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Nos menores atos de alguém podemos aprender alguma coisa.
Hoje saiu uma notícia no Estadão onde a diretora de risco soberano da S&P alerta para alguns perigos em que a política econômica pode incorrer. A notícia tem a seguinte manchete:
“S&P: é importante que Brasil continue com as reformas“
Tio Rei dá a mesma notícia em seu blog, mas com outro título, de lavra própria, que é:
“Analista da S&P acha que real vai se desvalorizar e que juros vão subir“
O lema do Tio Rei agora é o mesmo do PT na oposição: quanto pior melhor.
Como é mesmo aquela história, amigos tucanos, de que um erro não justifica o outro?
E lá vem Nariz Gelado de novo com aquela história sobre o lado político da crítica à cobertura que a imprensa vem fazendo a certos casos, como o da menina Isabella ou o da sogra do Cid Gomes:
“Finalmente, ali estava aquilo que venho apontando há dias: Lula se ressente, e muito, sempre que algum fato atrai a atenção da mídia para longe de si e da pauta positiva que ele, seus assessores e militantes tentam, via de regra, nos impor: “[não é correto o Estado] aparecer cinco dias consecutivos na televisão por causa da sua sogra”. (…) “Tem coisa muito mais importante – não que a sogra não seja importante – que você faz e que nunca apareceu nacionalmente”.
Percebem? É o apogeu de uma receita discursiva tão simplória quanto eficiente, que apresenta naturaliza vícios de conduta e humaniza pecadores. Enquanto esta conversa colar – e não for combatida com igual talento – ele seguirá surfando sozinho.“
Pergunto: se o eneadáctilo viesse a público jogar mais carvão no fogo que queima os Nardoni, ou na fogueira de qualquer outra notícia cujas chamas ora estejam consumindo o noticiário, não viriam imediatamente as flâmulas da anaerobicidade acusá-lo de jogar uma cortina de fumaça no caso do dossiê no Planalto? Quando alguém está errado, não importa o que faça, é mais provável que interesses ocultos estejam na mente do acusador, pois não?
(clique para ampliar)
Em um post que fez até o finado Adriano do Palatando ressuscitar e entrar na thread (com pouco êxito, mas vamos dar um desconto porque ele está destreinado), Arranhaponte do Torre de Marfim escreveu o seguinte:
“Ah não, o velho debate sobre se a sobrevalorização do real do Gustavo Franco foi uma idiotice total, completamente evitável (sem comprometer em nada o fim da hiper-inflação obtido pelo Real), ou se foi um erro até certo ponto compreensível diante da dificuldade política de se fazer o ajuste fiscal e da incerteza sobre se a inflação voltaria, NÃO! Tudo menos debater isso de novo.“
Eu também não quero discutir isto de novo. Gostaria apenas de observar que respostas espirituosas às vezes destinam-se, voluntária ou involuntariamente, a encobrir problemas mais sérios. Afinal, se a enorme dívida pública da qual falei no outro post originou-se de esqueletos, como disse Arranhaponte, seria bom averiguar de onde vinham esses esqueletos. Ora, eles vieram (dentre outros lugares) da federalização da dívida dos estados e municípios. Mas a dívida de estados e municípios, sabe-se com certeza, não veio de Marte para o Brasil, ela foi criada aqui mesmo _ e ao que eu saiba, não por governos do PT. Aliás no mapa aí em cima vemos que a maior dívida em 2001 era a do estado de São Paulo, estado que nunca teve governador petista e sempre esteve na mão de tucanos e seus, er, “aliados” (como Orestes Quércia…). Outros estados como Minas e Bahia (aquele da face moderna do PFL DEM, ACM Neto) aparecem com dívidas expressivas. O Rio de Janeiro, bem, o Rio.
Para piorar, essa dívida foi potencializada pela Selic estratosférica.
Ocorre que a partir de 1996 o governo FHC, de olho em aprovar a emenda da reeleição _ o que lhe tomou praticamente a metade do mandato _ desistiu de fazer reformas que mitigassem o gasto público (aquilo que hoje cobram do atual governo, com razão, aliás). Aliás, neste mister, operou um timing para as reformas constitucionais totalmente perverso incoerente, pelo menos com a racionalidade econômica _ as reformas estruturais, evidentemente, permitiriam alterar a trajetória da dívida pública e teriam permitido ao governo operar com uma taxa de juros bem menor. Porém FHC atirou-se às chamadas “reformas econômicas”, como as privatizações. Eu defendo as privatizações com unhas e dentes como algo que contribuiu para aumentar a eficiência da economia brasileira, mas reconheço que a justificativa dada então pelo governo _ usar os recursos da privatização para amortizar a dívida pública _ era risível diante da política monetária praticada. E justificativas de eficiência, por mais bem intencionadas, não minoram o fato de que as privatizações poderiam esperar até que a equação macroeconômica estivesse resolvida _ a não ser, é claro, que a racionalidade empregada tenha sido a política, e não econômica.
Isto para não falar que FHC atirou-se a um populismo cambial de deixar a classe “média” brasileira contentíssima _ teve ano do contingente brasileiro ser o maior consumidor entre os turistas em New York.
Mas talvez pessoas sofisticadas não queiram discutir essas coisas tão aborrecidas.
The greatest advances in civilization are processes which all but wreck the societies in which they occur.
_ Alfred North Whitehead





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