No Torre de Marfim, um post curto e intrigante:
“Agir de acordo com as suas convicções e respeitando os seus princípios é fácil. Herói pra valer é quem age contra as suas convicções e os seus princípios. Quando é preciso.”
Não é difícil perceber onde esse post quer chegar quando se olha o histórico recente dos posts por lá. Trata-se de um estado de espírito que anda produzindo frases que desmerecem a folha corrida da Torre, como esta:
“Eu não sou um liberal friedmaniano, mas citei a frase (…) para deixar claro que uma visão ultra-liberal não é incompatível com regulamentação financeira mais forte.“
Se não é incompatível, então eu não sei o que o ultra-liberalismo é.
Mas vivemos tempos confusos, o que faz com que defensores do livre-mercado reajam de modo igualmente confuso. Por exemplo, alguém que diante da adversidade _ principalmente de uma adversidade que decorre de seus atos pretérios _ passa a agir “contra suas convicções e princípios” não é um herói. É um pateta, embora demonstre vestígios de bom senso. E demonstraria ainda mais se jogasse fora seu conjunto de “convições e princípios” que não funcionaram e os trocasse por outros mais eficazes.
***
O blogueiro do bom blog Trapézio escreveu um post transcrevendo um trecho de um livro de um autor que eu não conhecia, Benjamin Graham, que foi nada mais nada menos que o mentor de Warren Buffet. Eis um fragmento característico do trecho:
“No doubt there will be new regulations and new prohibitions. The specific abuses of the late 1960s will be fairly adequately banned from Wall Street. But it is probably too much to expect that the urge to speculate will ever disappear, or that the exploitation of that urge can ever be abolished. It is part of the armament of the intelligent investor to know about these “Extraordinary Popular Delusions,” and to keep as far away from them as possible.”
Se eu bem entendi o que ele quer dizer no post, ofereço como antídoto a seguinte singela parábola.
***
Imagine que você tem duas filhas, Carla Cristina e Raiane Rachelle. As duas têm, para simplificar, a mesma idade _ 19 anos e estão na faculdade. Você dá para cada uma delas uma mesada de trezentos contos para elas se virarem na faculdade, mas compra livros e o básico. O que elas fazem com o dinheiro que você lhes dá é com elas, mas você verifica que ele costuma se transformar em itens como tênis Nike, mochilas Kipling e caderninhos e papeizinhos da Hello Kitty.
Um belo dia a Carla Cristina começa a aparecer em casa com itens como bolsas Luis Vuitton, jóias da Vivara, vestidos Dolce&Gabbana. Você desconfia, mas acredita que não deve interferir. Um belo dia você recebe uma carta dizendo que a Carla Cristina está expulsa da Universidade porque foi pega fazendo programas com alunos e professores.
Você aprende a lição. Decreta horários rígidos para suas filhas chegarem e sairem de casa, só admite que elas vistam roupas comportadas, começa a ir à Igreja com elas todo domingo, contrata um psicólogo. A coisa funciona e Carla Cristina aparentemente deixa sua vida alternativa pra lá.
Aí, um ano depois, a Raiane Rachelle começa a aparecer em casa com bolsas Prada, jóias H. Stern, vestidos Versace e compra um Peugeot 206. Você desconfia, mas acredita que não deve interferir, e além do mais suas antigas normas continuam em vigor e, o que é melhor, as duas filhas as cumprem integralmente.
Até que um dia a polícia bate na sua porta com um mandato de prisão contra Raiane Rachelle porque ela está traficando drogas na universidade.
***
A diferença é que no caso da atual crise, suas filhas vêm mostrando sinais exteriores de riqueza há vários anos.



41 comments
Comments feed for this article
Outubro 1, 2008 às 7:37 pm
aiaiai
o post é bom, mas eu gostei mesmo foi do nome das p…s, quer dizer, meninas!
Outubro 1, 2008 às 8:29 pm
F.Arranhaponte
Pô, ainda bem que alguém me leva a sério
Outubro 1, 2008 às 8:51 pm
ohermenauta
Outubro 1, 2008 às 9:51 pm
Marcos Matamoros
Hermenauta,
Não é difícil perceber que, naquele contexto, quando eu citei uma “visão ultra-liberal” de economia, eu estava me referindo à visão do Friedman, e não a algo parecido com anarco-capitalismo. A sua observação é que não faz jus às suas análises…
Um abraço,
Marcos
Outubro 2, 2008 às 12:56 am
Me
Como sempre, Smartadinejad tenta combater supostos exageros com um exagero maior ainda.
