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Somos todos Keynesianos agora.

Paulo do FYI, em comentário aqui no blog:

Vale a pena lembrar que facilidade de credito eh muito benefica para a enorme maioria da populacao. Eu mesmo comprei minha primeira casa sem down payment, e como imigrante me beneficiei de credito mais facil (ja que credit history de quem se muda de fora eh um problema).

Querer dzer que elimiar o credito eh a unica maneira de se controlar irresponsabilidade eh so um shortcut semantico para se chegar no ponto que vc quer: governo papai controla tudo e todos.

Belas palavras.  Vamos à realidade?

Como é que você cria crédito fácil para o setor privado?  Uma das maneiras mais óbvias é: desligue o aspirador estatal, pratique a austeridade fiscal e por favor, mantenha de pé as estruturas regulatórias que fazem o sistema financeiro funcionar com baixo risco.

Qual é a prática republicana, apesar de seu discurso?

Superdaddy Republican State (TM) gasta pelos tubos:

(clique para ampliar)

O grafiquinho aí mostra a expansão do déficit público norte americano desde o fim da II WW.  Fica claro o seguinte:

For the mathematically inclined, if you take the first derivative of the data presented to find the slope of each President’s debt increase, you will find that the Republican slopes are consistently more positive than the Democratic slopes.  For everyone else, this just means that unbiased mathematical proof exists to support the claim that since 1945, Republican presidents have borrowed more than Democratic presidents regardless of the inflation rate.

Surpreendente?  Não, quando você “realiza” que o business do partido republicano é chegar ao poder com um discurso e distribuir suas benesses à sua constituency com uma prática totalmente diversa.

Superdaddy Republican State (TM), no processo para chegar ao ponto em que chegou, fez o seguinte:

- inventou uma guerra desnecessária no Iraque, muito boa para colegas empreiteiros;

- desregulamentou as finanças para possibilitar o populismo consumista;

- defendeu a tortura;

- defendeu o wiretapping sem mandato judicial;

- violentou o funcionamento dos mecanismos de checks and balances.

Superdaddy Republican State (TM) “controla tudo e todos“.  Pode não ser o ponto em que gente como o Paulo, grande eleitor do GOP, tencionava chegar.  Mas sua burrice os fez chegar lá anyway.

Ontem teve novidade na Esplanada: o prédio do Ministério da Fazenda teve de ser evacuado às pressas, no fim da tarde.  Houve uma ameaça de bomba.

Mas as más línguas disseram que na verdade as condições da economia fizeram atuar o “circuit breaker” na equipe econômica.  É uma proteção automática contra falhas de governo…

Mostrando que além de Nobel também é um professor universitário com razoável tino para negócios (apesar de algo problemático), Paul Krugman anuncia que publicará em dezembro uma reedição revista e (aham, consideravelmente) ampliada de seu livro “The Return of Depression Economics“.  Justificativa: “we´re all Indonesia now“.

Bem a tempo para as compras de Natal.  Se houver Natal.

O Robert Reich tem uma visão diferente sobre a bolha do endividamento da classe média americana:

Post-Meltdown Mythologies (I): Americans Have Been Living Beyond Their Means

What brought on the economic meltdown of 2008? Besides the bursting of the housing bubble, Wall Street’s malfeasance and non-feasance, and Washington’s massive failure to oversee Wall Street, fingers are also being pointed at average Americans. Some of them took on mortgages they couldn’t afford, of course, but we’re also hearing a more basic theme that goes something like this: For too long, Americans have been living beyond our means. We went too deeply into debt. And now we’re paying the inevitable price.

The “living beyond our means” argument, with its thinly-veiled suggestion of moral terpitude, is technically correct. Over the last fifteen years, average household debt has soared to record levels, and the typical American family has taken on more of debt than it can safely manage. That became crystal clear when the housing bubble burst and home prices fell, eliminating easy home equity loans and refinancings.

But this story leaves out one very important fact. Since the year 2000, median family income has been dropping, adjusted for inflation. One of the main reasons the typical family has taken on more debt has been to maintain its living standards in the face of these declining real incomes.

It’s not as if the typical family suddenly went on a spending binge — buying yachts and fancy cars and taking ocean cruises. No, the typical family just tried to keep going as it had before. But with real incomes dropping, and the costs of necessities like gas, heating oil, food, health insurance, and even college tuitions all soaring, the only way to keep going as before was to borrow more. You might see this as a moral failure, but I think it’s more accurate to view it as an ongoing struggle to stay afloat when the boat’s sinking.

The “living beyond our means” argument suggests that the answer over the long term is for American families to become more responsible and not spend more than they earn. Well, that may be necessary but it’s hardly sufficient.

The real answer over the long term is to restore middle-class earnings so families don’t have to go deep into debt to maintain what was a middle-class standard of living. And that requires, among other things, affordable health insurance, tax credits for college tuition, good schools, and an energy policy that’s less dependent on oil, the price of which is going to continue to rise as demand soars in China, India, and elsewhere.

In other words, the way to make sure Americans don’t live beyond their means is to give them back the means.

