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Estou devendo já a há algum tempo um agradecimento ao Pedro Dória por ter colocado este humilde bloguinho entre os blogs cobertos pelo agregador que ele criou, o As Últimas, inspirado no excelente Alltop. Valeu Pedrão!

***
Também estou devendo um pedido de desculpas à Tia Sílvia, minha professora de português no Ginásio. :)

Lá vamos nós.

Tio Rei faz um escândalo com a retratação da ONU no caso do ataque com morteiros feito pelo Exército de Israel contra uma escola em Gaza:

NÃO, ISRAEL NÃO ATACOU A ESCOLA DA ONU. ERA UMA FARSA DO HAMAS. A ONU FOI OBRIGADA A ADMITIR A VERDADE. QUASE UM MÊS DEPOIS! CADÊ AS MANCHETES?

A notícia não está em nenhum dos jornais brasileiros ou nos grandes sites noticiosos. Lembram-se aquele ataque das Forças de Defesa de Israel a uma escola da ONU, que matou 43 pessoas? Pois é. Não foi numa escola da ONU coisa nenhuma, o que os israelenses vinham dizendo desde o dia 6 de janeiro. Só na segunda-feira, quase um mês depois, Mawell Gaylord, coordenador de ações humanitárias da ONU em Jerusalém, admite a verdade: o morteiro foi lançado numa rua PERTO da escola, mas não contra a escola.

Ora, recuperem o noticiário dos jornais e sites do Brasil e do mundo naquele dia 6. Lembro-me de ter aqui ironizado que os israelenses, maus como pica-paus, não podiam ver uma escola da ONU que iam logo jogando morteiros. Talvez para se livrar do tédio, não é? Ah, acusaram-me de insensível facinoroso. Marcelo Coelho, da Folha, sugeriu no jornal e no seu blog que tenho certa simpatia pelo assassinato em massa de crianças… Mais: como eu alertasse aqui para o óbvio – O HAMAS É A FONTE DAS NOTÍCIAS -, fui acusado de realismo estúpido. Coelho chegou a indagar algo como: “Para que jornalismo se já existem os militares?” Ou coisa assim. Chegou a minha vez de indagar: PARA QUE COELHO SE JÁ EXISTE O HAMAS?

O jornalismo dele, não sei para que serve. O meu existe, entre outras razões, para que os freqüentadores deste blog possam ler com mais acuidade o que é noticiado na imprensa.

Não se espante, leitor, se, naquele episódio, não tiverem morrido as 43 pessoas anunciadas. Todas, rigorosamente todas as ditas “atrocidades” cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas. Este segundo caso, então, pode dar pano para manga. A tal substância não é considerada arma química. É empregada para iluminar alvos noturnos e criar cortina de fumaça para ação da infantaria. Israel nega que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais. Como negava que tivesse jogado morteiro numa escola da ONU – e falava a verdade. De todo modo, abriu-se uma investigação.

Como se vê, o Hamas faz direitinho o seu trabalho. O ataque mentiroso à escola foi manchete do mundo inteiro. O desmentido, até agora, está apenas no Haaretz. O mundo também não se interessou em manchetar as torturas e execuções sumárias que se seguiram à retirada de Israel de Gaza.

A imprensa ocidental se deixou seqüestrar pela lógica terrorista. Esse caso da escola merece a justa designação: ESCÂNDALO. Quer dizer que os homens da ONU em Gaza demoraram um mês para fazer o que poderiam ter sido feito em cinco minutos? Escrevi aqui, certa feita, que o principal inimigo de Israel no Oriente Médio é a organização. Foi uma gritaria. Eis aí.

Bem, esperar o quê? O principal representante das Nações Unidas em Gaza é um sujeito que acredita que os próprios EUA tramaram o 11 de Setembro…

Pois é, leitores. Como diria aquele, quando já temos o terrorismo e a ONU, pra que certo jornalismo, não é mesmo?