Para o pessoal que quer uma visao menos ‘folclorica’ do que esta acontecendo, continuo recomendando quem entende do assunto:
http://www.marginalrevolution.com/marginalrevolution/2008/10/my-views-on-the.html
Outubro 2, 2008 às 7:47 am
aiaiai
Achei muito bom o novo pacote. Parece que os senadores levaram em consideração as declarações da palin e incluiram um seguro especial para doenças mentais. Agora, o cara pode ficar doente como quiser…mas pelo menos vai ter uma ajudinha kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Outubro 2, 2008 às 12:30 pm
samurai
Ah, o momento Hobsbaum!
A tchurma do credo austríaco escrevendo Atlas “Shrubbed”.
E eu, cá, pogando ao som do Document.
Outubro 2, 2008 às 1:22 pm
Paulo
Samurai
Tem muita gente que got ’shrubbed’… o pessoal que ficava dizendo que deveriamos ter mortgages sem discriminacao, os outros que diziam que os bancos europeus eram mais seguros porque nao brincavam de “casino capitalism”, ate aqueles bravos brazucas que diziam que o Lula tinha ‘decoupled’ a economia dos maldosos yankees.
That’s what life is about man. You get knocked down, and you get up again.
Outubro 2, 2008 às 2:52 pm
Rafael M
Hermenauta,
Você só perdeu uma sutileza do que disse o Graham. A regulação dos mercados não vai evitar futuras crises — porque não há regulação que salve as pessoas de si mesmas.
Evidência a favor deste raciocínio: Algumas das coisas que estão sendo propostas para “acalmar a sanha do mercado” são recuos de coisas que foram feitas para “acalmar a sanha do mercado” antes. Por exemplo, a separação dos bancos de investimento dos bancos de varejo, que aconteceu para inibir conflitos de interesse depois de 1929 e que agora é visto como culpa da alta alavancagem dos bancos de investimento (que não captam depósitos).
Exemplo 2: tem gente sugerindo acabar com marcação a mercado em alguns casos — o que é algo que surgiu para evitar manipulação de balanços e evitar sonegação fiscal e agora, junto com a Sarbanes-Oxley (pós-Enron e Worldcon), gera uma bola de neve que acaba com bancos (vide Lehman).
Já disse antes e repito. A ilusão do liberal é que o mercado resolve tudo. A ilusão do outro lado (qual é o nome do outro lado, aliás? esquerda?) é que ele é mais esperto, e é capaz de se antecipar e resolver os problemas controlando os mercados.
Ambos estão errados.
Outubro 2, 2008 às 3:07 pm
Sabino Verdureiro
Uma coisa é a regulação de mercado, outra bem diferente é o intervencionismo cego.
Uma coisa é dizer para as filhas da parábola citada: “não sejam prostitutas ou traficantes, é ruim para vocês”, outra bem diferente é restringir a vida de todas as mulheres do planeta, como se todas fossem prostitutas ou traficantes em potencial.
Nem tanto mar, nem tanta terra…
Outubro 2, 2008 às 3:22 pm
Hermenauta
Fora da base, sem tempo para responder.
Soh acho engracado o Bloomberg dando uma de Chavez e ninguem achar nada.
Outubro 2, 2008 às 3:38 pm
aiaiai
Pois eu acho que tá na hora de rever essa história de dois mandatos. Isso era bom quando as eleições eram frequentemente fraudadas. Não é o caso mais. Tanto o Bloomberg quanto o Lula são exemplos de governantes que merecem a chance de disputar o terceiro mandato. Se o povo não quiser, não vota. É melhor do que usar o expediente de colocar um pau mandado! Bloomberg para prefeito, governador e presidente! Lula 2010!
Outubro 2, 2008 às 3:49 pm
samurai
Rafael,
a ilusão é que o que se passa é um problema de mercado. A crise advém do fato de que a noção de poupança se evaporou nos EUA. A crise advém do fato de que o american way of life, a expectativa de uma qualidade de vida crescente sem conflitos sociais, é possível sem alguém pagando a conta. O mercado é o reino de Maya, onde os americanos acreditavam que uma sociedade sem classes e sem conflito seria possível. Not any more.
Há uma série de ilusões matemáticas nas quais os devotos acreditaram, muito bem exemplificadas pela passagem citada abaixo:
http://blogs.ft.com/maverecon/2008/10/the-origins-of-the-crisis/
A regulação que temos hoje foi feita em cima desta ficção. As ficções dos ativos não correlacionáveis, de que há sempre liquidez (é só uma questão de preço), e de que o mercado resolve problemas de alocação outros que não a maximização do ganho financeiro.
