
Ô Chicó, você tem 30 dias pra parar de ver esse filme, rapá!
No mesmo lúbrico post do Sergio Leo referido abaixo, fiquei sabendo da história do manifesto antipornográfico do Pedro Cardoso. Transcrevo parte de matéria da Ilustrada da Folha a respeito:
“No elenco de “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, de Domingos de Oliveira, o ator Pedro Cardoso aproveitou a primeira sessão do filme, anteontem, no Festival do Rio, para fazer um discurso antinudez no cinema e na TV.
Ator Pedro Cardoso não gostou da cena de nudez feita por sua namorada e fez manifesto
A pedido de Cardoso, o filme não contém cenas de nudez, embora tenha o sexo como tema. “Minha tese: a nudez impede a comédia e o próprio ato de representar. Quando estou nu, sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem.”
O ator disse que, nas mãos das “empresas que exploram a comunicação em massa”, a nudez, que fora “uma conquista contra excessos da repressão à vida sexual”, tornou-se “apenas um modo de atrair público”.
Apontou “conivência de escritores e diretores –alguns deles, em algum momento, verdadeiros artistas; outros, nunca!”.
Cardoso disse que “é sobre as atrizes que a opressão da pornografia é exercida com maior violência”. E afirmou que “é freqüente que cineastas de primeiro filme exibam a amigos, em sessões privê, cenas ousadas que conseguiram arrancar de determinada atriz” e indagou: “Até quando, nós, atores, atenderemos ao voyeurismo e a disfunção sexual de diretores e roteiristas, que nos impingem essas cenas macabras?”.“
Mas a verdadeira explicação para a invectiva está nesta matéria do Cinemacafri:
“Segundo o jornal Folha de São Paulo, o desabafo de Cardoso tinha como alvo principal Selton Mello, cuja estréia na direção, “Feliz Natal”, também foi exibida na Festival. De acordo com o jornal, Pedro Cardoso se irritou com a cena de nudez de sua namorada, a atriz Graziella Moretto, no filme de Mello. Depois de rodar as cenas, Selton teria reunido alguns amigos em sua casa para assistir a sessões prévias do filme. Em seu desabafo, Cardoso havia dito que “é frequente que cineastas de primeiro filme exibam para seus amigos em sessão privê as cenas privadas que conseguiu de uma determinada atriz”.
Na mesma oportunidade do discurso de Pedro Cardoso, porém, a atriz Cláudia Abreu entrou na dança:
“A atriz Cláudia Abreu, que integra o elenco de “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, endossou o manifesto antinudez do colega Pedro Cardoso.
Após o discurso do ator, no Cine Odeon, ela foi ao microfone e disse: “Queria dizer que sou atriz e endosso tudo o que ele falou. Passei por uma situação recentemente. Ele está completamente certo”.
Abreu é uma das protagonistas da atual novela das sete da Globo, “Três Irmãs”, e está em cartaz nos cinemas com “Os Desafinados”, de Walter Lima Jr., em que faz uma cena de nudez e outra de sexo com o personagem de Rodrigo Santoro.
A Folha perguntou se a declaração era referência ao filme de Lima Jr., mas a atriz disse tratar-se de menção a “experiências recentes”, sem especificar quais.
“Acho desproposital ela se colocar como vítima, até porque ela não foi surpreendida por isso. Ela leu o roteiro e estabeleceu limites, que foram obedecidos”, disse Lima Jr.“
***
Bom.
A meu ver, vivemos em um regime de liberdade onde ninguém é obrigado a nada. Atores e atrizes não são obrigados a trabalharem em filmes com cenas de nu. Se isso fosse um abuso per se, Almodóvar teria tido sua carreira encerrada há muito tempo.
A outra acusação é mais grave: se Selton Mello realmente ficava passando cenas com material adicional, que não foi utilizado na edição final, em sessões privê em sua casa, isso é voyerismo e baixaria, e possivelmente daria um processo na Justiça. Selton soltou uma nota sobre o caso no site do seu filme, mas desconversou sobre essa acusação em particular.
