Previsto para começar a funcionar em 1994, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi aprovado pelo parlamento português em 16 de maio e, informa a Folha, promulgado hoje pelo Presidente português. Não que a coisa seja consensual. Intelectuais portugueses lutaram até o último minuto contra a ratificação, e fizeram uma petição online contra o acordo _ que penso eu, mesmo para os padrões portugueses (dada a sua pequena população) não foi muito popular: no momento em que acesso, constam registradas apenas 86.982 assinaturas.
Embora nem no manifesto da petição nem na imprensa portuguesa eu tenha visto qualquer sinal disso, uma olhada em alguns blogs dá impressão de que pelo fato de apenas São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Brasil terem ratificado o Acordo até sua ratificação por Portugal, o mesmo vem sendo identificado como fruto de uma pressão brasileira. Em um blog português achei a seguinte conclamação:
“A Todos os filhos da LINGUA DE CAMÕES…Não se excluam de uma decisão que é de todos nós. Alguns Portugueses e alguns Brasileiros querem apoderar-se de um Património que é de todos. PORTUGAL; ANGOLA;MOÇAMBIQUE;TIMOR;GOA;MACAU;DIO;GUINÉ:CABOVERDE e BRASIL (1º a ser independente) No Brasil existiam ÍNDIOS assim como em África, os Africanos… A Lingua é de todos nós. Não é exclusiva de ninguém e muito menos de “Brasileiros” … BRASILEIROS É O RESULTADO DA FUSÃO de Escravos Índios( donos do Brasil) ;Escravos Africanos(levados de África); Portugueses;Espanhóis;Italianos; Japoneses…“
Um comentário em outro blog diz:
“Realmente, é mesmo um dia de luto. Em vez de serem os outros países a assumir a verdadeira lingua portuguesa é Portugal a assumir as atrocidades dos outros países! É caso para dizer “Isto é bué legal cara!”“
Finalmente, um outro senhor, ignorando que também se escreve mal em português brasileiro, antes de começar seu discurso contra o Acordo, faz a seguinte advertência prévia:
“Nota Prévia: a Lusofonia no seu melhor! Recebi recentemente a seguinte mensagem: «Olá, Eu sou Brasileiro e estou a procura de um dicionário automobilistico French/English, percebi que você tem bastante coisa no seu site, você tem alguma coisa boa para me indicar ou vender. Grato. Agradeço desde já. Obs. Eu não sei se o Português do Brasil é parecido com o de Portugal, por isso escrevi em dois idiomas. Hello, I’m brazilian and I’m looking for a automotive dictionary French/English, I realize that you have a lot of things in your website, do you have something good to indicate to me or to sell me. Thanks. Note: I don’t know if the brazilian Portuguese is similar with the Portuguese of Portugal, that’s why I wrote it in two languages. Best regards.»”
É claro que a oposição ao Acordo não é prerrogativa de Portugal. Aí está o Pedro 7 Câmara, escrevendo no blog da Atlântico, que não me deixa mentir ao desfiar sua já conhecida falta de intimidade com argumentos com um pé na realidade:
“Dizem que o tal acordo ortográfico aproximaria os países lusófonos. Pois não me parece que usar as mesmas roupas criaria qualquer espécie de atração. No caso específico de Brasil e Portugal, creio que a aproximação pode acontecer simplesmente pela existência de interesses comuns que nada têm a ver com a mil vezes enfadonha questão das identidades nacionais. Por exemplo, em minha experiência vejo que brasileiros e portugueses são reunidos pelo interesse na liberdade. Ou por determinadas questões filosóficas. Não por um querer enxergar-se no exotismo do outro. É claro que um idioma comum ajuda, mas sem uma afinidade que vá além do meio de expressão não há razão para conversa. Exatamente como você e seu vizinho: ele pode falar a mesma língua e até morar a seu lado, e continuar sendo um estranho cordial. Talvez um dia você descubra que ele também percebe que Ricardo Reis é o melhor dos heterônimos e vocês possam passar algumas tardes falando de poesia. Talvez nada nunca aconteça. O certo é que não se pode forçar a amizade. Colocar acentos em determinadas palavras não interfere mininamente na questão.“
De uma penada, nosso querido 7 resolve que tudo o que pode importar no Acordo Ortográfico se resume à capacidade de portugueses e brasileiros se interessarem por seus respectivos exotismos, quando o que interessa é a possibilidade de uma maior circulação de bens culturais entre uns e outros _ sejam ou não exóticos.
