Vejam bem, se há alguém de quem eu tenho verdadeira pena hoje em dia nesse Brazilzão de meu Deus é de Pedro Malan. Ele podia estar por aí, matano, robano, especulando no mercado financêro, mas não! Ele resolveu acabar seus dias como um humilde Chairman of the Board of Directors do Unibanco, terceiro maior banco comercial privado brasileiro.
É por essas e outras que os Torreões de Marfim pagam o maior pau para o olheirento ex-ministro da Fazenda.
***
E como recordar é viver, não custa requentar aquele velho gráfico mostrando os portentos de Malan:



12 comments
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Junho 15, 2008 às 10:04 pm
Marcos Matamoros
Hermenauta, você não distorceu nem um pouquinho o que eu escrevi. Assim é que é bonito. Mas, enfim, vamos debater idéias. No meu post, eu simplesmente observo que Pedro Malan nunca foi acusado de nenhuma desonestidade e nunca se meteu em histórias nebulosas, dessas em que um monte de gente deste governo e também do governo passado se meteu. A política econômica de Malan, como você sabe, era atacada por boa parte dos tucanos. Mas, como ele não era picareta, era mais difícil derrubá-lo - além do fato mais importante, claro, de que Fernando Henrique Cardoso apoiava a política econômica de Malan. Como eu também digo no post, acho que ele cometeu erros - eu citei a política cambial e poderia falar também da política fiscal. O ponto, para mim, é que ele tinha espírito público raro. Acho que é algo digno de elogio - ou de pagar pau, para usar a bonita imagem que você usou.
Se ele foi trabalhar no Unibanco, no Exército da Salvação ou voltou para o serviço público, é uma opção dele, que não vai tornar a sua passagem pelo Ministério da Fazenda mais ou menos desonesta. Trabalhar em banco não é anátema para mim. Para você, parece ser o equivalente a vender a alma ao diabo
Um abraço,
Marcos
Junho 15, 2008 às 11:07 pm
Rafael M
Concordo.
A menos que a hipótese seja de que o Malan é um incompetente que o Pedro Moreira Salles contrata por gratidão pelos juros altos, ou pela influência que ele ainda teria no Banco Central (resultando em maiores lucros ao Unibanco). Talvez nesse caso a coisa tivesse algo de escabroso.
Mas concluindo-se que o Malan é um cara competente, que limpou o nome do Brasil junto às entidades internacionais depois que o Sarney deu o calote em todo o mundo, e que ajudou a implementar o plano que finalmente botou a economia do Brasil nos trilhos, não me espanta que ele ganhe rios de dinheiro como Chairman do Unibanco.
Ao contrário, admiro. Seria felicíssimo se eu pudesse ser tão competente a ponto de ajudar o país de maneira significativa. E depois não depender de ninguém para fazer sucesso de volta a iniciativa privada.
Junho 15, 2008 às 11:44 pm
tiagón
e o Parente, que veio pra RBS?
Junho 16, 2008 às 3:56 am
Luís Paulo
Já o Palocci, quando caiu, candidatou-se à Câmara dos Deputados (e ganhou). A política de seleção de pessoal de uma instituição é tudo.
Junho 16, 2008 às 6:55 am
ohermenauta
Matamoros,
Trabalhar em banco não é anátema para mim. Mas o fato de que grande parte dos diretores do BC e outros cargos ligados à área financeira ou monetária nos dois Fernandatos terminaram seus dias embalados em belíssimos amakudaris na banca me diz algo sobre método. Me espanta que sequer passe pela sua cabeça a possibilidade, bastante real, de retribuição.
