
Blondes have more fun, and religious people too!
Arthur Brooks, professor na Syracuse University, está colaborando no blog Freakonomics com uma série sobre felicidade. Em dois posts, ele levanta a tese de que conservadores são mais felizes que “liberais” (à americana, isto é, social-democratas) e que conservadores religiosos são ainda mais felizes.
No primeiro post ele encaminha a questão e pede contribuições. No segundo, ele agrupa as contribuições em 3 grandes grupos:
1. Conservadores e liberais têm diferentes estilos de vida, particularmente no que respeita à religião e o casamento, o que explica por que conservadores são mais felizes.
2. Conservadores têm uma visão de mundo que - para o bem ou para o mal - leva a uma maior felicidade.
3. Brooks é um tolo pouco confiável.
Embora 3) possa ser a resposta, não faremos aqui ataques ad hominem. Mas…
…avanço algumas respostas da própria lavra:
a) Os EUA são um dos países menos permeáveis às idéias social-democratas do mundo desenvolvido. Não admira, portanto, que social-democratas sejam mais infelizes lá.
b) A religião é uma muleta existencial. Também não é de causar muito espanto que pessoas altamente religiosas sejam muito felizes.
c) Tentativas de transformar a felicidade subjetiva em métrica última para as políticas públicas é algo tentador, mas é algo duvidoso que seja uma boa idéia. Em última análise pode ser igualmente uma celebração do hedonismo. Aliás, do ponto de vista da sustentabilidade, a modulação da felicidade pode ser uma saída mais honrosa do que a busca desenfreada da felicidade.
Idéias a respeito?


26 comments
Comments feed for this article
Maio 12, 2008 às 7:37 pm
Rafael
Além do óbvio — Brooks é um idiota, sem perder tempo com maiores considerações –, tem uma coisa aqui que eu discutiria: a idéia de que religiosos são mais felizes.
Sob certo ponto de vista, religiosidade extrema pode trazer felicidade, sim, mas certamente traz infelicidade também.
Além disso, o enunciado sobre estilos de vida é imbecil. A quantidade de conservadores com vidas duplas é grande demais, e esse tipo de vida costuma trazer angústia. Toda hora aparece um conservador feliz e bem ajustado, pai de seis ou doze filhos, que foi pego dando o cu ou pagando um boquete num banheiro público qualquer.
Além disso, mesmo levando-se em conta os que vivem como pregam, o conflito entre sua visão de mundo e a realidade deve trazer uma dose grande de infelicidade. Nesse aspecto, liberais são mais bem adequados ao mundo em que vivem. A tese de Brooks já começa errada.
E eu evitaria reduzir a sociedade americana à imagem de um lugar hostil à “esquerda” de modo geral. É bom lembrar que a esquerda dele parte de patamares diferentes, por exemplo, dos da esquerda boliviana.
Maio 12, 2008 às 7:54 pm
Rafael Figueira
“Nesse aspecto, liberais são mais bem adequados ao mundo em que vivem. A tese de Brooks já começa errada.”
Mas a tese e’ estatistica, baseada em auto-resposta (”quao feliz vc e’? quao liberal/conservador vc e’?”). Talvez a boa adequacao seja justamente ter uma ponta de tristeza, o q e’ parte da teoria (c) do Herme. Ser feliz e’ bom, mas ser feliz demais e’ alienacao.
Maio 12, 2008 às 8:13 pm
João da Luz
Um conservador com boa parte dos seus desejos materiais atendidos pode ser feliz. Acho que uma pessoa conservadora, num país como os EEUU, não deve se questionar muito a respeito de uma série de coisas que afetam muito, ou são muito visíveis a todos em países como o Brasil por ex.
Esse não questionamento, a vida protegida que eles levam, deve deixar pessoas medianas felizes.
Não me refiro aos pensadores conservadores, que devem ter tb uma vida intelectual bastante rica, procurando explicações para sustentar os seus pontos de vista egoístas.
Nós nos angustiamos com o nosso dia a dia ou pelo menos com o dia a dia das pessoas que vemos pela janela do nosso carro. Ou ainda temos várias pessoas muito próximas que nos enfiam a realidade garganta abaixo. Isso pode nos trazer infelicidade, desconhecida deste americano conservador que discutimos.
