Deu no Valor:
“Rice muda de opinião e defende ‘construção de nações’
Agências internacionais
10/06/2008
Oito ano após ter recriminado o governo Clinton por desperdiçar os recursos americanos em operações de “construção de nações” pelo mundo, Condoleezza Rice adotou um novo discurso.
Na época, como principal assessora de política externa do candidato republicano à Presidência George W. Bush, Rice criticou o uso de recursos do governo americano para promover direitos humanos e democracia no exterior como sendo ingênuo e um desperdício.
Agora, depois de ter ocupado os cargos de assessora de Segurança Nacional e de secretária de Estado do presidente Bush, Rice parece ter mudado de idéia. No artigo “Repensando o Interesse Nacional”, que sairá na próxima edição da “Foreign Affairs”, uma das mais importantes publicações de relações internacionais do mundo, Rice disse que os eventos dos últimos oito anos, principalmente os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, fizeram do conceito de “construção de nação” algo essencial para a política americana.
“Reconhecemos que a construção de Estados democráticos é agora um componente urgente de nossos interesses nacionais”, escreve Rice, mostrando conversão a uma causa criticada na própria “Foreign Affairs”, durante a campanha presidencial de 2000, num artigo chamado “Promovendo o Interesse Nacional”.
“Nessas páginas, em 2000, eu falei contra o papel dos EUA, em particular das Forças Armadas americanas, na construção de nações”, escreve. “Em 2008, está absolutamente claro que estaremos envolvidos na construção de nações por muitos anos ainda.”
Rice disse que esse ônus não pode ser relegado só aos militares e propôs a criação de um corpo de reserva civil para a tarefa principal. Ela também defende que a construção de nações não pode ser empreendida apenas depois da falência de um determinado Estado.
“Temos de ajudar os Estados frágeis e que funcionam mal a reformar e fortalecer suas instituições para evitar seus fracassos em primeiro lugar”, disse.“
***
Ja’ imaginou o perigo, entrar na lista do Departamento de Estado dos EUA como “Estado fragil”?
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“Este lado para cima”
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Tenho inveja dessa gente. Vejam como e’ facil ser neocon: basta se contradizer sem medo e advogar barbaridades. Viver, enfim, sem ter que pensar muito, ja’ que o cerebro e’ um orgao caro e metido a besta.
E mais, estou achando que a moca se posiciona para ser VP do McCain.
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Resto do texto abaixo do fold, para os sem-Valor.
Numa retrospectiva em sua atuação em dois dos cargos mais poderosos de Washington, Rice faz uma ampla defesa da política externa do governo Bush, desde as guerras no Afeganistão e no Iraque até as negociações com a Coréia do Norte e o modo de lidar com as potências em ascensão, principalmente China e Rússia, apesar dos interesses e valores divergentes.
O artigo de 2000 atacou o governo Clinton exatamente pelos mesmos motivos: intervenções militares no Haiti, em Kosovo e na Somália; negociações com os norte-coreanos; e por tratar China e Rússia com mimos.
“O presidente tem de se lembrar que as Forças Armadas são um instrumento muito especial”, escrevia ela em 2000. “São letais e são para valer. Não são uma força policial civil. Não são árbitros de disputa políticas. E certamente não foram feitas para construir uma sociedade civil.”
“Usar as Forças Armadas americanas [como a força de resposta de emergência no mundo] degradaria sua capacidade, atolaria os soldados em missões de manutenção da paz e criaria temor em outras potências de que os EUA poderiam decidir apoiar noções de ’soberania limitada’ pelo mundo, em nome de causas humanitárias”, disse.
Após o 11 de setembro e suas experiências no governo Bush, particularmente na guerra ao terrorismo e no combate ao extremismo islâmico, sua visão mudou.
No artigo de 2000, Rice não mencionou a Al Qaeda nenhuma vez, mesmo com a organização de Osama Bin Laden já tendo atacado embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia. Em 2000, Rice usou a palavra “islã” apenas uma vez, numa referência ao Irã.
Na versão de 2008, Al Qaeda é citada pelo menos cinco vezes; “islã” e suas variantes, três vezes, sendo que “extremismo violento islâmico” aparece duas vezes.
Apesar dessa defesa da atuação dos EUA na “construção de nações”, conceito rejeitado pela maior parte dos chamados realistas em política externa, os EUA desistiram de promover a democracia em importantes aliados, como o Egito e a Arábia Saudita.