Eis a matéria do Haaretz:

The United Nations has reversed its stance on one of the most contentious and bloody incidents of the recent Israel Defense Forces operation in Gaza, saying that an IDF mortar strike that killed 43 people on January 6 did not hit one of the United Nations Relief and Works Agency schools after all.

It seems that the UN has been under pressure to put the record straight after doubts arose that the school had actually been targeted. Maxwell Gaylord, the UN humanitarian coordinator in Jerusalem, said Monday that the IDF mortar shells fell in the street near the compound, and not on the compound itself.

UNRWA, an agency whose sole purpose is to work with Palestinian refugees, said in response Tuesday that it had maintained from the day of attack that the wounded were outside of the school compound. UNRWA said that the source of the mistake in recent weeks had originated with a separate branch of the United Nations.

Senior IDF officials had previously expressed skepticism that the school had been struck, saying that two mortar shells could not kill 43 people and wound dozens more.

Questions about the veracity of the claims that the school had been hit by the IDF were also raised last week by the Canadian newspaper The Globe and Mail. The newspaper said that a teacher in the UNRWA compound at the time of the strike “was adamant” that no people had been killed inside the compound.

The newspaper quoted the teacher as saying that, “I could see some of the people had been injured… But when I got outside, it was crazy hell. There were bodies everywhere, people dead, injured, flesh everywhere.”

The newspaper said that the teacher had been told by the UN not to speak to the media. “Three of my students were killed,” he said. “But they were all outside.”

***

Vamos traduzir o negócio.

Tio Rei ficou feliz da vida porque os morteiros israelenses caíram PERTO da escola, e não na escola.  Isso significa que para Tio Rei atirar morteiros perto de escolas é algo perfeitamente normal e admissível, mesmo quando três estudantes da escola morreram no bombardeio porque estavam, er, “fora da escola” (vamos abstrair o fato de que para se conseguir ficar dentro de uma escola é preciso em algum momento estar fora dela).

Este trecho, em particular, transpira o que há de pior na anaerobicidade:

Todas, rigorosamente todas as ditas “atrocidades” cometidas por Israel têm origem no, como direi?, Departamento de Propaganda do Hamas: do grande número de crianças e civis mortos ao uso de bombas de fragmentação e fósforo branco para atacar pessoas. Este segundo caso, então, pode dar pano para manga. A tal substância não é considerada arma química.  É empregada para iluminar alvos noturnos e criar cortina de fumaça para ação da infantaria. Israel nega que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais. “

Primeiro: Tio Rei ignora o principal mandamento das armas de fósforo, que é não utilizá-las em áreas densamente povoadas, por mais que seja preciso “iluminar alvos noturnos” (uma necessidade menos premente na idade dos visores noturnos de infravermelho que existem precisamente para que não seja preciso utilizar fontes de luz visível de grande intensidade) e “criar cortinas de fumaça para a ação da infantaria” (como se esse fosse o maior problema para a infantaria do IDF em Gaza).

Segundo: armas de fósforo são proibidas pelo protocolo III da Convenção da ONU sobre armas convencionais.  Armas de fósforo, independente do objetivo de sua utilização, são armas incendiárias e não podem ser usadas pelos signatários da convenção.  O detalhe, é claro, é que Israel não é signatário da convenção _ o que é muito conveniente, pois assim seu exército pode usar o fósforo como arma incendiária sob a cortina de fumaça de que as utiliza como _ cortinas de fumaça.

Finalmente, o fato de Israel negar que tenha feito qualquer coisa fora das leis internacionais não quer dizer que Israel não as tenha feito.  Afinal, Israel nega até hoje possuir armas atômicas, quando até os escorpiões do deserto de Negev sabem que os mísseis estão estocados debaixo de suas (muitas) patas.

O Guardian está com uma série sobre as estratégias utilizadas pelas grandes corporações britânicas para fugir dos impostos de Sua Majestade.   Uma delas é transferir as suas valiosas marcas para paraísos fiscais:

Three FTSE100 companies have quietly “offshored” legal ownership of their valuable trademarks to low-tax locations, the Guardian’s tax gap investigation has found. Two drug firms, GlaxoSmithKline, and AstraZeneca, both headquartered in London, have moved title to their drug brands to Puerto Rico in the Caribbean. The Anglo-Dutch oil giant Shell, although it is still a British plc operating under UK company law, has shifted its trademarks to Switzerland and its main tax residence to the Netherlands.