Em países civilizados, há legislação draconiana sobre a questão dos conflitos de interesse. O tão depreciado ex-Senador Sibá Machado, suplente de Marina Silva já devidamente defenestrado pela volta da ministra ao Senado, introduziu um projeto de Lei fixando em 12 meses a quarentena para diretores das agências de regulação e fiscalização do serviço público. É pouco. Na Europa, a média anda entre dois e três anos. Já Pedro Malan completou o trajeto sem escalas, como informa sua biografia no site do Unibanco:
“Mr. Malan was elected Vice Chairman of our Board of Directors in 2003 and Chairman of our Board of Directors on April 30, 2004. Mr. Malan served as Brazil’s Minister of Finance from 1995 to 2002, as Chairman of the Central Bank from 1993 to 1994(…)”
Como diz a piada dos mineiros: pode até não ser merda, mas tem aparência, cheiro e gosto de merda.
Junho 16, 2008 às 1:44 pm
samurai no outono
O capacete do Senna, é tudo que tenho a dizer.
Junho 17, 2008 às 12:20 am
Artur
Mas é, justamente, essa a questão. O que fez Malan é legal e vários tucanos e petista fizeram e estão fazendo, respectivamente. Fiquem de olho nas relações entre a previdência e os fundos de pensão — trabalha-se na previdência durante um certo tempo e, depois, oferece-se consultoria aos fundos. O elogio feito a Malan é fácil, muito fácil — o cabra foi probo no estado? Muito bem, legal, né?! Fez uma razoável política financeira, segundo a ótica dos liberais, e depois foi parar rapidamente num banco privado?! A ética de Malan é heróica, certamente, pois não foi fácil tomar uma decisão dessa envergadura. Imagine, trabalhar na república e, depois, ganhar uma grana no mundo privado — qual é o problema, se todos fazem isso, se tudo é legal e dentro da lei? Pra que pensar que o certo mesmo seria uma quarentena bem mais longa, bem mais “republicana”?! E se Malan não tivesse, por conta própria, por causa de seus sentimentos morais, aceito trabalhar num banco privado, esperando um tempo “civilizado”? Ah, mas nesse caso não haveria heroísmo, nem mesmo elogio… Afinal, além de ético, um herói não é burro.
Junho 17, 2008 às 4:08 pm
gustavares
Artur,
Compartilho em partes o seu raciocínio mas entendo que, para que fosse ética e moralmente justificada a cobrança de quarentena, o estado Brasileiro deveria sustentar através de salários os seus ex-dirigentes.
Eu não posso falar com muita propriedade, mas pelo que me consta, Pedro Malan foi um burocrata que veio dos quadros do Estado e foi elevado a posição de Presidente do Banco Central e posteriormente Ministro da Fazenda. Exigir que um funcionário de carreira, por mais bem remunerado que seja, deixe de trabalhar dois ou mais anos se privando de um rendimento mensal em nome da ética seria o mesmo que dar uma justificativa para os não éticos utilizarem qdo necessário.
Talvez a solução seria proibir um funcionário de Estado de atuar na sua área de especialidade. Sem dúvida seria curioso ver alguém com a experiência de um Malan dirigindo um sindicato ou mesmo uma cafeteria.
E com relação aos erros da política econômica e fiscal eu tbm gostaria de deixar registrado que já identifiquei vários da “era” Malan/FHC. Mas seria justo também se eu informasse que só consegui identificá-los a partir de uma visão do futuro. Só hj, depois de ver as consequências e de ter entendido o contexto que na época ainda era nublado, posso dizer que eles erraram.
Junho 17, 2008 às 4:33 pm
ohermenauta
Gustavares,
Em todo mundo, esquemas de quarentena são ou remunerados ou exigem que o cara trabalhe em alguma indústria totalmente não relacionada com a que ele regulava. Como para um ministro da fazenda a segunda opção é difícil, a primeira teria que ser a empregada.
O PL do Sibá Machado prevê isto.