29 comments
Comments feed for this article
Junho 10, 2008 às 10:43 am
João Paulo Rodrigues
É por isso que eu sempre gostei da Albright (que queria arrasar a Sérvia, mas o Powell e outros militares não deixaram) e gosto da “Condi”.
Será que não daria para a chapa ser Obama-Condolezza? Seria meu dream team…
Obama liderando a invasão do Paquistão e a Condi mandando bombardear Teerã (eu já tenho até o slogan: “Para afundá os aiatolá!”).
Junho 10, 2008 às 12:56 pm
Luiz
Dei de cara com isso aqui no Political Irony:
http://politicalirony.com/2008/06/06/would-you-like-fries-with-that/
Junho 10, 2008 às 5:38 pm
Me
Vc foi contra Kosovo?
Sera que Clinton eh um neocon?
Alias, hoje ouvi o Pat Buchanan dizendo que, apesar de ter sido contra a guerra, a posicao do Obama (de totalmente ignorar os ganhos da surge) eh mais perigosa de que qualquer neocon. Ele disse que lembrava o ‘plano secreto’ do Nixon para ganhar o Vietnan.
Alias, sera que LBJ era um neocon? Essa vida eh uma piada mesmo…
Junho 10, 2008 às 7:15 pm
ohermenauta
No caso do Kosovo tratava-se da desintegração de um país, a ex-Iugoslávia. Não havia meio de parar a limpeza étnica em andamento sem intervir diretamente.
Agora é claro que concorreu o fato da coisa ser na Europa, entre branquinhos. Limpeza étnica na África, por exemplo, não costuma chamar a atenção dos norte-americanos quanto no Kosovo ou no Iraque (oil, oil, oil, contratos, mais oil para pagar por eles), embora me pareça que o fato de existir um competidor global apostando na área (a China) vá fazer mudar a disposição dos EUA com a área.
E que ganhos da surge? Você acha mesmo que o Iraque está a caminho de se tornar um paraíso democrático? A idéia de ficar por lá por 100 anos se for preciso te parece menos perigosa?
Junho 10, 2008 às 9:58 pm
Me
Interessantissimo!
Quer dizer que Kosovo pode porque o pais estava “desintegrando”. Imagino que seria muito instrutivo comparar o numero de mortes entre kosovares e digamos curdos. Ou ate shiitas. Bah, essa coisa de numeros eh muito chata. Como tambem eh chato lembrar daquelas historias de que o Iraque nunca vai dar certo porque foi montado errado… Como sera que um pais montado errado na mao de um ditador brutal nao pode ser considerado como um “pais em desintegração”? Hmm…
Imagino que se fosse o Gore que tivesse inventado de ir ao Iraque (ou quem sabe Bush Sr. a Kosovo) os numeros seriam magicamente diferentes. As coisas que a ideologia faz.
E veja que eu nao critico so vc. A maioria dos republicanos durante o governo Clinton estavam tao errados quanto vc esta hoje.
Sobre o que o Iraque vai ou nao se tornar, te digo uma coisa: Melhor do que antes ja eh uma vitoria e tanto.
O que alias, eh o mesmo parametro que eu uso para Kosovo.
Junho 11, 2008 às 12:31 am
ohermenauta
Como tambem eh chato lembrar daquelas historias de que o Iraque nunca vai dar certo porque foi montado errado…
Puxa, Paulo,
Eu realmente não sabia que tudo o que os neocons querem no Oriente Médio é recriar o Império Otomano. Que coisa!
Sobre o que o Iraque vai ou nao se tornar, te digo uma coisa: Melhor do que antes ja eh uma vitoria e tanto.
Melhor em que sentido, cara pálida?
Não no sentido dos milhões de iraquianos refugiados, não no sentido das centenas de milhares de iraquianos mortos, não no sentido do aumento do rombo financeiro dos EUA, não no sentido de aumentar qualquer perspectiva de paz no Oriente Médio.
Sim, no sentido de que algumas empresas americanas mantém contratos bilionários para a, er, reconstrução do Iraque (que os EUA destruíram).
Você acaso é acionista da Halliburton? É a única maneira de explicar sua felicidade.
Depois, em que sentido vai ficar melhor? Assim que os americanos sairem o país provavelmente se tornará mais, e não menos, radical do ponto de vista do fundamentalismo islàmico. Vitória de Pirro já conta como vitória?
