O Bom Dia Brasil de hoje de manhã foi uma aula de como se faz jornalismo “independente”.

No dia seguite ao anúncio das medidas da política industrial _ que na verdade apenas têm “uso tópico”, isto é, tentar barrar o aprofundamento do déficit da balança de pagamentos _ o jornal matutino da Rede Globo me sai com uma reportagem no melhor estilo despeitado: olha, tudo muito bem, mas o problema é outro.

E qual é o problema? Ora, o trânsito!

Diz Miriam Leitão:

Todo esse caos no trânsito, além de prejuízos, causa também danos à saúde das pessoas. Como, na vida real, isso afeta, de fato, a vida das pessoas nas empresas? Isso que o Jornal Nacional mostrou ontem e o que o Bom Dia Brasil está mostrando hoje e que a gente vê em todas as grandes cidades que a gente vai. Brasília está assim, São Paulo está assim.

O trabalhador faz este esforço todo para chegar à empresa. Quando ele chega lá, já está tão estressado, tão nervoso, que ele produz menos. Isso já é uma perda para a empresa, para a economia – olhando assim pela janela da economia. Claro que temos que pensar nas pessoas.

(…)

Na verdade, não é um aborrecimento para quem está indo ao trabalho. Virou um problema do país. Tem que se enfrentar isso, porque tem efeitos colaterais na saúde, na produtividade, na economia e na vida das pessoas. Quanto custa deixar tudo como está? Muito caro.

Política industrial

Os empresários comemoraram as medidas do pacote, mas a gente sabe que o gargalo, o problema mesmo está em dois pontos fundamentais: educação e infra-estrutura. Existem muitas barreiras atrasando o Brasil na corrida mundial: Muitos impostos, trânsito caótico, estradas ruins, portos entupidos, falta de trabalhador qualificado.

O governo acha que a melhor forma de enfrentar isso é escolher alguns setores e empresas para dar a eles a vantagem de pagar menos impostos. Ao todo, o governo vai deixar de cobrar R$ 21 bilhões de impostos de 24 setores. Será que essa é a melhor forma de atingir esse objetivo?”

Não, dona Míriam, a senhora está enganada, o governo não acha que a política industrial vai resolver o problema do trânsito. Ele acha que vai resolver o problema do câmbio. Se a senhora não comprou sua carteira, sabe que um câmbio é uma coisa, outro câmbio é outra coisa. E era bom saber também, acima de tudo, que o trânsito em São Paulo é problema do PSDB, no Rio, do PMDB, e em Brasília, do DEM.

Mas a pérola do jornal ficou com Alexandre Garcia, o peladão da Ele&Ela, cuja matéria reproduzo na íntegra para não descontextualizar:

Alexandre Garcia: Além de tempo e dinheiro, está a perda irreparável e gigantesca de mais de 200 vidas por dia. É mais do que uma guerra.

O senhor José Cruz, que foi entrevistado pelo Bom Dia Brasil, carrega uma outra cruz além do nome dele: é o próprio carro. À medida em que os anos vão passando, o carro passa a ser um ônus, não só para ele, como para os outros. O carro dele ocupa mais ou menos seis metros quadrados de via de trânsito. É mais um para congestionar.

Aí fica a pergunta: por que não ir de transporte de massa? Essa é a grande questão. Para os milhões de brasileiros que perdem tempo nos congestionamentos, como o Giovane mostrado ontem no Jornal Nacional, que perde cinco horas e meia todos os dias no trajeto entre a casa e o trabalho, quando sobra o descanso e os brasileiros querem saber o que aconteceu no país e ficam se perguntando quanto tem perdido o Brasil com essas questões que atrasam a sua chegada ao futuro, como a falta de trilhos no continente de oito milhões e meio de quilômetros quadrados.

A falta de trem é o maior atestado da burrice estratégica dos governos. Mas não é só isso. É o dia-a-dia do que puxa para baixo. Como no dia de ontem, em que se soube que o remetente da lista da triagem dos gastos da presidência no governo Fernando Henrique pediu para deixar o cargo de confiança no gabinete civil. Quer dizer, nem foi exonerado pelo governo que exigia descobrir o inconfidente.

O PDT se movimentou o dia todo para evitar que o deputado Paulinho fosse mandado para o conselho de ética. Alega que o procurador-geral ainda não se pronunciou, como se ética ficasse submetida a formalidades jurídicas, e não o inverso.

E por aí vai. Os Giovanis, vivendo 80 anos, perdem 17 anos de vida no trânsito. Quantos anos de história tem perdido o Brasil nesses caminhos tortuosos e esburacados da política?

Não é fantástico? Em um dos possivelmente mais gratuitos parágrafos jamais narrados em um noticiáiro televisivo, assim como quem não quer nada, o sujeito passa do trem ao dossiê do Planalto, na mesma frase. Acho que ele tomou lições de “efeito aura” mas não sabe onde a aura canta…