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Hoje de manhã, por motivos que não cabe relatar aqui, vi o filme “Alguém Tem que Ceder” em DVD. Um pouco depois falei com uma amiga que tinha visto o filme, e caí na esparrela, lá pelas tantas, de dizer que tinha achado o filme “um filme de mulherzinha”, apesar de ter gostado.

A resposta foi:  “mas PORQUE um filme de mulherzinha???????????

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A diferença entre um chato quase certo e um chato provável é que o chato quase certo vê filmes com a “suspension of disbelief” desligada ou no mínimo apenas meio ligada, enquanto o chato provável está com ela à toda (há motivos pelo qual essa pessoa pode ser chata também, mas deixemos isso para um futuro post).  O chato quase certo, portanto, nasceu para ser crítico de cinema e não sabe disso.

Bem, antes mesmo de me informar sobre a ficha técnica do filme (o que só fiz depois de tê-lo visto), eu poderia jurar que a película havia sido dirigida por uma mulher, e que o roteiro certamente também havia sido escrito por uma mulher.  Só uma mulher, por exemplo, faria um personagem como Harry Sanborn, ainda mais interpretado por Jack Nicholson, chorar por amor (ou por quase qualquer outra coisa).  De fato basta acompanhar a melodia emocional do filme para saber que o mesmo foi feito por mulheres, para mulheres.

Pois é, batata:

A diretora Nancy Meyers também é roteirista do e produtora do filme. Ela escreveu a personagem Erica Barry especialmente para Diane Keaton.”

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Que eu me lembre, essa foi uma lição que aprendi lendo um livro de autoria de Arthur C. Clarke intitulado “Mundos Perdidos de 2001″.   Apesar de pelo título alguém poder achar que trata-se de uma continuação de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, o livro é mais ou menos um relato do “making of” do filme, contendo também pedaços alternativos de cenas que nunca foram filmadas.  Isso é interessante, porque “2001″ nunca foi um “livro que virou filme” _ livro e roteiro surgiram mais ou menos juntos.  O desconcertante no “Mundos Perdidos” é vermos os finais alternativos, que seriam, creiam-me, muito decepcionantes.  Ao que parece quem salvou o dia foi Carl Sagan, que teria sugerido aos autores evitar reprodurir seres alienígenas com formas antropomórficas.  O conselho de Sagan, aliado provavelmente ao fato de que virtualmente inexistiam técnicas de “computer graphics” capazes de enfrentar uma tela grande na época (o que retrospectivamente torna o filme ainda mais visualmente acachapante), foi diretamente responsável pelo grande charme do filme, que é seu final enigmático.

Esse final enigmático foi objeto de conversas por muitos anos no meu círculo de amigos nerds, pois ficávamos lá tentando entender o que Kubrick queria dizer com o filme, quando boa parte do que ele quis dizer foi meio involuntário, cinematograficamente falando.

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O problema, é claro, é que é meio inevitável aplicar-se isso à vida real.

Religiões, por exemplo, são criadas por um tipo especial de roteirista, aquele que pensa que é um espectador mas vê o mundo com um tipo de senso crítico.  Portanto, eles vão formulando e reformulando o roteiro teológico à medida em que as, digamos, “limitações cinematográficas” forçam improvisações e soluções criativas.  Já a massa de fiéis é sempre formada por pessoas capazes de ligar no máximo sua capacidade de “suspension of disbelief“.

Então é isso: a fé na verdade é apenas uma “suspensão da descrença”.  Dizê-lo é fácil, mas demonstrá-lo assim rigorosamente é algo que exige algum método.

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