Steampunked

O NYT traz um artigo interessantíssimo sobre o Mundaneum. Pois é, você não sabe o que é isso? Nem eu sabia também.

O fato é que um outro visionário francófono (outro, sim, pois há, ou havia, muitos deles), Paul Otlet, um belga, já havia antecipado, em 1934, a World Wide Web. Não causa muita surpresa que sua abordagem não tenha sido a de alguém ligado a software, como Vannevar Bush ou Doug Engelbart, mas sim a de um bibliotecário. Sim, Paul Otlet vinha desse background. Diz a Wikipedia:

É considerado o fundador da ciência da Bibliografia, da Documentação pioneiro da Gestão da Informação. Estudou nas universidades de Lovaina, Paris e Bruxelas.

Com Henri la Fontaine criou em Bruxelas, em 12 de setembro de 1895, o IIB - Instituto Internacional de Bibliografia, com objetivo era organizar as diferentes fontes de investigação científica e fornecer informação para a recuperação em qualquer documento publicado mundialmente.

Criou, também, a CDU - Classificação Decimal Universal, publicada em 1899.

Seu Traité de Documentation (1934) apresenta a organização da informação registrada. Porém, uma de suas maiores contribuições para a humanidade foi a idéia inicial da web, inclusive criando o termo “link” para as relações entre informações.

Diz a reportagem do NYT que em 1934 Otlet fez o rascunho de um plano para criar uma rede global de computadores (que ele chamava de “telescópios elétricos”…), os quais permitiram a qualquer pessoa fazer buscas e examinar milhões de documentos, imagens, vídeos e áudios interligados. Para ele as pessoas seriam capazes de usar a rede para trocar mensagens, compartilhar arquivos e conversar em redes sociais. A tudo isso ele chamou, é claro, por “réseau” _ a bisavó intelectual da nossa “web”. Ou, em suas palavras, um instrumento através do qual “qualquer pessoa poderia, de sua poltrona, perscrutar toda a Criação”.

Tendo sido vítima do homeschooling, Otlet virou uma traça, um devorador de livros. Porém com algum empreendorismo, o que o levou a convencer o governo belga a financiar seu fabuloso projeto de classificar todo o material impresso do mundo e criar uma “cidade do conhecimento” _ um trunfo interessante para o governo, que queria ter a honra de sediar a Liga das Nações. De fato, ele chegou a fundar um Google “steampunk” _ um serviço pago de consultas, e chegou a receber mais de 1500 consultas por ano, feitas por carta e telégrafo.

Otlet desapareceu para nós, em boa medida porque os nazistas marcharam sobre a Bélgica e destruíram o trabalho de sua vida _ o governo belga havia perdido o interesse no assunto após ter perdido o lance para hospedar a Liga das Nações, e os nazistas destruíram o local da sua “cidade do conhecimento” para abrigar uma exposição de, er, arte nazista.

Hoje, o trabalho de Otlet está sendo objeto de tentativas de restauração, e um dos principais projetos é o Mundaneum Museum, em Bruxelas.

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Mais uma vez o mundo anglo se curva perante a latinidade.

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O artigo termina algo melancolicamente, assinalando que o Google lui-même está implantando mais um de seus gigantescos data centers nas vizinhanças de Mons, a cidade belga onde hoje funciona o Mundaneum.

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Um mercado que aliás está quase literalmente pegando fogo. Informa o Slashdot:

Data Center Designers In High Demand

For years, data center designers have toiled in obscurity in the engine rooms of the digital economy, amid the racks of servers and storage devices that power everything from online videos to corporate e-mail systems but now people with the skills to design, build and run a data center that does not endanger the power grid are suddenly in demand. ‘The data center energy problem is growing fast, and it has an economic importance that far outweighs the electricity use,’ said Jonathan G. Koomey of Stanford University. ‘So that explains why these data center people, who haven’t gotten a lot of glory in their careers, are in the spotlight now.’ The pace of the data center build-up is the result of the surging use of servers, which in the United States rose to 11.8 million in 2007, from 2.6 million a decade earlier. ‘For years and years, the attitude was just buy it, install it and don’t worry about it,’ says Vernon Turner, an analyst for IDC. ‘That led to all sorts of inefficiencies. Now, we’re paying for that behavior.’

Data centers, hoje, costumam ser propriedades bem guardadas e protegidas não só de ladrões e sabotadores como dos olhares de competidores curiosos, já que as tecnologias empregadas para mitigar um dos maiores custos desses empreendimentos, a energia elétrica, são sigilosas. Mas o leitor mais tecnologicamente orientado gostará de ver esta sequencia de fotos mostrando a montagem de um data center.

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E no Rough Type, o Nick Carr dá continuidade a mais uma polêmica. Dessa vez, um artigo no Atlantic sobre os efeitos cognitivos do Google, batizado,com raro senso marketeiro, de…

“Is Google Making Us Stupid?”

Maybe. Tese: o Google causa desordem de déficit de atenção. Nick nos atira uma bela frase:

Once I was a scuba diver in the sea of words. Now I zip along the surface like a guy on a Jet Ski.

OK, até certo ponto eu também sinto isso.

Em certa medida, a web que o mundo esqueceu foi mesmo a de Otlet, mas também é preciso dizer que há uma web que o mundo vive esquecendo todo dia, a que é fabricada em Mountain View.

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Para tudo, entretanto, há remédio.