Tio Rei pirou na batatinha:
“É evidente que o termo ausente, mas muito presente, nesse fundamentalismo científico que acena com a reposição de órgãos — “troca as velas; troca a rebinboca da parafuseta” — é a vida eterna. O paralelo mítico é óbvio demais para não ser mencionado. Os cientistas decidiram que era hora de roubar o fogo, como Prometeu. Aquele se deu mal. A gente vai se dar melhor? Não sei. Tomara que sim.“
Humm….
Olha, desculpem-me por ser um tanto pessoal dessa vez. Mas é preciso.
Tio Rei teve um tumor no cérebro. Operou. Está por aí, vivinho da silva, criticando a ciência médica. Ok, tem alguém que o paga pra isso, deve render pageviews…mas um pouco de coerência, um pouquinho só, até que seria aconselhável.
Até eu, que sou ateu, sei que viver pra sempre é impossível. Impossível porque o universo terminará ou em morte térmica ou em uma nova singularidade, de uma forma ou outra apagando toda a informação disponível _ e informação é tudo o que somos.
Curiosamente, se há um campo da reflexão humana que tenta alicerçar a crença em uma vida eterna, é justamente a religião, vejam só.
E só para fechar: Prometeu se deu mal, mas se deu mal para a gente se dar bem. Acho que ele fez uma comparação meio besta, já que Prometeu afinal é o mito fundador da civilização entre os gregos. “Civilização” é uma palavra com a qual Tio Rei gosta de encher a boca, portanto soa estranho que ele vá fazer troça de Prometeu só por causa das células-tronco. Mas ele se entrega:
“É isso aí, crianças. Alguns me supõem, como dizem, “derrotado” com o resultado da votação no Supremo. Que tolice! Raramente senti tanta disposição para escrever e tanta energia para sustentar meus pontos de vista.“
É, realmente a sentença do STF deixou o Reinaldão que nem barata tonta…mas a coisa piora. Em outro post, ele comenta uma declaração do Elio Gaspari em sua coluna dominical na Folha. Gaspari disse:
“No julgamento das células-tronco, o ministro Carlos Alberto Direito sugeriu que as pesquisas sejam autorizadas por “órgão federal integrado por equipe multidisciplinar” de diversos especialistas, inclusive de “outras áreas do saber, como o direito, a sociologia, a teologia, a ética e a matemática”. Tudo bem que o ministro se aconselhe com doutores em teologia, mas um cidadão que compartilha muitos de seus valores, sem a graça de sua fé cristã, fica no direito de achar que ele teve um lampejo iraniano, associando decisões de pesquisas científicas à sabedoria de aiatolás.“
Está claro? Gaspari estranhou a idéia de termos téologos opinando sobre política pública. E assimilou a idéia aos regimes fundamentalistas muçulmanos, onde doutores da lei islâmica, os aiatolás, é quem decidem as coisas. A meu ver a comparação procede.
A discussão é boa porque levanta uma lebre curiosa. Talvez os senhores 4,5 leitores não saibam, mas o Ministério da Educação reconhece as faculdades de teologia, e a atividade de “teólogo” está registrada na Classificação Brasileira de Ocupações, código T2631-15, sob a designação mais ampla:
“Teólogo – Agbá , Álim , Bokonô , Cádi , Consagrado , Conselheiro correicional eclesiástico , Conselheiro do tribunal eclesiástico , Especialista em história da tradição, doutrina e textos sagrados , Exegeta , Imã , Juiz do tribunal eclesiástico , Leigo consagrado , Mufti , Obá , Teóloga.“
As competências pessoais requeridas, na CBO, são as seguintes:
| 1 | Estudar a doutrina religiosa |
| 2 | Participar de atividades inter-religiosas |
| 3 | Estar aberto ao diálogo inter-religioso |
| 4 | Receber a revelação |
| 5 | Receber palavras de inspiração |
| 6 | Viver coerentemente com os ensinamentos |
| 7 | Fortalecer a fé através de atos, devoções e orações |
| 8 | Respeitar as tradições religiosas e seus preceitos morais |
| 9 | Professar a fé |
| 10 | Buscar equilíbrio de vida |
| 11 | Cultivar o amor, a justiça, a paz, a sabedoria e a compaixão |
| 12 | Estudar os valores humanos e princípios religiosos |
| 13 | Manter-se atualizado nas questões sociais polêmicas |
Pra completar, existem projetos de Lei no Congresso visando legalizar a profissão de teólogo. Talvez não cause espanto saber que a principal delas é de autoria do Bispo Marcelo Crivella. Diz sua justificativa:
“Apesar de vivermos num mundo secularizado e consumista, nunca se viu tanto interesse pela religião e sua aplicação em todos os setores em que atua o homem. Em conseqüência, a regulamentação do exercício dessa profissão se faz imperiosa, a fim de afastar do meio profissional aventureiros que podem causar sérios danos à transmissão científica de conhecimentos nessa importante área das ciências humanas.“
Nota-se que como toda regulamentação profissional, também a de teólogo visa criar “barreiras à entrada” para a concorrência…mas o que diz o projeto sobre as competências do teólogo?
