
Ou, a revolta de Joe Sixpack
E via Folha de São Paulo, vem dos EUA a notícia de que o pessoal por lá não ficou nada satisfeito com a venda da grande cervejaria americana:
“Ação popular contra venda agora ameaça com boicote
Ed Martin é contra a venda da cervejaria norte-americana Anheuser-Busch para a belgo-brasileira InBev. Quando acordou ontem e soube da concretização do negócio, disse à Folha que estava “surpreso com a rapidez”. Ele acha que a Budweiser, a marca mais popular da empresa, é um símbolo tão nacional quanto a águia careca.
Ed Martin quer sentar-se com o brasileiro Carlos Brito, CEO da InBev, para conversar.
O que aumenta as chances desse advogado de 38 anos, nascido em Nova Jersey e que mora há 15 em St. Louis, no Missouri, sede da Anheuser-Busch, é o que leva no bolso: petição de 100 mil assinaturas, recolhidas 70% on-line e 30% por correio, de outras pessoas que, como ele, pretendem boicotar a marca caso os termos da negociação não os satisfaçam.
Para satisfazê-los, o acordo não pode prever corte de vagas, fechamento de fábricas nem a transferência da sede histórica de St. Louis a outra cidade. O site do movimento, “Save Anheuser-Busch companies” (salve as companhias da A-B), tem um discurso que flerta com a xenofobia e abusa do patriotismo -a A-B daria a milhões de americanos o direito de “busca da felicidade”, defende texto de apresentação, citando frase da Declaração de Independência dos EUA.
Mas é a face mais evidente de uma “guerra das cervejas” que já arrastou para a disputa até o candidato democrata à Presidência, senador Barack Obama, em escala forçada na cidade na semana passada. “Eu acho que seria lamentável se a Bud fosse de propriedade estrangeira”, disse Obama. “E eu acho que nós deveríamos ser capazes de encontrar uma empresa americana que se interesse em comprar a Anheuser-Busch, se, de fato, a Anheuser-Busch sente a necessidade de ser vendida.”
Obama tinha alvo duplo. A crise econômica bateu a Guerra do Iraque como preocupação principal do eleitor. Além disso, a mulher do senador republicano John McCain, seu oponente, tem US$ 1 milhão em ações da A-B e é dona da terceira maior distribuidora da empresa nos EUA, que também já distribui as marcas da InBev. Cindy McCain não comentou o acordo que beneficiará tanto ela como o marido.
A economia americana em crise faz das compras de empresas americanas por estrangeiras algo cada vez mais freqüente nos últimos tempos por causa do dólar fraco e das ações em queda. O movimento é olhado com apreensão pelos locais, que temem o fechamento de vagas ou transferência de postos de trabalho a outros países. No caso da A-B, mesmo antes do acordo, a empresa havia apresentado proposta para eliminar mil vagas de trabalho.Agora, os sindicatos temem que a InBev, conhecida por sua cultura de controle de custos, vá além desse número. Para Gerard Rijk, analista da ING Financial Markets, os cortes devem acontecer, sim, mas mais no nível corporativo e de marketing do que no chão das fábricas. “As companhias podem unir [esses tipos de operações] no Reino Unido, na China e nos EUA”, disse, à “Forbes”.
Para Maureen Ogle, autora de livro da história da cerveja nos EUA, a A-B “é a empresa mais influente da história das cervejarias americanas, e isso está prestes a acabar“.
***
Por outro lado, parece que por aqui a ficha caiu. Deu no Valor de hoje:
“A AmBev, controlada pela InBev, não terá participação na operação. Essa informação fez com que as ações preferenciais da empresa brasileira subissem ontem 4,87% e as ordinárias, 2,86%. Os investidores temiam que as AmBev pudesse ser usada como um instrumento de captação de recursos. Segundo o presidente da InBev, Carlos Brito, haverá parceria para vender a marca Budweiser no Brasil por meio da AmBev. Ele disse que, por ser uma marca diferenciada, a Budweiser não deverá competir com as líderes brasileiras de mercado.“
Ah, bom!
***
Por outro lado, a A-B é dona de metade do Grupo Modelo, do México. Será que vamos ter Negra Modelo no Brasil?



8 comments
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Julho 15, 2008 às 9:50 am
Ricardo Cabral
“Será que vamos ter Negra Modelo no Brasil?”
Como leitor atento de todos os teus posts, não pude deixar de notar esta importantíssima questão que vc levantou. Diria mais: além da Negra Modelo, acrescentaria a Conmemorativa e a Victoria — esta última carinhosamente apelidada de “cerveza de albañil” (cerveja de peão-de-obra). Isso sem falar na Bohemia de lá, maravilhosa! Não é que os mexicanos são mesmo bons de cerveja?