These are three of Britain’s most successful corporations, continuing to generate huge profits and returns for their shareholders despite the global downturn. AstraZeneca has been one of the best performing shares on the FTSE over the last year, seeing its share price go from around £21.50 to around £28.60. At the same time, its market capitalisation has gone up by more than £10bn from £31.3bn to £41.4bn. Glaxo has also been one of the few companies to see its share price go up as the economic storm rages – from around £11 a year ago to around £12.50 now.

Last week Shell revealed that its profits in the final three months of 2008 were down by more than a quarter on the previous year. The oil giant still made more than £25,000 a minute in profits and is forecasted to achieve record earnings this year of £21.5bn.

All three enjoy the benefits of being a UK plc – access to capital, enhanced reputation, proper regulation and political stability. Yet they have moved the rights to their intellectual property to tax havens. This means they can reduce their UK-based profits and hence their British tax bills by paying royalties to the subsidiary in the tax haven for use of the trademarks. Yesterday, at the start of its special investigation into 20 prominent companies, the Guardian identified the drinks giant Diageo as having similarly moved its brands to the Netherlands. Diageo managed to hold off capital gains tax on the sale by use of a legal concession.

The practice of depositing rights to “intellectual property” in tax havens is one of the factors behind a continuing war between big business and the Treasury. Industry chiefs are refusing to accept a planned clampdown on this by Alistair Darling, the chancellor, and some have been threatening to quit Britain.”

Algo me diz que o Guardian devia ouvir mais um de seus próprios colunistas, o Monbiot, que tem um artigo fantástico sobre os paraísos fiscais _ britânicos:

If you want to know why Britain has never completed the process of decolonisation, look at two lists side by side. One is the official register of tax havens, compiled by the OECD(1). The other is the list of British overseas territories and crown dependencies(2). Over a quarter of the world’s tax havens are British property. More than half of Britain’s colonial territories and dependencies are tax havens. Strip out Antarctica, the military bases and the scarcely-habited rocks and atolls, and of the 11 remaining properties, only the Falkland Islands is not a recognised haven. The obvious conclusion is that Britain retains these colonies for one purpose: to help banks, corporations and the ultra-rich to avoid tax.

(…)

Last month the British government announced that it will introduce new laws to prevent piracy: the armed forces will be allowed to detain ships and arrest suspected robbers on the high seas(4). Yet the same government offers an attractive portfolio of tropical and temperate islands in which pinstriped pirates can bury their treasure.

That comparison is unfair – to pirates.”

Em seguida Monbiot faz picadinho de um relatório produzido pelo governo britânico.   Na Inglaterra, é comum que o governo encomende “green papers” sobre políticas públicas a pessoas que por algum motivo são reconhecidas como proficientes na área.   O governo britânico comissionou um relatório sobre paraísos fiscais a Michael Foot _  que foi inspetor de bancos e trustes para o Banco Central das Bahamas, que é, é claro, um paraíso fiscal de Sua Majestade.  Opinião do Monbiot sobre essa escolha:

There is a standard British procedure for dealing with problems like this: by which I mean problems that generate bad publicity but which you don’t want to address. You commission a review and you choose the right man to conduct it. (…) The identity of the person the government appoints is an index to the outcome it desires. Foot sounds like just the man for the job.

E conclui:

Even as it was commissioning this review, Brown’s government tried to undermine international efforts to address the problem. Teaming up with that revolting little monarchy Liechtenstein, the UK sought to strike out a paragraph from the Doha trade agreement which aimed to eradicate tax evasion(20). Thanks in part to British lobbying, the draft commitment was substantially weakened(21).

Were Britain to release its remaining colonies, they would quickly succumb to pressure from the Obama government and the European countries trying to stamp out international evasion and organised crime. We hold onto the Falkland Islands for their oil and fish. We hold onto the other territories for something far more valuable: secrecy.”

