Jornalismo de verdade é isso aê: o Valor acionou o FOIA, Freedom of Information Act, para conseguir que o governo norte-americano liberasse alguns documentos mostrando a movimentação da embaixada norte-americana no Brasil durante a eleição de Lula em 2002.
“Havia razões de natureza política para o aval de Bush a Lula. A ascensão de líderes esquerdistas como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, era considerada uma ameaça para os interesses de Washington na América Latina, e estabelecer uma relação amistosa com os petistas desde o começo podia ser também uma maneira de conservar a influência dos EUA na região.
Outra fonte de preocupações para os americanos nessa época era a Argentina, que fora chacoalhada por uma crise política e econômica avassaladora depois do fim do regime de câmbio fixo. Tudo que eles não queriam era ver no Brasil uma repetição dos problemas que o vizinho tivera. “As coisas logo se arrumaram com Lula após a eleição, e dali para frente só tivemos alegrias”, disse Taylor ao Valor.“
Transcrevo abaixo para os sem-Valor.
Embaixada assegurou aval dos EUA a Lula
Ricardo Balthazar
07/05/2008
A embaixada dos Estados Unidos em Brasília trabalhou ativamente em 2002 para ajudar Luiz Inácio Lula da Silva a ganhar o apoio do governo americano antes da sua posse, num momento em que esse reconhecimento era considerado crucial para dissipar as desconfianças que o novo presidente despertava nos investidores.
A embaixadora Donna Hrinak expôs seu plano com clareza nas semanas que se seguiram à eleição. Na sua avaliação, Lula sabia que só teria a confiança dos investidores se mantivesse a política econômica de estilo conservador adotada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, mas precisava de ajuda para vencer as resistências que ia enfrentar no seu partido.
Em mensagem enviada a Washington em 27 de novembro, um mês após a eleição, a embaixadora disse que o melhor que os EUA poderiam fazer naquela altura era manifestar apoio a Lula e ter paciência, evitando “prescrições insistentes de fora”, que só contribuiriam para minar o esforço que o presidente eleito estava disposto a fazer para “manter na linha os doutrinários do próprio PT”.
O relatório de Donna faz parte de um conjunto de documentos liberados pelos EUA nos últimos meses a pedido do Valor. O jornal teve acesso aos papéis após apresentar ao Departamento de Estado e outros órgãos do governo americano vários requerimentos amparados na Lei de Liberdade de Informação (Foia, na sigla em inglês).
Os documentos indicam que o empenho de Donna era um reflexo do que ela estava ouvindo em suas conversas. Nos dias que antecederam a eleição de 2002, os diplomatas que lidavam com assuntos econômicos na embaixada foram tomar o pulso dos seus contatos no setor privado. Para sua surpresa, ninguém achava que o Brasil estivesse à beira de um precipício.
Todos apostavam que Lula agiria rapidamente para tranqüilizar o mercado financeiro, mantendo o PT afastado do comando da economia e indicando para presidir o Banco Central alguém que seria recebido com alívio na praça. “O Brasil não tem nenhuma outra escolha”, disse um dos contatos da embaixada, conforme relato enviado em outubro a Washington.
Lula sabia da importância que a simpatia americana teria para sua credibilidade e trabalhou desde cedo para conquistá-la. Ele conversou quatro vezes durante a campanha eleitoral com Donna, que assumiu seu posto em Brasília em abril de 2002. Alguns dos seus principais assessores também tiveram contatos freqüentes com ela.
Numa dessas conversas, Lula indicou a Donna que o BC teria mais autonomia em seu governo do que ele admitia em público. “Não era algo que ele achava possível fazer de imediato, mas ele me disse que achava que o BC devia ser independente”, disse Donna, em entrevista ao Valor. “Era uma mensagem muito importante naquele momento para Washington.”
Os americanos tornaram explícito o apoio a Lula três semanas antes da sua posse, em 10 de dezembro de 2002, quando ele foi recebido pelo presidente George W. Bush na Casa Branca, um privilégio que normalmente é concedido apenas a chefes de Estado no exercício da função. Na saída, o presidente eleito anunciou que Antonio Palocci seria seu ministro da Fazenda.
Bush manifestou entusiasmo quando Lula explicou como pretendia administrar a economia. Em tom de brincadeira, o presidente dos EUA disse que o plano era tão sensato que parecia uma “boa política republicana”, como anotou em suas memórias o então subsecretário do Tesouro americano para assuntos internacionais John Taylor, que participou do encontro com Lula.