Por outro lado, é bem verdade que também em Portugal há grande apoio ao Acordo, como se vê em alguns comentários feitos em matérias de jornal, como por exemplo estes dois comentando uma entrevista do principal porta-voz do movimento opositor, Vasco Graça Moura, importante poeta português:
“Sr. Vasco, o seu manifesto não é em defesa da língua, mas sim contra a mesma. O que pretende? Que Portugal fique orgulhosamente só? Pois os PALOP, podem adoptar a grafia do Brasil quando quiserem. Pois no Brasil é que está o seu problema, com a importância que terá no futuro da nossa língua. Aceitar o acordo, é levar a língua a um dos mais importantes idiomas universais. Ponta Delgada.“
“O que deseja com isso o sr. Vasco? Tenho contatos estreitos com a língua castelhana e vejo o viço que ela experimenta em nível mundial, justamente devido à sua “unidade”, isto é, há uma única variante do idioma de Cervantes com diferentes sotaques. A língua portuguesa deveria já há muito tempo ter uma única variante “escrita” para que possa gozar do reconhecimento merecido inclusive na ONU.“
O curioso é que a argumentação contrária ao Acordo, embora obviamente sirva de abrigo ao nacionalismo português, também encontra justificativas anticolonialistas (ao menos formalmente). Diz um artigo do próprio Vasco Graça Moura (“Acordo Ortográfico: a perspectiva do desastre“):
“Na verdade, o Acordo considerou apenas duas pronúncias-padrão, a brasileira (que, aliás, não é apenas uma no imenso território do Brasil) e a portuguesa, como se estivéssemos ainda a viver nos tempos do Império colonial…
Isto é, o Acordo de algum modo comunga ainda da mentalidade colonial e darwinista que pressupõe que os PALOP seguem cegamente o que Portugal decidir, sem terem em conta a realidade do português falado nos seus territórios.“
Sem querer ser indelicado para com nossos irmãos portugueses, me parece que a adoção do Acordo é realmente o melhor caminho para Portugal. Diz a Wikipedia que existem 215 milhões de falantes da língua portuguesa; em assim sendo, o Brasil concentra portanto entre 87% (estimativa populacional IBGE) e 89% (estimativa CIA Factbook) dos falantes do português no mundo. Já Portugal tem pouco mais de 10 milhões de habitantes. Embora eu seja um grande defensor da visão linguística/evolucionária dos idiomas em detrimento da visão gramatical/normativa, me parece que do ponto de vista econômico não há muita dúvida de que o Brasil será o grande centro de gravidade da língua portuguesa até onde a vista alcança. E embora eu concorde que encarar as modificações vá ser um pé no saco para a atual geração, isto não é insuperável. Já tivemos reformas ortográficas, eu mesmo passei por uma, e acho que isto é coisa que se resolve no máximo em uma geração, com amplos benefícios, creio eu. Digo isto porque recentemente tive que adaptar um texto volumoso do português de Portugal para o brasileiro e posso dizer, de cátedra, que trata-se de tarefa apenas aparentemente fácil.



15 comments
Comments feed for this article
Julho 21, 2008 às 7:02 pm
Global Voices Online » Brazil: Portugal ratifies Portuguese language agreement
[...] and its spelling in a move to make the language, spoken in 8 countries, more uniform globally. O Hermenauta [pt] has written a round up of reactions from both sides of the ocean and concludes the agreement [...]
Julho 21, 2008 às 7:30 pm
carcamano
Pois eu já vi outros argumentos dos portugueses contrários à unificação: falam, principalmente, que o mercado editorial lá deles seria dizimado pelo nosso. Bem, se eles continuarem nessa discussão, vão mesmo ficar a ver navios, pois já há por aqui a preocupação em preparar os didáticos de português seguindo a nova ortografia.
Julho 21, 2008 às 7:36 pm
ohermenauta
É bem provável. Aliás, uma coisa bacaninha da União Européia é que tirando os franceses e os belgas (e outras pequenas exceções) ninguém fala o mesmo raio de língua, então há proteção automática para a indústria editorial.
Julho 21, 2008 às 8:17 pm
Marcelo
Tô morrendo (perdão, “estou a morrer”) com o chilique (tem chilique em Portugal?) dos portugueses sobre a “imposição neo-colonial” pindorâmica…
Eu acho que o Brasil tinha era que seguir a linha africâner e decretar independência linguística. O “brasileiro” ainda seria uma das dez línguas mais faladas, enquanto o português ficaria atrás do romeno…
Julho 21, 2008 às 9:40 pm
Rafael Figueira
“o mercado editorial lá deles seria dizimado pelo nosso”
Considerando q a reforma afetara’ 1.5% das palavras portuguesas e 0.5% das brasileiras, nao sei se havera’ muita diferenca. Ademais, a reforma e’ ortografica e nao no vocabulario: “putos” e “bichas” continuam sendo moleques e filas, mas o “objecto” perde o c mudo. Quem ja’ foi a Portugal sabe q o unico problema da comunicacao e’ o vocabulario regional.
A nao ser q as editoras brasileiras ja’ estejam entrando nesse mercado. Ainda assim, num mundo digital, para as editoras nao faz diferenca em q lingua se publica.
Julho 22, 2008 às 7:20 am
Global Voices amin´ny teny malagasy » Birezila: Nanasonia ny fifanarahana momba ny teny paorotigey i Paoritigaly
[...] azy mba hitovy eo amin'ny firenena 8 miteny azy ny filoha Paorotigey Anibal Cavaco Silva. O Hermenauta [pt] no nitsiditsidika nijery ny hevitra niposaka voalohany avy eny andafy atsimo sy andafy [...]
