No Valor de hoje, o Supremo em vias de tornar o país ingovernável:
“Celso de Mello seguiu os votos dos ministros Eros Grau, Cármen Lúcia Antunes Rocha, Carlos Ayres Britto, Marco Aurélio Mello e do presidente do STF, Gilmar Mendes, que foram proferidos no início do julgamento em 17 de abril passado. Eles concluíram que as despesas liberadas por MPs não eram urgentes, mas previsíveis. Como exemplo, Mendes citou a provisão de verbas para: combater a gripe aviária, melhorar o policiamento nas rodovias, evitar invasões em terras indígenas e acidentes com aeronaves.
Já os ministros Cezar Peluso, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Carlos Alberto Direito e Ellen Gracie entenderam que não cabe ao Supremo examinar a pertinência da liberação de créditos. Essa seria uma competência do Executivo, com a posterior apreciação do Congresso Nacional. “Não há quem aprecie as MPs, mecanismo mais impopular que o decreto-lei”, afirmou Ellen Gracie. “Mas também não há quem discorde da necessidade de um mecanismo extraordinário que garanta a governabilidade”, completou a ministra. Para ela, as MPs são um mecanismo que garante a manutenção dos programas do governo “em momentos de apagão legislativo“.
***
O ministro Mendes anda tão confuso que disse que um surto de gripe aviária é previsível, quando na verdade estaria coberto pelo requisito de urgência que autorizaria uma MP. O problema agora é: qual a constitucionalidade de termos o Supremo usurpando o papel do Legislativo em dizer se uma MP é urgente ou não é?
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Digno de nota é o fato de vários Ministros indicados por Lula terem votado contra as MP’s, ao passo que a Ellen Gracie, indicada por FHC, votou a favor. Se bem que o voto da Ministra também pode ter algo a ver com isto.
Com a possível saída de Ellen, Lula indicará seu oitavo ministro do Supremo, possivelmente um recorde na história do tribunal (com a possível excessão dos presidentes militares, onde, por outro lado, o Supremo não servia para nada mesmo). Que ele continue tomando tundas do STF é algo que só o espírito de Earl Warren, o traidor, explica.
Na íntegra abaixo, para os sem-Valor.
STF limita ação do governo federal sobre o Orçamento
Juliano Basile
15/05/2008
O Supremo Tribunal Federal (STF) limitou, ontem, o poder de o presidente da República abrir créditos extraordinários ao Orçamento através de medidas provisórias. A partir de agora, o governo só poderá abrir despesas extraordinárias - após a aprovação do Orçamento pelo Congresso - nos casos de calamidade pública, guerra e comoção interna.
Ao todo, o governo liberou R$ 25,1 bilhões em créditos por MPs entre o fim do ano passado e o início deste ano. O DEM e o PSDB entraram com oito ações no STF contra essas liberações, alegando que elas foram impostas pelo Executivo, sem votação prévia no Congresso Nacional.
Ontem, o tribunal julgou ação direta de inconstitucionalidade do PSDB contra a MP nº 405, que liberou R$ 5,45 bilhões para a Justiça Eleitoral e diversos órgãos do Executivo. Os ministros suspenderam a MP por seis votos a cinco. Na prática, não haverá retorno deste dinheiro, que já foi liberado. A MP já foi convertida em lei pelo Congresso. O que ficou definida é a orientação do STF de que não serão aceitas novas MPs abrindo créditos no Orçamento no futuro. O Supremo só permitirá essas MPs nas hipóteses previstas no artigo 167, parágrafo 3º , da Constituição: para atender despesas imprevisíveis e urgentes, como as decorrentes de guerra, comoção interna ou calamidade pública.
Durante a votação, o decano do STF, ministro Celso de Mello, ressaltou que o governo usou 23 MPs para liberar R$ 62,5 bilhões em créditos extraordinários desde 1º de janeiro de 2007. Segundo ele, este montante representa 10% do orçamento no período. “Em outras palavras, tem-se na prática um orçamento paralelo”, criticou.
Mello disse ainda que, desde 1988, os presidentes da República editaram mais do que o dobro de MPs do que os decretos-leis dos presidentes militares. “Vale dizer: os curadores do regime autoritário editaram ao longo de 21 anos 2282 decretos-leis em proporção bem inferior ao volume de MPs sob a égide da atual Constituição”, apontou o ministro sem citar o número de MPs editadas após 1988. “A crescente apropriação institucional do poder de legislar por sucessivos presidentes da República tem suscitado preocupações em razão do fato de a edição de MPs ter causado profundas distorções no Poder Legislativo.”