A boa vontade da Casa Branca contrastava com a apreensão que Lula ainda despertava em Wall Street. No mesmo dia em que ele falou com Bush, a chegada dos petistas ao poder foi apontada como uma fonte de instabilidade para a economia mundial numa reunião do Federal Reserve, o banco central americano, segundo transcrições divulgadas recentemente.
Havia razões de natureza política para o aval de Bush a Lula. A ascensão de líderes esquerdistas como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, era considerada uma ameaça para os interesses de Washington na América Latina, e estabelecer uma relação amistosa com os petistas desde o começo podia ser também uma maneira de conservar a influência dos EUA na região.
Outra fonte de preocupações para os americanos nessa época era a Argentina, que fora chacoalhada por uma crise política e econômica avassaladora depois do fim do regime de câmbio fixo. Tudo que eles não queriam era ver no Brasil uma repetição dos problemas que o vizinho tivera. “As coisas logo se arrumaram com Lula após a eleição, e dali para frente só tivemos alegrias”, disse Taylor ao Valor.
Os EUA levaram meses para aprovar um pacote de socorro do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Argentina em 2002. Nos anos seguintes, os argentinos afastaram-se dos americanos e optaram por políticas diferentes do figurino ortodoxo adotado por Lula. Eleito em 2003, o presidente Néstor Kirchner alinhou-se a Chávez e virou um dos seus principais aliados.
Os documentos obtidos pelo Valor sugerem que os petistas procuraram se diferenciar dos vizinhos para manter a credibilidade recém-conquistada. Em outubro de 2005, o ministro Palocci disse ao então subsecretário de Estado dos EUA Robert Zoellick que estava preocupado com o “populismo” na América Latina e citou apenas Brasil, Chile e Uruguai como países que seguiam políticas econômicas responsáveis na vizinhança.
Mas as freqüentes divergências entre os petistas continuaram causando desconforto nos EUA por muito tempo, mesmo quando a economia brasileira parecia ter voltado aos trilhos. Em maio de 2004, pouco antes de deixar seu posto em Brasília e trocar a diplomacia pela iniciativa privada, Donna escreveu num telegrama para Washington que Palocci era uma “exceção” entre os assessores de Lula.
Na sua avaliação, a maioria dos aliados do presidente continuava pressionando-o a assumir um papel mais ativo na economia, criando incômodo para muitas empresas. “Essa inclinação fez proliferar novas barreiras para investidores”, disse Donna, citando como exemplos as mudanças promovidas pelo PT nas agências reguladoras e nas concessões do setor elétrico.
O embaixador John Danilovich, que substituiu Donna, teve outras aflições. O escândalo do mensalão deixou Lula acuado e paralisou o governo em 2005. Acusado de sonegação fiscal na mesma época, o presidente do BC, Henrique Meirelles, parecia com os dias contados. Em julho, Danilovich mandou sua equipe tirar a temperatura dos mercados financeiros.
Um dos interlocutores da embaixada afirmou que nada iria mudar, mesmo se Lula fosse afastado da Presidência, Palocci caísse ou Meirelles fosse para casa. Segundo o contato dos americanos, o governo Lula havia demonstrado a existência de “um consenso nacional sobre o que deve ser a política econômica”, e qualquer um que viesse depois seria obrigado a fazer tudo igual. Como em 2002, ninguém parecia ter medo de mais nada.


21 comments
Comments feed for this article
Maio 7, 2008 às 4:39 am
Adriano
“Como em 2002, ninguém parecia ter medo de mais nada.”
Ou, como diziam… a esperança venceu o medo. Esperança do quê? Sem dúvidas, a de continuísmo. O que mostra é que a história de 1995-2010 é certa, embora tenha sido escrita com muitas linhas tortas.
Maio 7, 2008 às 4:51 am
Hermenauta
Tá, agora vai lá convencer a “Veja” disto.
Maio 7, 2008 às 11:19 am
Rafael
Queimada!
Maio 7, 2008 às 11:56 am
Rafael M
Uau. Mas… tiramos alguma conclusão da reportagem ou só ficamos com a anedota?
Maio 7, 2008 às 12:01 pm
the talk of the town
Otima materia mesmo. Estilo NYTimes ou The Guardian. O Valor é o que salva no Brasil (exceto qdos os “chefões” forçam algumas matérias de encomenda, mas what’da hell, toda empresa tem que faturar, né?!?)