A idéia de se abolir a marcação a mercado, ou fazer-se mark-to-Paulson, é simplesmente uma forma de se aplicar o faz de conta japonês dos 90. Vai paralisar os mercados porque sabe-se que aqueles ativos são fictícios. Também é, concretamente, inútil, já que com a retração de demanda que os EUA, quer como estado, quer como pessoas físicas e jurídicas, serão forçados a fazer (a menos que o restante do mundo se mantenha satisfeito em ver seus bancos centrais colecionando t-bonds) as restantes empresas terão sua demanda e lucros reduzidos, pessoas serão demitidas etc.
A separação feita após a crise de 29 foi correta. A não regulação dos bancos de investimento e a permissão de mecanismos de evasão regulatória e evasão fiscal como os desenvolvidos pelo Citi em Londres (os SIV) é que é a raiz do problema financeiro atual. Lembro a vocês que a crise dos SIV e a virtual extinção das operações de LBOs a eles associados foi imediatamente posterior a questão dos sub-primes.
Culpar a insensatez dos mercados é fácil. Exime as pessoas da (ir)rresponsabilidade coletiva que levou pessoas a empenharem ativos para gastos correntes.
Paulo,
há um problema generalizado na esquerda (Arrighi, Naomi) de tentar entender o assalto que é a administração Bush como uma direção meio incompreensível dos EUA. Há um problema na direita em entender que o governo Bush não é um fracassado kingdom come de seus ideais, mas um assalto organizado aos cofres públicos. Cá fez-se o mesmo equívoco quanto à administração Collor, prontamente resolvido em 92, quando a verdade se tornou aparente. Ameaça-se fazer o mesmo quanto à Fernando II, mas Gilmar em sua infinita glória manterá a crença em que houve uma racionalidade e não uma “pessoalidade” na condução dos assuntos públicos na virada do milênio.
Quanto aos seus pontos específicos, não foram as mortgages sem discriminação que causaram a crise: foi o fim da bolha imobiliária. Os bancos europeus não britânicos (e não suíços) não brincavam muito de cassino capitalism, mas são mais alavancados que os americanos dentro da modelagem definida por Basiléia II. Por isso, inclusive, que eles foram – junto com a Paulson Sachs – os grandes beneficiados do salvamento do AIG, que transmutava seus Bs em As. E quanto ao presidente Lula, é o anti-Bush: nunca na história desse país um presidente foi tão popular. Deve ser porque ele não entregou aos mecanismos do mercado a política social. Já o presidente Shrub-43…
Outubro 2, 2008 às 4:26 pm
Rafael M
Samurai:
“A crise advém do fato de que o american way of life, a expectativa de uma qualidade de vida crescente sem conflitos sociais, é possível sem alguém pagando a conta.”
“Com a retração de demanda que os EUA, quer como estado, quer como pessoas físicas e jurídicas, serão forçados a fazer (a menos que o restante do mundo se mantenha satisfeito em ver seus bancos centrais colecionando t-bonds) as restantes empresas terão sua demanda e lucros reduzidos, pessoas serão demitidas etc.”
Ué… Isso não é um “problema de mercado”? Só eu estou vendo isso como um return-to-the-mean?
Minha curiosidade sincera: o que o free-lunch dos americanos na última década tem a ver com as políticas econômicas da última década? E o que estas têm a ver com o liberalismo?
Outubro 2, 2008 às 4:42 pm
Me
Samurai,
Nao sei se vou me arrepender, mas me diga ai: Qual eh o end game dessa “crise sistemica” que vc pintou? Vc ta no time do Smartadinejad que eh o fim do mundo?
Ou sera que eh um fim do mundo a la 1976? 1987? Maybe 2001!
Outubro 2, 2008 às 4:53 pm
S Leo
Rapaz a Cláudia Cristina, que saudade. Você tem o telefone dela?
