notícias.  Com isto, tendo a concordar: a maioria dos blogs interessantes tendem a ser aqueles capazes de fornecer um comentário bacaninha sobre uma matéria prima produzida por outrem _ um reempacotamento tipo Meia Hora (ok, talvez um pouco mais que isso).  Já blogs que saem inteiramente da cachola do seu autor tendem a ser chatos e confessionais; muito poucos são realmente legíveis.

Veredicto final do Nick:

What I’m laying out here isn’t a pretty scenario. It means lots of lost jobs – good ones – and lots of failed businesses. The blood will run in the streets, as the chipmakers say when production capacity gets way ahead of demand in their industry. It may not even be good news in the long run. We’ll likely end up with a handful of mega-journalistic-entities, probably spanning both text and video, and hence fewer choices. This is what happens on the commercial web: power and money consolidate. But we’ll probably also end up with a supply of good reporting and solid news, and we’ll probably pay for it.

Um mundo de Rupert Murdochs.  Será?

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UPDATE:

O Cássio me alertou para o excelente post que o Pedro Dória escreveu hoje sobre o mesmo tema.

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UPDATE 2

O Vinhal do Lastronomia também deu suas caneladas!

Qual é o futuro do “New York Times”?
 
    

O balanço da The New York Times Company de 2008 é uma leitura deprimente, escrita com letras vermelhas. A receita, de US$ 2,95 bilhões, foi 7,7% inferior à do ano anterior e próxima à de US$ 2,94 bilhões de 1998, uma indicação de que a companhia não conseguiu crescer durante uma década. Em um ano, a receita com publicidade encolheu 13,1% e em dois anos, 19,5%; no último trimestre, com a acentuada deterioração da economia, a queda foi de 17,6%.  

 

A conta de resultados é ainda mais dramática. Frente a um lucro de US$ 208,7 milhões em 2007, conseguido principalmente com a venda de ativos, a empresa teve no ano passado um prejuízo de US$ 57,8 milhões, devido à reavaliação negativa – isto é, sem desembolso de caixa – de negócios deficitários ou pouco rentáveis comprados nos anos de prosperidade. As atividades operacionais da empresa, em si, foram ligeiramente rentáveis, dado o esforço para reduzir os custos, mas insuficientes para compensar as perdas contábeis.

 

  Essa é a situação econômica. O panorama financeiro é ainda pior. A empresa tem uma dívida de US$ 1,1 bilhão, dos quais uma linha de crédito de US$ 400 milhões vence em maio, uma de US$ 99 milhões em novembro e outra de US$ 250 milhões em 2010. O dinheiro disponível em caixa era de apenas US$ 42 milhões e os bancos não parecem muito dispostos a abrir novas linhas de financiamento. Pela avaliação das agências avaliadoras de crédito, a dívida da empresa está classificada quase como “junk” – ou seja, como lixo.

 

Queda vertiginosa

 

Os acionistas que compraram papéis na bolsa estão furiosos. No dia 12, a ação da empresa era cotada em U$ 4,26. Menos de 10% dos US$ 49,18 a que chegara em 2004: em cinco anos, o papel perdeu mais de nove décimas partes do seu valor.  

 

A estrutura acionária da The New York Times Company é complexa – como a de várias companhias americanas do setor de comunicação. Desde 1896, o controle está com a família Ochs/Sulzberger, embora tenha hoje apenas 19% das ações. Quando abriu o capital na bolsa, para manter o controle, as ações foram divididas em duas categorias: ação classe A, vendida no mercado, cujos detentores podiam indicar um máximo de quatro diretores do conselho de administração; ações classe B, com direito a indicar nove representantes no conselho. A família possui 4% das ações classe A e 88% das ações classe B e, portanto, mantém o controle.

 

  O objetivo dessa estrutura é proteger a independência do jornal em tempos de turbulência – como os atuais. Para a família, durante mais de cem anos, o jornalismo foi mais importante do que a margem de lucro ou o preço da ação, embora seja importante observar que a família Bancroft tinha os mesmos princípios e teve que vender o “The Wall Street Journal” para Rupert Murdoch.

 

Nos tempos de prosperidade, a empresa desenvolveu uma política de diversificação. Mal executada. Foram compradas várias estações de televisão, revistas, participação em fábricas de papel e diversos jornais. Os mais importantes foram “The Boston Globe”, pelo qual pagou US$ 1,1 bilhão, alguns diários de prestígio na Nova Inglaterra e o controle do “International Herald Tribune”, editado em Paris. Também foi adquirida, por US$ 410 milhões, a About.com, uma empresa de internet. Além disso, o “The New York Times” construiu uma nova sede, projetada pelo famoso arquiteto italiano Renzo Piano, o mesmo que assinou o projeto do Centre Pompidou, em Paris. Com 52 andares, é o terceiro edifício mais alto da cidade. Foi considerado o prédio mais impressionante erguido em Manhattan nos últimos 40 anos. O custo foi de US$ 600 milhões para ficar com 58% do empreendimento. Mudou-se no ano passado deixando para trás a famosa sede em que se acolhia desde 1913, próxima à praça que leva seu nome, Times Square.