Julho 22, 2008 às 10:18 am
carcamano
Rafael, como eu salientei, essa foi a justificativa que encontrei em algumas matérias de jornais portugueses. Se faz sentido, eu não sei, mas parece que tem gente por aqui que também acredita nisso:
“120 profissionais do mercado editorial reunidos na Câmara Brasileira do Livro discutem Acordo Ortográfico e concluem que as mudanças trarão boas oportunidades de negócios nos países de língua portuguesa”
http://www.maxpressnet.com.br/noticia-boxsa.asp?TIPO=PA&SQINF=318726
Julho 22, 2008 às 10:54 am
ohermenauta
Eu acho que o Rafael tem um bom ponto, mas também acho que o ponto que ele realçou é menos verdadeiro em textos mais técnicos. No texto a que me referi, por exemplo, que eu “localizei”, mais de 90% das correções foram de ortografia, e muito poucas de vocabulário.
Também acho que uma interpenetração cultural crescente tenderá a borrar cada vez mais as diferenças de vocabulário _ as novelas brasileiras em Portugal, por exemplo, foram acusadas justamente disso.
Julho 22, 2008 às 1:14 pm
Rafael Figueira
“No texto a que me referi, por exemplo, que eu “localizei”, mais de 90% das correções foram de ortografia”
Imaginei. Mas sera’ q sao essas diferencas q impedem o tal texto de ser diagramado e impresso no Brasil para venda em Portugal, dessa forma dizimando o mercado editorial deles? No mundo digital, tudo o q a grafica precisa e’ de um CD, nada mais. Parece-me q as barreiras aqui sao outras.
Em Lisboa um livreiro de brecho’ reclamou comigo q as tiragens brasileiras eram muito reduzidas. Mas no Brasil menos de 10% compram ao menos um livro por ano (17 milhoes de pessoas), o q da’ quase o dobro da populacao *inteira* dalem mar. Ora pois.
Janeiro 31, 2009 às 9:02 am
João Roque Dias
Na Nota Prévia na minha página contra o acordo ortográfico referida neste texto, não faço quaisquer referências à qualidade (ou falta dela) da escrita em português brasileiro. O ponto não é esse. Basta ler com atenção o título da entrada para ficar tudo claro.
E à opinião do autor sobre o melhor caminho para Portugal: adoptar a ortografia brasileira, porque “eles” são muitos mais do que “nós”, pode sempre contrapor-se um caminho ainda melhor. Muito melhor. Adopta-se o chinês como língua oficial em Portugal e temos o problema resolvido!
Como se o caminho da ortografia de uma língua fosse o de seguir o tamanho de um qualquer grupo dos seus escreventes…
Janeiro 31, 2009 às 9:34 am
ohermenauta
Prezado Roque Dias,
O título da entrada é claramente irônico. A pessoa que lhe escreveu usou um português informal, que você usou para dar a idéia da baixa qualidade do português brasileiro.
Se você acha que usar a reforma ortográfica equivale a aprender chinês, isto não é um problema da reforma, mas sim prova de que na sua idade fica mais difícil aprender alguma coisa. Não me leve a mal, fica difícil para nós todos. A reforma, no fundo, é para as novas gerações, não para nós.
A sua tese de deixar o barco correr é que me parece profundamente pouco interessante. Enquanto você mesmo aponta que na Venezuela já andam ensinando o português, deixando entrever que essa língua provavelmente terá largo curso no continente sul-americano no futuro, já no que diz respeito a Portugal prefere deixar a língua ir seguindo à deriva. Nessa velocidade um belo dia vocês ver-se-ão falando espanhol…
Janeiro 31, 2009 às 2:57 pm
João Roque Dias
Lamento, mas continua a não perceber o que escrevi, nem por que o escrevi.
Mas repito: não me referi à informalidade da linguagem, nem à putativa “baixa qualidade” do português utilizado na mensagem. Nada disso é interessante para o tema da minha página. Quanto aos outros comentários na sua resposta, idem: não são interessantes para o meu desacordo sobre o acordo.
Janeiro 31, 2009 às 3:22 pm
ohermenauta
Prezado,
Sinto muito, mas não argumentar não é argumento. É uma simples questão de decidir se o que é mais importante é a busca infinita da miragem da identidade ou de facilitar a comunicação. Com sua pequena população Portugal não tem, de qualquer forma, a menor condição de manter sua “pureza” à medida em que avança o projeto comunitário europeu. Assim, para o cidadão português (e brasileiro) do futuro, dominar uma língua franca (o inglês) e uma outra língua de civilização (um português unificado) é muito mais interessante do que perseverar no ideal babélico da diáspora latina, creio eu.
Junho 13, 2009 às 8:59 am
O Brasil e o Iberismo «
[...] tudo me lembra o debate sobre o acordo ortográfico, sobre o qual escrevi alguns posts. No primeiro deles, concluí o [...]
Junho 26, 2009 às 1:31 pm
silva
Não é pelo acordo que se unifica a língua. A colocação dos pronomes é diferente.