Outubro 2, 2008 às 6:25 pm
samurai
Rafael,
“Donations and loans — the financial science of the lumpen proletariat, whether of high degree or low, is restricted to this.” (cap 4 do Brumário). Ou, traduzindo para a terminologia contemporânea, mortgages, credit cards, car loans and tax rebates. No governo Bush, a forma encontrada de permitir que o assalto ocorresse num momento em que a economia americana deveria entrar em ajustes devido ao longo ciclo de crescimento dos 90 foi criar mecanismos para que a população também se benficiasse do processo. No caso, ao invés de inflação nos bens e serviços, ocorreu uma inflação de assets com amplas possibilidades de transformação dessa inflação em consumo. Há um gráfico que reflete bem isso:
http://www.blognetnews.com/econ/feed.php?channel=148&iid=68770&y=2008&m=03&d=19
Quanto ao liberalismo, há uma diferença entre o que foi pregado no Stuart-Mills e a adoração a todas as formas de permissividade à atividade de quem pode ganhar (muito) dinheiro. A concepção de mundo republicana é isso: uma crescente repressão ao indivíduo (war on drugs, tentativas de impor restrições ao aborto e à pornografia, patriot act) com uma crescente defesa da privacidade das empresas (proibir referência a presença ou não de OGMs nos rótulos de produtos, por exemplo) e da liberdade de ação das empresas (remoção dos obstáculos estaduais às hipotecas, por exemplo)
Não é return to the mean porque o eterno retorno não é o retorno do mesmo, rio de heráclito etc e tal. Qual seja, o balanço retorna nos ovos da economia americana, ACME style, e o papaléguas chamado capital vai para outras plagas.
Me,
é um fim do mundo a la 30.
O endgame: um sistema financeiro centrado nos bancos centrais, funcionando como hub das instituições financeiras; o estado como grande apropriador das rendas (windfalls, rents, alphas etc) via fundos soberanos e instituições semelhantes (com eventual redução de uso de tributação no processo); os EUA saindo da recessão a médio prazo com um plano marshal internacional para reduzir a footprint climática dos EUA através de investimentos em infra-estrutura; a sede do mercado financeiro migrando para outras paragens com outra moeda como reserva de valor (Frankfurt e o euro são minhas apostas); uma institucionalidade imperial, como sugerida pela nova ordem internacional de Bush-41, centrada nas estruturas imperiais (não confundir com imperialistas) existentes, Europa, China e Índia. Esse é o cenário otimista.
No pessimista, o metano vaza, os EUA mergulham no fascismo, a atual globalização perece, não necessariamente nessa ordem.
Outubro 2, 2008 às 7:00 pm
Rafael M
Samurai,
O gráfico do Brasil não será diferente, embora em outro patamar — quem sabe dizer que aquilo é sinal de algo (antes de algo acontecer)? Eu não. Você também não.
Quanto ao resto: Uau.
Outubro 2, 2008 às 9:03 pm
Me
Samurai,
Ufa, pelo menos vc me da algum tipo de previsao concreta para trabalhar em cima.
Quer dizer entao que vc acha que vamos ter unemployment no nivel de 20% por pelo menos uns 10 anos? Shanty towns?
Quanto ao sistema financeiro, meio complicado falar em “sistema financeiro centrado nos bancos centrais”… O que tinhamos ate o mes passado era o que? Ou vc esta falando em nacionalizacao de bancos privados? Nesse caso minha pergunta eh: estamos falando de todos bancos? 50%? 20%? Afinal, ate o mes passado tinhamos FNM, segunda maior instituicao financeira americana, como uma GSE…
E qual eh o timeframe disse tudo? Quero saber quando eu posso te dizer “I told you so”
Enfim. Dizer que a dinamica do sistema pode mudar eh interessante. Mas quando eu ouco fim do mundo eu vejo mais uma certa esperanca ideologica do que qualquer coisa.
Outubro 2, 2008 às 10:47 pm
samurai
Veja bem, Paulo. Num instante as pessoas aí vão descobrir que não há estigma em ser socorrido pelo estado, sejam pessoas jurídicas, sejam pessoas físicas. O problema é o manejo do ressentimento e das expectativas. A desumanidade da depressão provavelmente não se repetirá, mas é cenas de Rússia década de 90 não são improváveis. O período de estagnação? Depende de Obama avançar em direção ao futuro e não ficar tentando salvar as fantasias de um mundo que se foi.
O sistema financeiro atua não é o hub de que falei. O Brasil da década de 80 é um exemplo disso, de uma situação em que o estado assumiu parte da operação bancaria, e não parte das operações bancárias. O que estou dizendo é que o interbancário vai para o espaço e tenho dúvidas se retornará, dado que só a ideologia anglo-americana exigia o estado de fora. As operações de overnight podem ser centralizadas nos bancos centrais, tornando mais estrito o controle sobre a moeda. É disso que falei. Não da estatização do setor bancário, mas de parte da operação. E quanto às grandes alavancagens, adeus. Terão o destino das chaminés com grandes rolos de fumaça negra. Um dia, foram o desenvolvimento.
