O comentário do Márcio me despertou o desejo de aprofundar os nossos conhecimentos sobre o festival do porquinho da índia no Peru:

Olha, comer um animal que é “como se fosse da família” eu entendo. O que eu acho meio esquisito é fazer festa para o bicho e colocar roupas nele. Isso realmente é comer alguém que faz parte da família. Há que traçar a linha em algum lugar. Bicho de estimação é bicho de estimação, refeição é refeição.

Fiquei pensando: bom, ele está olhando com os nossos olhos. Como será que os peruanos vêem a coisa?

Corri atrás, e, bem _ isto é interessante:

Peru Celebrates Guinea Pig Festival

Peru is celebrating the second annual festival of the Cuy, or Guinea Pig, and the festivities include competitions for the best-dressed guinea pig, the biggest guinea pig, and the tastiest guinea pig.

The animals are sold fried, grilled or baked, and one seller, Teresa Figeroa, yells from her stand “Zero cholesterol! Protein for anemia!” A serve of guinea pig costs about US$7 at the festival.

One festival goer, Nicolas Campos Sanchez, munching down on some guinea pig said: “This isn’t common. We’re very proud of it.”” [grifo meu]

A matéria é de 2007. Daí, fui em busca do the real thing:

Melesia Trujillo Segura sonríe como una niña orgullosa de su travesura. Los parlantes acaban de anunciar su triunfo: el cuy al que vistió como una cantante folclórica ha obtenido el primer puesto en el concurso El Cuy Fashion del III Festival del Cuy Huacho 2008. Todos la felicitan, mientras ella, con las pequeñas polleras doradas entre las manos que ya han liberado al roedor, explica que no solo cosió el vestido sino que se inventó un personaje que el premiado cuy caracterizó muy bien.

“Se me ocurrió inventarme a una cantante y le puse Yasmina del Amor”, dice y vuelve a sonreír. Parece una niña grande que en vez de muñeca vistió a uno de los cuyes (no sabe cuál) que son parte importante en la alimentación y en los pequeños negocios de las comunidades campesinas de la provincia de Lima que forman parte de la zona de influencia de la empresa minera Los Quenuales.

En realidad, fue la minera la que hace tres años creó el Festival del Cuy de Huacho para impulsar la mejora genética del animal en la región y crear un espacio de camaradería entre los comuneros que compiten en diversas categorías: el mejor criador de cuyes, el cuy más grande, el cuy más veloz, entre otras.

En la jornada de ayer también se premió al plato más sabroso del día hecho, por supuesto, de cuy. En esa categoría el primer puesto fue para la pachamanca elaborada por la comunidad campesina de Curay, el segundo lugar lo obtuvo el riquísimo San Pedrano, de las comuneras de Palpas, y el tercer premio fue para las campesinas de San Martín de Taucur, a la que pertenece Melesia. Se tuvo en cuenta la preparación tradicional de la carne de cuy y el uso de productos nativos.

O que eu pensei ser uma tradição secular dos povos andinos é, portanto, criação de uma empresa mineradora peruana, exploradora de não ferrosos como zinco, chumbo e prata.

OK, vamos nuançar a história: o porquinho da Índia, conhecido em inglês como Guinea Pig, não é de fato original nem da Guiné (nova ou velha), nem da Índia _ ele é mesmo nativo da região andina. Portanto, comê-los é, certamente, uma tradição secular, senão milenar, dos povos da região. A novidade está no festival, cujo objetivo declarado ao menos é melhorar a genética do bicho e aprofundar os laços entre os criadores da iguaria.  Outra matéria deixa mais claro que a coisa é parte do programa de responsabilidade social da empresa, que deve estar com medo de ser estatizada pelo Humala. Embora faça parte do grupo suíço Glencore (que também tem participação na Xstrata…), 76,88% de suas ações são de propriedade de uma empresa de prateleira das Bermudas, segundo o Google Finance.

Em outras palavras: nos Andes, o porquinho da Índia sempre foi comida _ de fato, ele foi domesticado pra isso. O “descobrimento’ é que permitiu ao bicho sair de lá e galgar o posto de animal de estimação fora da região andina _ não sem antes passar pela duvidosa honra de tornar-se “organismo modelo” na pesquisa biológica no início do Séc. XX (o porquinho da Índia é o mesmo bicho que nós chamamos de “cobaia”). O nosso estranhamento é, portanto, um artefato.