Mello advertiu que as sucessivas edições de MPs podem paralisar a agenda do Congresso Nacional. Isso porque, se não forem votadas num prazo de 30 dias, renovados por igual período, as MPs trancam a pauta do Congresso, impossibilitando a votação de qualquer projeto. Segundo o ministro, essa situação leva ao risco de o Executivo “converter-se em instância hegemônica de poder”, com o presidente da República legislando no lugar do Congresso.
Celso de Mello seguiu os votos dos ministros Eros Grau, Cármen Lúcia Antunes Rocha, Carlos Ayres Britto, Marco Aurélio Mello e do presidente do STF, Gilmar Mendes, que foram proferidos no início do julgamento em 17 de abril passado. Eles concluíram que as despesas liberadas por MPs não eram urgentes, mas previsíveis. Como exemplo, Mendes citou a provisão de verbas para: combater a gripe aviária, melhorar o policiamento nas rodovias, evitar invasões em terras indígenas e acidentes com aeronaves.
Já os ministros Cezar Peluso, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Carlos Alberto Direito e Ellen Gracie entenderam que não cabe ao Supremo examinar a pertinência da liberação de créditos. Essa seria uma competência do Executivo, com a posterior apreciação do Congresso Nacional. “Não há quem aprecie as MPs, mecanismo mais impopular que o decreto-lei”, afirmou Ellen Gracie. “Mas também não há quem discorde da necessidade de um mecanismo extraordinário que garanta a governabilidade”, completou a ministra. Para ela, as MPs são um mecanismo que garante a manutenção dos programas do governo “em momentos de apagão legislativo”.
Após o julgamento, o advogado-geral da União, ministro José Antonio Dias Toffoli, afirmou que o presidente Lula manteve o seu poder de editar MPs, mas que deverá fazê-lo observando os requisitos de relevância e urgência.
O STF terá de julgar nos próximos dias mais de R$ 19,5 bilhões liberados de forma extraordinária por MPs ao Orçamento deste ano. A expectativa é que tenham o mesmo destino da ação de ontem: as MPs serão suspensas, mas a liberação dos valores fica mantida.


23 comments
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Maio 15, 2008 às 10:45 am
the talk of the town
Perai. Para tudo.
Uma epoca me chamavam de tucano. Agora me chamam de petista. Mas não tem nada disso, é que eu tenho bom senso e defendo o que presta em cada governo, e critico o que não presta.
Ao Supremo:
O Lula é um governante conservador. Suas indicações para o Supremo foram todas conservadoras. Vir com essa de traição não cola. Ele está obtendo o que ele plantou. Bem como a questão das pesquisas com celula-tronco. E por ai vai. E vai vir mais.
Agora se a oposição (qdo falo isso não falo de Agripinos e Virgilios, estou falando de FHCs e Bornhausens) está por trás desse tipo de decisão (como esteve na CPMF) é tiro no pé. Eles acham que qdo o Serra (e/ou Aecio) estiverem no poder, com um PT na oposição, a vida vai ser mais fácil?
Pra mim é a prova do qto são pateticos. E joga por agua abaixo a “lenda” de que são ótimos estrategistas politicos.
Agora vamos e convenhamos, que Congressinho de merda a gente tem ein?
Maio 15, 2008 às 10:50 am
the talk of the town
PS.: Até aonde sei Supremos e Bancos Centrais são SEMPRE conservadores, mas não precisa ser tanto, qto é no Brasil, né?
Maio 15, 2008 às 11:38 am
Anonimo
Foi sarcástica a referência à ingovernabilidade do país sem MPs?
MP é um instrumento flagrantemente antidemocrático. Permite ao presidente governar por decreto. O mesmo vale para essa ficção do orçamento autorizativo.
Por outro lado, quem em sã consciência tem coragem de defender as prerrogativas desse parlamento que está aí?
É um dilema muito sério.
Maio 15, 2008 às 12:39 pm
marcos
Antidemocrático é ótima… democracia agora virou ficar parado olhando pro teto…
Maio 15, 2008 às 1:21 pm
Anonimo
marcos, se vc nunca ouviu falar em separação de poderes, em limites às prerrogativas do presidente, etc., etc., sugiro que vc vá se catar. Na Venezuela.