O timeframe? Não sei. Depende do quadro político, depende da disposição da classe política americana em perceber que o mundo mudou, depende de uma porção de coisas. Da lama na Sibéria, da velocidade de extinção do motor ciclo otto, de muita, muita coisa.
Outubro 3, 2008 às 12:34 am
Marcos Nowosad
Paulo, por acaso quando voce ouve alguem dizer “a crise e’ seria”, voce traduz mentalmente “o cara disse que ia ser o fim do mundo, agora tem que provar”?
Por aqui assim fica facil dizer que o cara errou e voce acertou.
Como o mundo nunca vai acabar enquanto estivermos vivos discutindo nesse blog (
) , voce estara’ sempre certo dentro desse seu angulo de ataque/defesa.
Apenas estamos dizendo que a crise e’ seria mesmo, o que voce contestou desde o inicio e nao admitiu ate’ agora.
Outubro 3, 2008 às 2:29 am
Marcos Nowosad
Onde esta’ escrito
“Por aqui assim fica facil dizer que o cara errou e voce acertou”,
leia-se (of course)
“Porque assim fica facil dizer que o cara errou e voce acertou”,
Outubro 3, 2008 às 3:05 am
ohermenauta
Hummmmm…..longa lista. Vamos começar do início:
Matamoros,
OK, usar a expressão “ultra-liberalismo” e a memória de Milton Friedman para avançar o slogan “livre-mercado e Estado, tudo a ver” me parece uma estratégia de marketing seriamente…alavancada.
Paulo,
Engraçado que você não esteja mortificado pela falta de balls de seu ídolo. Afinal ele termina sua enumeração com um decepcionante “The crisis is complex and has many causes; there won’t be a simple or quick solution” _ afinal, até bem pouco tempo para você não havia crise alguma, e agora vem você nos dizer que ela não só existe como é complexa. E pior, não me parece que seja uma afirmação que satisfaça seu estranho desejo por “uma coisa para trabalhar em cima”. Mas enfim, Deus te ajude.
Rafael M,
Mas o Estado náo é outra coisa que não um arranjo institucional para salvar as pessoas de si mesmas. Lembrai-vos de Hobbes e seu antídoto para uma vida solitária, pobre, sórdida, brutal e curta.
Sabino Verdureiro,
Boa feira!
Sergio Leo,
Que nada. A malvada foi embora, não deixou nem telefone.
***
Adendo.
É meio mané ficar discutindo se o mundo vai acabar. Bom, é claro que o mundo, do jeito que o conhecemos, vai. Como sabemos disso? Porque acompanhando as narrativas da História, de Tucídedes, passando por Gibbons e chegando a Jared Diamond, fica claro que sociedades podem sofrer choques grandes, bem rápido. O “mundo” já acabou muitas vezes.
Eu, no transcurso de pouco mais de 40 anos, já vi o mundo mudar muito, mais do que eu imaginei ser possível. Imagino que no decurso de uns 100-150 anos _ o horizonte de vida de meus filhos e netos _ o mundo vá mudar mais ainda, e nesse mundo futuro certas sementes que estamos plantando agora germinarão, para o bem ou para o mal. Precisamos estar de olho nelas, portanto, até para saber como evitá-las. O que não dá é para agir que nem garoto criado por vó dentro de uma bolha, rindo que nem uma hiena de um mundo que não se entende.
Outubro 3, 2008 às 12:36 pm
caliban
Shut up you guys! Here is a mature and informed discussion of these matters:
http://www.dailymotion.com/video/x684wa_the-last-laugh-george-parr-subprime_fun
Outubro 3, 2008 às 1:09 pm
Me
Samurai,
Ta vendo, e nos detalhes que a coisa fica interessante (e eh por isso que prefiro discutir isso com vc e nao com Smartadinejad que nunca da detalhes de nada).
Se nao teremos a desumanidade da depressão de 30, como eh que vc pode prever um fim do mundo a la 30?
O Smartadinejad (e o Marcos) acham que eu nao vejo seriedade na crise mas o que eu nao vejo eh so o fim do mundo. Muitas coisas sao serias… Por isso que eu sempre tento frame o que esta acontecendo com algo do passado. Quando a Worldcom faliu se falou muito em destruicao do sistema de high speed internet. Quando a crise do petroleo bateu em 1976 se falou em shanty towns e carros queimando pelas ruas (veja Mad Max).
