A Folha de hoje tem uma reportagem sobre a tal da Quarta Frota que a marinha norte-americana está reativando no Mar do Caribe. Eis parte da matéria:
“Acalmando ânimos
Diante da reação negativa ao relançamento da Quarta Frota, Washington destacou uma força diplomática-militar para acalmar os ânimos, recalibrando o discurso do Pentágono.
O contra-almirante James Stavridis visitou países da região e passou a ressaltar a prioridade humanitária da frota e o fato de ela não contar com embarcações próprias. Foi seguido pelo número um do Departamento de Estado para o hemisfério, Thomas Shannon.
No Brasil, o embaixador dos EUA, Clifford Sobel, escreveu: “Foi até sugerido que o restabelecimento da frota foi de alguma maneira relacionado com descobertas recentes de petróleo. É importante deixar bastante claro: não é o caso”.
A reação é compreensível, dado o histórico militar dos EUA na região, disse à Folha Frank Mora, professor do National War College, de Washington. Mas a volta da frota, defende, “é mais uma ação de política interna do Pentágono do que uma ameaça à região“.
As atividades navais dos EUA ao sul do México eram controladas até ontem pela Segunda Frota, que cuida do Atlântico todo. Com a definição de uma frota numerada só para a América Latina, calcula Mora, a Marinha pode pleitear mais recursos para combate ao narcotráfico, a prioridade ali.” [grifo meu]
Sadly…no. Já falei sobre a Quarta aqui no blog. Eis a justificativa original, tirada de uma entrevista de um senador a um jornal norte-americano:
“(Senator) Nelson said several factors have prompted admirals to conclude Latin American and Caribbean waters require a fleet dedicated to them: the rising economic strength of Brazil, the belligerence of Venezuela, the increasing trade moving through the Panama Canal, and Cuban leader Fidel Castro’s age.
Nelson’s comments come three days after Republican candidate for president Rudy Giuliani said during a campaign stop in Jacksonville that he would work to ensure the carrier George H.W. Bush, expected to be commissioned in 2009, is stationed at Mayport. Nelson said he expects Democrats running for president will make the same commitment but that it might not matter because he’s hopeful such a decision will be made before the next president takes office.“
Nenhum desses acontecimentos pode ser claramente identificado com alguma “razão humanitária” e muito menos uma “questão de política interna do Pentágono”. A não ser, é claro, que a política interna do Pentágono seja muito mais ambiciosa do que se imagina.



18 comments
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Julho 13, 2008 às 9:29 pm
João da Luz
Americano é tão bonzinho…
Usarão F-18 para interceptar os “aviões” na saída do morro.
A Leitoa disse que as FA podem vigiar os morros desde que não os com obras eleitoreiras. Tem que avisar os gringos.
O que eles achariam da Europa criando uma frota para vigiar o litoral do EEUU???
Ainda bem que o Lula foi conversar com o Giap…know how…
Julho 14, 2008 às 4:00 am
André Kenji
Nah. O que Bill Nelson quer é trazer o Bacon para seu estado já que qualquer operativo voltado para a América do Sul teria que ser baseado na Flórida ou em Porto Rico. A tal força do Brasil e a beligerância da Venezuela são desculpinhas.
Julho 14, 2008 às 11:46 am
Nelson Moraes
Needless to say, the most authorized Nelson to talk about navy strategies is the Admiral.
Julho 14, 2008 às 12:33 pm
ohermenauta
André,
Já que o bacon vai parar em algum estado, sim, é óbvio que o Nelson (opa!) quer levá-lo para o seu próprio curral. Isso não muda a análise; veja que ele não está dizendo qual é sua própria opinião sobre os motivos que levam os EUA a reativar a quarta frota, ele diz que os fatores elencados contribuíram para a decisão do almirantado. E por sinal nenhum deles leva a concluir que Mayport é o lugar inequívoco para sediar a nova frota.