A religião tb é um fator de felicidade. Esse povo que acredita numa redenção, numa vida após a morte, deve ser bem mais feliz que eu.
Mas, pelo menos, não podem rir como eu rio ao ver o ridículo das argumentções deles e da fraqueza das idéias de qq religião. Eles levam isto muito a sério.
Os romanos viviam se perguntando por que os cristãos eram tão felizes.
Eu me conforto em saber que após a minha morte terei as mesmas sensações que tinha em toda a eternidade antes de nascer.
Maio 12, 2008 às 8:40 pm
Rafael
Rafael, aí já complica. “Talvez a boa adequacao seja justamente ter uma ponta de tristeza, o q e’ parte da teoria (c) do Herme.” Se a gente for relativizar assim, a gente consegue justificar qualquer teoria. Inclusive a de que liberais são mais felizes.
E João da Luz, é verdade que “um conservador com boa parte dos seus desejos materiais atendidos pode ser feliz.” Mas um liberal também. E um anarquista. Até mesmo um comunista.
Nesse caso específico, não deve ser um fator de felicidade ver um mundo que a cada minuto contradiz as suas convicções: divórcios, abortos, homossexuais, negros reivindicando direitos, seguro social. Continuo afirmando que um liberal tem tantas ou mais chances de ser feliz nos EUA.
Além disso, continuo achando reducionismo essa avaliação dos EUA como dono de um povo diferente dos outros. “Um país como os EEUU, não deve se questionar muito a respeito de uma série de coisas que afetam muito, ou são muito visíveis a todos em países como o Brasil por ex.” Se questionam, sim, e o debate político é uma boa prova disso.
E, bem, se você diz que “os romanos viviam se perguntando por que os cristãos eram tão felizes”, eu não vou discordar. Mas vou lembrar que Gibbon relata algo um pouco diferente: um centurião ou governador romano (não tenho o livro à mão e não posso checar) se perguntava é como é que eles podiam ser tão idiotas, e se perguntava também se não havia desfiladeiros suficientes para se jogarem ou cordas bastante para se enforcarem em vez de pularem em fogueiras.
Maio 12, 2008 às 8:44 pm
Rafael Figueira
Particularmente acho q essa pesquisa (ao menos da maneira como foi exibida) e’ mais um exemplo de uma caracteristica deploravel da intelligentsia americana: a necessidade de dicotomizar tudo e todos. Isso produz divisoes e conclusoes q em outros lugares seriam ridiculas, “vitorias” com 52%x48%, etc.
O mais interessante e’ q, ao contrario do q essa mesma intelligentsia proclama, o embate dual de opinioes nao estimula consenso ou alternativa; pelo contrario, reinforca as opinioes pre-concebidas e exacerba a polarizacao. E o pior q e’ sabemos disso desde os anos 60.
Maio 12, 2008 às 8:45 pm
Artur
A procura compulsiva da felicidade traz infelicidade — não é isso que o mundo nos pede o tempo todo? Pior ainda quando essa procura é de completa responsabildiade do indivíduo. Convenhamos, ser feliz nesse mundo velho e enfadado é uma proeza. O que temos, comumente, são rotundos fracassos — por que, afinal, a doença psiquiátrica mais comum no começo do milênio é a depressão? Depressão = doença da responsabilidade e do fracasso.
Mas a estupidez gera felicidade, sim, e do tipo que se confunde com o conformismo. E a estupidez é monopólio dos conservadores? Sim, não, mas sim, mas não, nem isso. Ora, como disse John Stuart Mill, o filósofo e economista político inglês (1806-1873): “jamais quis dizer que os conservadores são geralmente estúpidos. Quis dizer que as pessoas estúpidas são geralmente conservadoras”.
Por outro lado, a felicidade é uma condição total da pessoa. Geralmente, confunde-se com alegria. Uma condição total só pode ser avaliada retrospectivamente. Assim, somente no leito de morte, olhando-se a trajetória de vida, fazendo-se um balanço, pode-se saber sobre uma condição que abrangeu a vida inteira. E, quando descobre-se, enfim, que se foi feliz, é tarde demais, apagou-se a última centelha de vida. Em suma, a felicidade em vida não existe. E, depois da morte, dizem que não adianta muito ser feliz (hehe).