Pra mim consolida ainda mais o papel importante que o Lula vai ter na historia desse pais. Ele manejou bem esse periodo, muita gente o trata com o um idiota, mas na verdade a idiotia, está nos seus criticos.
Alias, uma pergunta que sempre me faço, é: “Como seria o BC do Serra?”, “Será que um Serra presidente, daria o suporte ao BC como Lula deu ao Meirelles?”
Hum? Dificil, não?
Abraços,
Maio 7, 2008 às 12:04 pm
the talk of the town
Já ia esquecendo, precisamos de uma FOIA urgentemente. Adoraria saber hj como determinadas decisoes do Governo Lula e FHC foram tomadas.
Maio 7, 2008 às 4:50 pm
Ueta
Ou seja, o Balthazer mostra o que já se sabia: a admistração Lula tem muito mais bom senso do que a maioria de seus fãs e detratores. E Lula é de longe a melhor coisa do seu governo.
Quanto ao que teria sido um governo Serra, ao menos na economia, tenho cá para mim que seria muito mais heterodoxo, com fortes ecos desenvolvimentistas. Claro que tanto Reinaldo Azevedo quanto Mino Carta não concordariam (ou se recusariam a dizer que concordam, o que no fundo dá no mesmo).
Maio 7, 2008 às 5:58 pm
ohermenauta
O Serra seria fortemente intervencionista, porém, possivelmente com um talhe conservador.
Eu já o vi despachando com dirigentes das Agências Reguladoras da Saúde, e posso confirmar que pra ele a idéia de “agência independente” é uma invenção interessante e supérflua.
Maio 7, 2008 às 6:20 pm
Adriano
É o que Reinaldo Azevedo e o próprio FHC sempre disseram: Serra faria um governo muito mais à esquerda que o de Lula.
E os patetas petistas, supostamente de esquerda, ficam aqui elogiando a responsabilidade de Lula, que nada mais foi que submissão à pressão do mercado e da própria embaixada americana.
Maio 7, 2008 às 6:25 pm
Adriano
«Tá, agora vai lá convencer a “Veja” disto.»
Esse tipo de comentário precisa ser matizado por uma especificação: por mais que a política econômica faça parte de um mesmo processo histórico, o PSDB não matou Celso Daniel, nem tem conexões com o tráfico de drogas em São Paulo, nem nunca flertou com o crime, achando que dos bandidos poderia surgir alguma revolução social — há setores no PT que pensam isso até hoje.
É muito fácil ficar nos corredores do poder em Brasília, encerrado numa torre de marfim, achando que todo mundo aí é bonzinho. É fácil achar isso quando Gilberto Carvalho e José Dirceu jamais abriram a boca sobre o caixa dois em Santo André, uma das maneiras por que o petismo foi financiado.
Maio 7, 2008 às 6:34 pm
the talk of the town
Bem, é bem melhor que o Lula tenha cedido à “embaixada americana” na transição, do que agir como o Principe dos Sociologos agia, de total submissão. Diria que de 4 é a posição. O seu sonho era ser uma Lewinsky.
Pelo menos o Lula deixou margem pra alguma mudança, por menor que fosse. E pelo timbre da estridência dos neo-con “meia-bomba” brasileiros, já é o bastante né?
Vejo claramente que tem gente que nem dorme até hj pq o “macacão azul” durou mais do que eles “planejaram”. Para eles, ele deveria ter metido o pé na porta. Quer prova mais cabal que ele está certo?
Sobre o Serra fazer um Governo de esquerda, bem…para com isso, esse “machão” ai, vira “moçoila” na primeira reunião do Copom.
Abraços,
Maio 7, 2008 às 6:38 pm
ohermenauta
Adriano,
Pelo contrário, eu acho que ninguém é bonzinho. Só olho para os resultados da ação de um e outro. Isso é olhar a História, e não as historinhas.
Por outro lado eu mesmo já andei dizendo que Serra faria um governo mais à esquerda, mas me penitencio. Acho que ele seria mais intervencionista (o que para gente de corte liberal anaeróbico pode querer dizer “à esquerda”, mas sabemos que isso é um erro), mas possivelmente não mais à esquerda.
Maio 7, 2008 às 6:49 pm
s leo
Comentário do Ivan Valente, do PSOL, numa audiência na Câmara, ontem: “não vi nenhum tucanor reclamar da atuação do José Dirceu, nem ameaçar convocar ninguém para dar explicações sobre essa matéria do valor. Reclamam da Venezuela e da Bolívia, mas subserviência aos EUA pode”. Claro que é exagero, mas de fato, se em vez de Condoleeza o Dirceu estivesse dando recados a algum assessor do Ch´pavez, imagino a repercussão. (Antes que lembrem, lembro eu: no governo Chávez, o Valor não teria acesso a documentos desse tipo).