Junho 11, 2008 às 10:44 am
João Paulo Rodrigues
Só para a discussão não descambar, acho que um pouco de medida ajuda:
1) Se o Tariq Ali está certo, o Iraque não é uma invenção otomana. No que hoje é mais ou menos o Iraque, havia três províncias: Mossul, Basra e Bagdá, sendo que Mossul, no Armísticio da Primeira Guerra Mundial, era para ter ficado com a Turquia. Assim, se fosse para voltarmos aos tempos dos Sultões de Istambul, os EUA haveriam de devolver o norte do Iraque aos turcos. Mas parece que o que eles pretendem é algo que horroriza os conterrâneos do Ibrahim Eris.
2) Efetivamente é um efeito horroroso da guerra de Bush as centenas de milhares de fugidos iraquianos nos países vizinhos, além de deslocados internos da guerra civil.
3) Não são centenas de milhares de mortos. Depois daquela estatística furada publicada há uns dois anos em revista de medicina britânica (creio eu), as estimativas de mortos estão na casa das dezenas de milhares. Nada bom, é claro. Mas só as guerras de Sadam mataram algumas vezes mais. Isso para não falar na repressão levada a cabo pelo partido Baath.
Abraços a todos.
Junho 11, 2008 às 11:28 am
Me
Smart,
Ah sim, o Iraque eh somente uma forma de corporate welfare. Essa quase nunca foi usada (alias, fico em duvida se o Nixon nao usou essa tambem contra o Vietnam).
Os milhares de iraquianos mortos agora contam mais que os milhares de iraquianos por Saddam? Eu acho que nao. Ate porque agora pelo menos a chance de democracia existe. E tirando essa sua retorica de bar, o que realmente importa eh que os niveis de violencia atuais estao caindo e isso eh totalmente inegavel. E os avancos politicos, apesar de pequenos, sao 100% superiores a situacao com o Saddam.
Agora, concordo que a presenca americana sera vital para que esses ganhos nao desaparecam. Ja disse varias vezes que as similaridades com a situacao da Korea sao muitas. E eh por essas e outras que espero que o Obama nao ganhe.
Joao,
1) Obrigado por confirmar meu argumento. O Smart ja estava tentando fugir dele.
2) Sem duvida eh horrivel. Alias, qualquer guerra em si so eh algo horrivel e eu nao defendo guerras a torto e direita. O negocio eh olhar como era o Iraque de Saddam.
3) Eu nem entro nesse tipo de discussao porque ultimately eh uma tragedia. O Smart e outros querem usar esses numeros como propaganda e a melhor forma de acabar com esse tipo de discussao eh partit do ponto (justo alias) que essas mortes sao algo que tem que ser evitado a todo custo. O fato de eu estar aqui feliz que essas mortes estao diminuindo mostra issso. Agora, o fato do Smart querer que os EUA saiam do Iraque mostra algo diferente. Nao sei dizer exatamente o que, mas eh algo na minha opiniao bem pior.
Junho 11, 2008 às 11:29 am
Me
A ultima frase cortou:
Agora, o fato do Smart querer que os EUA saiam do Iraque mesmo sabendo que as mortes civis vao aumentar mostra algo diferente. Nao sei dizer exatamente o que, mas eh algo na minha opiniao bem pior.
Junho 11, 2008 às 11:36 am
André Kenji
“Alias, sera que LBJ era um neocon? ”
A maioria dos neocons era do partido de LBJ. Jeane Kirkpatrick, anyone?
Junho 11, 2008 às 1:04 pm
Me
Andre,
Mas eh ai que essa definicao de neocon fica engracada. Nao sei como alguem pode ser um novo conservador se nunca foi conservador!
Dems e Republicans alternam durante a historia entre isolacionismo/intervencionismo, totalmente independente de politicas economicas e sociais.
O que mostra a total falta de sentido nessa teoria de que os neocons sao intervencionistas so porque existe um corporate welfare como motivo principal.
Junho 11, 2008 às 2:01 pm
samurai no outono
Uns pequenos observações, imvho:
- neocon não é sinônimo de conservador intervencionista, mas de conservador intervensionista. Neocon é uma forma gentil de dizer likudnik. Aqueles conservadores que apoiaram a guerra e hoje estão contra - Hiro Fukuyama, Brokeback Ursullivan etc - não eram neocons, se alinhavam a uma das linhas de discurso dos neocons, linha essa que - assim como a interpretação jurídica do Scalia que elegeu Bush - se aplicava a um único caso: o Iraque. Democracia, WMDs, tudo lip service para uma outra agenda, “a clean break”. Neocon é não quem defendeu a guerra, mas continua defendendo sua expansão em direção ao Irã.
