Mangabeira Unger, hoje, na página de opinião da Folha, defendendo “a segunda abolição da escravatura”. Transcrevo o último parágrafo:
“Nosso país está predestinado a se engrandecer sem imperar. Para que esse destino se consume, porém, terá a nação de unir-se. E, para unir-se, aprender a enfrentar, sem medo nem rancor, e por sucessivos atos de despojamento e de desassombro, o legado da escravatura africana. Se fizer isso, o povo brasileiro fará justiça a si mesmo. Passará a aceitar-se pelo que é e pelo que pode vir a ser. Deixará de temer sua própria grandeza.“
Fiquei pensando aí na frase em vermelho e não estou certo de que exista precedente histórico. Mesmo o Japão pós-IIWW é um caso especialíssimo, artefato de sua associação com os EUA para deter o comunismo na Ásia.
Alguém se lembra de algo assim?
***
UPDATE
Artigo na íntegra abaixo.
Fazer a abolição de novo
ROBERTO MANGABEIRA UNGER
A primeira abolição não resultou na emancipação econômica e educacional dos libertos. A segunda é para corrigir esse malogro
FAÇAMOS a abolição outra vez. A primeira abolição não resultou na emancipação econômica e educacional dos libertos. A segunda abolição é para corrigir esse malogro fatal de nossa história, superado em gravidade apenas pelo próprio mal da escravatura. Só a partir dessa correção é que criaremos nós, os brasileiros de hoje, condições para que possa o Brasil ser útil à humanidade e a si mesmo. Tenhamos claros o problema, o perigo e a tarefa.
O problema é que a injustiça racial continua a campear entre nós. Ao campear, envenena tudo em nossa vida nacional. Negros ganham muito menos do que brancos. Ocupam, com grande desproporção, os lugares mais subalternos e humilhantes na sociedade brasileira.
A única coisa que sempre foi, e continua a ser, barata no Brasil é o trabalho de negro ou de negra. Pouco adianta discutir se são menos remunerados apenas porque ocupam as funções mais baixas ou também porque são tratados desigualmente mesmo quando desempenham as mesmas funções que seus pares brancos.
A desigualdade dos acessos aos meios da qualificação é tão radical que permite à discriminação -quase sempre evasiva e ambivalente entre nós- esconder-se atrás do disfarce do tratamento igual.
É certo que essa injustiça se manifesta de maneira diferente de como se manifestaria em países que evitaram a miscigenação racial e o sincretismo cultural. Como a fórmula tradicional dos relacionamentos entre as pessoas no Brasil foi a sentimentalização das trocas desiguais -a mistura insistente da troca, da prepotência e da afeição-, as relações entre as raças foram também banhadas nesse elixir. Para o bem e para o mal.
O perigo é que nos deixemos seduzir por duas respostas erradas à problemática da abolição inacabada.
O primeiro erro seria interpretar a miscigenação e a tolerância no Brasil como êxitos em alcançar a democracia racial. Democracia racial é projeto, não realidade do povo brasileiro.
Miscigenação racial é estímulo para que nos unamos, não garantia de união nacional. Sincretismo cultural é instrumento, não solução.
O segundo erro seria seguir o caminho dos Estados Unidos ao desvincular a reação contra a injustiça de raça da luta contra a injustiça de classe. O resultado dessa separação lá foi uma política que ajudou a construir uma burguesia negra, mas que deixou a massa de negros pobres e desqualificados sem meios, sem lideranças e sem rumo.
Melhor exemplo é o que os Estados Unidos, no Sul derrotado, tentaram fazer logo após a Guerra Civil, só que por pouco tempo e sem suficiente respaldo político: vincular a superação da discriminação racial a esforço de reconstrução econômica.
A tarefa é dar conteúdo a tal vinculação agora no Brasil. E fazê-lo graças à combinação de duas linhas de ação: uma, superficial e contestadora; a outra, profunda e reconstrutora.
A contestação é para atacar o mecanismo que faz da distribuição desigual de oportunidades econômicas e educativas o meio para a reprodução da injustiça racial: usar o direito e os tribunais para exigir primeiro das maiores escolas e das maiores empresas e depois de empresas e escolas menores que recrutem brasileiros negros e mestiços. E que ajudem, quando necessário, a qualificá-los. A falta de candidatos qualificados,
longe de servir como justificativa, define tarefa que as maiores organizações privadas do país devem compartilhar com o Estado brasileiro.
A reconstrução é para mudar na raiz as instituições e as práticas que impedem o aprofundamento da igualdade de oportunidades. Instrumentalizar as pequenas empresas que representam a maior força de nossa economia. Reformar o modelo institucional das relações entre o trabalho e o capital no interesse da maioria excluída. E oferecer às crianças pobres, desproporcionalmente negras, mais talentosas e esforçadas um conjunto de apoios econômicos abrangentes e de oportunidades acadêmicas extraordinárias que lhes permita se transformarem em vanguarda do mérito e abrir caminho para as outras.
Nosso país está predestinado a se engrandecer sem imperar. Para que esse destino se consume, porém, terá a nação de unir-se. E, para unir-se, aprender a enfrentar, sem medo nem rancor, e por sucessivos atos de despojamento e de desassombro, o legado da escravatura africana. Se fizer isso, o povo brasileiro fará justiça a si mesmo. Passará a aceitar-se pelo que é e pelo que pode vir a ser. Deixará de temer sua própria grandeza.