Maio 15, 2008 às 1:49 pm
ohermenauta
Talk,
Sim, é claro que há a questão política, que influi nas indicações presidenciais para o Supremo, desde a política das corporações quanto a política em si mesma, já que as indicações devem ser aprovadas pelo Senado (embora no Brasil eu ache que a primeira ainda é mais importante que a segunda, ao contrário do que ocorre nos EUA onde o grande temor de um presidente é que seu indicado seja “borked”).
Um problema com a política no Brasil é que a oposição não age pensando na governabilidade, mas sim em criar problemas para o governo de plantão visando assumir seu lugar em uma eleição futura. O PT agiu assim, e PSDB e DEM agem da mesma forma agora. A razão é clara: por piores que se tornem as condições de governabilidade, a posse do poder sempre abre à classe política a oportunidade para ganhos imediatos.
Eis porque discordo do “anônimo”. Em um sistema presidencialista o presidente tem mesmo que ter mais poderes, do contrário toda e qualquer questão se torna imediatamente um pretexto para negociações e moeda de troca no Parlamento.
Acho que nesse sentido seria útil um trabalho sistemático que comparasse os poderes presidenciais no Brasil com os de presidentes de países com grande tradição democrática, como os EUA e a França. Por exemplo:
a) Franklin D. Roosevelt mandou 120.000 japoneses para campos de concentração por decreto (”executive order”, um instituto que sequer consta da constituição dos EUA).
b) também nos EUA, existe um instituto chamado “presidential signing statement” onde o presidente, ao assinar uma lei, pode declarar QUAIS TRECHOS da Lei ele pretende executar.
Maio 15, 2008 às 2:48 pm
Anonimo
Hermenauta, para que serve o Congresso no teu conceito de democracia?
(a) Você está falando de uma situação de guerra, onde o poder do executivo sempre cresce.
(b) pode ser, mas não se esqueça que essas ações têm conseqüências. O Congresso tem instrumentos poderosos na mão, sendo o mais poderoso deles o orçamento. E tem a Suprema Corte, que normalmente não deixa barato.
Maio 15, 2008 às 3:01 pm
ohermenauta
Anônimo, para que serve o Presidente no teu conceito de democracia?
a) pois é, deve ser por isso que nos EUA eles estão sempre em guerra: war on drugs, war on terror…
b) pois é, aqui também.
Veja, não estou querendo esculhambar o Congresso. Apenas estou avançando a idéia de que cada situação merece o devido arranjo institucional. Não dá pra comparar o Brasil nem com estáveis e antigas democracias parlamentaristas, nem com países onde não existe o convívio do moderno com o ultra-atrasado como no Brasil. Aqui, pra começar, o Presidente tem a prerrogativa de enviar projetos de Lei ao Congresso, coisa que não existe nos EUA, por exemplo. E isso não é ruim, acho eu _ eu tenho alguma experiência em analisar projetos de lei vindos do Congresso e pelamordedeus.
Maio 15, 2008 às 3:23 pm
Anonimo
Hermenauta,
a) exato. Vc agora vai defender a imperial presidency do George W.?
b) aqui o orçamento é ficção.
Como indiquei acima, acho muito foda defender prerrogativas do congresso hoje no Brasil. Por outro lado, eleger um monarca absoluto a cada 4 anos não é democracia.
Maio 15, 2008 às 3:38 pm
marcos
Ouvi eu já até ouvi. Ver funcionando? Nunca.
Que eu saiba também não existia na fundação da democracia também, que tinha muito mais que ver com eficácia do que com eficiência.
Maio 15, 2008 às 3:59 pm
ohermenauta
Anonimo,
Eu até concordo, mas é exagero dizer que o presidente brasileiro é um “monarca absoluto”.
Eu até sou pela diminuição dos poderes presidenciais _ na exata medida da melhora da nossa representação congressual. Mas isso não ocorre de hora para outra.
Maio 15, 2008 às 4:13 pm
Anonimo
Hermenauta, é claro que é exagero, isso aqui é blog
Maio 15, 2008 às 7:20 pm
Cássio Borges
Hermê:
Troco dez ministros do supremo, toga modelo 2002 em diante, em excelente estado de conservação, modelo top de linha, com airbag, freio ABS por um congressista novo ou seminovo, que legisle.