“Art. 2º. Compete ao Teólogo:
I – ministrar o ensino da Teologia, desde que cumpridas as exigências legais;
II – elaborar, supervisionar, orientar, coordenar, planejar, programar, implantar, controlar, dirigir, executar, analisar ou avaliar estudos, trabalhos, pesquisas, planos, programas e projetos atinentes à realidade científica da religião;
III – assessorar e prestar consultoria a pessoas físicas e jurídicas, públicas ou privadas, relativamente à realidade científica da religião;
IV – participar dos trabalhos de elaboração, supervisão, orientação, coordenação, planejamento, programação, implantação, direção, controle, execução, análise ou avaliação de estudo, trabalho, pesquisa, plano, programa ou projeto global, regional ou setorial, atinente à realidade científica da religião.“
Pergunta-se: o que tem a ver a pesquisa com células tronco com a “realidade científica da religião”? Tio Rei mesmo percebeu que a única linha de defesa possível para a sua posição é a de subsumi-la a uma questão ética, não religiosa (embora eu tenha certeza de que ele já tenha dito anteriormente que essa divisão não existe). Bem, se o Brasil é um país onde impera a separação entre Igreja e Estado, qual a lógica em se colocar questões atinentes à “realidade científica da religião” na discussão de políticas públicas? É melhor o doutor Direito, bem como Tio Rei, pensarem bem no assunto, ou breve teremos teólogos indígenas xamânicos pedindo assento nos fóruns de discussão sobre a Amazônia…
Mas Tio Rei ataca:
“Comento
A sacada de Elio Gaspari parece esperta, mas é espantosamente obscurantista. Eu não sabia que a teologia era matéria de interesse apenas dos crentes – ou de quem tem “a graça da fé cristã”. Qual é o vínculo necessário – causal, histórico ou de conteúdo – entre a “graça da fé cristã” e os “aiatolás”?“
Total. Como sabe qualquer um que tenha lido um pouquinho sobre perenialismo e tradição, há um grande número de conservadores de índole religiosa que nutre uma grande dor de cotovelo em relação ao Islã, tido por eles como aquilo que o Ocidente deveria ter sido, de fato _ um lugar onde a religião jamais perdeu o comando sobre a sociedade. Uma batalha que a Igreja perdeu no Ocidente desde o Renascimento _ o que não quer dizer que ela admita ter perdido a guerra.
“Mais uma vez, fica evidenciado o que venho afirmando desde que este debate começou: boa parte da aparente militância científica é, de fato, militância anticatólica. Talvez Gaspari devesse escrever um livro demonstrando como a teologia cristã contribuiu para criar o horror na civilização ocidental. No segundo volume, pode sugerir caminhos para que nos livremos desse fardo. Será uma revolução.“
Não, Tio Rei. O certo é dizer assim: “a militância anticientífica é uma militância religiosa”. E estamos conversados.



20 comments
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Junho 1, 2008 às 3:30 pm
JH
Sobre o mito fundador: RA deveria achar, portanto, que o JC também se deu mal. E outros tantos.
Junho 1, 2008 às 8:34 pm
Rafael M
“Tio Rei teve um tumor no cérebro. Operou. Está por aí, vivinho da silva, criticando a ciência médica. Ok, tem alguém que o paga pra isso, deve render pageviews…mas um pouco de coerência, um pouquinho só, até que seria aconselhável.”
O fato do Reinaldo Azevedo abusar das falácias nestes posts sobre as células-tronco não nos obriga a usar falácias para rebatê-lo.