12 comments
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Maio 13, 2008 às 4:04 pm
victor freire
é um conceito estranho, o do mangabeira, para não dizer tecnicamente impossível. obviamente que o crescimento do brasil vai fazer com que nós exerçamos algum tipo de império internacionalmente. a questão é que tipo de império nós queremos, e acho que na cabeça dele tem um projetinho de redução de danos, por assim dizer.
deixando de lado a cara de quem chupou limão e não gostou, mangabeira é um sujeito que aparenta saber o que está fazendo. pelo menos até agora ele não fez nada do qual eu pudesse discordar.
Maio 13, 2008 às 4:22 pm
Rafael Figueira
Herme, vc considera Canada um pais “grande” ou apenas um suburbio ianque? E os nordicos? Admito q esta’ dificil encontrar exemplos; como o Victor comentou, uma consequencia (e causa) do crescimento e’ a maior influencia sobre os vizinhos, gerando uma situacao de dependencia. Considera-se isso uma imperializacao? De certa forma ja’ somos um imperio regional, ainda q na maior parte do tempo nem perceba.
Se puder postar o artigo completo, a turba desfolhada agradecemos.
Maio 13, 2008 às 4:27 pm
Me
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Vai ser muito engracado ver Smarto e seus blue cats tentando explicar essa. Imperio, imperio meu: sera que existe alguem maior do que eu?
Haiti que se prepare! La vem a surge canarinha!
Maio 13, 2008 às 5:48 pm
samurai no outono
El Diablo,
eu acho que o que Mangabeira está dizendo é, no fundo, uma variante da tese do Millôr que nada de relevante na história da humanidade aconteceu, acontece e acontecerá aqui. Qual seja, o Brasil será um país de grande importância, mas qualquer sonho de hegemonia ou coisa parecida é viajar num frasco de maionese esquecido em meio ao espólio de Golbery.
Para tal, no entanto, o Brasil precisa fazer o exorcismo de alguns fantasmas. Um deles é uma leitura idílica da questão racial e do processo histórico, tanto à esquerda quanto à direita, que tende a eximir os que aqui estavam da responsabilidade pelos atos aqui cometidos.
Mas como não li o artigo, só a citação, isso é obviamente um chute. Levando-se em conta que Mangabeira está comandando a área “estratégica” do governo, que é aquele espaço em que pontificam todos tipos de militares, advogados e engenheiros que coloriram “A arte da guerra”, leram a orelha do “Da Guerra”, e desconhecem que entre a riqueza mineral da Amazônia e a conta do banco existem - além da geografia - os mercados internacionais de commodities e capitais (i.e., que minério não sobe aos céus nem dinheiro cai dele), dizer que não vamos imperar é uma afirmação radical, não acha?
Maio 13, 2008 às 5:52 pm
F. Arranhaponte
Haja grandiloqüência oca, a desse mangabão. Mas parece que derrubou a Marina
Maio 13, 2008 às 6:46 pm
ohermenauta
Rafael Fig,
Providenciarei o artigo já já. Quanto ao Canadá, não passa de uma província. Já os países nórdicos têm excelente qualidade de vida, mas acho que não se enquadrariam bem no conceito de “destino manifesto” que o Manga parece estar querendo criar.
Paulo,
Santa limitação, Batman. Eu já te disse que não tenho nada contra Impérios, a priori _ nem mesmo o Império americano. Eu tenho tudo é contra o império americano cavalgado por republicanos neocons. Afinal, eu sou pró-governo mundial, e acho que ele só nascerá através de algum processo de imperialização.
Samurai,
Vou já postar o texto todo. Olha, tem até coisas com que concordo. Ele só esqueceu dos Redeemers…
Maio 13, 2008 às 7:23 pm
samurai no outono
Hermê, pelamordedeus, sem governo mundial.
Deixa o Império acontecer suavemente, pero sem cair em formalizações excessivas e num sistema representativo mundial.
Maio 13, 2008 às 7:29 pm
ohermenauta
Pode até ser algo tipo UE. Mas algum tipo de governança global terá que emergir.
Maio 13, 2008 às 8:24 pm
Me
Serio mesmo? Entao aquela sua historia do mapinha das divisoes do exercito americano era uma bronca so com o Bush… que estranho!
Acho que vc precisa trabalhar melhor nessa racionalizacao do seu odio.
Maio 13, 2008 às 8:50 pm
João da Luz
Há alguns dias teve um post lá no Nassif que concluía que deveríamos abraçar a bandeira da Fraternidade, já que a bandeira da Liberdade havia sido encampada pelos EEUU e a da Igualdade pelos franceses.
Acredito num governo mundial. Isso deve ocorrer nos próximos 200 anos. Até lá vamos continuar com nossas fronteiras os nossos passaportes e nossas bandeiras.
Maio 14, 2008 às 12:17 am
ohermenauta
Paulo,
Incrível que você me obrigue a ter que lhe explicar um desenho. Depois disso, o que será do uso retórico da frase “quer que eu desenhe?”?
O mapa apenas mostra que os EUA já se vêem como um império, interpretação que eu defendo e que que você prefere varrer para baixo do tapete mesmo sendo um simpatizante dos caras do New American Century. Ou seja, trata-se de uma questão anterior à que estamos discutindo aqui.
Maio 14, 2008 às 9:41 am
Rafael M
Como assim engrandecer? Se for crescer, tornar-se desenvolvido, lhe dou os seguintes exemplos:
1. Espanha moderna.
2. Coréia do Sul.
3. Austrália.
Runner ups:
1. Vietnã.
2. Chile.
3. Polônia.