O presidencialismo brasileiro, assim como o parlamentarismo francês, tem atributos monárquicos. A MP é o exemplo mais típico, entre outros.
Vale lembrar que a gripe aviária foi emergência na Ásia, mas nunca no Brasil.
Maio 15, 2008 às 8:06 pm
ohermenauta
Cássio,
Eu sei que a gripe aviária nunca foi emergência no Brasil. Isto não quer dizer, porém, que não possa vir a ser. Em um caso desses só por MP, ao contrário do que diz o Ministro, que parece pensar que seria uma boa hora de mandar um PL pro Congresso…
Maio 15, 2008 às 9:42 pm
Cássio Borges
You’re nitpicking.
Maio 16, 2008 às 12:04 am
André Kenji
Cassio
Juizes devem julgar. Quem aprova leis é o Congresso.
Maio 16, 2008 às 12:10 am
André Kenji
Eu até concordo, mas é exagero dizer que o presidente brasileiro é um “monarca absoluto”.
Acho que o problema é o contrário: o presidente é refém de um Congresso eleito por normas disfuncionais(Distribuição desigual de senadores e deputados, falta de distritos que dá muita força à capital nos estados maiores, etc) e com excesso de partidos. É um presidente num sistema legislativo parlamentarista. Eca.
Maio 16, 2008 às 8:07 pm
Cássio
André:
Certo, essa aula eu juro que não faltei. O caso em questão é que o Judiciário está assumindo o papel de Legislativo - os juízes do STF estão legislando, o Legislativo está assumindo o papel do Executivo - a CPI é isso - e o Executivo está assumindo o papel do Legislativo, editando MPs.
Agora, será que quando a gente tenta ser cômico em português precisa de legenda? Talvez aquele famoso gesto com a mão, do polegar e indicador abertos e o pulso girando, acompanhado dum sorriso, seja melhor.
Maio 16, 2008 às 9:33 pm
Rafael Figueira
“refém de um Congresso eleito por normas disfuncionais(Distribuição desigual de senadores e deputados, falta de distritos que dá muita força à capital nos estados maiores, etc)”
Se o interiorrr dos estados recebesse mais autoridade atraves dos distritos, seria um deus-nos-acuda.
Talvez o problema da distribuicao legislativa esteja relacionado aa ma’ distribuicao populacional e economica do pais. 25% da populacao esta’ em cinco regioes metropolitanas, as cinco capitais dos estados q concentram 2/3 do PIB nacional. Qualquer distribuicao de legisladores sera’ injusta, vai tirar poder dos centros economicos ou vai alienar a maior parte do pais. Um caso classico de cobertor muito curto.
Maio 16, 2008 às 10:47 pm
A.
Por isso eu sou a favor de sobretaxar os ricos no sul-sudeste e subtaxar os pobres no norte-nordeste. Desenvolva essas regiões no país (principalmente o norte inabitado) e aí a gente começa a falar a sério. Estradas de ferro, Deus. Acho que seria a única coisa que um presidente deveria fazer, estradas de ferro. O resto viria em conseqüência. (:
Mas, falando sério, interligando o país e diminuindo as concentrações demográficas, tudo melhora. Transporte, educação, saúde, etc., etc.
Se os militares temem perder partes do Brasil, que antes pensem em unificá-lo de verdade.
Maio 17, 2008 às 3:22 am
André Kenji
Rafael
Não é só o interior. Boa parte da Grande São Paulo ficou sem representação, inclusive cidades importantes. Na verdade. isso significa dar um representante à população que poderia sancionar deputados nas urnas com mais facilidade . Hoje é bagunça. O problema é que os deputados não são sujeitos a nenhum tipo de controle por parte da população.
Maio 17, 2008 às 3:28 am
André Kenji
Adriano
Aliás, minha solução para evitar “perder” a Amazônia era terminar as Ferrovias Norte-Sul até Belém e a Ferronorte até Porto Velho. Isso cercaria a Amazônia enquanto que bases militares sobre pontos estratégicos fariam o resto do controle.
Maio 18, 2008 às 5:03 pm
Rafael Figueira
Kenji, concordo com vc: cidades importantes ficam sem representacao. Mas e’ como eu disse, o pais e’ mal distribuido. Se cidades importantes em SP tivessem mais representacao, vastas extensoes com pouca gente (e gente pobre) perderiam representacao. E’ a estoria do cobertor curto.