Matéria interessante na Folha de hoje:
“Os bosquímanos da África do Sul sempre foram considerados povos singulares: são fisicamente distintos, preservam uma cultura de caçadores-coletores que remete aos hábitos da humanidade na Idade da Pedra e têm línguas que não se parecem com nenhuma outra (uma de suas consoantes, por exemplo, é um estalo feito com a boca). Agora, um grupo de geneticistas encontrou uma razão para tamanhas diferenças: os ancestrais dos bosquímanos estiveram a ponto de originar uma outra espécie humana.
Durante um tempo que variou de 50 a 100 milênios, os khoisan (nome comum dado a todos esses povos) estiveram evoluindo isoladamente do restante das populações de Homo sapiens, uma espécie relativamente nova e com talento para colonizar novas terras -mas que, no entanto, ainda não havia deixado a África.
Esse isolamento só se rompeu há 40 mil anos. Não fosse essa troca recente de genes, os khoisan possivelmente estariam a caminho da especiação, evento que acontece quando duas populações de organismos evoluem separadamente a ponto de não poderem mais se cruzar entre si.”
O moral da história é que, apesar de séculos de racismo, xenofobia e chauvinismo de brancos, negros e asiáticos uns contra os outros, a maior possibilidade já havida de criação de uma outra “raça” humana esteve lá dentro da África mesmo.
O restante abaixo do fold, para os sem-folha.
A segunda humanidade
Estudo genético revela que espécie humana quase se dividiu em duas há cerca de 150 mil anos
CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA
Os bosquímanos da África do Sul sempre foram considerados povos singulares: são fisicamente distintos, preservam uma cultura de caçadores-coletores que remete aos hábitos da humanidade na Idade da Pedra e têm línguas que não se parecem com nenhuma outra (uma de suas consoantes, por exemplo, é um estalo feito com a boca). Agora, um grupo de geneticistas encontrou uma razão para tamanhas diferenças: os ancestrais dos bosquímanos estiveram a ponto de originar uma outra espécie humana.
Durante um tempo que variou de 50 a 100 milênios, os khoisan (nome comum dado a todos esses povos) estiveram evoluindo isoladamente do restante das populações de Homo sapiens, uma espécie relativamente nova e com talento para colonizar novas terras -mas que, no entanto, ainda não havia deixado a África.
Esse isolamento só se rompeu há 40 mil anos. Não fosse essa troca recente de genes, os khoisan possivelmente estariam a caminho da especiação, evento que acontece quando duas populações de organismos evoluem separadamente a ponto de não poderem mais se cruzar entre si.
“Especiação não é um termo adequado”, corrige o geneticista Fabrício Santos, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). “Deve-se falar em diferenciação. Demonstrou-se que realmente eles ficaram separados por um tempo significativo, mas não foi tempo suficiente para haver também isolamento reprodutivo, que é a marca final da especiação. Cinqüenta mil anos são 2.000 gerações, o que é um tempo relativamente curto para a evolução de novas espécies com isolamento reprodutivo.”
Marcas
Seja como for, essa longa separação entre os khoisan e o restante da humanidade deixou marcas profundas nos genes dos bosquímanos. A dimensão dessas marcas foi revelada na semana passada por Santos e colegas de várias instituições de pesquisa ao redor do mundo. Esse grupo de cientistas compõe o Projeto Genográfico, um esforço para mapear a história das populações humanas e de suas migrações ao redor do planeta olhando o DNA.
Em um artigo publicado on-line na revista científica “American Journal of Human Genetics”, o geneticista americano Spencer Wells e colegas de oito países olharam um tipo específico de DNA, contido nas mitocôndrias (as usinas de energia das células). O chamado DNA mitocondrial é um excelente contador de histórias de migração, porque escapa do embaralhamento genético ocorrido entre os cromossomos no núcleo celular durante a fecundação. Além disso, ele só é transmitido de mãe para os filhos e sofre mutações (trocas espontâneas em alguma das letras químicas A, T, C e G que compõem a molécula de DNA) a uma taxa conhecida.
Estudando o DNA mitocondrial (mtDNA, na sigla) de duas pessoas quaisquer, é possível saber em que ponto do passado elas compartilharam um ancestral materno comum.