Maio 12, 2008 às 8:58 pm
Rafael Figueira
“Talvez a boa adequacao seja justamente ter uma ponta de tristeza, o q e’ parte da teoria (c) do Herme.” Se a gente for relativizar assim, a gente consegue justificar qualquer teoria. Inclusive a de que liberais são mais felizes.
Acho q vc nao entendeu. A pesquisa aponta q os conservadores SAO mais felizes a partir das opinioes dos entrevistados. Ou seja, cada entrevistado respondeu se era feliz (e quanto: “pouco”, “muito”, “quase nunca”) e se era conservador ou liberal. A pesquisa correlacionou os dois e o resultado e’ aquele. Depois vc disse q os liberais “mais bem adequados ao mundo em que vivem”. Entao so’ coloquei os dois juntos: mais feliz –> menos adequados; menos feliz –> mais bem adequados, q e’ mais ou menos o q o Herme apontou.
“Além disso, continuo achando reducionismo essa avaliação dos EUA como dono de um povo diferente dos outros.”
Nesse caso e’ bom q se reduza. A pesquisa foi feita nos EUA entrevistando americanos e basicamente analisa a opiniao deles sobre o status quo. Tentar generalizar os resultados para outros paises e sociedades e’ absolutamente perigoso.
Maio 12, 2008 às 9:26 pm
Adriano
Diria que a doença humana sempre foi a depressão (ou profunda tristeza, se simplificarmos), porque a condição humana a impõe.
E vamos morrer. O que é bom (segundo Ratzinger), porque viver eternamente sob uma natureza corrupta, significaria a infelicidade sem cessão. E é ruim, porque todo ser vivo tende a ter um apego pela vida.
Maio 12, 2008 às 10:05 pm
Me
Smart,
Aonde vc leu sobre o assunto? Direto do freakonomics?
Como lembrou alguem ai em cima, a pesquisa eh simplesmente sobre como as pessoas se sentem e nao sobre uma autoridade externa quantificando o quanto cada um eh feliz.
Acho os resultados normais porque liberals sao na maioria pessimistas e pessimismo eh por definicao algo infeliz. Claro que pode-se dizer que a felicidade eh baseada na ignorancia (afinal, os mesmos liberals infelizes se julgam o illuminati) mas no fim das contas, esse complexo de dono da verdade so deve ser mais um componente da personalidade depressiva desse pessoal.
Se o maximo que conseguem fazer sobre tudo isso eh chamar os outros de “bobos”, so be it.
Maio 13, 2008 às 2:48 am
ohermenauta
Paulo,
Quem pode ser mais dono da verdade que um wingnut da direita religiosa republicana? Nem a Heloísa Helena.
Maio 13, 2008 às 6:44 am
Rafael M
Hermenauta,
Não sei se o Brooks é um idiota ou não, mas concordo com quem disse que a pesquisa está lá, correlacionando coisas, com todas as limitações que isso tem e com toda a informação que isto nos dá. Se conservadores e religiosos são mais felizes… bem… então eles são mais felizes até evidência em contrário.
Mas eu não jogaria fora a possibilidade de usar a felicidade como um indicador para políticas públicas. Hoje em dia isso não acontece, porque tem muita pesquisa a ser feita antes, mas não deixa de ser um ângulo que hoje em dia é mais ou menos ignorado, especialmente no Brasil. Em Barcelona, para dar um exemplo, eles tem uma secretaria na prefeitura de “bem estar cidadão” ou coisa assim, cujo objetivo é garantir que o cidadão viva bem e confortável. Que ele possa ter um parque para brincar com os filhos ou um lugar ao ar livre para beber com os amigos. Acho uma idéia sensacional.
Duvido que felicidade se torne o indicador mais importante. Mas hoje é algo que está fora da mesa, e seria bom que fosse incluído.
@ Rafael Figueira: Sei lá se a pesquisa é exemplo da “característica deplorável da intelligentsia americana (…) de dicotomizar tudo e todos”. Para mim é parte de um movimento de pesquisa muito interessante.