 

Decisões desastrosas  

 

Além de gastos de importância discutível para a empresa, houve decisões ainda mais desastrosas. O próprio “The New York Times” reconheceu recentemente que “o maior e mais evidente erro da companhia” foi a decisão de desembolsar US$ 2,7 bilhões entre 1998 e 2004 para comprar suas próprias ações na bolsa – precisamente no momento em que estavam no preço mais alto. Outro erro de grandes dimensões foi aumentar os dividendos de US$ 0,173 para US$ 0, 23 por ação em maio de 2007, quando já havia claros sinais da crise de crédito, uma decisão que custou US$ 47 milhões.

 

  Enquanto a empresa era rentável, a situação era aceita, pois os dividendos eram generosos, até exagerados. Mas com a receita, a rentabilidade e as ações em queda, alguns acionistas reclamaram ruidosamente. No início de 2007, Hassan Elmasry, gerente do Global Franchise Fund, um fundo de investimentos sediado em Londres do Morgan Stanley Investment Management, com 7,2% das ações da Times Co., criticou ferozmente a política da empresa. Disse que a construção da nova sede era uma questão de vaidade (“vanity project”), condenou as compras feitas pela companhia, a remuneração da administração e a generosa política de opções de compra de ações dos executivos. Principalmente, atacou a estrutura empresarial e pediu que todas as ações tivessem o mesmo direito de voto.

 

Outros fundos, como o Private Capital Management, com 9,3%, e o T. Rowe Price, com 14,9% do capital, se uniram a ele nas queixas. Em sinal de protesto, investidores com 42% do capital deixaram de votar numa assembleia de acionistas. Descontando os votos da família, isso significou que a maioria dos investidores externos estava descontente.

 

Depois do confronto, o Morgan Stanley, que era o banco da família, vendeu as ações. Mas a empresa não se livrou das pressões dos acionistas. Os “hedge funds” Harbinger Capital e Firebrand Partners compraram 19% das ações classe A e exigiram quatro cadeiras no conselho de administração. Para acomodar a situação, a empresa concordou em ampliar de 13 para 15 o número de diretores e dar os dois novos lugares para esses fundos. Até recentemente, uma capitulação semelhante seria impensável.

 

Nos últimos anos, a Times Co. precisou desfazer-se de alguns dos negócios que tinha adquirido. Entre eles as revistas e, mais recentemente, as emissoras locais de TV. Para atrair publicidade, começou a aceitar anúncios na primeira página e tenta ainda fazer caixa dispondo de outros ativos. Um deles é uma participação de 17,5% no time de beisebol Boston Red Soxs. Apertada, procura hipotecar a nova sede, ou fazer uma operação de “lease-back” (venda com contrato de aluguel), por US$ 225 milhões.

 

A sombra de Slim

 

A situação financeira foi parcialmente aliviada quando surgiu a inesperada figura de Carlos Slim Helú, o arguto bilionário mexicano que a revista “Forbes” apontou como o segundo homem mais rico do mundo. No Brasil, ele controla as empresas de telecomunicações Embratel e Claro e é acionista da operadora de TV a cabo Net. Ele é especialista em comprar ativos desvalorizados para revendê-los com grande lucro. Nos Estados Unidos, recentemente ele se tornou um grande acionista do Citigroup e comprou 18,3% da loja de artigos de luxo Saks Fith-Avenue. No fim do ano passado, Slim pagou US$ 127 milhões por 6,9% das ações classe A da The New York Times Company; hoje valem menos da metade. Ainda assim, ele insistiu em fazer novos negócios com a empresa, mas de maneira diferente.

 

Em janeiro, foi divulgado um acordo com Slim, com condições que segundo o próprio jornal são “punitivas”. Duas empresas de Slim compraram notas – papéis de dívida da Times Co. – por US$ 250 milhões, com vencimento em seis anos e juros anuais de 14,053%. As notas são conversíveis em ações classe A, por um preço fixo de US$ 6,3572 por ação. Se a opção for exercida, Slim será o segundo ou terceiro maior acionista da empresa. O negócio é muito melhor para Slim do que para a Times Co., mas esta tinha poucas opções abertas.

