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No mundo inteiro, governos buscam formas de ampliar o acesso à banda larga, seja via intervenção direta, como no modelo coreano, seja via incentivos regulatórios que estimulem soluções de mercado, como na maioria dos países da OCDE.    Embora a mensuração direta dos benefícios da expansão desse acesso seja um tanto complexa (já que é difícil separar as contribuições dos vários fatores intervenientes e atribuir inequivocamente a parcela que cabe ao aumento do acesso), não resta muita dúvida de que ela colabora sim para o incremento do PIB e possivelmente para outros indicadores de bem estar (aliás, o repentino apagão da banda larga da Telefônica algumas semanas atrás não deixa restar muita dúvida quanto ao seu impacto econômico).

O Brasil, como outros países, está caindo de boca nessa tendência.  Há poucos meses, o governo negociou uma troca das metas de universalização das telecomunicações, trocando a exigência das empresas telefônicas criarem postos de atendimento para acesso à internet por acesso gratuito a um certo número de escolas até o prazo do fim da concessão, em 2025.  E tanto o Ministério das Comunicações quanto a Anatel anunciaram que a prioridade governamental é a massificação do acesso à banda larga.

E isso sem dúvida é bom.  Ou não.

***

Um problema no otimismo com a expansão da banda larga é que muitos de nós, macacos velhos, tendemos a avaliar seus benefícios com os olhos de quem nasceu no tempo da enciclopédia.  Para nós, a internet é o paraíso em matéria de busca e acesso à informação.  E conquanto saibamos que é possível achar muito lixo, a maioria de nós tem capacidade crítica suficiente para achar o que realmente quer.

Outro problema:  também tendemos a avaliar a internet com os hábitos de quem nasceu no tempo da biblioteca.  E conquanto saibamos que é possível achar muito lixo, a maioria de nós continua mantendo a capacidade crítica suficiente para achar o que realmente precisa.

Ambos os pressupostos, infelizmente, estão errados quando falamos das novas gerações _ especialmente da geração que já conheceu um mundo com internet.

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Para começar, estudos de usabilidade indicam que as pessoas lêem, em média, 20% das palavras em uma dada página da internet.  Isso pode, é claro, significar muitas coisas, inclusive que as pessoas estão ficando mais inteligentes ou capazes de leitura dinâmica.  De fato a proliferação exponencial de texto devido à internet praticamente assegura que as pessoas tenderão a desenvolver capacidades de leitura dinâmica.

O problema é que a linha de tendência dos testes de leitura e compreensão de texto, nos EUA, é declinante, como informa este artigo do NYT de hoje.  E este dado é especialmente preocupante:

Literacy specialists are just beginning to investigate how reading on the Internet affects reading skills.

O que não é especialmente reconfortante.  E mais:

Neurological studies show that learning to read changes the brain’s circuitry. Scientists speculate that reading on the Internet may also affect the brain’s hard wiring in a way that is different from book reading.

“The question is, does it change your brain in some beneficial way?” said Guinevere F. Eden, director of the Center for the Study of Learning at Georgetown University. “The brain is malleable and adapts to its environment. Whatever the pressures are on us to succeed, our brain will try and deal with it.”

Some scientists worry that the fractured experience typical of the Internet could rob developing readers of crucial skills. “Reading a book, and taking the time to ruminate and make inferences and engage the imaginational processing, is more cognitively enriching, without doubt, than the short little bits that you might get if you’re into the 30-second digital mode,” said Ken Pugh, a cognitive neuroscientist at Yale who has studied brain scans of children reading.

Isto se conecta prontamente com um assunto do qual já falei aqui neste blog e está especialmente bem tratado neste artigo do Nick Carr na The Atlantic de julho, “Is Google Making Us Stupid?”  Ali ele narra sua própria experiência com o nascimento da desordem do déficit de atenção – teoricamente, induzido pela internet:

Over the past few years I’ve had an uncomfortable sense that someone, or something, has been tinkering with my brain, remapping the neural circuitry, reprogramming the memory. My mind isn’t going—so far as I can tell—but it’s changing. I’m not thinking the way I used to think. I can feel it most strongly when I’m reading. Immersing myself in a book or a lengthy article used to be easy. My mind would get caught up in the narrative or the turns of the argument, and I’d spend hours strolling through long stretches of prose. That’s rarely the case anymore. Now my concentration often starts to drift after two or three pages. I get fidgety, lose the thread, begin looking for something else to do. I feel as if I’m always dragging my wayward brain back to the text. The deep reading that used to come naturally has become a struggle.”

De fato, o maior problema com as novas mídias certamente vem do front cognitivo:

Web readers are persistently weak at judging whether information is trustworthy. In one study, Donald J. Leu, who researches literacy and technology at the University of Connecticut, asked 48 students to look at a spoof Web site (http://zapatopi.net/treeoctopus/) about a mythical species known as the “Pacific Northwest tree octopus.” Nearly 90 percent of them missed the joke and deemed the site a reliable source.

É claro que também existe um ponto de vista contrário:

Web proponents believe that strong readers on the Web may eventually surpass those who rely on books. Reading five Web sites, an op-ed article and a blog post or two, experts say, can be more enriching than reading one book.

“It takes a long time to read a 400-page book,” said Mr. Spiro of Michigan State. “In a tenth of the time,” he said, the Internet allows a reader to “cover a lot more of the topic from different points of view.

O que, a rigor, me parece bastante verdadeiro.

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Muito provavelmente a resposta é que embora seja verdade que os hábitos de leitura criados pela internet sejam inadequados para desenvolver as características de leitura e de forma de pensar ciosamente defendidas pelas gerações pré-internet, a verdade é que a própria internet está se encarregando de criar um mundo onde estes hábitos de leitura e de pensamento antigos estarão obsoletos.   Isso provavelmente implica em que o “generation gap” tenderá a se aprofundar rapidamente, até o momento em que a antiga geração deixar de existir ou for irrelevante.  O mundo novo será certamente bem diferente _ um mundo de pessoas com muita informação e capacidade de decisão rápida mas sem grande profundidade ou reflexão.  Nada impede que este mundo funcione tão bem (ou tão mal…) quanto o que lhe antecedeu, embora certamente ele possa ser um lugar irreconhecível para nós (ou melhor dizendo, para mim e outros dinossauros).

 

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