- Os conflitos internacionais dos últimos 90 anos decorrem, em grande parte, de Inglaterra e França terem agido para o mundo de 1919 como se ele fosse a Europa de 1815. Aliás, mesmo a Europa de 1815 é um equívoco que repercute até hoje, vide o caso/ocaso da Bélgica. As ficções criadas pelo desmonte do império austríaco, a última das quais a cair foi a Iugoslávia, são um bom exemplo recente.
- Kosovo - assim como o Sudão - é totalmente diferente do caso do Iraque. Ali havia uma limpeza étnica acontecendo, num processo de desmonte de estado análogo ao de uma descolonização. O império sérvio - último dos impérios balcânicos - estava sendo desmontado, processo que levou a conflitos anteriores na Croácia e na Bósnia. No caso do Iraque, por mais ditatorial ou escroto que fosse o governo, ele era um governo e provia ordem, tal como o faz o abjeto governo da Birmânia. Ordem perversa, mas ordem, que é o valor supremo de um conservador. Havia FARC - a peshmerga curda - controlando parte do território. Mas havia lei no resto.
- As estatísticas do Lancet não são furadas. As mortes decorrentes dos conflitos que decorreram da abolição do Leviatã estão na casa das centenas de milhares. Abolir um Leviatã, por mais perverso que esse seja, por mais Saddam ou Stalin, leva as pessoas àquele mundo em que a vida é “… poor, nasty, bruttish and short”, ou “the tyranny of evil man” como está em Ezequiel 25:17. Ruanda, e.g. Um conservador sabe que, sem estado, os mollocks desgovernados darão cabo de tudo. Esse é o horror que certamente assola Hiro, pois, sabedor do fim da história, ele podia ver bem o futuro que se avizinhava no desmonte do exército e da burocracia estadal iraquiana.
- O processo “CATO” de construção de estado é demorado. Viável do ponto de vista teórico, mas de longo prazo, muitos mortos no caminho. Não se abole um estado. Se adapta. Mesmo os soviéticos fizeram isso, o estado czarista pintado de vermelho.
- Rice quer justificar a permanência das bases no Iraque. Daí a mudança de discurso. As bases no Iraque são muito mais intensivas em construção civil e prestação de serviços do que Kosovo, além de não serem um processo multincaional e, portanto, sujeito a uma série de controles e limitações. Do ponto de vista da Halliburton, o Iraque é muito mais interessante.
- A saída dos EUA do Iraque levará o pais ao fracionamento em, pelo menos, duas partes (Curdistão e o resto). Há uma considerável possibilidade de intervenção externa (talvez até militar) de Turquia, Irã e Arábia Saudita. O que será ótimo! Esses são os 3 países que tem que sentar para discutir com as elites iraquianas o que vai ser daquilo. São gente razoável, que pensa com o bolso, cuja vida cotidiana pode ser afetada pela manutenção da desordem no Iraque, e não conta com Fox News para se manter no poder. Gente que não acredita na rapture.
Junho 11, 2008 às 2:36 pm
Me
Samurai
1815? Mas parou tao cedo porque? OBL diz que o problema todo comecou em 1095. Alguns israelitas vao te dizer que a culpa eh toda dos egipcios. Eu pessoalmente acho que se os dinossauros nao tivessem sido tao estupidos tudas essas guerras teriam sido evitadas…
Quanto a sua definicao de neocon, ela eh tao boa quanto as outras: not good at all. Se nao vc vai ter que adicionar um bando de gente que eh a favor de Israel e nao foi a favor da guerra do Iraque… Ja imaginou entao se o Obama ganha e vai a guerra contra o Iran? Madness.
Kosovo eh diferente do Iraque so no tamanho do problema. Alias, o unico argumento que eu aceito como valido eh que nos nao deveriamos ter feito nada no Iraque porque eh caro demais. Ai sim. Mas no mais, eh tudo b.s. se vc perdoa meu frances. Saddam matou muito, mas muito mais que Slobo the clown e se for falar da instabilidade que cada um criou o negocio vira covardia.
Quanto ao resto do argumento sobre corporate welfare, acho que ja dei minha opiniao. Novamente tenho uma curiosidade morbida de ver algum como Obama lidando com algo parecido com 9/11. Sera que mandando funcionarios do governo ao inves de private contractors faria toda diferenca do mundo?
E quanto ao comentario da rapture e os sabios paises do Middle East… So posso acreditar que vc estava de sacanagem.