 

O dinheiro, que chegou em boa hora, servirá para enfrentar as prementes necessidades de refinanciamento da empresa. Mas a presença do empresário mexicano desperta alguns temores. Há dúvidas sobre suas verdadeiras intenções, que são uma incógnita. A mídia passou a aventar a possibilidade de Slim assumir o controle do “The New York Times”, mas a verdade é que não há evidência disso. Tanto quando comprou ações no ano passado como no negócio de janeiro, ele afirmou não querer fazer parte do conselho de administração nem interferir na empresa ou no jornal e que se tratava de uma operação meramente financeira. Ele disse ao “Financial Times”, no ano passado, que tinha comprado as ações da Times Co. porque “é uma grande empresa, o preço é barato e dá bons dividendos”. Na verdade, ele errou nos dois últimos pontos. O preço da ação caiu para menos da metade e os dividendos, depois da compra, foram cortados de US$ 0,23 para US$ 0,06 por ação.

 

No mínimo, a presença de Carlos Slim é desconfortável para o “Times”. Segundo escreveu o “Miami Herald”, Edward Wasserman, professor de ética das Universidades de Washington e Lee, acredita que o investimento de Slim representa um desafio aos princípios do “Times” de governança transparente e competição justa. Em sua opinião, Slim é um “capitalista predador, que construiu seu império de US$ 67 bilhões por meio de conexões políticas, um uso astuto e irresponsável do poder dos monopólios, que significa cobrar muito, entregar pouco e destruir competidores reais e potenciais”.

 

O “Miami Herald” acrescenta que, segundo o diretor da revista semanal mexicana “Proceso”, as empresas de Slim foram retirando toda a publicidade depois da publicação de uma reportagem de que ele não gostou. Sua proximidade com o governo era tal – isso agora mudou – que nos anos 90 funcionários da Secretaria de Comunicações do México chegaram a telefonar a analistas e operadores de Wall Street para saber de que maneira as ações da Telmex, controlada por Slim, seriam afetadas na bolsa de Nova York por umas medidas que a secretaria pretendia estabelecer. Apesar de tudo, Slim tem uma imagem positiva na sociedade e na mídia mexicana.

 

Esses antecedentes recomendam cautela, mas é precipitado para fazer afirmações categóricas sobre as intenções de Slim, além de dizer que ele não é, aparentemente, o parceiro ideal para um jornal como “The New York Times” e de assinalar que a operação valeu a Slim um grande espaço favorável na mídia mundial. Ele está comprando diversas operadoras de TV a cabo na América Latina. Seu único outro investimento em mídia impressa é uma participação de 1% na empresa que edita o jornal “The Independent”, de Londres. A opinião pública americana ficaria mais tranquila se investidores como Warren Buffett ou Michael Bloomberg tivessem investido no “Times” neste momento difícil, mas eles não o fizeram. O único dinheiro que aliviou temporariamente o problema financeiro do Times foi o de Slim.

 

Talvez para mostrar independência, o “Times” publicou na última segunda-feira uma matéria com restrições ao homem que o ajudou. O jornal afirma que apesar de investir em meios de comunicação, Slim tem uma relação complexa com a mídia, e que seus amplos recursos lhe garantem uma cobertura pouco crítica. Um dos mais influentes jornalistas do México, Raymundo Riva Palacio, disse numa coluna em “El Universal” que Slim era monopolista. Um representante do empresário ameaçou tirar os anúncios do jornal. A questão foi resolvida mais tarde. O “Times” também trancreve opiniões críticas segundo as quais Slim enriqueceu com favores do governo, não por ser um grande administrador. A reportagem conclui com uma frase de Riva Palacio: “Nós jornalistas cobrimos no México tantos safados, tantos egos enormes, que Slim, com todas suas faltas, não parece ser tão mau.”

 

Quanto vale o “Times”?

 

A situação da Times Co. tornou-se tão precária que o colunista de mídia da revista americana “BusinessWeek”, Jon Fine, chegou a surpreender-se ao calcular, em julho, quanto valeria, a critério do mercado, o jornal “The New York Times”. A ação da empresa valia US$ 12,48, o que representava um valor teórico de US$ 1,79 bilhão por toda a companhia. Calculando a dívida e o preço que o mercado atribuía a vários ativos do grupo – como outros jornais, o novo prédio, About.com, etc. -, o valor do “The New York Times”, do “International Herald Tribune” e das emissoras de rádio de Nova York seria de apenas US$ 750 milhões. Jon Fine lembrou que poucos meses antes o jornal “Newsday”, de Long Island, tinha sido vendido por US$ 650 milhões. Um analista, consultado, disse que as avaliações caíram a níveis tão baixos que perderam qualquer relação com a realidade.