Junho 17, 2008 às 5:14 pm
F. Arranhaponte
Bem, Hermenauta, talvez você não considere os Estados Unidos um país civilizado (provavelmente não), mas lá o Robert Rubin saiu do Tesouro no dia 2 de julho de 1999 e entrou no Citigroup no dia 26 de outubro do mesmo ano, menos até - veja só - do que nossa quarentena de quatro meses tão desdenhada por você. A entrada do Malan no Unibanco foi noticiada no dia 30 de abril, e ele entrou no banco um pouco depois, respeitando, portanto, a regra dos quatro meses. Então a média pode ser de dois ou três anos na Europa, mas nos Estados Unidos, como mostra o caso do Rubin, certamente não é
Junho 17, 2008 às 5:47 pm
ohermenauta
Arranhaponte,
Na verdade os EUA são um país em processo de alcançar a civilização, em várias matérias. Esta é uma delas. Os EUA têm legislação regulando o que eles chamam de “post-employment conflict of interest”, código 18USC207 no Federal Register, que entrou em vigência em 1962 e já foi alterada várias vezes. Eles têm uma agência lá, a Office of Government Ethics, que faz o enforcement dessas coisas. Eis aí o 18USC207 for dummies; ele ainda é bem tímido diante das restrições existentes em outros países, mas eles ainda chegam lá!
“Post-Employment
Executive branch employees may be subject to certain restrictions on their activity after they leave Government service. Two of the restrictions apply with respect to particular matters involving specific parties that they were involved with while in Government service. If the employee’s involvement in such a matter was personal and substantial, then the employee is permanently barred from representing anyone back to any Federal department, agency, or court on that same matter. If the matter was under the employee’s official responsibility during the last year of Government service, then the employee is barred for two years after leaving Government service from representing anyone back to the Government on that same matter.
In addition, certain high level officials are subject to a so-called one-year “cooling off ” period. For a period of one year after leaving a “senior” position, these officials may not make any appearance before or communication to their former agencies on behalf of any person (other than the United States), with the intent to influence them on any matter in which that person seeks official action.
A former “very senior” employee may not make any communication to or appearance before certain high level executive branch officials, in addition to employees of his former agency during the first year after he has left Government.
Former senior and very senior employees also are restricted for one year after leaving Government service from representing, aiding or advising foreign governments or foreign political parties before an agency or department of the United States. Employees who participated personally and substantially in an ongoing trade or treaty negotiation are subject to additional restrictions.“
Junho 17, 2008 às 6:46 pm
ohermenauta
Aliás, achei um relatório do GAO (o Tribunal de Contas da União lá deles) sobre conflitos de interesse no Departamento de Defesa que é uma beleza. Eis o que o GAO descobriu:
“In 2006, 52 contractors employed 2,435 former DOD senior and acquisition officials who had previously served as generals, admirals, senior executives, program managers, contracting officers, or in other acquisition positions which made them subject to restrictions on their post-DOD employment. As the table shows, most of the 2,435 former DOD officials were employed by seven contractors. On the basis of a stratified random sample of contractor-supplied information, GAO estimates that at least 422 former DOD officials could have worked on defense contracts related to their former agencies and that at least nine could have worked on the same contracts for which they had oversight responsibilities or decision-making authorities while at DOD. The information GAO obtained from contractors was not designed to identify violations of the restrictions. While contractors could have employed quite a few former DOD officials on assignments related to their prior DOD positions, there could be appropriate justification for each of these situations.
Most of the contractors who responded to our survey reported using a range of practices to ensure awareness and compliance with post-government employment restrictions, although GAO’s request proved challenging for contractors to provide accurate information identifying their former DOD officials. According to the surveyed contractors, they can identify former DOD officials with post-government employment restrictions and track their assignments during their cooling-off periods. However, GAO’s analysis found a significant under-reporting of the contractors’ employment of former DOD officials. Specifically, contractor-supplied data showed they employed 1,263 former DOD officials in 2006, while IRS data showed the contractors employed 2,435. New post-government employment requirements enacted in January 2008 are likely to make written ethics opinions for former DOD officials more readily available to contractors. DOD also must now keep ethics opinions in a central database. This information was not designed to provide a mechanism for DOD to effectively monitor former DOD officials’ post-government employment compliance after they begin working for contractors on specific contracts.“