Você diz: “A pesquisa foi feita nos EUA entrevistando americanos e basicamente analisa a opinião deles sobre o status quo.”
Na verdade, a pesquisa avalia mais do que o status quo. Se você for analisar o body of research, vai perceber que este status quo está ligado, na prática, a felicidade efetiva. A resposta que você dá à essa pergunta está correlacionada com a avaliação dos seus amigos sobre a sua felicidade, com sua atividade cerebral (neuro research hermenauta, bacana né?), etc, etc. O que faz com que se conclua que “The existing state of research suggests that, for many purposes, happiness or reported subjective well-being is a satisfactory empirical approximation to individual utility”(1) — ou seja, dá para a usar a resposta como proxy para felicidade, e comparar todo tipo de coisas, inclusive países, inclusive preferências políticas.
(1) Frey e Stutzer. Happiness Research: State and Prospects. Review of Social Economy, Jun 2005.
Maio 13, 2008 às 9:44 am
ohermenauta
Rafael M,
O meu problema com a idéia de usar o “bem estar subjetivo” como subsídio para a formulação de políticas públicas origina-se de vários problemas com a métrica.
Eu ia responder aqui, mas acho que vou fazer um novo post sobre o assunto.
Maio 13, 2008 às 11:11 am
Guilevy
Se a tese é baseada em auto-resposta, é óbvio que a hipocrisia causa uma maior quantidade de pessoas que se declaram “felizes” entre os conservadores. A religião é “só” o maior sustentáculo desta hipocrisia.
De resto, o Artur aí em cima disse tudo.
Maio 13, 2008 às 12:22 pm
outro Edson
Eu posso estar enganado, mas acho que ser conservador É ser feliz. Você é feliz com as coisas como elas estão e por isso quer conservar assim. Se você é infeliz com o atual estado de coisas, bem, então você quer mudar isso (ou deseja que alguém mude isso, o que é mais comum) e, nesse caso, você é um liberal.
Maio 13, 2008 às 1:03 pm
Rafael M
“Se a tese é baseada em auto-resposta, é óbvio que a hipocrisia causa uma maior quantidade de pessoas que se declaram “felizes” entre os conservadores. A religião é “só” o maior sustentáculo desta hipocrisia.”
Não é óbvio. Prove.
Maio 13, 2008 às 1:10 pm
ohermenauta
Mais ou menos, outro Edson.
Por exemplo, os conservadores nos EUA são doidinhos para reverter Roe vs Wade.
Se há tamanha discricionariedade quanto ao status quo que se quer conservar (100 anos atrás? 200? 5.000, como no caso da AIPAC?), é provável que os conservadores estejam bem insatisfeitos com o status quo em T-zero. Em suma, eles são tão revolucionários quanto seus antagonistas.
Maio 13, 2008 às 1:43 pm
Rafael Figueira
Rafael M,
“Na verdade, a pesquisa avalia mais do que o status quo. Se você for analisar o body of research, vai perceber que este status quo está ligado, na prática, a felicidade efetiva. A resposta que você dá à essa pergunta está correlacionada com a avaliação dos seus amigos sobre a sua felicidade, com sua atividade cerebral”
*Essa* pesquisa avalia apenas a satisfacao com o status quo. Vc pode pegar o resultado e correlacionar com outras pesquisas q dao mais conclusoes, mas q foram feitas com outros grupos sociais bem distintos. Nao digo q nao haja relacao, mas nao se pode concluir ainda. Esse e’ um salto no escuro q nem o freakonomics esta’ disposto a dar.
Maio 13, 2008 às 4:17 pm
Guilevy
Rafael M,
Hipócrita segundo o Houaiss: “que ou aquele que demonstra uma coisa, quando sente ou pensa outra, que dissimula sua verdadeira personalidade e afeta, quase sempre por motivos interesseiros ou por medo de assumir sua verdadeira natureza, qualidades ou sentimentos que não possui; fingido, falso, simulado”
Bem, como não é um teorema matemático não posso provar no sentido que você “exige”, mas posso tecer conjecturas e afirmações.
No fundo, o que o Brooks afirma é que os conservadores se dizem mais felizes por dois motivos: ou são mesmo ignorantemente felizes (quanto mais religiosos-ignorantes mais felizes), portanto eu os perdôo pois não sabem o que dizem, ou se afirmam felizes por hipocrisia ou canalhice, aí não tem perdão não.