[uma outra versão é de que as cenas de nudez foram gravadas mas não foram incorporadas ao filme na edição final; estas cenas é que Selton estaria passando em sessões privê em sua casa _ coisa que aparentemente, pela mesma matéria, Selton admitiu mas disse ser natural, já que as sessões são de trabalho]
O que sobra da história é que provavelmente Pedro Cardoso ficou muito irritado com a história (seja ela real ou não) e quis dar uma resposta. O problema é que ele respondeu a uma questão diferente, que ninguém havia perguntado. Diante do fato real, ele poderia ter escolhido várias outras alternativas, como: a) processar Selton Mello ou b) quebrar a cara de Selton Mello (minha opção preferida).
Do jeito que a coisa ficou _ fazendo um manifesto idiota, tangenciando o verdadeiro problema, ainda mais na sessão premiére de um filme intitulado “Todo mundo tem problemas sexuais” _ parece mais que Pedro Cardoso acabou vestindo a pele do Agostinho, da Grande Família…



29 comentários
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outubro 30, 2008 às 4:33 pm
gustavares
Fico impressionado com a sua capacidade de levantar todos os lados e detalhes da estória. Principalmente com relação a assuntos tão “relevantes” assim.
Mas tenho um comentário a respeito de sua análise: Vc está certo, vivemos em um regime de liberdade e ninguém é obrigado a nada. Entretanto, como servidor público vc deveria levar em consideração que existem diversas formas de pressão e assédio. Fico imaginando no caso deste mercado: o cinema. Minha impressão é que ele deve ser bastante semelhante a um cartel. Um ator ou atriz que, por acaso, tivesse pudores na realização de alguma cena de nudez, fatalmente seria “marcado” entre os diretores como inflexível e incapaz de fazer os sacrifícios da “arte”. Até mesmo por razões de corporativismo.
outubro 30, 2008 às 4:58 pm
ohermenauta
Obrigado, Gustavares, se é que foi um elogio.
Sem dúvida, o assédio é uma constante. Em todas as profissões. O problema é que especialmente na profissão artística a nudez é quase um requisito. Se a pessoa se sente mal com isso, ou procura outra profissão ou se resigna a papéis menos importantes _ ou mostra que tem talento suficiente para dar a volta por cima.
Um paralelo proveitoso seria contrabalançar com o que acontecia na época do regime militar, onde a censura, sistematicamente, proibia qualquer filme com temática mais “séria”. Muitos bons atores tiveram que se contentar em trabalhar nas pornochanchadas, na época, incluindo alguns que hoje são medalhões, como Antonio Fagundes, por exemplo. Estamos muito longe daquele tempo, porém; é verdade que o cinema nacional enfrenta muitas dificuldades, mas não dessa espécie.
O paralelo que você fez com o funcionalismo público também é adequado. Há cargos que eu jamais aceitaria, por exemplo, por saber do enorme risco de assédio político que eles implicam. Seria bom se fosse diferente, é claro, mas isso implica em uma magnitude de mudança estrutural que fica além do que o meu protesto individual conseguiria atingir. Da mesma forma, acho que uma atriz pode muito bem virar a mão na cara de um diretor abusado, ou botá-lo na Justiça _ mas ela tem que saber que a sua profissão, a que ela escolheu, implica nesse risco. Até porque todo mundo no meio sabe quem tem qual reputação.
outubro 30, 2008 às 5:13 pm
Marcos Matamoros
Hermenauta,
Eu concordo com você (fazia tempo que isso não ocorria, aliás!). Ele provavelmente ficou puto com o que ocorreu com a namorada dele e daí fez um manifesto que não faz sentido. Ninguém é obrigado a fazer o que não quer, e a Graziella Moretto não está morrendo de fome para ser obrigado a ficar nua num filme. Se o Selton Mello foi sacana e passou as cenas para os amigos com propósitos escrotinhos, vai lá e arrebenta a cara do sujeito. Escrever manifesto em vez de sentar a mão em vagabundo é coisa de bichinha
Um abraço,
Marcos
outubro 30, 2008 às 5:26 pm
ohermenauta
Matamoros,
Vê, continuamos concordando no que importa.
abçs!
outubro 30, 2008 às 5:33 pm
gustavares
pô, lógico que foi um elogio !!
Vc que é o rei das sutilezas (isto tbm é um elogio) não devia ficar com pinta de modesto !! Não combina com o seu mal humor e a pagação de sapo geral para os anaeróbios (outro elogio).