 

Esse cálculo foi feito em julho, quando o preço da ação da empresa era de US$ 12,48. Qual é o valor que o mercado atribui agora ao “The New York Times” com a ação a US$ 4,28, quase um terço e em contínua queda? Com esse preço, a empresa inteira tem uma capitalização inferior a US$ 700 milhões, que é pouco mais do que os US$ 600 milhões pagos pela participação no novo prédio. Tirando o preço de alguns ativos, o jornal tem um valor em torno de zero. O que, evidentemente, se trata de uma das aberrações da Wall Street. Mas essa é a situação real.

 

De quem é a culpa?

 

Como é possível que “The New York Times”, o jornal mais influente e respeitado do mundo tenha chegado a essa situação?

 

Parte da culpa é jogada sobre os ombros do “publisher” do jornal e presidente do conselho de administração, Arthur Ochs Sulzberger Junior, membro da família que controla o jornal desde há mais de um século. A ele são atribuídos alguns dos erros. Também é acusado de certa imaturidade, da falta do peso e seriedade de seus antecessores – ainda é conhecido em alguns meios como “Young Arthur”, apesar de seus 57 anos -, de uma ausência de “gravitas”, palavra latina que significa circunspeção e ponderação, numa sugestão de que ele não teria incorporado completamente a importância do seu cargo, além de tomar algumas decisões de maneira precipitada. Há alguma verdade em tudo isso.

 

Mas também é certo que ele apoiou e implementou a custosa e difícil decisão de tornar o “Times” um jornal de circulação nacional, em lugar de ser apenas o órgão da cidade que leva seu nome e de sua região. Hoje, metade das vendas do jornal é resultado dessa decisão. Mais importante, porém, é sua defesa contínua dos princípios e da independência editorial do jornal e sua preocupação, apesar de todas as crises, em dotar a redação dos recursos necessários para manter-se como a principal fonte de informação e de referência jornalística dos Estados Unidos. Ele incentivou a excelência jornalística isolando a redação das pressões de curto prazo.

 

Bush contra a imprensa

 

Um fator importante para a perda de prestígio das empresas jornalísticas foi a persistente campanha do governo de George W. Bush, que provocou uma forte reação negativa da opinião pública contra a imprensa. Segundo David Remnick, editor da revista “The New Yorker”, “mais do que qualquer outra Casa Branca na história, a de Bush tem tentado sufocar, tripudiar, enfraquecer, ignorar, desvalorizar, intimidar e enganar a imprensa”, criando uma atmosfera de manipulação crua e desprezo por ela. “BusinessWeek” escreveu que Bush teve êxito em marginalizar a imprensa de expressão nacional impedindo seu acesso às atividades do governo e tratando o quarto poder como simplesmente outro grupo de interesses, que pode ser ignorado quando deixa de ser usado.

 

Seu principal alvo foi o “Times”, a quem Bush chegou a acusar publicamente de desleal e prejudicial à segurança nacional; dizia que o jornal era uma desgraça que encorajava ataques terroristas. Um senador republicano o acusou de “traição”. E uma comentarista de rádio conservadora disse que se o editor do jornal, Bill Keller, fosse julgado e condenado, ela não veria nenhum problema em que fosse enviado à câmara de gás. As páginas editoriais do “The Wall Street Journal” aderiram com entusiasmo a esses ataques. Tudo isso afetou a imagem do “Times” e da imprensa perante a opinião pública e Wall Street.

 

Analistas pouco confiáveis

 

Outra resposta para a baixa cotação das ações do “Times” e dos jornais em geral é que os critérios de avaliação de Wall Street são, no mínimo, discutíveis. Em meados do ano passado, os créditos podres do setor imobiliário eram classificados como AAA, o menor risco possível, e os mesmos analistas que apregoavam o fim próximo da imprensa escrita – prevendo que o “Times”, como os outros jornais, estava fadado a desaparecer – louvavam a solidez e rentabilidade de bancos e corretoras.

 

Hoje, enquanto os jornais continuam circulando, bancos, corretoras e outras entidades do setor financeiro dependem da caridade pública. Sobrevivem graças às centenas de bilhões de dólares desembolsados pelos contribuintes; de outra maneira estariam falidos. Wall Street atribuía, na década passada, a algumas empresas de internet das quais ninguém mais se lembra valores de mercado de dezenas de bilhões de dólares. Numa dessas fantasias, a AOL, avaliada em cerca de US$ 200 bilhões, comprou a Time Warner – e hoje a Time Warner não sabe como livrar-se do peso morto da AOL.