Maio 13, 2008 às 4:24 pm
Me
Guilevy
Tudo muito bonito assumindo que so eh possivel ser feliz se ignorante, nao?
Falando sobre donos da verdade, hein Smarto?
Maio 13, 2008 às 5:01 pm
Daniel Christino
O problema aqui é como medir a felicidade em associação com uma dicotomina não heurística, para dizer o mínimo:
As definições de felicidade variam entre dois conceitos clássicos: a) felicidade como atividade e b) felicidade como fruição.
O primeiro conceito possui raízes aristotélicas e implica a idéia de que é feliz alguém que atualiza um determinado conjunto de possibilidades socialmente sancionadas. No caso aristotélico, ser um bom cidadão ateniense. A vantagem deste conceito é sua implicação do ambiente social no qual o agente está inserido. A possibilidade da minha felicidade depende necessariamente das condições sociais nas quais me encontro e que me permitem ou não alcançar a realização daquele conjunto de possibilidades. É impossível ser feliz numa sociedade, ela mesma, disfuncional. Este conceito, portanto, relativiza o papel da sensação individual de prazer na definição de felicidade.
O segundo conceito associa-se mais ao bem estar dos indivíduos, isto é, à resposta ao questionamento: “como você se sente?”. Esta fruição de prazer - sentir-se bem - é um critério subjetivo. Deste modo posso ser um cidadão pleno da minha cidade-estado e, ainda assim, sentir-me miserável, porque me falta saúde. Ao contrário do anterior, é possível ser feliz independentemente do contexto social, porque o critério individual (e, portanto, a vida íntima) é mais importante do que o contexto social. Creio que este seja o critério adotado pela pesquisa simplesmente porque é o mais eficiente quando se trata de um survey.
Bem, o cara trabalha com o conceito operacional de felicidade adotado pelo GSS, então eu fui lá ver qual é este conceito. Num paper antigo, acho que de 1979, eles listam uma série de autores mas acabam admitindo que com a escala de Cantril é mais fácil operar porque é mais antiga e, portanto, oferece uma chance melhor de se construir uma série histórica sobre o tema. Ao aplicar a escala, eles condensam os indicadores num grande conceito guarda-chuva: “Taking all things together, how would you say
things are these days—would you say that you’re very happy, pretty happy, or not too happy these days?”
Eu acho que é exatamente aí que está o nosso problema, ou seja, na definição de quais “coisas” são tomadas em conjunto para caracterizar a felicidade. Admitimos que seja o “statu quo” de determinada época, mas isso não nos leva a lugar algum. O próprio Brooks admite que pode haver viés no local da aplicação ou na definição da amostragem. A pesquisa, portanto, nos diz apenas se as pessoas estão ou não mais felizes, mas não nos diz o que é felicidade e, assim, iguala uma série de razões até mesmo contraditórias que podem aparecer na sustentação de cada uma das posições. Pior, ao associar os resultados ao perfil político dos indivíduos, Brooks dá a entender que os elementos definidores do que seja felicidade estejam associados à perspectiva política, ou seja, ele parece assumir que as “coisas tomadas em cujunto” estão circunscritas à oposição conservadores x liberais. O problema é que a pessoas não avaliam sua felicidade nestes termos, ou seja, a resposta deles é uma mera impressão difusa na qual entram vários fatores distintos e não apenas o contexto político. É isso que causa confusão.
Por fim, a complexidade da racionalidade individual diante de diversos contexto de ação depõe ainda mais a respeito das intenções de uma pesquisa como essa. Qualquer um que esteja familiarizado com o trabalho de Jon Elster pode dizer que a “alquimia da mente” torna uma padronização de intenções virtualmente impossível. A minha impressão é que estas pesquisas concentram-se muito mais em medir uma “sensação” social momentânea e têm uma profundidade hermenêutica equivalente. Não nos dizem muito sobre o que é feliz e sobre o porque de um determinado seguimento poder ser mais feliz do que outro.
Maio 13, 2008 às 6:27 pm
Guilevy
Me, copiando de meu primeiro comentário:
“De resto, o Artur aí em cima disse tudo.”