Abraços
outubro 30, 2008 às 5:36 pm
ohermenauta
Valeu, Gustavares! Abçs!
outubro 30, 2008 às 7:45 pm
maristela bairros
Como diz Júnior, meu cabeleireiro, NÓOOOSSA! As bichas todas estão saindo do armário! Eu, hem! Pedro, Dado, a musa atabalhoada do Caetano, hmmmmm. Acho que tá faltando talco no mercado e eles estão se levando muiiiiiito a sério.
outubro 30, 2008 às 8:34 pm
S Leo
Ó hermê, deixeu defender o Augustinho (caramba, mas você foi saber da coisa no meu Sítio??!! Não lê mais O Globo, não rapá? Exploraram esse assunto mais que o jabopr explorava a nudez das atriozes dos filmes dele!).
O motivo é torpe (puro ciúme e machismo) e o texto é pobre (o cara é ator, não roteirista, caramba). Mas o ponto levantado no manifesto do cara é legítimo. Que história é essa de que se quer ser ator tem de topar ficar pelado??? Tem muito assédio moral nesse troço aí, Hermê, e foi disso que a Claudia Abreu falou, acho eu. Que tem muita apelação em filme nacional é coisa que sabemos desde o tempo
Mas, se até o matamoros concorda contigo, não vou ficar em lado oposto. O caso era de quebrar a cara do sujeito mesmo. Se não pelas sessões privê, pela tripudiada que o Selton Mello dá ao falar do clima de pusa lascívia que rolou nas filmagens com a namorda do Augustinho, no manifesto que você cita aí em cima:
“O filme Feliz Natal, dirigido por mim, foi concebido e realizado em um ambiente de harmonia, com todos os envolvidos – elenco e técnica – trabalhando com respeito mútuo e delicadeza. Delicadeza é o sentimento que reinou antes, durante e mesmo depois das filmagens, com manifestações carinhosas trocadas entre toda a equipe e elenco, felizes por termos exercido nosso ofício de forma tão inspirada e apaixonada. ”
Manifestações carinhosas antes, durante e depois… forma inspirada e apaixonada. O Pedro Cardoso ainda teve de levar essa para casa.
outubro 30, 2008 às 9:40 pm
Hermenauta
Ô SL, você está reinterpretando o que eu disse, e olha que vc nem é uma atriz boazuda para eu te dar um assédio.
Eu não disse que “se quer ser ator tem de topar ficar pelado”. Disse, sim, que essa é uma demanda recorrente no cinema e no teatro, e que se o candidato a ator ou atriz não gosta disso, ou procura outra profissão ou se resigna a ser um profissional menos versátil. O que é meio esquisito é querer mudar todo um metiê (ops!) por causa de uma predileção pessoal.
Até concordo que há algumas cenas de nudez sem muita justificativa em muitos filmes nacionais, mas que diabos, essa é uma característica da nossa cinematografia (que tem várias explicações). Nada disso muda o fato de que o ator ou atriz entra no negócio sabendo que mais dia menos dia terá de encarar uma proposta para um filme ou novela com uma cena assim _ e terá todo o direito de recusá-la.
Depois, a Graziella Moretto até que é bonitinha, mas se eu tivesse que assediar alguém seria a Virgínia Cavendish.
outubro 31, 2008 às 7:09 am
Biajoni
“A meu ver, vivemos em um regime de liberdade onde ninguém é obrigado a nada. Atores e atrizes não são obrigados a trabalharem em filmes com cenas de nu.”
…
como se tivéssemos liberdade de escolher nossas condições de trabalho.
…
ninguém é obrigado a fazer horas extras mas, ér, fazemos, né? quer dizer, era melhor estar pescando que estar levando na bunda numa redação.
…
ou deve haver algo de inconsciente em nossas ações.
vai dizer?
outubro 31, 2008 às 7:21 am
ohermenauta
Biajoni,
Ser apresentado a um projeto de trabalho onde existe um roteiro que diz exatamente o que você vai ter que fazer não é uma “condição de trabalho”. Se no roteiro tem uma cena de nu, você pode pedir pra tirarem a cena, pode pedir pra botarem um dublê, ou simplesmente ir procurar outra coisa.