 

Isso nos ensina a olhar com algum cuidado as opiniões apocalípticas dos analistas a respeito da imprensa. Mas a questão não é apenas essa. É bem sabido que os jornais, nos Estados Unidos e embora em menor proporção em alguns países da Europa, estão perdendo circulação lentamente e, não tão lentamente, receita publicitária. Isso levou analistas e consultores a escrever o obituário dos jornais – uma atitude que, por enquanto, parece prematura.

 

É menos sabido que, nos países acima mencionados, a televisão aberta está perdendo audiência de maneira muito mais acelerada do que os jornais perdem leitores. Ninguém fala que seu fim está próximo. Nos Estados Unidos, as três maiores cadeias – ABC, CBS e NBC – tinham nos anos 70 e começo dos 80 uma participação de 90% da audiência da televisão; hoje mal passam dos 20%. No Canadá, Reino Unido, Alemanha e outros países, a televisão aberta tem cada vez menos espectadores. Mas os executivos de TV, com uma visão comercial superior à das editoras de jornais, valorizaram essa queda. Argumentaram que, com a crescente segmentação da mídia, a televisão aberta é ainda o único meio disponível de comunicação de massa. O fato de a audiência ser inferior à do passado significava que o anunciante deveria pagar mais pelo público ainda disponível – isto é, valorizar a escassez. E aumentaram as tabelas de preços continuamente.

 

Chegou a revolução

 

O que está ocorrendo é uma profunda revolução provocada pela internet e acelerada pela contínua expansão da banda larga, com efeitos de longo prazo semelhantes aos da introdução da imprensa por Gutenberg, no século XV. A revolução atual está afetando todos os meios – revistas, rádio, TV -, e não apenas os jornais, e também as maneiras de comunicação entre as pessoas. Ainda é cedo para fazer qualquer afirmação categórica sobre os efeitos das mudanças que a internet e a banda larga estão provocando. Mas pode afirmar-se que todos os meios sairão desse processo muito diferentes do que eram 15 anos atrás.

 

Para os jornais, a internet representou inicialmente um extraordinário meio de transmissão de seu conteúdo. Suas informações e análises podiam chegar instantaneamente muito além do limitado raio permitido pela distribuição física da edição impressa. Conseguiram um grande aumento do número de leitores e de influência. Hoje, os grandes jornais têm vários milhões de usuários únicos – o nome aos leitores na internet -, igualando ou superando em penetração muitas emissoras de televisão.

 

Mas cometeram o grave erro – um verdadeiro pecado original – de oferecer grátis seu conteúdo. Como recentemente disse Steve Brill, um empresário que lançou nos EUA vários meios de comunicação, ele pagava algumas centenas de dólares por ano para receber em sua casa de Nova York a seção “Style” do “The Washington Post”. “Então, Donnie Graham – presidente e principal acionista do ‘Post’ – decidiu que eu precisava de um subsídio. Agora me mandam a seção ‘Style’ grátis por e-mail.” E comentou: “Isso é uma loucura.” A imprensa, em sua opinião, está se autodestruindo e tem que parar de se suicidar dando informação de graça. “Comecem a cobrar e a acreditar em seu produto”, disse, acrescentando que os editores de jornais têm que recuperar sua autoestima.

 

Modelo que deu errado

 

Seguindo o modelo de negócios da TV, os jornais esperavam conseguir publicidade para cobrir os custos. Mas o volume foi escasso e os anúncios que chegaram pagavam uma tabela, por leitor, muito inferior à do jornal impresso. O novo modelo de negócios deu errado. É um modelo perverso, como disse um observador, porque na internet a publicidade ligada a notícias não vai para quem as apura e escreve, mas para “agregadores de conteúdo”, como Yahoo! e Google, que não produzem notícia alguma e usam as dos outros. Além disso, a maior parte da publicidade dos jornais on-line é vendida por terceiros, por preços extremamente baixos.

 

Muitos consultores de mídia, mais preocupados em vender seus serviços do que em apresentar soluções reais, afirmam que os jornais, “newspapers” em inglês, serão no futuro “news”, mas sem “paper”. E se oferecem para orientar as empresas a dar esse salto. Só não dizem como esse “news” sem “paper” vai conseguir a receita necessária para manter-se.

 

Um relatório da assessoria americana de investimentos Sanford C. Bernstein de 2008 dizia, numa tradução livre, que “a noção de que o enorme custo de manter uma redação pode ser coberto pelos anúncios nas margens das páginas da internet ou pela participação da receita originada num quadro da Google no canto da página, ou mesmo por um anúncio de 15 segundos da Geico antes das notícias, é uma grande idiotice”.