Mesmo nesse caso de overnight controlado por governo e fim de itrabank loan, como eh que isso pode significar fim do mundo? Serio. Se estamos falando que, no agregado, o involvimento do governo sera maior, deveria ser algo que vc e outros lefties deveriam estar contentes.
E eh tambem por isso que eu fico perguntando sobre timeline. Como eu citei sobre o heroi de vcs ha muito tempo atras, long run = all dead.
Outubro 3, 2008 às 2:34 pm
ohermenauta
Paulo,
Deixa de ser hipócrita. Ninguém nunca falou que a crise vai fazer o Mel Gibson ter que interpretar o Mad Max de verdade. Ele já anda com problemas demais.
No entanto, se você olhar a sua tag Chicken Little, verá que ela se inicia linkando este post meu de 8 meses atrás (!!). Nele eu reproduzo o hoje famoso artigo do George Soros onde ele diz que a crise atual poderia ser a pior em 60 anos (no que foi mais tarde ecoado por aquele discípulo de Ayn Rand, Alan Greenspan, que este sim sabia do que estava falando _ afinal foi o principal protagonista). Ou seja, com a certeza de uma recessão e a possibilidade de uma depressão. Literalmente:
“Although a recession in the developed world is now more or less inevitable, China, India and some of the oil-producing countries are in a very strong countertrend. So, the current financial crisis is less likely to cause a global recession than a radical realignment of the global economy, with a relative decline of the US and the rise of China and other countries in the developing world.
The danger is that the resulting political tensions, including US protectionism, may disrupt the global economy and plunge the world into recession or worse.“
Na ocasião você demonstrou seu desprezo pelo que dizia o Soros desta forma característica:
“Poucas figuras no mundo sao tao declaradamente left-wing como o Soros.”
No post, entretanto, você foi muito mais honesto sobre sua posição do que vem sendo desde então:
“There is also the political side in all of this: Lefties have this insane idea that we can legislate away unhappiness. So any crisis is an opportunity to remind us of all that, if we were doing what theses masters of reason told us, we would not be in this horrible mess.”
Eis porque você vem comprando, desde então, todos os pares de antolhos que forem necessários para não ver o que ocorre à sua volta: para não ter que conceder que a causa primeira desta situação é precisamente o tipo de política liberal que você defende, a negligência regulatória, a política do laissez-faire. Pág 372 da edição americana de “The Age of Turbulence”:
“Why do we wish to inhibit the pollinating bees of Wall Street?”
Bem, porque as abelhas não eram abelhas, eram marimbondos.
Outubro 3, 2008 às 10:43 pm
Me
Smartadinejad
Assim como o dinejad original, as vezes vc nao fala coisa com coisa.
Eu continuo dizendo que vcs (lefties) estao fazendo todo esse aue com a crise por motivos puramente ideologicos. E mais: continuo dizendo que *as of now* essa crise nao eh a pior dos ultimos 60 anos porque eu estava falando de crises na Main Street. Desemprego continua nos 6.1%, GDP continua crescendo (tivemos 1 quarter de estagnacao), e por ai vai.
Logico que a situacao tem potencial perigoso, e eh por isso que o governo interferiu (e eu achei certo: veja aqui: http://fyiblog.wordpress.com/2008/09/19/government_is_not_reason/) E alem de aceitar essa intervencao, eu nunca disse que o espirito anti-regulacao nao teve parte da culpa.
Mas eh obvio para qualquer um que nao seja um tapado ideologico como vc que desregulamentacao nao foi o unico (e nem o maior) motivo dessa crise. I mean, vai ler o MR… Eu nao vou repetir o que o pessoal que realmente sabe das coisas diz sobre tudo isso. Ate os lefties minimamente serios (DeLong, Yglesias, ate o Krugman) dizem que o negocio eh mais complexo do que “Bush e os republicanos maldosos desregulamentaram tudo e fomos para o brejo.
Ate porque quem estava por tras das liberdades dadas a FNM e FMC eram os democratas.
Enfim, ja disse que discutir esse assunto com vc eh totalmente inutil. Vc nao consegue articular nem mesmo o que eh esse fim do mundo que vc tanto teme, e a unica coisa que vc se importa e gritar que os republicanos sao os demonios na terra.
Muita bobagem, nao vale o tempo perdido.