Ou então vamos raciocinar por absurdo: sim, em certos trabalhos de mineração você VAI ter silicose. Por isso há normas rígidas do Ministério do Trabalho dizendo quais equipamentos de proteção individual a empresa TEM que oferecer, quantas horas o operário pode ficar ali, etc. Agora, será que alguém está sugerindo, mesmo, que haja uma regulamentação sobre cenas de nu? Queremos, realmente, a volta da censura federal? Tudo por causa de um mané que não sabe resolver seus problemas sozinho? Acho um pouco demais. As pessoas deviam pensar melhor nas consequencias daquilo que desejam.
outubro 31, 2008 às 9:55 am
Menina Eva
Hermenauta,
cê teve a chance de ler o manifesto completo do Augustinho?
http://todomundotemproblemassexuais.zip.net
Mais que reclamar da nudez da namorada dele, ele falou sobre como a pornografia e a exaltação do sexo virou tônica em qualquer obra de arte. Como não pode haver nenhum filme/peça de teatro/episódio de seriado de TV/ whatever sem um decote, coxas à mostra, beijos longos, sexo insinuado ou mais que isso.
Eu, como atriz (e funcionária pública, hahaha), reconheço isso no meu trabalho. Vá você dizer que não faz um nu. Acabou a carreira, você vai ter que trabalhar nos filmes da Xuxa, pois a maioria das obras pede cenas assim.
Não peço censura, imagina. Cenas de sexo ou nudez, têm de haver sim, fazem parte da vida e também fazem parte da arte. Agora, não considero que em 100% dos casos tais cenas sejam necessárias ou se justifiquem. Banalização do sexo e da sexualidade, todos sabemos que há MESMO. Até em obras voltadas pra crianças, não é mesmo?
Pensa na Maria Schneider, Hermenauta.
outubro 31, 2008 às 10:38 am
the talk of the town
O Seo Leo é um fanfarrao. Com o post da Luana, ele caiu nas garras do Google, e tem agora seu blog categorizado como de “conteudo improprio”:
“Aviso sobre conteúdo
Alguns leitores deste blog entraram em contato com o Google porque acreditam que o conteúdo do blog é questionável. Em geral, o Google não revisa nem endossa o conteúdo deste ou de qualquer outro blog. Para saber mais sobre nossas políticas de conteúdo, visite os Termos de Serviço do Blogger”
Que coisa feia ein Seu Leo? Como disse, os pageviews deve ter ganhado uma upgrade…
O Hermê que te ensinou a tecnica?
outubro 31, 2008 às 10:47 am
ohermenauta
Êpa, eu não tenho nada com isso!
outubro 31, 2008 às 10:48 am
ohermenauta
Não é que é verdade? Aposto que foi a Luana Piovani herself!
outubro 31, 2008 às 10:52 am
ohermenauta
Ué, agora já está normal. Acho que o SL teve que pagar para o Google (espero que em espécie)…
outubro 31, 2008 às 11:21 am
S Leo
Tá normal, não, hermê. Depois que você aceita ver o conteúdo impróprio do meu site, um cookie avisa ao Google que você é tarado e está lá para o que der e vier. Não foi a primeria vez em que apareceram corpos lá no Sítio, mas é a primeira em que algum mórmon acessou a página, acho.
Continuo achando que o pobre Cardoso está servindo de Judas, e malham o cara por mais do que ele disse. Ele não defendeu a censura, dsabafou cotnra o que considera um abuso (e a plebe, pelo jeito, acha ser pura dor de corno). Tem o direito à livre expressão e levanta uma discussão que até o safado do Biajoni (no bom sentido, safado mas de família) considera digna de debate…
E, ToT, acho que, pelo contrário, esse troço vai reduzir ainda mais a minguada frequencia do meu blogue. Os tarados vão ver logo que o aviso é propagadna enganosa, se há algo questionável por lá é meu gosto e o texto, coisa que não interessa muito a quem busca foto de gente pelada. E vai ter leitor assustado passando ao largo de meu inocente Sítio…
outubro 31, 2008 às 11:23 am
Eneraldo Carneiro
Normal nada! Continua lá o aviso.
SEN-SA-CI0-NAL Leo!