Quanto ao que diz o TOTT, aí em cima, gostaria que apontasse alguma matéria do valor em que “os chefões forçaram alguma matéria”. Trabalho no jornal há oito anos (desde a criação, numa sociedade entre O Globo e a Folha, jornais com vinculações comerciais, econômicas, políticas e sociais bem distintas entre si) e nunca tive notícia direta ou indiretamente de forçação de barra de chefão nenhum.
Pelo contrário. Três anos depois de ter publicado uma série de reportagens sobre a péssima situação da Varig (que se confirmou anos mais tarde), fui saber, que minhas matérias tinham provocado dura retaliação da empresa, que, num momento importante para o jornal, praticamente seu lançamento, cancelou, por causa do que escrevi, o acordo em que a então maior companhia de aviação do país diostribuía exemplares a seus passageiros, e anunciava no jornal.
Perdemos divulgação e anúncios, e eu não fui nem informado disso, continuei publicando livremente as matérias que devem ter provocado enxaquecas no pessoal do departamento comercial.
Em cinco anos de coluna _ e alguns editoriais de minha lavra _ nunca ninguém me disse o que escrever ou como. Est´pa na hora de pensar melhor nesse clichê de que a imprensa é uma camisa de força, que o jornalista não pode escrever livremente as notícias…. Não pode fazer proselitismo livremente, isso é verdade, mas jornalista sério tem largo espaço na chamada midia burguesa, com mais oiberdade de notiiar o fato que em muita publicação supostamente de esquerda por aí.
Maio 7, 2008 às 9:31 pm
Cássio
Submissão à Embaixada Americana, Adriano?
PSTU na veia.
Já em relação ao Serra estar situado mais à esquerda de lula no espectro, isso significa, na opinião de quem disse, que Serra é mais autoritário, mais intervencionista, mais estatista, mais rentista, mais assistencialista, mais inteligente, ou o quê? Não consigo entender você dizer que a pessoa é “mais direita” ou “mais esquerda” fora de um contexto, e parece que é assim que quem analisa política entende os dois campos atualmente. Fica a pergunta, então, do que significaria ser mais à esquerda do que Lula. Quem parece querer colocar-se mais à esquerda de Lula é o próprio FHC. Nota bene: esquerda ideal, de maio de 68, estudantil, viva e apaixonada, com trilha sonora tropicalista.
Maio 7, 2008 às 11:05 pm
Adriano
Mais à esquerda de Lula significa acreditar naquele ideal de welfare state que o Hermenauta furtadiano aqui parece adorar. A não ser que o Hermenauta venha dizer que ele está mais à direita do Serra, com Lula. Mas eu acho que não. Só não gosta do Serra porque… sei lá, vai ver que é porque o ex-trotskista da Veja goste… mas não deve ser por isso. Deve ser algum lance pessoal mesmo.
E se eu usei a expressão “submissão à embaixada americana” só pode ter sido para provocar essa esquerda mugente da caixa de comentários do Hermenauta, que só vem mugir de alegria em relação a um governo que pouquíssimo tem de esquerdista, a não ser que falemos de aparelhamento do Estado, que parece ser uma estratégia clássica da esquerda, que assim domina os meios universitários, por exemplo.
Maio 8, 2008 às 12:37 am
ohermenauta
Adriano,
Por falar em mugir, você já se deu conta que está cada vez mais parecido com Olavo de Carvalho, e que portanto sua “vaca lírica pessoal” já foi para o brejal dos Guajás?
Aliás, de onde foi que você tirou a idéia de que eu tenho algo pessoal (ou mesmo impessoal) contra o Serra? Eu já cansei de dizer que votei nele em 2002. O que eu acho engraçado mesmo é o Reinaldo Azevedo ficar com aquela pose de bicha austríaca e ao mesmo tempo ficar fazendo genuflexões abjetas para o vampiro careca sempre que a oportunidade se apresenta. Ali, ou rola sexo ou dinheiro, não é possível.
Maio 8, 2008 às 2:35 am
Adriano
Para que mencionar o Não Lavo o Carvalho (copyright Radamento), poxa? Deixa o velhote lá.
Em relação ao Serra, «imaginava» que v. não gostava dele por causa do ex-trotskista do Reinaldo Azevedo. Não sabia que v. tinha votado nele, mas faz parte, para as furtadetes e tal.