Julho 14, 2008 às 1:25 pm
samurai
Kenji está certo, mas não é só o congressista.
O motivo da reativação da quarta frota é que a marinha precisa se justificar. Onde colocar aquele bando de submarinos nucleares inúteis, por exemplo? No Golfo Pérsico? E tantos porta-aviões?
Hermê e tchurma: o negócio é manter a estrutura, os cargos, o budget. Esqueçam o discurso.
Julho 14, 2008 às 3:15 pm
Me
Samurai,
Ate vc esta tendo problemas para domar as teses conspiratorias do seu amigo hein?
Pelo menos ele nao disse que a nova frota ia piorar o global warming!
Julho 14, 2008 às 3:19 pm
ohermenauta
Paulo,
Me surpreende que a tese do Samurai te pareça menos conspiratória que a minha.
Na verdade você não percebe que a tese dele coloca a US Navy sob uma luz bem pior _ eu pelo menos imagino que haja um propósito na coisa.
Experimente perguntar ao Samurai o que ele acha de um pet project seu como a guerra no Iraque…
Julho 14, 2008 às 4:53 pm
Me
Nao sei como… Achar que o governo eh monolitico e que estao querendo criar mais uma divisao para usar a infraestrutura que nao eh mais necessaria me parece totalmente possivel. Do outro lado, sua insinuacao de que os EUA estao querendo conquistar a AL com destroyers e Porta Avioes eh simplesmente lunatica.
E para concordar com alguem num assunto nao significa que tenho que concordar em outros. Aposto que nos concordamos em algo (nao sei o que, mas tem que existir
)
Julho 14, 2008 às 5:00 pm
ohermenauta
Ô Paulo,
Bem, eu não estou insinuando nada. Estou reproduzindo o comentário de um Senador da república norte-americana. E por falar nisso, ele não fala em “conquistar a América Latina”, embora, evidentemente, ninguém coloque uma frota no mar se não estiver disposto a comprar algumas brigas ou ao menos enviar um forte sinal de que está disposto a isso.
No mais, nem o histórico recente (Iraque), médio (Granada, Panamá) ou antigo (Nicarágua, México, Cuba) dos EUA, seja na região ou fora dela, dão a menor credibilidade ao seu diagnóstico de que uma futura intervenção dos EUA em algum país da AL seja “lunática”. Lunático é quem pensa assim.
Julho 14, 2008 às 6:13 pm
samurai
Caros Hermê e el Diablo,
o papel das forças armadas americanas é assaltar os cofres públicos. O assalto é tão bem feito, mas tão bem feito, que esta súcia de burocratas sem outra utilidade qualquer para o mercado convence os próprios conservadores a apoiar esse assalto. O maior golpe da história, diria. A verdadeira terceira guerra, aquela que ainda não acabou – contra o bolso do contribuinte americano – começou em 23 de abril de 1949.
Caro Paulo, se você realmente se preocupa com seu bolso, vire um liberal ultra-pacifista. Os pobres custam bem mais barato que os militares.
Hermê, a possibilidade intervenção armada americana na América Latina é desprezível. Pelo simples fato de que eles são, no fundo, odiados. Quer por inveja, quer por dores passadas, as massas da Al querem ver os EUA sifu de stars and stripes. Os EUA poderiam até bombardear mas, como mostra “the revolution will not be televised”, a capacidade de dar golpes é hoje limitadíssima.
Julho 14, 2008 às 6:40 pm
ohermenauta
Samurai,
Quando eu falo em “intervenção”, não penso em ocupação. Penso justamente em ações de intimidação ou bombardeio _ a Venezuela daria um bom Irã. Agora, é fato que o Iraque mudou tudo isso, por mais que Rumsfeld tenha “errado o cálculo” quanto à recepção que os “libertadores” teriam no país.
Tirando Cuba, é claro. Lá eu acho que os caras gostariam de entrar mesmo.
