You are currently browsing the daily archive for janeiro 7, 2009.
Eu acho que já disse alguma vez _ se não foi neste blog, foi no outro _ que sofro de uma incurável preguiça de entrar em qualquer discussão cujo fulcro seja Israel. Por vários motivos: porque a discussão aí é sempre apaixonada, porque corre-se sempre o risco de perder grandes amigos, porque inevitavelmente alguém lhe dirá que você é um antisemita, etc.
O maior perigo em discutir Israel é enredar-se em uma infindável rede de causas e efeitos, de covardias praticadas contra inocentes por um e outro lado (no cômputo geral acredito que as covardias praticadas por Israel sempre tenham sido maiores, mas isto não vem ao caso). Felizmente, tudo isso é bobagem.
E tudo isso é bobagem por razões simples: em sua gênese, o Estado de Israel nasceu de uma solução fraudulenta que agradava a gregos e troianos. Vejam o gráfico abaixo:
Ele mostra a produção de gás e petróleo desde o início do século XX. Claramente, o Oriente Médio (em azul claro) se torna um produtor estratégico após a Segunda Guerra. Coincidentemente, o Estado de Israel foi criado em 1948.
Claro que haviam condições ideais para isso: o horror do Holocausto fazia parecer urgente a necessidade de se criar um Estado para abrigar os sobreviventes do genocídio nazista. Além disso a região de Israel era historicamente o berço da civilização hebraica. Tudo isso era bobagem, entretanto, aos olhos das potências vencedoras da II Guerra, pois o que estava em jogo era a geopolítica da região.
Por outro lado o sionismo não havia ficado parado. Já desde o início do século XX doadores judeus forniam o Jewish National Fund, que dedicava-se a comprar terras de cidadãos ignorantes do Império Otomano na região, a princípio por suas próprias mãos e depois através de uma subsidiária secretiva chamada Himnata. As terras possuídas pelo JNF são, aliás, a maior garantia contra a volta dos refugiados árabes, pois os expropriou de suas terras e as arrendou a colonos judeus.
E se você pensa que isso é coisa do passado está enganado. Agora há pouco, em junho do ano passado, foi desmantelado um esquema fraudulento de venda de terras pertencentes a árabes incautos para o JNF. Grilagem pura e simples. Para que não paire dúvidas sobre a lisura da reportagem, ela saiu no Haaretz…
Meu teste para aqueles entusiastas partidários de Israel que no entanto não conseguem suportar a idéia de índios vivendo em reservas florestais no Brasil, sugiro um thought experiment: imagine que alguns índios comprem terras no interior de São Paulo e repentinamente, um belo dia, declarem independência do Brasil, alegando seu direito ancestral à terra de Pindorama. Será que alguém vai gostar?

Novo mercado para as “magrinhas”
Uma consequencia imprevista da crise é que, preocupadas em economizar combustível, as linhas aéreas estejam dedicadas a jogar fora todo lastro possível.
A Air India acaba de demitir dez aeromoças que estavam acima do peso, segundo reportagem da Economist. Embora o cronista reconheça que a natureza do trabalho das comissárias de bordo exige um certo tamanho máximo (para permitir que os passageiros passem pelos corredores enquanto elas atendem alguém), ele teme que no caso esteja em jogo uma certa noção de estética, suspeita reforçada pelo comentário de um jornal indiano segundo o qual os passageiros, afinal, não precisam ver mais pneus do que os necessários para a aterrisagem. O artigo tem comentários em que os homens indianos aparecem sob uma luz bastante desfavorável…

E se você acha que o bail-out da indústria americana está atingindo dimensões pornográficas, prepare-se:
“Larry Flynt (the “Hustler” guy) and Joe Francis (the “Girls Gone Wild” dude) are asking the government for a $5 billion bailout, claiming the adult entertainment industry has taken a huge shot to the face because of the downturn — citing the fact that XXX DVD sales are down 22% from a year ago.
“With all this economic misery and people losing all that money, sex is the farthest thing from their mind,” Flynt says. “It’s time for Congress to rejuvenate the sexual appetite of America.“” [grifo meu]
Via Clusterstock. É uma piada _ mais ou menos.
Como vocês já devem estar carecas de saber, a Apple finalmente retirou o DRM do iTunes _ e cobrará preços variáveis pelas músicas, de acordo com sua popularidade (em 3 diferentes níveis). Bom para quem tem gosto diferente da manada.
Isso pode ser o início da tão propalada mudança no modelo de negócios da indústria musical. O Ritholtz traz alguns números interessantes sobre as vendas em 2008 da indústria (incluindo concertos ao vivo, que podem vir a ser a principal fonte de receitas em breve):
“Music sales are following the trend established over the oast several years: Digital Sales Up, Physical unit sales down, and overall revenue sliding further.
• Total album sales fell to 428.4 million units, a drop of 8.5% (2007 = 500.5 million).