Pode ser verdade, pode não ser.  A hipótese certamente pode ser testada contra números.  Como estou com uma tremenda preguiça de tentar fazer qualquer coisa neste sentido, acho que este comentário no próprio post do Reich acrescenta um dado importante a esta discussão toda:

a lot of average Americans ARE living beyond their means. The American concept of what is “normal” is out of touch with the reality of our economic situation. If more Americans travelled, they would see that their “normal” (size of cars, houses, energy consumption, food etc) are considered luxury in most other wealthy nations, like Europe or Japan.

Lá no Torre de Marfim, um post curioso:

Los olvidados

Em todas, ou quase todas, as narrativas sobre a crise financeira americana, eu sinto falta de um personagem fundamental, um dos protagonistas do troço. Eu falo do consumidor americano – o sujeito que tomou crédito barato, fez várias hipotecas e viveu por alguns anos uma orgia de consumo que fez a alegria de grande parte da sociedade americana e do resto do mundo. A falta de regulação adequada do mercado financeiro e os juros baixos por muito tempo são os fatores que levaram à eclosão dessa crise, é fato. Mas, do modo como a história é contada, parece que apenas algumas centenas ou milhares de banqueiros e corretores de Wall Street se beneficiaram dos anos em que a bolha imobiliária esteve em formação.

Essa versão esquece que boa parte da sociedade americana entrou no jogo do contente. A bolha especulativa não teria o tamanho que teve sem a participação de milhões de pessoas, que durante alguns anos ficaram inebriadas pelo crédito barato. As picaretagens financeiras, como as operações fora do balanço dos bancos, ampliaram em muito o efeito do problema. São fundamentais para explicar por que a crise assumiu essa dimensão catastrófica. Os juros baixos, por sua vez, criaram o ambiente propício para que a bolha ocorresse. Só que sem o consumidor a história não existiria. Não haveria uma escalada de preços de imóveis naquela magnitude. Não, eu não estou culpando o consumidor. Mas ele é um personagem fundamental da crise, que por vários anos aproveitou gostosamente a orgia do dinheiro barato

Um post provocativo, para dizer o mínimo.  Na discussão subsequente, Matamoros explicou o que quis dizer com o post da seguinte forma:

“(…)sem os consumidores, não teria havido bolha imobiliária, e que boa parte da sociedade americana se beneficiou do crédito barato.

Eu discordei, e reproduzo aqui minha resposta:

Esta frase pode ser entendida das seguintes maneiras, até onde consigo ver (e por favor me corrija se eu estiver errado):

- Numa interpretação do tipo “causa material”. Claro, da mesma forma que sem judeus não haveria Holocausto, ou que sem jogadores não existiria futebol, é totalmente razoável dizer que sem consumidores não teria existido a bolha das hipotecas. Essa é a acepção mais trivial possível do seu post, mas a longa tradição deste blog, creio eu, nos desautoriza a imaginar que algo tão óbvio se constituísse em matéria para post por aqui.

- A outra interpretação possível, portanto, é a de que há que se relativizar as críticas aos mecanismos que causaram a bolha, já que a sociedade se beneficiou deles. Não é uma postura intelectualmente indigente per se; existe até um livro de um autor, Daniel Gross, que defende que bolhas são coisas boas (eu tenho o livro, chama-se “Pop!: Why Bubbles Are Great For The Economy”). A idéia geral é de que uma bolha deixa atrás de si um considerável conjunto de infraestrutura que pode ser usado depois a baixo preço. Nada que a engenharia econômica já não conheça: a falência de um gera o sunk cost que pode ser barganhado pelo outro. Essa visão parece atrativa porque se avalia o benefício localizado pós bolha contra coisa alguma, mas o raciocínio é viciado na origem, pois se desconsidera a ineficiência alocativa gerada pela bolha em primeiro lugar e os custos de oportunidade criados por ela. No caso da nossa bolha financeira, mal existe infraestrutura que dê conta desse mecanismo para começar a conversa _ certamente os imóveis deixados para trás pela bolha dificilmente poderão ser contabilizados do lado positivo do negócio, por uma série de motivos.

Portanto, a sua avaliação tem sérios problemas. Por exemplo, o tamanho do bailout adiciona severa pressão fiscal ao Tesouro americano (*) _ já tem gente no mercado dizendo que os players estão começando a precificar isso aí _ com consequencias severas para o crescimento econômico nos próximos anos.

Se quem comprou casa está no olho da rua, despejado, e se quem comprou carro e TV de plasma nos anos de bonança descobre que vai passar a próxima década sem emprego ou subempregado, então é bem possível que a relação custo/benefício do negócio não seja nada atraente.

(*) e de outros países.

***

Eu acho que o post do Matamoros leva lenha para o tradicional “blame game” que surge nestas ocasiões.  Mas está longe de ser o pior ou mais ultrajante deles.  Aprofundando a linha, o Paulo do FYI chega a dizer que a culpa não só é dos consumidores, como de sua mentalidade esquerdista (com origens naquela terrível década do sexo livre, the sixties).   A máquina de distorção da realidade, como se vê, continua funcionando em velocidade máxima…

Uma coisa engraçada aconteceu a Paul Krugman hoje de manhã.