Ao criticar as pesquisas com células-tronco, ele deixou claro que não era contra todas as pesquisas científicas, com o que ele pode ter o cérebro operado *e* criticar esse tipo de pesquisas sem ser incoerente.
Afinal de contas, é impossível provar que todas as pesquisas científicas devem ser permitidas. Você, por exemplo, não gosta de neuromarketing (eu acho bacana). Se você pode ser contra pesquisas em neuromarketing sem ser anti-científico, ele pode ser contra pesquisas com células-tronco sem ser contra a ciência, e portanto ele pode operar o cérebro sem ser hipócrita.
E ainda que ele fosse hipócrita (suponhamos que ele operou o cérebro e colocou células tronco lá para ver se cresce cabelo), ainda assim criticá-lo por isso é cair em um tu quoque, com o que declinamos de rebater seus argumentos para chama-lo de incoerente. Acontece que os argumentos dele poderiam ser perfeitos e válidos, mesmo com ele hipócrita.
Junho 1, 2008 às 8:54 pm
Márcia W.
Hermê,
ó céus, enquanto essa nova singularidade não vem, espero poder me divertir um pouco nessa vidinha aqui na perifa da galáxia, onde, yes, I know, it´s only rock´n´roll but I like, I like it, yes I do….
Junho 1, 2008 às 10:43 pm
ohermenauta
Rafael,
Veja bem o que diz o Reinaldão:
“É evidente que o termo ausente, mas muito presente, nesse fundamentalismo científico que acena com a reposição de órgãos — “troca as velas; troca a rebinboca da parafuseta” — é a vida eterna.”
O que ele está criticando aqui não é a tecnologia empregada, é o seu propósito. Se você for lá no post verá que ele cita um trecho do romance “Memórias de Adriano”:
“Quando tivermos reduzido o máximo possível as servidões inúteis, evitado as desgraças desnecessárias, restará sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de males verdadeiros: a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não partilhado, a amizade rejeitada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta do que nossos projetos e mais enevoada do que nossos sonhos. Enfim, todas as desventuras causadas pela divina natureza das coisas.”
Evidentemente, trata-se de um elogio do processo pelo qual o Homem reconhece sua finitude e impotência diante do destino, ou melhor dizendo, do divino. Entre estes acontecimentos didáticos estão “as doenças incuráveis”. Ele mesmo reforça o argumento:
“A cultura vislumbra uma espécie de Eldorado existencial. Antevê um novo paraíso em que nos levantamos do medo ancestral da morte para a eternidade experimentada como matéria. Desculpem: é uma tolice sob qualquer ponto de vista que se queira. Mas estes dias precisam desta crença.”
Ora, se o medo ancestral da morte é uma tolice, porque diabos ele procurou evitá-la a todo custo?
Quer saber? Me parece que diante da derrota de sua posição Reinaldo procurou sair da história de modo altaneiro, buscando refúgio no que pra ele passa por “alta cultura”, uma crítica ao amor exagerado à vida. Neste sentido, como paciente de uma cirurgia cerebral, não dá pra dizer que ele seja outra coisa que não um hipócrita, sinto muito.
Quanto a isto:
“E ainda que ele fosse hipócrita (suponhamos que ele operou o cérebro e colocou células tronco lá para ver se cresce cabelo), ainda assim criticá-lo por isso é cair em um tu quoque, com o que declinamos de rebater seus argumentos para chama-lo de incoerente. Acontece que os argumentos dele poderiam ser perfeitos e válidos, mesmo com ele hipócrita.”
Me parece que você está sendo desnecessariamente partisan nessa. Os argumentos, estes já discutimos aqui no blog abundantemente em outros posts, como você bem sabe. Não precisa ficar criando um teatro de sombras para assumir sua admiração pelo Reinaldão, Rafael.
Junho 2, 2008 às 12:01 am
Rafael M
Que coisa feia, Hermê… Inventou uma versão reinaldina do reductio ad hitlerum?
Junho 2, 2008 às 1:07 am
ohermenauta
The proof of the pudding is in the eating.
Não basta fingir que não entendeu, tem que explicitar.
Junho 2, 2008 às 1:33 am
Zezolin
“reinações dos reinaldinos”, para mim, são um bálsamo. Anoto, como curiosidade, o fato de manifestações pró R.A. serem tão pessoais num primeiro embate e depois, na répilca, tão evasivas.