Wells e seu grupo, no entanto, não estão atrás de um ancestral de duas pessoas, mas sim dos ancestrais maternos de toda a humanidade. Para isso, eles seqüenciaram o DNA mitocondrial completo de 624 pessoas, comparando as mutações que elas têm em comum (haplogrupos) e datando as separações entre cada população de acordo com o relógio molecular oferecido pelo mtDNA (no qual uma mutação ocorre a cada 5.138 anos, em média). Isso permitiu montar a árvore genealógica materna humana.
Dois troncos
O que os cientistas verificaram foi que essa árvore não tem um único tronco e sim dois, ambos enraizados na África -que os cientistas chamam de ramo L0 e ramo L1′5.
Ao tronco L0 pertencem os khoisan. Ao L1′5 pertence basicamente todo o resto da humanidade. As linhagens que deixaram o continente africano a partir de 60 mil anos atrás e geraram desde os índios americanos até os aborígenes da Austrália, passando pelos europeus e os asiáticos, são apenas duas; as outras são todas africanas.
“Simplificando, um bantu (típico africano) é mais relacionado conosco [de ancestrais europeus ou indígenas] do que com os khoisan”, diz Santos.
Para o cientista, o achado foi uma surpresa: “Pouca atenção havia sido dada à diversidade genética na África. Sabia-se que ela era maior, mas o estudo detalhado mostrou que, na maior parte do tempo, nossa espécie esteve lá pela África, diferenciando-se internamente”, antes das migrações para fora.
A análise também indica a formação de pequenas comunidades independentes em vez de um espalhamento uniforme dos humanos modernos. O tamanho pequeno das populações provavelmente facilitou o isolamento dos ancestrais dos khoisan no sul do continente, devido talvez a uma mudança no clima. A barreira só seria rompida milênios mais tarde, quando a tecnologia “moderna” do fim da Idade da Pedra permitiu recolonizar o sul.


13 comments
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Maio 4, 2008 às 2:35 pm
Alice
Esta sem-Folha agradece a graciosidade da matéria completa.
Fiquei imaginando como seria a humanidade hoje se os khoisan tivessem sobrevivido.
Maio 4, 2008 às 6:35 pm
s leo
Tiha lido isso e também me impressionou. Parece que a raça dos economistas também vem se diferenciando, afastando-se cada vez mais da herança comum e caminhando para a especiação, hermê. mas isso ia prum post e fiquei sem saco.
Maio 4, 2008 às 6:49 pm
ohermenauta
É verdade. Afinal eles não “cruzam” mais entre si há um bom tempo…
Maio 5, 2008 às 3:31 pm
Rafael Figueira
Se nao me engano khoi-san e’ o nome da familia linguistica dos estalos. Que eles sao antiquissimos nao e’ novidade, a referencia q eu tenho vem de 2000: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10739760 (citado no livro Before The Dawn).
Mas sera’ q essa diferenciacao nao pode ser usada como confirmacao do racismo contra os negros? Na logica racista, essas descobertas apenas mostram como a Africa sub-sahariana e’ “diferente” e atrasada, mais ou menos como os amerindios foram durante decadas tratados como semi-humanos (e portanto sem alma) pelo Vaticano.
A Ciencia nao ve problema em distinguir e medir todas as variantes humanas; mas vai sempre correr o risco de ser distorcida pelas agendas racistas.
Maio 5, 2008 às 6:39 pm
Catatau
Muito interessante. Há quem diga também que os Khoisan detém os genes mais “antigos”, e esse estudo reforçaria isso.
A propósito: já viu Os deuses devem estar loucos, né?
Maio 5, 2008 às 10:54 pm
samurai no outono
Como eu postei para uns membros do fight club têm alguns dias,
http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/7358868.stm
http://www.cnn.com/2008/TECH/04/24/close.call.ap/index.html
(como o naked capitalism bem observa, os artigos diferem em
seu enfoque sobre a mesma pesquisa - esse artigo enfoca de uma terceira maneira)
Maio 6, 2008 às 8:46 am
victor freire
não só os khoisan sobrevivem até hoje, como também um deles chegou a protagonizar um blockbuster sul-africano clássico: “os deuses devem estar loucos”.
Maio 6, 2008 às 7:50 pm
argeu
Outro dia vc postou sobre evolução rápida de lagartos. No caso mencionado, houve mudança notável em apenas 31 gerações. Neste caso, ao longo de cerca de 50 mil anos, a diferenciação genética das populaçõs separadas foi pequena.