Junho 11, 2008 às 3:07 pm
ohermenauta
Paulo,
A definição de neocon do Paulo é perfeita. Basta olhar a página do Project for the New American Century, que aliás pelo visto já chegou.
O Iraque é caro demais só para o contribuinte americano, não para a elite que está no poder. Você, contribuinte otário, não entende que está sendo roubado big time por esses caras. Ideologia é isso aí.
Junho 11, 2008 às 4:03 pm
samurai no outono
Xará,
o papel de Bin Laden na guerra do Iraque foi servir de pretexto. Acho que há evidências prá lá de solidas da total ausência de conexões entre Bin Laden e Saddam. Bin Laden fala de cruzados porque está interessado em fazer a ponte com um passado mítico reconstruido.
Quanto ao que é neocon, assim como Jacob do Bandolim definia que chorinho é a música de Pixinguinha, no meu Aurélio neocon é a ideologia/agenda de Kristol e Podhoretz.
Quanto às mortes praticadas por Saddam, não me consta desses defensores entusiastas da democracia terem se alinhado pela libertação de Timor, por exemplo. A pauta deles é muito específica. As razões pela qual justificaram a derrubada de Saddam não eram legião, mas linha de mosquete, rodando a cada momento.
Quanto aos sábios países do Oriente Médio, é isso mesmo. Confio mais na serenidade da casa de Saud e na do exército turco do que nos eleitores de Huckabee.
Last but no least, xará, por mais que você acredite na pauta conservadora - o que é válido - não caiu ainda a ficha de que Bush foi uma completa traição a ela?
Junho 11, 2008 às 10:27 pm
Me
Smart,
Como eu disse, vai ser interessante ver como as coisas andam. Alias, essa historia de culpar tudo no apoio a Israel nao eh novo. Outro dia foi aniversario do RFK. A historia eh realmente um mundo de ironias.
Samurai
Eu nao acho que a guerra do Iraque aconteceu porque Saddam ajudou Bin Laden. Mas 9/11 foi o catalizador de algo que ja se formava ha quase 15 anos. Querer achar que foi tudo um ataque de loucura (ou ganancia) do Bush eh muito simplista.
Os EUA nao sao defensores ilimitados da democracia (ate porque os fundos nao sao ilimitados). E eu sempre disse aqui e no meu blog que a prioridade numero 1 do governo americano eh o EUA. Retorica a parte, eu nem precisava dizer isso, precisava?
Sua desconfianca dos radicais religiosos americanos eh algo normal a esquerda. Nao que o Obama nao seja religioso neh? Alias, ele eh muito mais que o McCain. E vc viu o rolo que aquele preacher doido criou.
Quanto a minha opiniao do Bush, eu nao sou grande fa. Economicamente ele foi bem fraquinho, a unica coisa que salvou foram os tax cuts. Agora, quando o assunto eh politica externa ele foi bem e a historia vai mostrar isso. Ele me lembra muito o presidente americano mais odiado de todos os tempos (Truman). Hoje em dia, Truman eh considerado um dos “greatest”, e tudo porque no fim das contas, ele teve peito de tomar decisoes dificeis. O Bush foi o presidente que enfrentou crises que nao viamos desde 1941.
Junho 12, 2008 às 3:33 am
André Kenji
Paulo
Não gosto da definição neo-con. Mas é interessante notar que muitos que são republicanos militaristas votaram em Lyndon Johnson e Hubert Humphrey, dois liberais que defendiam uma ampla participação militar mundo afora.
E hoje esses mesmos republicanos amam um liberal militarista como Joseph Lieberman mas não um conservador que veja a guerra com restrição, como John Warner ou Chuck Hagel.
Junho 12, 2008 às 10:26 am
Me
Andre
Mas o fato de existirem esses “liberais militaristas” mostra que essa associacao entre conservadorismo social/economico e militarismo nao eh tao explicita.
Isso sem falar que pacifistas geralmente sao aqueles que acabam com as maiores guerras (nos ja conversamos sobre Wilson, FDR, etc)
Junho 12, 2008 às 12:51 pm
samurai no outono
André,
assim como boa parte da esquerda brasileira nunca foi internacionalista e sim puro ressentimento anti-americano, Kristol e Norman nunca foram propriamente trotskistas, mas sim anti-soviéticos. Por isso sua conversão à republicanos. Também não são qualquer tipo de militarista: o militarismo deles serve para alguns lugares de seu afeto: o leste europeu sob ocupação, o oriente médio etc. Não vai contra muçulmanos: não há manifestações contra a Indonésia, por exemplo. Neocon é uma agenda específica. Há poucos neocohns ali.