• Physical album sales fell 20% to 362.6 million (from 450.5 million)
• Digital album sales rose 32% percent to 65.8 million units;
• Digital track sales were up 27%, breaking the 1 billion mark for the first time at 1.07 billion.
• Total transactions rose 10.5% to 1.5 billion;
• All Genres saw losses: Classical music dropped 26%; Country fell 24%; Latin was off 21.1%;
• Vinyl album sales also grew with 1.88 million vinyl albums purchased for the year.
Concerts saw higher revenue, due primarily to higher ticket prices. For the 100 top-grossing shows:
• Box-office receipts from North American concerts were $4.2 billion, up 7.8%;
• Average ticket prices cost $66.90, up 8%;
• Number of tickets sold fell 3%, to 35.6 million
Top 10 highest-grossing tour of 2008 in North America:
Madonna – $105 million Celine Dion – $94 million Eagles – $73.4 million Kenny Chesney – $72.2 million Bon Jovi – $70.4 million Bruce Springsteen & The E Street Band – $69.3 million Neil Diamond – $59.8 million Rascal Flatts – $55.8 million The Police – $48 million Tina Turner – $47.7 million“
***
Por isso, se seu filho quer ser um músico, garanta que ele não tem amigos chamados Milli ou Vanilli.
Saiu um paper que está causando considerável rebuliço (“The N-Effect: More Competitors, Less Competition“, por Stephen M. Garcia e Avishalom Tor). Trata-se de um experimento psicológico que demonstra que nossa competência em competir é inversamente proporcional ao número de pessoas com que competimos. Via Jonah Lehrer dos Science Blogs, uma citação de sumarizando o achado:
“If you’ve ever had to take a test in a room with a lot of people, you may be able to relate to this study: The more people you’re competing against, it turns out, the less motivated and competitive you are. Psychologists observed this pattern across several different situations. Students taking standardized tests in more crowded venues got lower scores. Students asked to complete a short general-knowledge test as fast as possible to win a prize if they were in the fastest 20 percent completed it faster if they were told that they were competing against 10 people rather than 100. Students asked how fast they would run in a race for a $1,000 prize if they finished in the top 10 percent said they would run faster in a race against 50 people rather than 500. Similarly, students contemplating a job interview or Facebook-friending contest said they would be less competitive if they expected more competitors – even if “winning” only required finishing in the top 20 percent. The authors conclude that competitiveness was curtailed because the larger the group, the more difficult it is to compare oneself directly to others.”
Se isso se mostrar verdadeiro não apenas na área das pessoas físicas mas também das jurídicas, temos um problema grave com os pressupostos da advocacia da concorrência como política pública, que é o seguinte: o cenário da competição perfeita é o mais avesso ao desenvolvimento da inovação, embora seja o mais eficaz na manutenção de preços baixos, isto é, iguais ao custo marginal. Ou seja, para usar economês, a eficiência alocativa se daria em detrimento das eficiências dinâmicas (o problema não é tão grave, porém, na medida em que mercados perfeitamente competitivos são raros ou praticamente inexistentes).
O Lehrer faz um paralelo interessante com uma descoberta feita por uma outra psicóloga experimental, Sheena Yengar, sobre o fato de que o excesso de escolhas causa paralisia decisória:
“In 2000, she set up a booth in an upscale supermarket with a variety of gourmet jams and jellies, all of which scored about equally well in taste tests. Sometimes, her booth showcased 6 different jams, and sometimes it had 24 different jams. Economists assume that more choices lead to increased consumption, since everyone can try out the different jams and find their favorite. (They can maximize their subjective utility.) But when Iyengar increased the number of jams on display, purchases of jam decreased dramatically. When her booth only had 6 different jams, 30 percent of people who stopped by the both ended up buying one of the varieties. However, when she put 24 different jams on display, only 3 percent of people bought a product. All the possibilities short-circuited the brain.” [grifo meu]
(a primeira vez que eu havia ouvido falar disso foi no livro de Barry Schwarz, “The Paradox of Choice“)
A última frase grifada é a ponte entre uma coisa e outra, segundo Lehrer, mas não tenho certeza se o mecanismo é o mesmo. No caso do excesso de escolha, a mente é levada à paralisia decisória por simples “overflow”, isto é, provavelmente por não ser capaz de analisar todos os parâmetros de todas as escolhas e maximizar a satisfação. Já no caso da competição em excesso o que parece ocorrer é uma situação de economia de esforço: ao entrar em uma competição onde está convencida que não pode ganhar, a mente aloca menos recursos para a competição.
Em todo caso o Lehrer aponta saídas para estas situações. No caso do paradoxo da escolha, a solução é agrupar as alternativas em classes ou categorias (não pude deixar de pensar em esquerda, direita e as miríades de colorações políticas agrupadas nestas duas categorias). No caso da competição, a idéia salvadora é agrupar os concorrentes em salas menores, ao invés de todos eles em um lugar só (será que o antigo vestibular unificado do Cesgranrio no Maracanã acabou com as carreiras de muita gente?).
OK, vamos repensar a São Silvestre…

Nham!