Julho 14, 2008 às 9:37 pm
Me
Smart,
Logico, quem quer acha. Eu nao te disse outro dia que um dos problemas da esquerda eh ficar usando antecedentes que nao tem nada a ver para justificar sua politica? Ta ai a mae de todas as conspiracoes.
Samurai,
Eu nao tenho duvida alguma que o “complexo militar” seja uma bela teta para muita gente. O problema eh que as ameacas sao reais. Essa eh digamos uma ‘consequencia’ do sucesso americano. Eu nao gosto de taxes, mas estar vivo ainda eh P1
Julho 14, 2008 às 10:06 pm
ohermenauta
Paulo,
Quem quer acha? Bom, então compare o histórico belicista de EUA e Brasil, por exemplo. Ou de EUA e Canadá, ou mesmo Japão. Aí você vai ver que está contando história para boi dormir.
E como assim, “não tem nada a ver”? Estamos discutindo a possibilidade dos EUA agredirem alguém. Como é que o histórico de uso da força dos EUA “não tem nada a ver”? O que é que teria a ver, a produção leiteira do Nebraska? A produção de Pretzels em Nova Iorque? Não dirija, Paulo!
Mas enfim, a especialidade da máquina geradora de campo de distorção da realidade é mesmo a de fazer seus zombies passar vergonha, então fazer o quê, né?
Julho 15, 2008 às 2:18 am
João da Luz
Acabei de ver a entrevista do Dahr Jamail no Milleniun da GNews e ele pediu para dar uma olhadinha no documento que rege a politica de segurança nacional do EEUU. Pra saber se os EEUU bombardeiam ou não onde eles bem entenderem.
Isto depois de contar todo o aparato assistencialista que os EEUU empregam lá no Iraque.
Deu detalhes sobre o assistencialismo em Falluja, por ex.
Legal, mesmo.
Ele alerta para o caso de não só as FA gastarem muito dinheiro, mas de várias empresas ganharem muito dinheiro por obras inexistentes. Coisa de fazer corar o pessoal das privatizações.
Somas que nem o mais ambicioso tucano sonharia.
Tem o site dele aí.
http://dahrjamailiraq.com/
Julho 15, 2008 às 2:38 am
João da Luz
Este Dahr Jamail deve ser um moralistazinho de *erda ou um comunistazinho enrustido, ou as duas coisas.
Não entende o bem que a invasão fez ao país. Tirando aquele tirano…
Eles tiraram outras coisas tb, como escolas, água potável, moradia, segurança. Até um campo de futebol foi transformado em cemitério, em Falluja, por ex. É ou não uma coisa legal!!!
Ele disse uma coisa que eu não acredito: O Iraque está pior agora que após 28 anos de ditadura e 12 de bloqueio.
Como pode ser , depois de empregar o que eles tem de mais moderno na terraplanagem das cidades, como bombas cluster e de fósforo branco.
É um exagerado…
Julho 15, 2008 às 6:55 am
ohermenauta
Da Luz,
Você se espanta porque é um homem de pouca fé, que não acredita nos poderes da destruição criativa…
Agora, campo de futebol que virou cemitério, eu só conhecia um ali nas Laranjeiras!
Julho 15, 2008 às 12:39 pm
samurai
da Luz,
você precisa é ver o programa que a BBC fez sobre os empreiteiros americanos no Iraque. Espetacular.
Paulo,
veja como esses burocratas são bons! Você ainda acredita nas ameaças! Não há ameaça que justifique a manutenção da frota de hunter-killers, que justifique o B-2, que justifique o f-22, e por aí vai. Que justifique a manutenção do atual contingente de M1s com as tropas necessárias ao seu funcionamento, ao invés de se converter para forças mais leves e mais aptas a situações táticas como as do Iraque.
Não é só de dinheiro para as empresas, mas da carreira de caras como o general Betrayus. Atente a isso.
Julho 15, 2008 às 12:56 pm
ohermenauta
Nitidamente, as FFAA norte-americanas estão muitíssimo bem preparadas para o cenário ID4.