Ah, a velha Albion, berço e paraíso do livre-mercado…

O Monbiot, além do seu próprio site, agora também tem blog no Guardian.

De brinde, uma excelente amostra de um debate agnotológico.

bruxinha

Eu sempre achei que a moça tinha lá seu potencial.

No Valor:

Apesar da crise, aumenta a popularidade de Lula

Em meio aos efeitos da crise mundial no país, as avaliações do governo e do desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva bateram níveis recordes em janeiro, com 72,5% e 84%, respectivamente, segundo pesquisa do Instituto Sensus, patrocinada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT). O temor das consequências da crise funcionou como estímulo para a população ver, em Lula, “uma âncora da esperança de que a crise é passageira”, na avaliação do presidente da CNT, Clésio Andrade.”


A “rapture para nerds” já tem até escola própria.  Deu no Valor:

Google e Nasa abrem escola para ‘futuristas’

O Google e a Nasa estão por trás de uma nova escola para futuristas no Vale do Silício, que vai preparar cientistas para uma era em que as máquinas se tornarão mais inteligentes que o Homem.

A nova instituição, conhecida como Singularity University (Universidade da Singularidade), será comandada por Ray Kurzweil, cujas previsões sobre o ritmo exponencial das mudanças tecnológicas fizeram dele uma figura controvertida nos círculos tecnológicos.

O apoio do Google e da Nasa demonstra a crescente aceitação dos pontos de vista de Kurzweil entre as correntes científicas predominantes. Kurzweil afirma que antes da metade deste século, a inteligência artificial vai superar os seres humanos, lançando a civilização em uma nova era. A Singularity University vai funcionar no Ames Research Center da Nasa, que fica bem perto da Googleplex, a sede da Google. Ela vai oferecer cursos de biotecnologia, nanotecnologia e inteligência artificial.

A chamada “singularidade” é um período teórico de rápido progresso tecnológico num futuro próximo. Kurzweil, um inventor americano, popularizou o termo em seu livro “The Singularity is Near” (A Singularidade Se Aproxima), lançado em 2005.

Os defensores afirmam que durante a singularidade, as máquinas serão capazes de se aperfeiçoar usando a inteligência artificial e que computadores mais inteligentes que o Homem resolverão problemas como a escassez de energia, as mudanças climáticas e a fome.

Mesmo assim, muitos críticos afirmam que a singularidade é perigosa. Alguns temem que uma inteligência artificial maligna possa aniquilar a raça humana.

Kurzweil diz que a universidade foi lançada agora porque muitas tecnologias estão se aproximando de um momento de avanço radical. “Estamos chegando na parte mais íngreme da curva”, afirma. “A questão não envolve apenas produtos eletrônicos e computadores. É qualquer tecnologia em que possamos medir o conteúdo da informação, como a genética.”“.” [grifo meu]

***

Quem poderia imaginar?  Sempre se acreditou que Skynet dominaria o mundo a partir do momento em que ganhasse controle sobre as armas nucleares.  Mas na verdade sua estratégia será muito mais sutil e insidiosa; Skynet dominará o mundo a partir da máquina de busca do Google.

Sim, sim, imagine uma vasta e maligna inteligência dissimuladamente nos observando da própria interwebs, anotando cuidadosamente cada busca que você já fez na sua vida.  Imagine que essa vasta inteligência de repente comece a usar os padrões detectados nas suas buscas para te convencer a fazer coisas que você não pensaria em fazer se estivesse em seu estado normal _ como comprar aquela batedeira com vinte velocidades e freio ABS, por exemplo.

Skynet nos dominará dominando nossos cartões de crédito.

***

Se for assim não há a menor dúvida de que se este texto chegar aos sobreviventes humanos do futuro,  será objeto de muita raiva e frustração.

***

Então vocês já sabem: se algum dia a tal escola _ ou o próprio Googleplex _ for pelos ares, a culpada é Sarah Connor.

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