Outubro 4, 2008 às 7:53 am
ohermenauta
Paulo,
O que diferencia o homem dos quadrúpedes, antolhados ou auto-antolhados, é sua capacidade de prever o futuro. Não é preciso ser um membro da Mensa internacional para entender que se os mercados financeiros continuarem ladeira abaixo, Main Street irá ladeira abaixo também. Acho ponto pacífico que a maior parte dos que se preocupam com o lado real da economia estão preocupados justamente por causa destes reflexos _ eu realmente não me interesso em prantear a passagem do Lehman, do Wachovia ou do WaMu.
Por outro lado, essa é uma frase interessante:
“Ate os lefties minimamente serios (DeLong, Yglesias, ate o Krugman) dizem que o negocio eh mais complexo do que “Bush e os republicanos maldosos desregulamentaram tudo e fomos para o brejo.”
Basta seguir os links para entender porque eu sempre fico na dúvida se você é apenas burro, mal informado ou mal intencionado.
Quanto à sua “perda de tempo”, Paulo…lamento informar, mas todo o seu tempo é perdido.
Mas eu gostaria de terminar com este pequeno episódio descrito pelo Krugman:
“Bubble memories
Calculated Risk, in a discussion of home price declines, links to my three-year-old analysis, That Hissing Sound, which I think was one of the best pure-economic pieces I’ve done in my tenure at the Times.
Of course, everything is political — so if you google the article, high on the list you find this delightful screed from Powerline, which says that I was just looking for something to complain about amidst the Bush Boom, and concludes:
[T]here is little reason to fear a catastrophic collapse in home prices.
Krugman will have to come up with something much better, I think, to cause many others to share his pessimism.
Memories, memories.”
Como o Powerline, você vai bem no sacerdócio do high denialism, Paulo!
Outubro 4, 2008 às 4:13 pm
João da Luz
Caliban
Muito bom o vídeo. Só não gostei da última piadinha, sobre os fundos de pensão.
Não acho que trabalhar até o penúltimo dia da minha vida seja o fim do mundo. Só espero que o pessoal aceite atestado de óbito como argumento para dispensa do trabalho sem ter que cumprir o aviso prévio.
Acho que isto deve ser incluido na legislação trabalhista assim que mudar o governo. Isto para quem tiver emprego.
Espero tb que as pessoas mantenham a dignidade na fila da sopa. Vi um documentário sobre essas filas e essas sopas na década de 30. A impressão que fiquei é que as pessoas faziam SLURRRP bem alto quando tomavam aquele caldinho.
Vejo aí espaço para a Glorinha Kalil.
Será que ela sabe usar mimeógrafo?
Agora é sério: O pessoal já chegou a alguma conclusão sobre a crise de 29 ?
Outubro 5, 2008 às 4:05 pm
Me
Bla bla bla bla bla. Vc precisa de umas aulas com seu amigo Samurai, essa sua pseudo-intelectualidade ta muito batida.
Quem sabe o Buffet consegue explicar de um jeito que seu cabresto te permita entender:
http://newmarksdoor.typepad.com/mainblog/2008/10/if-you-think-st.html
Outubro 6, 2008 às 3:12 am
ohermenauta
Hehehehehe.
Paulo, eu comemoro que voce corra para colinho de nosso amigo Samurai. La voce vai sentir, no fundo, que ele, sim, acredita muito mais no apocalipse do capitalismo do que eu. Eu apenas acho que os republicanos sao em grande medida os culpados e que a atual busca por um bode expiatorio democrata e apenas movimentacao politica as usual. O Samurai, se voce nao percebeu, eh um epigono do velho Marx, se bem que bastante repaginado.
Outubro 6, 2008 às 3:20 am
ohermenauta
Ah, e o Buffet nao eh exatamente alguem que tenha que lastimar os resultados da inepcia regulatoria…
Como sabe, nunca ninguem perdeu nada por apostar na indigencia intelectual do povo norte americano. O Buffet aprendeu essa licao direitinho.
Outubro 6, 2008 às 6:06 pm
samurai
Gente,
há um livro na praça para aproveitarmos a situação:
http://www.moonofalabama.org/2008/10/publishing-news.html
Outubro 7, 2008 às 6:27 pm
Rafael M
Você viu o Proer com outro nome editado pelo Lula?
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2008/10/07/governo_anuncia_mais_medidas_para_melhorar_liquidez-548593095.asp
Outubro 10, 2008 às 4:39 am
Bearapulgo Cadente
Aliás, seu Hermê, deixeu perguntar uma coisa para você, que tem um cirquito amplo de perambulações internéticas:
Existe por aí algum daqueles antigos profetas do liberalismo, pastores do libertarianismo, devotos de são hayek, que tenha pedido, exigido, implorado, urrado nas esquinas de Wall Street ou Higienópolis, para que o Estado (maiúscula, no caso. perdoem) tirasse suas patas imundas do livre-mercado, deixasse a economia seguir seu rumo em paz, pois a auto-regulação mais cedo ou mais tarde resultaria muito mais profícua que este estupro socialista, stalinista, grotescamente estatizante feito pelos governos do mundo livre?