Lieberman é um canalha. Um cara cheio de princípios à venda, como uma vez definiu Michael Kaus. Ele está desesperado: não pode ir para os republicanos, onde ele será um RINO irrelevante - seu militarismo se encerra nos interesses dos radicais da diáspora; está jurado de morte pelos democratas, aos quais ele traiu várias vezes, como no caso do pênis de Clinton, na recontagem da Florida e, mais recentemente, gente como Obama, que o apoiou na primária contra Lamont e que fez corpo mole na disputa posterior de Lamont contra ele. Lieberman é um ortodoxo, que só presta contas a deus. O pior tipo de canalha que existe, imvh and atheist opinion.
El Diablo,
há uma diferença entre o discurso do pastor de Obama e o discurso dos pastores “renegados” pelo McCain. O primeiro é revolta dos ferrados, em nada diferente no fundo do papel da Igreja na Polônia sob ocupação soviética nos 70-80. O discurso radical é canalizado pela fé, com a instituição religiosa estruturando a comunidade sob os impactos desagregadores da exclusão. Mas, como comentado no Daily Show, ele apareceu mais na TV do que uma mulher branca desaparecida.
A turma da rapture, no entanto, tem outra lógica. Eles estão vendendo eschaton às pessoas. Isso é mau, isso é mal. Houve tempo em que os conservadores se preocupavam com discursos em prol do fim dos tempos, em transformações radicais do mundo. Devoto de Hume e de Smith que sou, não gosto de agendas que não se encerram no mundo. Lembro a você que há hoje na América um museu de história natural criacionista.
A invasão do Iraque não foi só um ataque de loucura e ganância de Bush (e no Cheney e no Rove não vai nada?). Há várias agendas ali. Mas isso é outra história. Repito que o 11/9 só entrou como pretexto - poderia ter sido tratado da mesma forma como se tratou da invasão do Kwait, dentro da lógica da Nova Ordem Mundial de Bush-41. Os EUA teriam saído reforçados dali, não tenha dúvida, e a questão do Afeganistão e do Paquistão já estaria resolvida. Mas atacar o Iraque já é agenda do governo Bush desde a posse, vide “the price of loyalty”. E de alguns de seus formuladores e condutores, explicitamente, desde meados dos 90.
Junho 12, 2008 às 4:11 pm
Me
Samurai, (Assumindo que eu sou o El Diablo - which is kind of cool)
Continuando com sua definicao de neocon, sera que vc acha que eu sou um? Seria interessante saber
Acho que vc esta bem enganado sobre o Lieberman. O negocio eh que os Democratas atualmente cairam tanto para a esquerda (serio, Howard Dean nao devia ser nem mesmo permitido na party) que qualquer um que chegue perto do centro vira pariah. Ele foi totalmente sold out no caso do Lamont.
Quanto ao Wright, o negocio eh que os proprios democratas deveriam ter se levantado contra tudo aquilo. Tanto eh que no fim o Obama nao teve opcao e o fez. Vcs nao podem ficar acusando os Republicanos de ignorantes religiosos e aceitarem aquele tipo de lunacy na boa so porque o cara eh negro.
E sem querer ser pedante, todo esse blablabla sobre extremismo religioso controlando o GOP eh balela dos Dem para convencer gente que nao sabe do assunto. Eh so ver a nomeacao do McCain, by far o menos religioso do grupo todo, como prova disso. Talvez a ala religiosa da party seja a que fala mais alto, mas quando os historiadores forem analisar o governo Bush as implicancias religiosas seram minimas. Tanto que hoje em dia ninguem fala disso com Reagan, e na epoca tambem era algo que os Dems adoravam falar.
Vc pode discordar da estrategia, mas essa historia de achar que existem motivos exotericos por tras de tudo eh muito simplista. Nem os OBL da vida podem ser analisados desse jeito.
Junho 12, 2008 às 5:14 pm
samurai no outono
El Diablo,
você não é um neocon até onde eu constato. Os neocons estão cagando para a política cotidiana dos republicanos.
