Deu no Estadão:
“Estudo polêmico identifica padrões de deslocamento humano
Pesquisadores dos EUA rastrearam cerca de 100 mil usuários de telefones celulares sem seu consentimento
SÃO PAULO - Pesquisadores norte-americanos rastrearam cerca de 100 mil usuários de telefones celulares em busca de um padrão para os deslocamentos humanos. Sua principal conclusão foi que a maior parte das pessoas se desloca apenas pequenas distâncias no dia-a-dia, além de ir aos mesmos lugares repetidas vezes. O estudo foi realizado pela Universidade Northeastern, de Boston, e publicado na última edição da revista Nature.
Segundo pesquisadores, esse tipo de mapeamento não consensual fornece informações importantes sobre padrões de comportamento individual - dificilmente conseguidas por outros meios - que podem ajudar no controle de doenças contagiosas e no planejamento do tráfego urbano, por exemplo.
Segundo o Yahoo News, embora tenha potencial para uma série de melhorias, esse tipo de uso de informação confidencial envolve questões polêmicas de privacidade e ética, além de ser proibido em muitos países, como nos Estados Unidos e na Alemanha.”
(…)
Resultados
Albert-László Barabási, autor principal do estudo, disse à Nature que os resultados foram surpreendentes. Diferentemente dos estudos anteriores, esse novo trabalho comprova que os seres humanos são criaturas de hábito. A maior parte realiza viagens regulares entre o local de trabalho e moradia, eventualmente intercalando-as com saídas mais longas.
Segundo a Nature, embora esses padrões possam soas óbvios, esse tipo de informação detalhada, raramente conseguida por cientistas, oferece muitas oportunidades de estudo de padrões de movimento. “Nós realmente não sabemos como os seres humanos se movem”, disse Barabási.
“É estranho ver tais regularidades matemáticas em comportamentos tão complexos”, disse Brockmann, autor de outro estudo sobre mobilidade.“
***
Bom.
Se o cara não é um homeless ou um nômade das estepes eurasianas e tem um emprego, eu diria que os resultados desse estudo não são tãããããão revolucionários assim.
Acho que o estudo visa mesmo é combater o terrorismo. Pessoas, por exemplo, que não se movem rotineiramente, ou repentinamente se desviam de seu movimento rotineiro, podem ser suspeitas (ou de terrorismo ou de um affair extraconjugal…). Outra aplicação, penso, seria vigiar grupos de pessoas, onde elas se encontram, etc.
Agora, dizer que isso aí é importante para estudos epidemiológicos…sei não. Não deve existir ambiente mais insalubre e propício à transmissão de doenças que os trens e metrôs, e nem por isso ninguém faz nada a respeito.


9 comments
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Junho 4, 2008 às 7:53 pm
Catatau
Sociedade de controle na veia.
O interessante é que o controle de saúde é a justificativa empregada desde o século XVIII. E de fato, é verdade. Mas digamos que é apenas um tipo de uso possível, dentre vários outros que desde então sempre se fizeram. O que é mais interessante, diferente das outras épocas, é precisamente poder demarcar esse tipo de padrão a “céu aberto”, ao invés de ter que fazer o agente de saúde visitar todas as casas, ou o policial patrulhar a rua, por exemplo.
Junho 4, 2008 às 8:55 pm
sleo
Lição nº 43 do terrorista moderno: desligue o celula, antes de qualquer coisa.
O que deve ter de detetive particular monitorando madame pelo deslocamento do celular não é brincadeira.
Junho 5, 2008 às 12:59 pm
Rafael Figueira
“Agora, dizer que isso aí é importante para estudos epidemiológicos…sei não.”
Epidemiologos usam padroes de deslocamento humano para estimar a direcao e velocidade de distribuicao de doencas contagiosas. Esses padroes sao ideia antiga, no Brasil o Oswaldo Cruz foi o pioneiro. Mas como alguem ja’ disse ai em cima, essa e’ *uma* das aplicacoes.
Lembrando q a polemica nesse caso foi q o monitoramento por celular foi nao-consensual. Nos EUA ja’ fizeram pesquisa semelhante mas os participantes autorizararam. E as telefonicas oferecem o servico de rastreamento pra quem quiser.
Junho 5, 2008 às 1:17 pm
ohermenauta
A questão é: conhecida a forma de contágio, saber quais são os lugares mais prováveis de disseminação da doença não é algo tão complicado assim. Como você disse, no tempo de Oswaldo Cruz já se sabia disso. Então, essa justificativa aí me parece a mesma que embasa o uso de canhões para matar mosquitos, ainda que seja bastante interessante.
Junho 5, 2008 às 1:46 pm
Rafael Figueira
No tempo do Oswaldo Cruz o meio mais comum de locomocao a longa distancia era navio: levava um mes para ir do Rio a Paris.
Na verdade o problema e’ mais complicado q parece. Toquio e seus metros tem um padrao bem diferente de Los Angeles e suas highways. Padroes diferentes vao levar a velocidade e direcao de disseminacao diferentes. Ate’ hoje os estudos eram em pequena escala, dando um GPS para os voluntarios, ou em larga escala no esquema de entrevista (nao tao reliable).
O lugar-comum e’ de q na “aldeia global”, com voos frequentes, as pessoas se movem mais rapido e mais frequentemente. Lembra do pavor da SARS se espalhar pelo mundo pelos aeroportos? Uma das conclusoes desse estudo foi q as pessoas se locomovem bem menos do q se assumia.
Junho 5, 2008 às 4:51 pm
ohermenauta
Rafael,
Todo metrô do mundo tem grandes estações de transbordo onde todo mundo, enfim, se mistura _ é a forma mais eficiente de se aproveitar a rede. Duvido, portanto, que faça muita diferença a direção ou a velocidade dos deslocamentos, pois tudo acaba em um melting pot, e ninguém fica medindo a velocidade de transmissão de uma epidemia em horas, só nos filmes.
Junho 5, 2008 às 6:12 pm
Sales
Eu acho que esta forma de acompanhamento do movimento das pessoas é uma excelente ferramenta de ajuda na formulação de políticas públicas de transporte, formulação de planos diretores para cidade e coisas do gênero. Isto deveria ser regulado. A possibilidade de se usar isso para bisbilhotagem seria então regulada judicialmente, assim como as escutas telefônicas. Não devemos nos preocupar com a perda de privacidade. Ela já existe, por exemplo, nas câmeras que nos observam em muitos lugares (lojas, ruas, condomínios, etc), nos questionários de censos do IBGE, nos cadastros de sites e pelo google. Em Viena, por exemplo, todo morador deve informar à polícia quando se muda e para onde muda e ninguém se ofende por isto.
Junho 5, 2008 às 7:03 pm
Rafael Figueira
“Duvido, portanto, que faça muita diferença a direção ou a velocidade dos deslocamentos”
Garanto, por experiencia propria, q para o CDC em Atlanta faz diferenca.
“ninguém fica medindo a velocidade de transmissão de uma epidemia em horas”
Durante a crise do SARS em 2004, o CDC publicava boletins internos a cada quatro horas. Vc nao tem ideia do grau de paranoia e controle la’ dentro. Ou, como dizia o meu gerente de projeto: “paranoids are the others; we are just ready”.
Junho 5, 2008 às 11:22 pm
Luiz
Sales, tomando por base as últimas loucuras perpetradas por austríacos até que esse controle soa muito compreensível…