Quem tem alguma memória talvez se lembre que, na época da fusão entre Antarctica e Brahma, os defensores da operação juravam de pés-juntos de que ela seria necessária para ganhar escala e combater as marcas estrangeiras.
Dizia a Veja, no longínquo ano da graça de 1999:
“(…)Em outros tempos, com as fronteiras do país fechadas, a notícia do surgimento de um conglomerado monstruoso desses seria assustadora para o consumidor brasileiro. Uma empresa tão grande, que concentra quase três quartos do mercado, poderia fazer um estrago e tanto. Poderia tabelar preços, esmagar a concorrência, controlar os pontos-de-venda e submetê-los a contratos leoninos e piorar a qualidade dos produtos que fabrica. Tudo isso sem muito risco. Por que não agora?
Numa economia global, a fusão das cervejarias Brahma e Antarctica aparentemente não oferece esses perigos. De acordo com os especialistas, tudo conspira para que aconteça justamente o contrário. Fortalecida pelos números que a operação envolve, a AmBev estará em condições de baixar seus custos operacionais, o que pode ser ótimo para quem compra cerveja. Além disso, fica em condições de brigar de igual para igual no mercado internacional. “Se as companhias brasileiras não ganharem robustez acabarão sendo compradas pelas concorrentes estrangeiras”, afirma Marcel Telles, de 49 anos, presidente do conselho de administração da AmBev, mesmo cargo que ocupava na antiga Brahma.“
Nem o bom velhinho barbudo, o Carlos, escapava de colaborar para uma argumentação porca que a Veja e seus colaboradores parecem, misteriosamente, ter esquecido quando se trata de aplicá-la ao negócio de telefonia:
“O negócio marca a entrada do Brasil na era das superfusões de empresas, a característica mais significativa do capitalismo mundial (veja reportagem). Há uma espécie de relógio correndo, que acelera inevitavelmente as fusões. O relógio atende pelo nome de Alca, o bloco comercial que em 2005 integrará as economias das Américas. Cairão as barreiras tarifárias entre os países – e em vários setores, como o de bebidas, quem não produzir como gente grande corre o risco de ser varrido do mapa. Ou ter de se contentar com uma fatia modesta de mercado. O futuro vem acompanhado de uma competição darwiniana. Só os maiores, mais fortes e mais eficientes sobrevivem.“
Saudade, né? Era um tempo, aliás, em que a Veja era especialmente condescendente com lobbies privados em gabinetes públicos:
“A estratégia para obter o apoio do governo e a aprovação do Cade incluiu uma passagem pelos gabinetes do presidente Fernando Henrique Cardoso e de Ruy Coutinho. Na tarde de quarta-feira passada, foi feito o pedido para que o presidente abrisse espaço em sua agenda, no dia seguinte pela manhã, para receber os empresários. Deu mais do que certo. Eles teriam dez minutos para a conversa, mas o encontro prolongou-se por 45 minutos. “O Brasil precisa internacionalizar-se para não ser internacionalizado”, disse o presidente a Telles e De Marchi. A visita seguinte, ao secretário de Direito Econômico, foi mais formal. Ele simplesmente recebeu a comitiva e ouviu uma rápida exposição sobre a idéia da fusão.“
Ô, tempo bão que não volta mais.
Pois é, a fusão foi feita, a AmBev vendida para os belgas da InBev, e agora, nos diz o Valor que…
“AmBev fará da Bud a marca número 1 no país
Que se cuide a Skol. A cerveja mais vendida do país - a cada dez garrafas ou latas da bebida abertas, três são Skol - está com seus dias de líder contados. Com o negócio entre a belgo-brasileira InBev e a americana Anheuser-Busch fechado ontem à noite, a Budweiser deve ocupar seu lugar estratégico na AmBev (Companhia de Bebidas das Américas). A marca é uma verdadeira obsessão para os executivos da InBev, controladora da empresa brasileira.
“A Budweiser será trabalhada como marca mundial e virá para cá. Será a estrela do portfólio da AmBev, batendo de frente com a Skol”, diz Adalberto Viviani, da consultoria Concept, especializada no mercado de bebidas.“
Legal, né? Agora o Joe Six Pack também é nosso!


3 comments
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Julho 14, 2008 às 1:28 pm
Paulo C
Eu adoro estas viagens no tempo. É notável como o pensamento conservador brasileiro é sistematicamente lambe-botas (ou para lembrar o aniversário recente da Copa de 58, tem complexo de vira-lata): “O relógio atende pelo nome de Alca, o bloco comercial que em 2005 integrará as economias das Américas.”
Naquele tempo a Alca era uma certeza: “integrará”. Esqueceram só os eleitores… O que se passa por esquerda na América do Sul conquistou quase todo o continente e a idéia da Alca delicamente enterrada por Lula, Chávez e Kirchen.
Julho 14, 2008 às 1:32 pm
Paulo C
Ah, e você está confundindo as coisas. A reação à mal-apelidada “Lei Seca” deixou uma coisa bem clara: telecom, aviação civil, tudo isto são só negócios como os outros, o governo não tem que se envolver e o presidente muito menos. Agora, cerveja não. Cerveja é assunto de estado, estratégico, envolve a segurança nacional.
rs.
Julho 14, 2008 às 5:01 pm
ohermenauta