É a glória!
kkkkkkkkkkkkkkkkk
outubro 31, 2008 às 11:52 am
S Leo
Eneraldo, cedi à censura, mudei a foto e botei link para a original no pé do post. É que ficou tudo babado por lá depois que você passou, o Pedro Cardoso deu uma olhada e, enojado, estava me ameaçando com um manifesto. (((-;
outubro 31, 2008 às 12:07 pm
the talk of the town
Xi, acho que essa sua tecnica nao vai dar certo. Nem tudo que o Google poe a mão é perfeito.
Tive que clicar umas 4 ou 5 vezes pra entender como funciona. Pra mim já esta como conteudo normal, ai cliquei uma vez, ficou conteudo improprio, ai cliquei pra voltar ao normal. (As outras 2x foi só de sacanagem mesmo (rs)).
Ou seja, acho que ele tá contando cada clique desses ai, ai ele soma e decide (ele, o Algoritmo).
Ou seja, vc NUNCA vai vencer, se o cara que te classificou, não desfazer a cagada. Acho que vamos ter blogueiro mais um no WordPress.
outubro 31, 2008 às 12:45 pm
ohermenauta
Sergio Leo,
Bom, é claro que alguém pode acreditar que a invectiva de Pedro Cardoso vise apenas a um apelo à consciência dos empresários do setor. O mais provável, porém, é que seu manifesto vise atingir efeitos na esfera pública.
Na atual conjuntura, só há um jeito de fazer isso, que é pela via da classificação indicativa. A classificação ataca os empresários no bolso, ao reduzir o tamanho do mercado que o produto audiovisual pode atingir. A questão é, ele realmente quer enrijecer os limites da classificação indicativa a ponto de banir qualquer nudez, mesmo aquela que tenha realmente conotação artística? Você realmente acha que o Ministério da Justiça será capaz de tal sutiliza? O problema aí é o seguinte: Pedro Cardoso e os que o apóiam querem controlar o que o público pode e quer ver por causa de um problema que é deles. Veja este trecho de uma entrevista dele à Folha:
“FOLHA – Você diz que, por “ingenuidade”, aceitou convite de Ivan Cardoso para um filme em torno da descoberta sexual de jovens que, de fato, era a pornochanchada “Os Bons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez” (1984). Você não havia lido o roteiro antes de filmar?
CARDOSO – Meu personagem teria uma cena de sexo, sumariamente descrita no roteiro. O roteiro não indicava que as cenas de sexo seriam explícitas. Ele disfarçava a pornochanchada em um filme de aventura adolescente. É sempre assim. Ninguém te convida para o ato pornográfico nomeando-o como ato pornográfico.
FOLHA – Ao perceber o que era, você abandonou o set e um dublê fez a cena. Com tal atitude, no início de sua carreira, você não provou que é possível dizer “não” a uma cena da qual discorda sem que isso inviabilize sua ascensão profissional?
CARDOSO – Isso, que aconteceu comigo há quase 30 anos [o filme foi rodado em 1983], intensificou-se muito. Hoje, 98% dos convites feitos a uma atriz incluem uma cena de nudez. Se a cena é pornográfica, não sei, mas incluem cena de nudez.
Então, é muito difícil para o ator entrar no mercado de trabalho se ele disser esse “não”. Essa opressão, muitas vezes, empurra atores e atrizes a dizer um “sim” muito contrariado.”
Não entendo porque “é muito difícil para o ator entrar no mercado de trabalho se ele disser esse “não”“. Onde está o bom e velho sindicalismo? Não existe uma associação de atores e atrizes? Porque eles não se organizam e criam um código de conduta a ser respeitado por todos eles, para lidar com casos de abusos? Ele quer transferir este custo, o custo de organizar a classe artística, para a platéia. Não acho isso justo, e nem uma boa idéia.
outubro 31, 2008 às 1:09 pm
Júlio
Eu acho que tem cabimento a discussão, desde que se entenda que o alvo do manifesto é a classe de atores mesmo, e não o poder público.
Sei lá, às vezes é só dor de corno mesmo…
outubro 31, 2008 às 1:14 pm
ohermenauta
Menina Eva,
Seu comentário havia sido “segurado” pelo antispam Akismet, portanto só pude lê-lo depois de já ter escrito a resposta ao Sergio Leo.