Assinado embaixo está.
Maio 14, 2008 às 10:00 am
Rafael M
“Bem, como não é um teorema matemático não posso provar no sentido que você “exige”, mas posso tecer conjecturas e afirmações.”
Ou seja, não só não é óbvio quanto você está tecendo conjecturas e afirmações, sem grande preocupação com a verdade. Antes você tinha mais certeza das coisas, que bom que reconhece que a coisa não é tão simples.
Conjectura por conjectura, eu tenho a minha. Pessoas religiosas são mais felizes porque ao ter algo que possam chamar de maior do que eles, a vida passa a ter um sentido, um objetivo, uma missão — o que traz felicidade, especialmente se junto com a religião vem a associação a uma comunidade.
Do que se concluiria que religião poderia ser muito bem um caminho para felicidade, não importando se deus existe ou não…
Quanto a sua hipótese de pessoas religiosas serem hipócritas e portanto “mentir” na hora de responder a pesquisa, faço referência novamente às pesquisas. No agregado, a auto-resposta está se demonstrando uma maneira viável de mensuração, com correlações fortes com a avaliação de seus pares a seu respeito e etc. Fora que a sua hipótese implicaria que pessoas religiosas são mais hipócritas do que as não religiosas, coisa que não vejo razão para achar.
Maio 14, 2008 às 10:05 am
Rafael M
“A minha impressão é que estas pesquisas concentram-se muito mais em medir uma “sensação” social momentânea e têm uma profundidade hermenêutica equivalente. Não nos dizem muito sobre o que é feliz e sobre o porque de um determinado seguimento poder ser mais feliz do que outro.”
Justo, mas se a sensação social momentânea não tivesse relação com a felicidade ou com algo a respeito de seu bem estar, se fosse algo momentâneo, seria de se esperar que as relações entre esse algo medido e outras variáveis não fosse estáveis, nem fortes.
No entanto, as pesquisas andam sendo capazes de encontrar relações estáveis entre diferentes populações entre a felicidade (tal como medida) e coisas como: casamento, renda, educação, religiosidade, commuting time, etc, etc.
Se fosse algo impossível de se medir, seria de se esperar que essas pesquisas dessem resultados aleatórios e contraditórios. Não é o que está acontecendo.
Maio 14, 2008 às 2:58 pm
Daniel Christino
Sim. Eu acho que isso acontece porque o indicador é mais maleável ou plástico do que deveria.
Se eu e você resolvêssemos discutir sobre o que cada um de nós entende por felicidade, provavelmente não iríamos concordar. Comum seria apenas o fato de que, quando estamos felizes, nos sentimos “bem”. É esta sensação que o indicador quer medir. E ela pode ser aplicada a qualquer situação.
Uma das escalas mais usadas para se fazer o cálculo felicífico é a de Cantril. Ora, esta escala é “self-anchoring”, ou seja, faz tábula rasa do sentido de felicidade para o indivíduo, assumindo apenas que ele seja capaz de, num contexto relacional e diacrônico, hieraquizar níveis de “bem estar”.
Há um exemplo interessante de uso da escala de Cantril aqui ( http://www.afcpe.org/pages/journal_abstract.cfm?journal_id=89&top_id=21 ). Neste caso os autores aplicam o conceito à situação financeira dos indivíduos. Contudo, eu posso aplicar o mesmo racioncínio para a saúde, para a educação, para o trabalho, para a sexualidade. Em todos estes campos é possível imaginar que as pessoas sintam, em relação a si mesmas e no decorrer do tempo, mais ou menos “felizes”.
Assim, você está certo ao apontar o sucesso do indicador em diversas aplicações pontuais. O problema é associá-lo, como o Brooks faz, a visões de mundo (ideologias) supondo que elas tenham algum impacto na vida íntima das pessoas, isto é, que elas tenham alguma força para moldar ou influenciar o bem estar dos indivíduos.
Por fim, o que é mesmo felicidade para estas pesquisas? Seria ela um estado existencial ou psicológico? A escala e seu uso não nos dizem nada a respeito. Digamos que, neste caso, você está certo, mas eu não estou errado! Nossa posições são convergentes…
Maio 15, 2008 às 8:33 am
Rafael M
Estamos convergindo.