 

Quem não cometeu o erro da informação grátis foram as empresas de informação profissional – para advogados, médicos, engenheiros, educação, mercado financeiro – que digitalizaram e passaram para a internet as informações que antes publicavam em “newsletters”, revistas, anuários e livros. Mas continuaram cobrando preços altos por elas e pelo acesso a seus arquivos. Viram na internet um meio extraordinário para distribuir o conteúdo pago, não para entregá-lo de graça. As maiores companhias do setor – Thomson, Reed Elsevier, Wolters Kluwer, VNU – faturam vários bilhões de dólares por ano, com lucros enormes.

 

Lição de casa

 

Como se saiu “The New York Times” ante o advento da internet?

 

A resposta pode surpreender, mas é um dos jornais, no mundo inteiro, que melhor se adaptaram ao novo meio. Isso, apesar de que segundo Michel Wolff, um famoso comentarista da mídia, não existia provavelmente nenhuma outra companhia de mídia menos adequada culturalmente para ser um provedor de informações pela internet do que o “Times”. Acrescentou que ninguém sabe o que vai acontecer com o mundo da informação online.

 

O publisher do “Times”, Sulzberger Jr., foi um dos mais ferventes entusiastas da internet desde os primeiros tempos. Dizia que o “Times” atravessava a mais dramática transformação de sua história para reinventar-se e ser bem sucedido na nova era digital. Afirmava ser “platform agnostic” – isto é, que o jornal poderia ser distribuído por qualquer meio disponível. A essência do “Times” era a qualidade do conteúdo, não o meio pelo qual era distribuído.

 

Nos anos 90, ele dizia que, se no futuro, o jornal fosse oferecido apenas on-line, sem suporte de papel, poderia tirar US$ 700 milhões de custos fixos por ano do balanço do jornal. Sulzberger Jr. mantém sua fé inalável no mundo digital. Questionado em 2007 pelo jornal israelense “Ha’aretz” se o “Times” ainda estaria sendo impresso em papel nos próximos cinco anos, respondeu: “Não sei se continuaremos imprimindo o ‘Times’ em cinco anos. Eu não ligo.” Para levar o jornal à era digital, ele contratou um dos melhores especialistas do setor, Martin A. Nisenholtz.

 

Os resultados foram brilhantes. O sítio “nytimes.com” é sóbrio, atraente, elegante, amigável para o usuário, com uma grande variedade de informações com áudio e vídeo, além do conteúdo do jornal diário. Tem 16,6 milhões de visitantes únicos nos Estados Unidos e mais de 24 milhões no mundo inteiro. É, provavelmente, o jornal com mais leitores na internet no mundo inteiro. Todos os sítios da empresa, incluindo About.com, superam facilmente os 50 milhões de usuários únicos.

 

Donald Graham, o presidente do conselho do jornal rival “The Washington Post”, disse que “a coisa mais importante que Sulzberger Jr. está fazendo para preparar o ‘Times’ para o futuro é o desenvolvimento do ‘nytimes.com’ como o maior e financeiramente mais bem- sucedido sítio da internet desenvolvido por uma companhia de mídia”. “BusinessWeek”, numa matéria de capa, escreveu que o “Times” proporciona acesso a uma elite nacional e, se houver uma maneira de ganhar dinheiro com conteúdo na internet, o “Times” está especialmente bem posicionado para fazê-lo, desde que a marca continue forte. E segundo o sítio MarketWatch, controlado pela Dow Jones, de Rupert Murdoch, o “sítio do ‘Times’ representa o mais audacioso uso da internet por um veículo de informação importante”, no qual “você pode encontrar conteúdo online que nunca sonhou em ver num jornal diário”.

 

Onde estão os anúncios?

 

Depois de umas tímidas tentativas de cobrar pelo acesso a algumas partes do jornal, principalmente os comentários, a empresa decidiu abrir totalmente o conteúdo para leitura gratuita, esperando atrair anúncios para cobrir as despesas.

 

A publicidade digital no jornal cresceu rapidamente nos últimos anos. Em 2008 representou 14% do volume total da empresa, uns US$ 350 milhões. Mas se mostrou insuficiente para compensar a queda dos anúncios impressos. Além disso, com a crise financeira do fim do ano, a receita online também encolheu. No último trimestre foi 3,4% inferior à do ano anterior, o que mostra que o mundo digital também não é imune às crises.

 

O “Times” fez tudo o que mandava o figurino da época para modernizar-se e entrar na nova era. Mas, por enquanto, sem resultados. O problema não é apenas que a publicidade digital do “Times” seja insuficiente. A questão básica é que o modelo, amplamente defendido, de dar de graça na internet o conteúdo que é pago no jornal impresso, esperando atrair os anúncios necessários, não está dando certo. Nem para o “Times” nem para nenhum outro jornal. Desencoraja o leitor do meio impresso a continuar pagando pelo que é oferecido de graça e não proporciona a necessária receita digital.