O Valor nos informa que quem investiu em panettones em 2008 se deu bem:
“As vendas subiram 6%, em volume, em relação a 2007, puxando para cima o desempenho dos produtos sazonais, segundo a Associação Paulista de Supermercados (Apas).
(…) O crescimento no faturamento ficou em torno de 4% acima da inflação do ano. “Tendo em vista o cenário econômico ruim que se pintava e a expectativa negativa do consumidor, esse resultado foi muito bom”, diz o vice-presidente da Apas, Martinho Paiva Moreira.
(…)Todas as marcas de panetone, desde as novatas até as mais tradicionais, tiveram um bom desempenho de vendas, segundo a Apas. A Nestlé, por exemplo, que estreou no setor com três tipos de panetone somente no Estado de São Paulo, conseguiu 15% de participação no mercado, ficando apenas atrás da Bauducco, líder tradicional de vendas. O panetone Alpino, de chocolate, foi o de melhor desempenho na multinacional. A menos de 10 dias do Natal, 90% da produção já havia esgotado. Houve até supermercado em que o produto faltou. “Mesmo com preços em média 5% mais alto, houve marca que cresceu individualmente mais que isso”, diz Martinho.”
O que não impede o crescimento relativo do oligopanetólio (ainda que aparentemente por uma boa causa):
“Os únicos panetones que venderam pouco foram os chamados “caseiros”, ou seja, os de fabricação própria das padarias dos supermercados. “Não temos números ainda, mas sabemos que esse é um mercado que está encolhendo”, diz. O panetone industrializado tem fermentação natural, que leva mais de 56 horas. Os de fabricação na loja ficam no máximo duas horas fermentando, o que muda a qualidade do produto.”
Pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista) para o peru de Natal:
“O mau desempenho do ano ficou por conta dos perus, aves do tipo chester e tenders, que cresceram apenas 1% em relação às vendas de 2007. “Esses produtos chegaram custando muito caro e isso assustou o consumidor”, diz Martinho. As aves e o tender iniciaram a temporada de vendas natalinas custando 25% a mais que em 2007. O impacto foi tão ruim que os varejistas tiveram que baixar o preço às vésperas do Natal. O reajuste, que havia chegado às prateleiras em 25%, baixou para 10%.“
Como convém aos dias de barbárie que correm, parte do bom desempenho do panetone deveu-se ao relaxamento do cânone em favor das massas de jovens ignaros, como nos informa outra matéria, mais antiga, do mesmo jornal:
“Quem é fã do panetone tradicional pode ficar arrepiado com a notícia: os chocotones já vendem tanto quanto a versão original, com frutas cristalizadas. (…)
Até 2006, segundo estimativas dos fabricantes, a participação de mercado da versão de chocolate do quitute natalino era de, no máximo, 40%, sendo que o restante ficava com a receita tradicional. Já no ano passado o chocolate ficou com 40% e o de frutas com 60%. “Há regiões neste ano em que estamos vendendo mais o chocotone do que o de frutas”, diz Reinaldo Bertagnon, gerente comercial do Grupo Village, sem revelar quais localidades seriam essas.
Mas, de acordo com Paulo Cardamone, diretor de marketing da Bauducco, o chocotone normalmente é a versão preferida de jovens e crianças. Por isso, o produto vende mais em regiões onde essa população prevalece. “Nos supermercados onde o fluxo maior é de famílias com criança, a maior parte das vendas fica com o panetone de chocolate. Mas onde prevalece o consumidor mais velho, os de fruta ganham”, acrescenta Moreira, da Apas.” [grifo meu]
Nem o panetone escapa do generation gap…e depois querem me convencer a ouvir Radiohead. Humpf.
***
E o pior é que o inocente panetone ainda pode deflagrar um conflito internacional. A Itália deseja ver o panetone objeto de proteção por denominação de origem, como os vinhos, e pensa até em ir à OMC contra a competição latino-americana:
“Agriculture Minister Paolo De Castro said the government was looking at ways to protect the real Italian cakes from growing competition in Latin America. Officials are examining whether they can take action at the World Trade Organisation.
“We can’t let all these imitators use a name, a brand that gives them a link to territory that isn’t theirs — in a way they are mocking consumers,” De Castro said.”
Com a palavra, a família Bauducco:
“Tudo começou em 1950 com uma doceria fundada no bairro do Bráz por um imigrante italiano chamado Carlo Bauducco que veio ao Brasil com sua esposa e seu filho.Pai, mãe, filho e uns poucos empregados trabalhavam de sol a sol preparando a massa, assando, embalando e vendendo um bolo com uvas-passas e frutas cristalizadas do qual poucas pessoas em São Paulo tinham ouvido falar, mas que logo seria associado ao sabor do Natal. Sua estrutura de funcionamento trazia muito da organização familiar comum nos pequenos negócios europeus da época. Esse espírito, e não só a receita tradicional do Panettone, a Bauducco guarda até hoje.“




Comentários