Paulo do FYI escreveu neste comentário aqui o seguinte:

Para o resto do pessoal que vem aqui e esta realmente com medo que o que esta acontecendo eh o fim do mundo, recomendo esse:

http://www.nytimes.com/2008/10/10/opinion/10mulligan.html

O que diz o “esse” (que vem a ser Charles Mullingan, professor em Chicago):

I know that most everyone has been saying for a couple of weeks that something has to be done; a banking crisis could quickly become a wider crisis, pulling the rest of us down. For this reason, the Wall Street bailout is supposed to be better than no plan at all.

Too bad this line of thinking is seriously flawed. The non-financial sectors of our economy will not suffer much from even a prolonged banking crisis, because the general economic importance of banks has been highly exaggerated.

Já eu recomendo o novo relatório do Banco Mundial:

(…)financial stress before a recession presages a statistically significantly more severe recession; the fact that it’s a banking type of financial stress (as opposed to say exchange rates or interest rates) suggests that it will be even worse than otherwise. Finally, the prevalence of arm’s-length finance (as compared to the bank-centric systems dominant in Europe) means that the impact will likely be even more negative in the US case.

Too bad.

Em homenagem ao seu décimo aniversário, o Google lançou…o Google.  Ou ao menos o Google tal como sua base de dados funcionava no já longínquo ano de 2001.

Pena que eles não dizem o mês, pois certas buscas são surpreendentes.

No Torre de Marfim, um post curto e intrigante:

Agir de acordo com as suas convicções e respeitando os seus princípios é fácil. Herói pra valer é quem age contra as suas convicções e os seus princípios. Quando é preciso.”

Não é difícil perceber onde esse post quer chegar quando se olha o histórico recente dos posts por lá.  Trata-se de um estado de espírito que anda produzindo frases que desmerecem a folha corrida da Torre, como esta:

Eu não sou um liberal friedmaniano, mas citei a frase (…) para deixar claro que uma visão ultra-liberal não é incompatível com regulamentação financeira mais forte.

Se não é incompatível, então eu não sei o que o ultra-liberalismo é.

Mas vivemos tempos confusos, o que faz com que defensores do livre-mercado reajam de modo igualmente confuso. Por exemplo, alguém que diante da adversidade _ principalmente de uma adversidade que decorre de seus atos pretérios _ passa a agir “contra suas convicções e princípios” não é um herói.  É um pateta, embora demonstre vestígios de bom senso.  E demonstraria ainda mais se jogasse fora seu conjunto de “convições e princípios” que não funcionaram e os trocasse por outros mais eficazes.

***

O blogueiro do bom blog Trapézio escreveu um post transcrevendo um trecho de um livro de um autor que eu não conhecia, Benjamin Graham, que foi nada mais nada menos que o mentor de Warren Buffet.   Eis um fragmento característico do trecho:

No doubt there will be new regulations and new prohibitions. The specific abuses of the late 1960s will be fairly adequately banned from Wall Street. But it is probably too much to expect that the urge to speculate will ever disappear, or that the exploitation of that urge can ever be abolished. It is part of the armament of the intelligent investor to know about these “Extraordinary Popular Delusions,” and to keep as far away from them as possible.”

Se eu bem entendi o que ele quer dizer no post, ofereço como antídoto a seguinte singela parábola.

***

Imagine que você tem duas filhas, Carla Cristina e Raiane Rachelle.  As duas têm, para simplificar, a mesma idade _ 19 anos e estão na faculdade.  Você dá para cada uma delas uma mesada de trezentos contos para elas se virarem na faculdade, mas compra livros e o básico.  O que elas fazem com o dinheiro que você lhes dá é com elas, mas você verifica que ele costuma se transformar em itens como tênis Nike,  mochilas Kipling e caderninhos e papeizinhos da Hello Kitty.

Um belo dia a Carla Cristina começa a aparecer em casa com itens como bolsas Luis Vuitton, jóias da Vivara, vestidos Dolce&Gabbana.  Você desconfia, mas acredita que não deve interferir.  Um belo dia você recebe uma carta dizendo que a Carla Cristina está expulsa da Universidade porque foi pega fazendo programas com alunos e professores.

Você aprende a lição.  Decreta horários rígidos para suas filhas chegarem e sairem de casa, só admite que elas vistam roupas comportadas, começa a ir à Igreja com elas todo domingo, contrata um psicólogo.  A coisa funciona e Carla Cristina aparentemente deixa sua vida alternativa pra lá.

Aí, um ano depois, a Raiane Rachelle começa a aparecer em casa com bolsas Prada, jóias H. Stern, vestidos Versace e compra um Peugeot 206.  Você desconfia, mas acredita que não deve interferir, e além do mais suas antigas normas continuam em vigor e, o que é melhor, as duas filhas as cumprem integralmente.

Até que um dia a polícia bate na sua porta com um mandato de prisão contra Raiane Rachelle porque ela está traficando drogas na universidade.

***

A diferença é que no caso da atual crise, suas filhas vêm mostrando sinais exteriores de riqueza há vários anos.

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