 

E agora, José?

 

Nessa situação, quais são as perspectivas para o “The New York Times”?

 

O comentarista britânico de mídia Roy Greenslade colocou corretamente a questão quando disse que o “New York Times” é hoje melhor que nunca, tanto digital como impresso, e a qualidade editorial desses dois produtos é extraordinária. E perguntou: “Se eles não podem ganhar dinheiro, lamento, mas quem pode?” Ou como escreveu “The Observer”, de Londres: a questão é como o “Times” vai adapar-se à internet e conseguir um valor de mercado à altura de sua influência.

 

Seus problemas são semelhantes aos dos outros jornais. Mas o “Times” tem algumas características mencionadas que certamente vão contribuir para definir seu futuro – como a qualidade consistente, a influência e a independência.

 

Talvez o maior reconhecimento de sua influência tenha vindo do principal rival, Rupert Murdoch, que pagou US$ 5,7 bilhões pelo “The Wall Street Journal” para poder competir com ele como fornecedor de informações e formador de opinião para uma elite. Murdoch disse: “Minha preocupação com o ‘The New York Times’ é que ele ficou sozinho na posição de ser um jornal de interesse geral, dirigido à elite e com circulação nacional. O noticiário das redes de televisão se baseia no ‘Times’. E os jornais locais também. Tem uma enorme influência e eu adoraria desafiá-lo.”

 

Na verdade, o que se diz é que o sonho do Murdoch não é tanto competir como controlar o “The New York Times”. Quando, em janeiro, perguntaram se pretendia comprar o “Times”, ele respondeu que não queria ser considerado o inimigo público número 1 – o que temia que poderia acontecer se adquirisse o jornal.

 

Modelo de Harvard e Yale

 

Mas como manter a qualidade e a influência se as condições econômicas do mercado são adversas?

 

Uma saída seriamente discutida nos Estados Unidos neste momento é, precisamente, isolar o jornal das forças do mercado. Num artigo nas páginas de opinião do “The New York Times”, no fim do mês passado, dois executivos de investimentos da Universidade de Yale lançaram a ideia de que os jornais, ou pelo menos alguns deles, poderiam tornar-se empresas sem fins lucrativos, deixando um modelo de negócios obsoleto e oferecendo-lhes um lugar permanente na sociedade, com estabilidade e independência. A ideia é criar um modelo semelhante ao das grandes universidades, como a própria Yale, Harvard ou Princeton, que recebem donativos (“endowments”), cujos rendimentos permitem que operem livremente.

 

A sugestão provocou um debate acalorado. Foi apoiada com entusiasmo em artigos no “The New Yorker”, “The Washington Post” e outras publicações. Mas não foi bem recebida pelos leitores do jornal, a julgar pelas cartas publicadas, nem pelo editor-chefe, Bill Keller, ou por uma grande quantidade de economistas e comentaristas de imprensa. Acham que é necessário manter “alguma disciplina do mercado”.

 

Na verdade, vários órgãos de informação são protegidos de alguma maneira das forças do mercado, como a BBC de Londres, que recebe contribuições obrigatórias dos espectadores; os jornais “The Guardian”, “Frankfurter Allgemeine Zeitung” ou o “St. Petersboroug Times” são controlados por fundações. Em outros casos, os eventuais prejuízos de jornais como “The Independent”, “Financial Times” e “The Times” de Londres ou “The Wall Street Journal” são cobertos pelo lucro dos grupos a que pertencem. Não estão expostos diretamente à intempérie.

 

O debate continua, mas é improvável que essa solução seja adotada pelo “The New York Times”.

 

Conteúdo pago

 

Outras sugestões insistem na necessidade de cobrar pelo conteúdo distribuído na internet. Walter Isaacson, presidente do Aspen Institute, antigo editor da revista “Time” da CNN, defendeu neste mês a necessidade de que o leitor pague pelo que lê. Segundo ele, a primeira obrigação de uma publicação é com seus leitores, não com seus anunciantes. Confessa que mesmo um “viciado em tinta” como ele deixou de assinar “The New York Times” porque o lê na internet de graça. Mas acha que esse modelo não faz sentido.

 

Isaacson sugere que o leitor pague pelos artigos e reportagens que seleciona e lê e que esse modelo pode ganhar força com a atual implosão da publicidade. Além da venda de assinaturas na internet, os jornais deveriam adotar um sistema de micropagamentos, pelo qual o leitor desembolsaria pequenos valores para ler um artigo ou reportagem de seu interesse, sem precisar pagar pelo jornal todo. Ele menciona o exemplo de Steve Jobs, da Apple, que levou os consumidores a pagar US$ 0,99 para ouvir uma música, ou Jeff Bezos, da Amazon, que vende versões eletrônicas de livros, revistas e jornais porque a operação é muito simples e fácil. A ideia de Isaacson é interessante, mas alguns detalhes técnicos ainda precisam ser desenvolvidos.