“Assim, você está certo ao apontar o sucesso do indicador em diversas aplicações pontuais. O problema é associá-lo, como o Brooks faz, a visões de mundo (ideologias) supondo que elas tenham algum impacto na vida íntima das pessoas, isto é, que elas tenham alguma força para moldar ou influenciar o bem estar dos indivíduos.”
Mas não entendo porque seria errado associar a tal medida felicitária com visões de mundo. Para mim, parece óbvio até. Dou um exemplo menos polêmico.
Imagine pessoas zen-budistas. Aquelas que levam o estoicismo às últimas conseqüências e que aprendem a não se deixar afetar por coisas ruins. Para mim seria bem possível que a felicidade medida aparecesse alta neste grupo de indivíduos, possivelmente maior que a média. E de onde viria essa felicidade a mais? Exatamente da visão de mundo da pessoa.
Acho que você critica a implicação de uma pesquisa dessas — de que talvez a felicidade justificasse uma posição conservadora, e você não gosta de pessoas conservadoras. Nesse caso, lhe proponho uma outra leitura da pesquisa. De que pessoas prefeririam uma posição conservadora exatamente por lhe trazer mais conforto, não por ideologia. Se isso fosse verdade, um bom ataque às posições conservadoras seria trazer felicidade de outros modos (por exemplo, zen budismo ou formação intelectual) e as pessoas largariam suas posições conservadoras. Mas viajo…
Maio 16, 2008 às 8:39 pm
Daniel Christino
Talvez nossa discordância seja semântica. Embora eu não acredite em ideologias, Rafael, eu acredito em semântica.
Pensemos não em ideologias, mas em mapas de valores (conceito que eu acho mais legal).
Os zen-budistas adotam determinados valores que são, eles sim, funcionais, independente das visões de mundo globais da doutrina.
Exemplo: um zen-budista não acredita que a linguagem signifique. Para ele a linguagem é a morada do ego. É necessário desconstruir a linguagem para se poder ser verdadeiramente Eu. Para esse exercício eles usam os koans, becos sem saída da linguagem. Algo como: “a essência da verdade é o aplauso de uma mão só”. Contudo, sua crença nos limites da linguagem não os impede de usar essa linguagem normalmente, para comprar pão ou desculpar-se ao andar num shopping lotado. Embora não acreditem na verdadeira expressividade da linguagem, eles a usam com sucesso no seu dia-a-dia. Para meditar, entretanto, só os koans ou os mantras. Seria o fundamento metafísico originário da posição zen-budista um valor ativo na definição de seu bem estar circunstancial? Não. Duvido que eles são mais felizes quando seu uso da linguagem cotidiana falha, e eles não conseguem ser atendidos dignamente pelo call center, sei lá, da TIM (se é que é possível tal coisa). Embora não acreditem na linguagem, seu uso funcional é um elemento de satisfação.
Kant dizia que o exercício de uma vontade boa e pura (ética) na maioria das vezes implica certa dose de infelicidade. Essa é, talvez, a melhor definição da disjunção entre valores e bem estar.
Exemplo: a doutrina católica acredita que o sofrimento purifica. Quando um católico verdadeiro confessa, o padre lhe aplica uma penitência. Contudo, dificilmente você verá um católico defendendo positivamente o sofrimento como medida para o bem estar. Mesmo que, ao sofrer a penitência, sua alma esteja sendo salva. Do mesmo modo, um prisioneiro pode até aceitar sua pena (admitindo o crime) mas dificilmente irá concordar que ela o faz mais feliz.
Foi por isso que citei o Jon Elster. Voltemos a idéia de mapa de valores. Nossa ações cotidianas são orientadas, na maioria das vezes, pela razão estratégica. Raciocinamos em termos de meios e fins e não de coerência valorativa. Nossos interesses se intrometem e geram conflitos em relação aos valores que adotamos. Assim, ninguém, creio eu, adota uma postura ideológica de modo completo ou total. Ela sempre dialoga com seus próprios interesses criando um “território”, cheio de acidentes (no sentido geográfico do termo) morais. Esta complexidade da vida individual é o que o indicador não consegue captar.