O problema é que você, assim como muitos republicanos, ainda não chegou chegou no momento em que tanto ao labour quanto os democratas já chegaram de romper com extremismos alucinados (trotskistas e Sister Soulja). A estrutura lógica do GOP está tão deturpada pela montanha de interesses pequenos e alucinados, pelo desejo de prestar reverência à base do partido em detrimento do que acha o resto da população, que é necessária uma faxina. O fato de que Huckabee bateu os candidatos ungidos pela cúpula/contribuidores do partido (Romney e Giuliani), e de que o candidato é aquele que mais atraiu votos de independentes, é um sintoma da crise que atravessa o GOP.
Neste sentido, as vertentes consistentes do conservadorismo foram postas para fora, buscando alternativas, como a anti-candidatura de Ron Paul e agora Bob Barr. A austeridade fiscal, o governo pequeno - valores clássicos do discurso conservador - precisam ser resgatados.
A mulher de Reagan consultava astrólogos, como qualquer príncipe civilizado do passado. Nunca pastores, como Bush.
Last but not least, se os democratas estão tão a esquerda aí, então vai ver por isso que o PFL mudou o nome para partido DE M, vulgo democratas. As propostas de Obama para a saúde aqui, por exemplo, estariam à direita de FhC.
Junho 12, 2008 às 8:01 pm
Me
Samurai
Ufa, fiquei contente aqui. Apesar de que seu brother Smartonauta pode discordar… Nao quero prejudicar essa relacionamento entre vcs
Considerando que o McCain perdeu por muito pouco para o Bush em 2000, eu tendo a discordar dessa sua teoria da “implosao” republicana. O negocio eh que, com pouquissimas excecoes, aqui nos EUA qualquer party que entre numa guerra perde eleicoes seguintes. Truman foi uma excecao, mas foi “a” excecao porque aquela eleicao foi uma baita zebra.
Agora, alem disso, os Republicanos estao sofrendo um pouco mais que o normal mas nao por causa da guerra, e sim por causa do spending sem controle do congresso. Quer dizer, os principios estao la… E nao se esqueca que apesar do McCain nao ser um strong social conservative, ele eh bem forte na economia. Ele NUNCA aprovou uma earmark. Isso eh um huge deal, considerando o tempo que ele esta no senado.
Quanto a orientacao politica dos candidatos brasileiros, vc esta certo. Aqui nos EUA estamos bem mais a direita, e o Obama podia ate ser considerado de centro ai. O que mostra o porque do Brasil continuar do jeitinho que esta.
Junho 12, 2008 às 8:34 pm
samurai no outono
Xará,
earmarks é o chiboquete de quem não quer mexer no que importa, que é o gasto militar e a “incapacidade” do governo americano de usar seu poder de grande comprador para negociar preços mais camaradas com a indústria farmacêutica, para citar os casos mais gritantes.
McCain nunca fez earmarks porque ele operou em esferas mais elevadas de gasto público. Earmarks é coisa para político local, e não para quem trabalha para grandes lobbies. Não preste atenção aos testemunhos de fé porque é nos atos, e nos detalhes, que se esconde o diabo.
Na atual situação fiscal dos EUA, falar em cortes de impostos é uma total irresponsabilidade. Há que se manter e restaurar impostos e cortar os gastos, a começar pela Força Aérea, que perdeu seu sentido após o triunfo sobre a URSS. Quando McCain tiver coragem de vir a público, assumir que o preço relativo da gasolina só tenderá a aumentar no futuro, que read my lips, no new tax cuts porque a festa acabou, e que gastos serão cortados em toda a parte, doa a quem doer, beleza. Mas por enquanto a ameaça só paira sobre pobres, crianças e velhinhos, gente que não dá contribuições de campanha, nem convive com os editores da MSM.
McCain de 2000 não é o McCain de hoje. Este é gagá, oportunista, o oposto do avatar de Ted Roosevelt que ele um dia foi.
Junho 13, 2008 às 9:56 am
Me
Samurai!
Vc ta dizendo que a Hilary e o Obama sao “politicos locais”? Come on man!
Eu vou concordar com vc que cortar impostos agora (quando o Bush cortou foi diferente) seria errado, unless gastos sejam cortados tambem. E qual dos 2 tem pelo menos a chance de cortar gastos? Fica dificil argumentar.
E quanto gasolina, realmente o McCain esta errado. Ele esta sendo o tipico politico. Eu ja critiquei no meu blog essa idea absurda de tax holiday. Mas o McCain pelo menos quer procurar petroleo na costa americana, algo que os democratas (Obama incluso) nao querem. Eh um absurdo.