 

Demanda pela qualidade

 

Neste momento, como o “Times” vê a situação e o que pretende fazer?

 

O editor-chefe, Bill Killer, em resposta a perguntas de leitores, afirmou que está diminuindo a oferta de jornalismo de qualidade porque é difícil, caro e com frequência perigoso. Disse, como exemplo, que alguns anos antes o “Los Angeles Times” tinha o mesmo número de jornalistas que “The New York Times”, uma excelente sucursal em Washington, uma grande rede de correspondentes no exterior e uma revista com críticas de livros. Hoje, sua redação está reduzida à metade e a revista desapareceu. O “Los Angeles Times” não é mais o jornal que era antes. Acrescentou que na internet há incontáveis vozes querendo falar, mas pouca reportagem séria.

 

Mas há uma demanda crescente pelo jornalismo de qualidade, como pode ser percebido pelo fenomenal aumento do tráfego nos sítios da internet que oferecem informação confiável, disse ele. E, com a lei da oferta e da procura, sugere que o mercado encontrará uma maneira de fazer que a demanda pague pela oferta. Mas não arriscou a prever quando isso poderia acontecer.

 

Felizmente, diz Keller, ao contrário da maioria dos jornais, o “Times” está em condições de atender a essa demanda, pois não encolheu sua redação, com mais de 1.300 jornalistas e cujo custo ultrapassa os US$ 200 milhões por ano.

 

Ele continua otimista porque a empresa tem um bom número de pessoas espertas e criativas estudando o modelo de negócios adequado para o jornalismo de qualidade. Acredita que no prazo de um ou dois anos as empresas de mídia terão que tomar decisões sobre papel versus digital, o equilíbrio entre receita de publicidade e assinaturas e se vão procurar uma audiência de alto nível ou um mercado de massa. Mas reconhece que não sabe como vai evoluir o comportamento de leitores e anunciantes.

 

Keller sugere que o “Times” vai encontrar uma maneira de obter receita com o conteúdo na internet. Disse não acreditar num princípio teológico segundo o qual a informação “tem que ser grátis”; a informação de alto nível tem que ser paga. Quem paga, hoje, são os anunciantes, mas afirma que o jornal está discutindo as maneiras de fazer que o leitor também pague. E aponta como exemplo a decisão de Rupert Murdoch de continuar cobrando pelo acesso ao conteúdo do “The Wall Street Journal”. Keller, porém, acha que o sítio do “Times” gera mais receita que o do “Journal”. E confirma que o “Times” estuda seriamente a possibilidade de introduzir o sistema de micropagamentos, como fazem Apple e iTunes.

 

Perspectivas do jornal

 

Uma análise detalhada sobre as perspectivas do “The New York Times”, escrita pelo repórter Richard Pérez-Peña, indicando como a empresa poderá sobreviver à atual crise, foi publicada no jornal no dia 9. Segundo ele, em conferência com analistas, a presidente e principal executiva, Janet L. Robinson – repetindo alguns dos argumentos de Keller -, disse que enquanto outros jornais cortam a cobertura nacional e internacional surgem oportunidades para que o “Times” ocupe o lugar que eles deixaram.

 

Assinalou também que a empresa não carrega dívidas pesadas, ao contrário de outros jornais, e foi menos afetada pela queda da circulação e publicidade. Alguns analistas disseram que, apesar de informes alarmistas em contrário, o “Times” está preparado para enfrentar um e talvez dois anos de crise. A empresa ainda opera com lucro e poderia ter dispensado o dinheiro de Slim, embora não pudesse permitir-se o risco de enfrentar condições mais difíceis, para levantar um empréstimo, seis meses ou um ano depois. Um diretor da Fitch Ratings afirmou que no futuro haverá menos jornais e os que sobreviverem estarão em melhores condições para competir por leitores e anunciantes. Acredita que o “Times” será um sobrevivente.

 

A companhia poderá manter, ainda por um ano, um fluxo de caixa positivo. Mas se a receita, como se espera, continuar caindo, serão inevitáveis os cortes de despesas. A reportagem conclui com a afirmação da diretora de uma empresa de compra de espaço na mídia. Ela acredita que o poder de permanência (“timeliness”) dos jornais deverá continuar e, além disso, o “New York Times” tem a vantagem da credibilidade.

 

Em resumo, as pessoas acreditam que o “Times” deve apostar na qualidade para tentar sobreviver no futuro. É seu grande diferencial.

 

 

 

 

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