;-P
Julho 15, 2008 às 2:15 pm
Rafael Figueira
“vem dos EUA a notícia de que o pessoal por lá não ficou nada satisfeito”
As acoes da Anheuser-Busch subiram 25% desde maio, qd os boatos apareceram. Em contra partida, o Carlos Brito, CEO da InBev, e’ famoso por melhorar o bottom line atraves de corte de custos. Entao quem nao ficou satisfeito mesmo sao os q irao pra rua, mais a trupe ufanista seguida da demagogia de sempre.
Estou curioso e’ de ver os comentarios sobre a capa do New Yorker.
Julho 15, 2008 às 2:25 pm
ohermenauta
Então, Figueira, se você leu a reportagem viu que os McCains estão muito contentes, obrigado. Sim, os descontentes são os que irão pra rua. Isto é em si algum despropósito?
Julho 15, 2008 às 2:30 pm
samurai
Pois eu já estou no boicote a entrada da Bud cá no Brasil. Stella beleza, Bud vão f-word themselves…
Pelo menos cá no Rio, faça um blind test e a Nova Schin fica na frente da Skol. Tentem iso: meia dúzia de cervejas em copos idênticos, mesmo tempo no congelador, dadas a provar a algumas cobaias sem dizer qual é qual. Vocês ficarão surpresos com os resultados.
Claro que não bate a Antártica que se toma acima da Bahia…
Julho 15, 2008 às 2:40 pm
ohermenauta
Aqui em BSB, pelo menos, eu sou Itaipava desde criancinha. Mas quando acho alguma Antarctica Original, sorvo com grande satisfação.
E agora deu pra ter Patricia e Norteña no Extra, o que também é uma boa pedida.
Julho 15, 2008 às 2:44 pm
ohermenauta
Ricardo,
Eu sou fã da Negra Modelo, mas não conheço essas aí que você falou, não. Mas uma cerveja de peão deve ser boa.
Também desconhecia a Bohemia mexicana. As mexicanas leves, tipo Sol, eu não gosto.
Mas uma cerveja que me surpreendeu foi a indiana, que tomei uma vez em Paris. Boazinha mesmo. Até que o Império fez bem aos indianos, como dizia Marx…
Julho 15, 2008 às 3:07 pm
Raquel (NY)
Herme, acabei de ver essa noticia no LatinLawyer e me lembrei da sua preocupacao com a Negra Modelo. Aparentemente los hermanitos nao estao muito contentes com a mudanca de “partner”. Ia ser legal se eles conseguissem melar a operacao ou pelo menos acabar fazendo com que a InBev desembolse uns trocados a mais.
Modelo sticks spanner in InBev deal
Published 15 July 2008
Mexico’s leading brewer Grupo Modelo says that under Mexican law its consent is needed for Belgian company InBev’s takeover of brewing competitor Anheuser-Busch.
Modelo, 50 per cent owned by the US-based Anheuser-Busch, says it has the right to choose its partner and therefore has a role in the discussions of any acquisition of its parent.
The Mexican company has turned to regular US counsel Cravath, Swaine & Moore LLP to help it assuage its concerns over its independence and the shift of Anheuser’s ownership stake to InBev.
Anheuser and InBev agreed on Sunday to a US$50 billion deal but Modelo said that its financial agreement with Anheuser-Busch was carefully constructed to ensure they have a definitive say in who their partner will be, and that the company is confident that the agreement, governed by Mexican law, gives them the right to decide whether or not to consent to the acquisition of Anheuser-Busch by InBev.
Anheuser bought an initial 18 per cent stake in Modelo for US$477m in 1993, and eventually exercised its option to build up its non-controlling stake in Modelo to 50.2 per cent.
Modelo has not made any official objections to the deal but said it was in active discussions with InBev regarding how the two companies can work together. InBev CEO Carlos Brito said he didn’t “see any impediments coming from Modelo” and he was in “positive” talks about keeping the company as a partner. He said there were no immediate plans to buy out Modelo or divest Anheuser-Busch’s stake in the company.
On 20 June Modelo’s CEO, Carlos Fernandez, resigned from the Anheuser-Busch board of directors, according to Modelo to avoid the appearance of any conflicts. He resigned on the same day InBev and Anheuser-Busch met to discuss a takeover, and there was speculation that there was resistance to the merger on the Anheuser board.
Julho 15, 2008 às 3:10 pm
ohermenauta
É, o pau vai quebrar…