Pode repara nos posts anteriores.
Junho 2, 2008 às 4:51 am
Adriano
Reinaldo poderia replicar a esta simplesmente dizendo que ele não quis viver eternamente, só viver mais um pouquinho. E há um post dele, no início, em que ele tematiza um texto de Demétrio Magnoli no Estadão, em que ele parece estar bastante próximo de defender a pesquisa com células tronco.
Mas o ridículo mesmo é acharem que bioética implica atraso religioso anti-científico.
Junho 2, 2008 às 4:57 am
Adriano
O texto de março chama-se Um texto de Demétrio Magnoli. Com luzes e nenhuma sombra. Recomendo que leiam também o texto de Demétrio Magnoli citado no texto anterior, Luzes e sombras.
Junho 2, 2008 às 7:43 am
ohermenauta
Ridículo mesmo é acharem que pesquisa biológica equivale a querer ser um ente não-existente. Ou que de em pouquinho em pouquinho não se chega à Eternidade.
Junho 2, 2008 às 1:19 pm
Guilevy
Ademais, esse papo de “vida eterna” é furado na origem. Se é eterna, não é vida, é outra coisa. E essa outra coisa é muito metafísica para o meu gosto.
Viva a Morte!
Junho 2, 2008 às 3:27 pm
Adriano
“Se é eterna, não é vida” deveria figurar nos livros de introdução à lógica como exemplo de non sequitur primário.
“Um ente não-existente”, Hermenauta? Que andou bebendo no fim de semana?
Junho 2, 2008 às 6:50 pm
Guilevy
Adriano,
fui eu quem bebi, e acho qua a ressaca persiste porque não sei aonde você encherga um non sequitur.
O que eu quis dizer, e talvez você não tenha entendido, é que “vida eterna” é um non sequitur.
Junho 2, 2008 às 6:56 pm
Guilevy
“Fui eu quem bebeu“, sorry.
É, a ressaca persiste…
Junho 2, 2008 às 7:09 pm
Adriano
Explico: de que só conheçamos seres vivos mortais não implica que todos seres vivos em todos os mundos possíveis sejam também imortais.
Junho 2, 2008 às 7:10 pm
Adriano
*mortais
Junho 2, 2008 às 7:43 pm
Guilevy
Adriano,
seres vivos mortais é redundante. Aqui na Terra como no “Céu”. Ontologicamente falando, “ser vivo imortal” é Deus, e eu não acredito em Deus.
Como escrevi antes, muita metafísica para o meu gosto…
Junho 2, 2008 às 7:50 pm
Adriano
A questão não é se v. acredita em Deus ou seja no que for. O problema é que v. não pode argumentar ad ignorantiam, e não pode concluir de que um ser seja vivo, que logo seja mortal. A sua premissa é insuficiente para a conclusão.
Junho 2, 2008 às 9:33 pm
Guilevy
Não só posso como vou concluir: se é um ser vivo, é mortal. Vida é procriação, e a morte seu sentido. Morremos para nossos filhos viverem (nascerem), senão não existiriam. Por que um ser imortal haveria de querê-los? Porque são bonitinhos e cheirosinhos? Ou para vê-los sentados à direita do “Pai”?
Um ser imortal, mais dia, menos dia, viu tudo, esteve em todos os lugares, tudo conhece. Aí, nesse dia, ele comete a seguinte frase, revertendo a entropia:
“Fiat lux”.
Junho 3, 2008 às 8:46 am
João da Luz
Voltando ao início
A religião sempre foi contra o avanço científico.
É só dar uma olhadinha no passado recente. Há menos de 70 anos a igreja era contra a anestesia em partos, por ex.
Há 500 anos dizia que o corpo humano era inviolável e condenava qq cientista( curioso) que fizesse dissecação a fogueira. Isto representou anos de atraso na medicina.
Para se ter uma idéia, o índice de sobrevivência em hospitais de batalha na época romana só foi atingido novamente na primeira guerra mundial.
Esta atitude da Igreja é a mesma no caso das células tronco.
Ela continua tendo os defensores que são hipócritas, sim, ao utilizarem todo o progresso científico para dar uma esticada na vida ou diminuir o sofrimento. Que morram feito bestas.
Abraços fraternais…