Pergunto isso para saber se existe ao menos um único desses direitos homens da direita digno de seus princípios.
Mostre-me este homem e eu lhe mostrarei um energúmeno.
Mas, diferente de todos os outros, um energúmeno coerente.
um abraxxxxxxx
Outubro 10, 2008 às 6:03 am
Hermenauta
Devo reconhecer, meu caro pulgo, que ja’ vi um bom bocado de energumenos coerentes por ai.
Outubro 11, 2008 às 5:29 pm
Me
Incrivel como vc nao entende.
Primeiro, nao tenho duvidas que o Samurai eh pinko e que na verdade ele esta dizendo que o mundo vai acabar porque eh algo que ele gostaria. Eu ja disse isso. A diferenca entre ele e vc eh que vc pensa exatemente as mesas coisas mas tenta disfarcar. Quer dizer, ele eh pelo menos honesto e fica mais facil de conversar.
Quanto ao Buffet, sua ‘desconfianca’ so mostra o quanto vc esta fora da realidade. Po, o cara esta simplesmente atestando fatos (duvido que vc ao menos soubesse da existencia do OFHEO) mas como vc quer confirmar sua ideologia qualquer coisa ta valendo.
Para o resto do pessoal que vem aqui e esta realmente com medo que o que esta acontecendo eh o fim do mundo, recomendo esse:
http://www.nytimes.com/2008/10/10/opinion/10mulligan.html
Outubro 12, 2008 às 6:51 pm
Carlos Rebello
Adorei o comentário do Bearapulgo cadente. É aquela coisa que o Gramsci : o fato de o liberalismo nunca conseguir operar no mundo real de acordo com os seus princípios é a prova cabal de que ele é uma Utopia, um lugar nenhum. Agora, quanto ao que nos espera no futuro…não sei, o que é certo é que questões ideológicas que o neoliberalismo tinha varrido para debaixo do tapete (padrão de vida garantido, direitos sociais, etc.) vão voltar com toda força….
Outubro 12, 2008 às 9:21 pm
ohermenauta
Quer dizer, Paulo, que é incrível que eu não entenda como você está certo sobre minha própria opinião?
Não, mané. Eu não sou dos que acha que “o capitalismo vai acabar”. Eu acho que ele sofrerá transformações, com o recuo do radicalismo antiregulatório e o reconhecimento de que há necessidade de instituições globais mais fortes. É possível que uma expansão do G7 dê o caminho para uma “europeização” do mundo _ o que é uma consequência inevitável da globalização, apenas, isso ainda não havia ficado totalmente claro, porque certas coisas caminham em velocidades diferentes.
Agora, se você acha que isso é “o fim do mundo”, bem, aí o problema é seu.
Quanto à história do Buffet…ele parte de um straw man. Veja este trecho do Ritholtz:
“50% of subprime loans were made by mortgage service companies not subject comprehensive federal supervision; another 30% were made by banks or thrifts which are not subject to routine supervision or examinations. How was this caused by either CRA or GSEs ?”
O olho do furacão estava além do alcance da OFHEO.
E quanto ao Mullingan, bem, há antídotos conhecidos para isso.
Outubro 12, 2008 às 10:00 pm
World Bank to Mulligan: drop dead «
[...] insanidades, the end of the world as we know it, the world out there Paulo do FYI escreveu neste comentário aqui o [...]
Outubro 13, 2008 às 7:25 pm
samurai
Declining ratepulgo, os três primeiros parágrafos desse post lhe divertirão bastante:
http://blogs.ft.com/maverecon/2008/09/those-whom-the-gods-would-destroy-they-first-make-mad/
El diablo, pinko é o… Hermê é testemunha de minha luta contra o comunismo desde meus tempos de universidade. E de minha luta contra o anti-comunismo.
Não estou torcendo por nada. Apenas constato que vai chover, e que isso está além da vontade humana. A ilusão é se achar maior que história. Nada há de mais contraditório com a wisdom of the masses do que o herói randiano. Ayn vai para a lata de lixo da história abraçada àquele discípulo que entitulava undertaker, Alan the bubblemaker. RIP, atropelados pelo carro alegre, cheio de um povo contente.