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Preconceituosa mas nem tanto
Via Idelber, via Rafael Galvão, descubro este texto da Cora Ronái onde desponta este parágrafo:
“Por ser um país desenvolvido cercado de vizinhos em diferentes estágios de “civilização”, Israel paga, guardadas as devidas proporções, o preço que a classe média paga, no Brasil, em relação à criminalidade nas comunidades carentes: para uma certa visão míope, é sempre a culpada, porque, em tese, nessa forma enviesada de análise, os bandidos são sempre inocentes – são apenas pobres reagindo à desigualdade social (o que, claro está, é uma baita ofensa à imensa maioria dos pobres, que sofrem na miséria sem nunca pensar em delinqüir). Enquanto isso, os verdadeiros culpados pelas desigualdades, lá como cá, não são mencionados nem en passant – e, ainda que o fossem, continuariam onde sempre estiveram, ou seja, nem aí.“
Francamente, é a primeira vez que vejo uma anta que admira capivaras.
Talvez alguns dos meus 4,5 leitores estejam a par do conflito que ora se desenvolve a respeito da expansão do aeroporto de Heathrow, em Londres. As autoridades aeroportuárias resolveram construir uma terceira pista para servir o aeroporto, que hoje é um dos maiores hubs aeronáuticos da Europa (se é que Londres fica na Europa). Problema: além do desconforto nas comunidades próximas provocado pela operação do aeroporto, um grupo de ativistas ambientais liderados pelo Greenpeace resolveu boicotar a construção da terceira pista, um protesto cuja justificativa é o dano ambiental causado pela aviação civil moderna. E neste boicote estão tomando medidas extremas:
“LONDRES – O Greenpeace anunciou que comprou um terreno no local proposto para a terceira pista de Heathrow, em Londres, na tentativa de impedir os planos de expansão do aeroporto.
O anúncio do Greenpeace vem no momento em que ministros estão perto de aprovar a expansão, que custaria 9 bilhões de libras. A decisão deve ser tomada antes do fim do mês.
O Greenpeace pretende dividir a terra em milhares de pequenos lotes, cada um com um dono diferente, além de construir redes de túneis ao longo do terreno.
A atriz Emma Thompson e o comediante Alastait McGowan estão entre as pessoas que assinaram a escritura na última sexta-feira, segundo o Greenpeace.“
A participação de Emma Thompson tem sido bastante importante nesta história. Parece que a contribuição dela à compra do terreno foi substancial. E provocou uma resposta mal humorada de Geoff Hoon, secretário de transportes britânico:
“Transport secretary Geoff Hoon picked on the Oscar winner Emma Thompson who emerged as a leading figure in the campaign to stop the third runway at Britain’s biggest airport.
In an interview with the Guardian in which he also urged Barack Obama to change American attitudes to climate change, Hoon was outspoken in his criticism.
“She has been in some very good films. Love Actually is very good, but I worry about people who I assume travel by air quite a lot and don’t see the logic of their position, not least because the reason we have got this problem in relation to Heathrow is that more and more people want to travel more and more,” he said.
He added: “BAA do not wake up in the morning and think ‘we need a bigger airport’ and airlines do not say ‘we need to put on more flights’ unless there is a demand for it. So the point is about not just Emma Thompson, but lots of people. If someone living in LA says he did not think it was a good idea to expand Heathrow, well the last time I looked the only way to get from LA to Britain is Heathrow.“”
Ao que Emma Thompson respondeu:
“It sounds like the transport secretary has completely missed the point. Again.”
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Antes de ter alguma uma posição sobre a questão de Heathrow, é bom olhar os impactos da aviação civil sobre a mudança climática. O estudo seminal sobre o assunto é o relatório especial sobre aviação feito pelo IPCC em 1999. Ali se declara quais são as principais formas pelas quais a indústria da aviação civil pode afetar a mudança climática:
“Aircraft emit gases and particles directly into the upper troposphere and lower stratosphere where they have an impact on atmospheric composition. These gases and particles alter the concentration of atmospheric greenhouse gases, including carbon dioxide CO2), ozone (O3), and methane (CH4); trigger formation of condensation trails (contrails); and may increase cirrus cloudiness-all of which contribute to climate change.”
A relação causa-efeito pode ser melhor aferida a partir deste esquema:
Como se vê, existem vários canais pelos quais se aferir o impacto da aviação civil sobre o clima. O mais direto é a produção direta de CO2, mas existem também outros efeitos derivados de reações químicas observadas na atmosfera catalisadas por outros produtos da exaustão das turbinas dos aviões, além de efeitos especificamente microfisicos, como os contrails (aqueles filetes de condensação de vapor que se vê atrás dos aviões em altas altitudes) e formação de cirros, que podem afetar o albedo terrestre.
Quaisquer que sejam os efeitos, porém, eles certamente são amplificados pelo crescimento do tráfego aéreo doméstico e internacional, o qual, segundo projeções, deve crescer muito(*):

Para piorar, entre as várias modalidades de transporte, o aéreo é o que tem a maior contribuição em termos de CO2 despejado na atmosfera por tonelada-quilômetro:
No entanto, em termos de potencial de mitigação, isto é, o quão um determinado fator causador de efeitos climáticos poderia colaborar para reverter este efeito se algo fosse feito a respeito, a aviação civil não ocupa uma posição de muito relevo. Essa é a estimativa para o potencial de mitigação constante no relatório Climate Change 2007 do IPCC:
Vê-se que o potencial de mitigação da atividade de transportes não é dos maiores (o que me surpreendeu), pelo menos sem considerarmos a questão da viabilidade técnica e política de cada potencial isoladamente. Estimativas indicam, porém, que a aviação civil contribui com aproximadamente 3 a 3,5% do total de CO2 produzido na atividade de transporte. Em sendo assim, os esforços de mitigação estariam muito melhor direcionados se voltados para outras atividades (como energia e construções).
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Concluo daí que por mais impopular que seja a tal terceira pista o Greenpeace (e a Emma Thompson) talvez estivesse utilizando melhor os seus euros as suas libras se se concentrasse em outros tipos de campanha que não contra a aviação civil, uma atividade que, ainda por cima, não tem substitutos óbvios _ dentro do atual contexto de organização econômica da sociedade, pelo menos (especialmente vôos internacionais, que são um terço do total).
Claro que uma possibilidade seria focar em segmentos mais facilmente substituíveis. Por exemplo, o estima-se que dentro do Reino Unido 93% das viagens de negócios sejam feitas por via aérea _ mas espera-se que o crescimento da “telecomutação” possa no futuro próximo diminuir a necessidade das viagens de negócios (embora o mundo virtual não seja tão livre de efeitos climáticos assim).
Por outro lado, há uma falha fundamental no argumento de Geoff Hoon. Ao dizer que as pessoas que reclamam da construção da pista paradoxalmente são usuárias do transporte aéreo, Hoon avaliza uma “solução de mercado”, isto é, se as pessoas estão insatisfeitas com o transporte aéreo que não o usem, e que se a expansão se mostra necessária é porque as pessoas estão querendo usar o transporte aéreo. Ele se esquece porém que certas soluções não são viáveis a partir da vontade individual de cada cidadão, e que certos problemas demandam respostas coletivas (porque surgem de falhas de mercado). Portanto, a solução para um modo de vida que crescentemente demanda o uso do transporte aéreo (ou por falar nisso, o terrestre também) exige uma solução coletiva, pela via política.
Vale a pena realçar este ponto porque este tipo de argumento que beira o cinismo é encontrado frequentemente na boca de políticos e pundits da imprensa.






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