Maio 6, 2008 às 11:50 pm
Rafael Figueira
Argeu, os lagartos da ilha sofreram forte pressao adaptativa; o caso dos !Kung e’ provavelmente de genetic drift.
O tempo decorrido nao e’ garantia de diferenciacao genetica; se a populacao e’ volumosa, nao-isolada, e nao sofre pressao adaptativa, pode ficar inalterada por varios milhares de anos. Crocodilianos sao o exemplo classico.
Maio 7, 2008 às 12:09 pm
argeu
Rafael, aprecio seu comentário sobre o caso. Não sou especialista. Apenas avalio o que me parece lógico.
Parece que houve pressão adaptativa sim, pois ocorreu uma separação física dos indivíduos causada por mudanças climáticas, aparentemente, e, segundo teoria corrente, o número total de indivíduos chegou a 2 mil, beirando a extinção. Além do mais, evoluções genéticas se propagam do indivíduo mutante para a comunidade. Logo, quanto menor o número de indivíduos da comunidade, mais rapidamente esta mutação se propaga. Logo, tínhamos condições para mudanças significativas. Sabe-se lá porque não ocorreram.
Maio 7, 2008 às 5:58 pm
Rafael Figueira
Em termos absolutos. pressao adaptativa *sempre* existe; mas em termos relativos, o caso dos 30 lagartos subitamente largados em uma ilha e’ absurdamente mais forte do q os bolsoes de humanos separados geograficamente. O cenario dos lagartos imigrantes e’ ideal para se testemunhar evolucao.
Ja’ os !Kung se separaram geograficamente qd os humanos, ao longo de milhares de anos, passaram a viver em “ilhotas” separadas por extensoes aridas. Nesse tipo de cenario o genetic drift e’ fator preponderante, pequenas alteracoes geneticas permanecem e se tornam padrao. Repare q todos os humanos viviam na Africa nessa epoca, e q todos viviam mais ou menos da mesma forma em um ambiente mais ou menos parecido.
Genetic drift permite q alteracoes permanecam sem q haja vantagem evolutiva direta, por exemplo o formato do arco da sobrancelha. Ja’ no caso de uma resposta a pressao adaptativa, as alteracoes sao em geral mais drasticas; por exemplo, a reducao na melanina qd sairam da Africa.
Mudancas significativas aconteceram (eu, vc e Genghis Khan somos mais semelhantes geneticamente do q a um !Kung), mas nao tao marcantes ou rapidamente quanto no caso dos lagartos pq nao havia o mesmo nivel de pressao.
Maio 7, 2008 às 7:21 pm
argeu
Definitivamente, este é um assunto complexo demais.
Apenas cinco casais de lagartos forma deixados na ilha. Eles poderiam ter sobrevivido sem alterar sua dieta, se sua população se mantivesse em um nível compatível com a disponibilidade de insetos, sua dieta original. Portanto, a pressão adaptativa não era faca no pescoço.
O que acho é que a pressão sofrida pelos lagartos pode ter sido comparável àquela imposta às populações humanas separadas, contudo estas sofreram apenas o tal genetic drift. E veja que a probabilidade de alterações genéticas deve aumentar com a complexidade do organismo.
Maio 7, 2008 às 10:24 pm
Rafael Figueira
“Eles poderiam ter sobrevivido sem alterar sua dieta”
Pressao adaptativa nao se restringe a guilhotina: e’ qq fator externo q interfere no “fitness”, pra melhor ou pra pior. A pressao pode ser positiva (ex. novo predator no ambiente) ou negativa (ex. nova fonte de alimentacao). Outro exemplo: humanos na Armenia poderiam ter sobrevivido sem alterar sua dieta, mas produzir lactase mesmo na fase adulta era vantajoso. Ou seja, o fato de serem criadores de gado foi uma pressao adaptativa, e a tolerancia a lactose foi a resposta. O interessante e’ q a mesma resposta apareceu em outros grupos criadores de gado, mas nao em todos.
“a probabilidade de alterações genéticas deve aumentar com a complexidade do organismo”
E’ o contrario: quanto mais complexo, menos chance das mudancas aleatorias permanecerem. Organismos complexos tem processos refinados de auto-correcao e limpeza genetica. Vc vai encontrar mais mutacoes fenotipicas em insetos do q em mamiferos.