Eu não nego que há uma certa sobreutilização da sexualidade no produto audiovisual nacional. Só não acho que seja uma “banalização”. A indústria audiovisual nacional lida com um cenário competitivo muito complicado, já que o produto audiovisual estrangeiro chega aqui com seu custo de produção praticamente amortizado, e custo de reprodução zero. Neste sentido, o conteúdo mais apelativo se torna um diferencial.
Mas do que tenho visto do cinema brasileiro, essa estratégia é cada vez menos utilizada, me parece _ provavelmente porque o aumento dos recursos para produção dá mais folga ao setor.
Continuo, porém, com a opinião que:
a) Pedro Cardoso foi hipócrita. OK, ele pode ter posto a nu (sic) um questão que ficava encoberta até agora, mas a motivação é particular.
b) Acho que é um problema muito mais de organização da classe artística para lidar com isso do que outra coisa. A atriz se sente sem poder para recusar um papel onde há cenas de nu porque ela sabe que uma outra aceitará. Se a classe se organizasse para impedir isso, a coisa mudaria de figura. É claro que mesmo essa política pode não agradar todo mundo _ muitas atrizes iniciantes topariam alegremente fazer a cena, pois enxergam a coisa como uma oportunidade para se tornarem conhecidas. Eis porque no fundo acho que esse é um problema sem solução que não no âmbito individual.
outubro 31, 2008 às 1:19 pm
ohermenauta
Pois é, Julio, pode ser.
Na letra b) da minha resposta à Menina Eva, o que esbocei, em português coloquial, é uma teoria do cartel. O problema de todo cartel é que muitas vezes é proveitoso “enganar” o cartel (se todos os postos de gasolina combinam em cobrar um preço alto, um posto que passar a cobrar preços menores vai ganhar mercado às custas dos outros). Portanto, quando o cartel não consegue esboçar uma estratégia crível de “castigar” os que desrespeitarem as regras, é sinal de que aquela indústria em particular é uma indústria onde é improvável que cartéis se desenvolvam.
Dada a guerra existente, por exemplo, entre “modelos e atrizes”, é altamente improvável, devo reconhecer, que uma ação no âmbito da profissão tenha sucesso.
O que leva ainda mais água para a idéia de que se busca uma solução a partir do poder público.
outubro 31, 2008 às 1:21 pm
ohermenauta
Como podem ver, neste post o Hermenauta está raciocinando à medida em que escreve. No frigir dos ovos:
a) Eu disse que Pedro Cardoso e seus apoiadores não querem incorrer no custo de montar um cartel contra a pornografia.
b) De fato, reconheço que isso seria impossível, com base em princípios elementares de teoria (micro)econômica.
c) Portanto, acho que a proposta de Pedro Cardoso só pode ser encampada pelo poder público.
Repito: será que eles querem isso mesmo?
outubro 31, 2008 às 5:21 pm
S Leo
Rapaz, eu ia comentar isso aí: estão btoando até egressa de Big Brother para fazer novela e teatro, falar em classe teatral a essa altura só se for para sacanear os espojos do Nélson Rodrigues. Não vou me arvorr em intérprete so Pedro cardoso, mas acho que o que ele falou não necessariamente se dirige à censura (nem creio) e é mais um desabafo mesmo. Qualquer que seja a motivação, despertou um bom debate, sobre uma questão válida. Inseriu no contexto bonitinho. Desnudou (opa) a coisa. E deu pano para mais uns cinquenta trocadilhos, só que me deu preguiça.
novembro 2, 2008 às 1:11 am
Sobre sexo: sobra sexo | Ágora com dazibao no meio
[...] recentemente a respeito da nudez no cinema e na televisão. A Carla Rodrigues, o Sergio Leo e até O Hermenauta já se debruçaram sobre o tema. Nenhum deles o fez com trocadilho, folgo em dizer. Tags: [...]
novembro 4, 2008 às 2:23 pm
gugala
Por favor, só não coloquem uma foto do Pedro cardoso nu com a mão nos cornos…
dezembro 22, 2008 às 11:22 am
Sobre sexo: sobra sexo | Agora com dazibao no meio
[...] recentemente a respeito da nudez no cinema e na televisão. A Carla Rodrigues, o Sergio Leo e até O Hermenauta já se debruçaram sobre o tema. Nenhum deles o fez com trocadilho, folgo em [...]