O McCain continua o mesmo. Acho que a campanha dele dessa vez foi muito mais “independente” do que em 2000 (teve muito menos grana, I can tell you this much)
Junho 13, 2008 às 11:34 am
samurai no outono
Obama está em primeiro mandato, se não me engano. Tem que prestar favores locais. Hilary é uma carpetbagger velha, alguém que caiu de paraquedas em NY para se candidatar ao senado. Portanto, também tem que fazer um esforço redobrado.
O corte de impostos do Bush foi um equívoco. O certo ali era ter enfrentado a realidade, ter resistido a tentação da expansão monetária (coisa que o apparatchik republicano Greenspan não resistiu, obviamente. Essa é a diferença entre um economista como Volker e um randita), ter suspendido gastos com fantasias como defesa estratégica, F-22, CVN Ronald Reagan etc. Gastos com infra-estrutura, medidas induzindo as empresas automobilísticas americanas a reajustarem a sua produção para modelos mais econômicos e partirem para a substituição a longo prazo (10 anos) do motor a explosão por fuel cells, incentivos à produção de energia eólica (coisa que a falecida Enron antevia como futuro) etc, também teriam ajudado a reestruturar a economia americana ante ao que será o mundo nas próximas duas décadas.
Bush nada disso fez. Cortou impostos e manteve e aumentou gastos.
Junho 13, 2008 às 4:53 pm
Me
Samurai
O McCain tambem teve sua epoca de primeiro mandato! Pode parecer um pouco fora de moda, mas alguns politicos ainda tem um certo senso de moral. Ele sempre foi contra earmarks. Vc pode tentar racionalizar porque outros nao seguem esse exemplo, mas fatos sao fatos e nessa area ele coloca a Hilary e o Obama no bolso.
Vc pode ate estar certo sobre o corte de impostos. Muitos economistas dizem que isso nao faz diferenca, porque a diferenca entre defict e aumentar os impostos esta somente daonde vc tira o emprestimo. No fim das contas eh tudo dinheiro que sai de uma area produtiva e vai para outra nem tanto.
A minha maior esperanca eh que esses cortes sejam permanentes e que o governo (seja la de quem for) seja forcado a cortar gastos. Quanto a essa historia de forcar empresas americanas a se reestruturar, acho isso bobagem. Elas estao pagando o preco por nao terem feito, e se fizerem direito sobrevivem. Eu nao tenho problema nenhum em comprar um carro hibrido produzido por qualquer outra empresa (alias, a Toyota ja emprega um monte de gente por aqui - a tendencia eh essa).
O Bush sem duvida deveria ter cortado mais gastos, isso eh indiscutivel. Mas continuo te dizendo: se existe um candidato que ao menos tem chance de cortar gastos esse nao eh o Obama.
Junho 13, 2008 às 6:12 pm
Rafael Figueira
O corte de impostos de 2003 *aumentou* a arrecadacao…
Junho 14, 2008 às 6:21 pm
Me
Rafael,
Mas a populacao aumentou, a economia cresceu… eu ate acredito na curva laffer e acho que a carga de impostos ainda eh alta (especialmente nos top brackets - e ali eh aonde tem mais gente com recursos de achar loopholes e nao pagar nada) mas no fim das contas nao acho que aumento ou nao de receita seja o fator mais importante.
O negocio eh que tem que reduzir a carga e tambem os gastos. Quem for que reduzir pelo menos 1 ja eh melhor que nada.
Junho 15, 2008 às 8:39 am
ohermenauta
Paulo,
O seu problema é que vc acha que os gastos têm que ser diminuídos, mas não na guerra americana no Iraque (que sim, é corporate welfare, que, como já foi provado flui para os bolsos das empresas de defesa e das amigas do rei) e sim no welfare para os pobres e remediatos. O seu problema é que você acha que os impostos têm que ser reduzidos, mas “especialmente nos top brackets”.
E aí, depois disso, você tem a coragem de dizer que os EUA apenas perseguem seus próprios interesses.
Paulo, tenha a coragem de dizer que você acha que a América, a sua América, é um lugar para os ricos _ a única descrição coerente com suas escolhas aí em cima. Tenha a coragem de dizer que os políticos americanos ora no poder perseguem seus próprios interesses, pelo menos! Tenha a decência de não querer defender o assalto republicano ao Estado como algo do interesse de todos os americanos. E muito menos dos pobres do iraquianos ou dos cidadãos dos “estados frágeis” aos olhos do Departamento de Estado.
Se você assumisse isso claramente, eu continuaria discordando de você, mas por outro lado eu não teria que chamá-lo de hipócrita. O que já seria um ganho.