Aliás, não conta para ninguém, mas o Reinaldo é furtadiano. Lembro-me da época da PriLei em que ele se referia ao Friedman como “ultra-liberal”. Esse tipo de expressão geralmente vem de gente que está à esquerda no espectro político.
Lembro-me claramente das eleições de 2006, quando ele teve o entrevero com o Alckmin, em que ele começou a defender um receituário desenvolvimentista e o pessoal nos comentários ficou meio cabreiro. Não é por outra razão que ele gosta do Serra.
Maio 8, 2008 às 12:11 pm
Márcia W.
Hermê,
você pode desenvolver num post futuro o quesito “bicha austríaca” ? :>))))
Maio 8, 2008 às 12:21 pm
ohermenauta
Posso!
Maio 8, 2008 às 5:54 pm
João da Luz
A embaixadora americana viu as coisas com muito mais clareza que o “mercado”.
Pena que não tenhamos mais analistas assim no governo e na oposição.
Achar que o Serra seria mais desenvolvimentista que o Lula mostra a mesma capacidade de análise do “mercado”
Aliás, o que o Serra está fazendo de desenvolvimentista, mesmo?
Não sai nada nos jornais.
Hermê- 3 deméritos pra vc pelo voto de 2002. Se reclamar leva 4 deméritos.
Por falar em jornais: que horror a edição das fotos da Dilma em contraste com a foto do Agripino na Folha de hoje, hein? Grosseria.
Maio 8, 2008 às 6:02 pm
Cássio
Adriano, grande bobagem você acreditar em aparelhamento do Estado. Já que estamos falando de bichas mesmo, falar em aparelhamento do estado é papinho de bicha magoada - não é você, ok? - que perdeu cargo. Também pode ser de bichinha político, que perdeu eleição e não tem como satisfazer os afilhados que o apoiaram na campanha. Nada mais do que isso: interesse.
O universo dos funcionários do Estado não é formado só por profissionais de carreira, contratados via concurso público. Uma parte dos profissionais que trabalha a serviço do Estado é composta pelos chamados Cargos de Confiança, dados por indicação política. Desconheço se desde o início o “CC” era uma, hum, reserva técnica de moeda de troca, já que a tradição clientelista no país é longa. Se existe uma justificativa válida que não essa para a exceção ao concurso público, alguém me diga.
Não custa nada lembrar também que a admissão via concurso público é algo relativamente novo no Estado Brasileiro: a partir do final dos anos setenta, e início dos oitenta, é que ficou proibida a contratação sem concurso. Bernardo Houssay, argentino, fisiologista, prêmio Nobel de Medicina de 1947, foi contratado da URGS sem concurso. Roberto Carlos foi funcionário de repartição no Rio de Janeiro nos anos sessenta, sem concurso. Machado de Assis era chefe de tipografia, sem concurso. O acensorista do prédio da UFRJ, que está lá há 30 anos, também foi indicado por um padrinho e depois de muitos anos fez um concurso-relâmpago, com a finalidade de regularizar a situação. As coisas, simplesmente, eram assim. e ninguém falava em aparelhamento.
Hoje, existem inúmeras formas de se burlar a legislação para contratar funcionários em atividades caracteristicamente públicas sem necessidade do concurso. Contrato emergencial, contratação de fundações, terceirização de funções com poterior contratação de empresas, uso do trabalho de Cooperativas, a lista é enorme. Creio que o Hermê saiba algo mais do que eu sobre o assunto, já que mora no coração selvagem do funcionalismo.
Agora, Adriano, cargos de diretorias de empresas estatais, de fundações, de secretarias, de ministérios, obviamente, são cargos políticos. Não vá você dizer que nomear aliados políticos para presidências é aparelhamento do estado. Até mesmo na nomeação de ministros do STF existe o dedo do presidente. Nem deve ser diferente, já que a idéia do STF é um colegiado dos mais notáveis, e que represente todos os espectros políticos da sociedade. A alternância no poder dos presidentes e a aposentadoria dos juízes garante a renovação do quadro e o pluralismo do STF. Veja o exemplo da votação de células-tronco: Ellen Gracie, ex-presidente, deu voto favorável, enquanto o juiz (nome dele mesmo?) pediu vista e atrasou o decorrer do processo.
Tudo isso para dizer que, mais uma vez, que é fácil falar termos fáceis, embora aparelhamento tenha seis sílabas e um dígrafo. O difícil é entender o que eles significam.