No Pharyngula (e vários outros blogs), uma notícia interessante: um experimento natural feito em ilhas da ex-iugoslávia mostrou o processo de seleção natural agindo, e com uma rapidez impressionante _ cerca de 30 gerações somente.
A história é a seguinte: em 1971, pesquisadores capturaram dez espécimes (cinco machos, cinco fêmeas) de um tipo de lagarto em uma ilha da então Iugoslávia, no Adriático, e os transportaram para uma outra ilha ainda menor. Nessa outra ilha existia um outro tipo de lagarto.
36 anos depois, uma equipe voltou à ilha. Descobriu que a espécie original que habitava a ilha estava extinta, mas em compensação, os descendentes dos lagartos introduzidos tiveram amplo sucesso. O principal motivo desse sucesso foi terem alterado sua dieta: passaram de uma dieta basicamente insetívora para outra que contemplava grande percentual de matéria vegetal.
Dado que a digestão de vegetais não é algo fácil para nenhum animal e requer adaptações muito especiais, os pesquisadores foram atrás de saber o que havia mudado nos lagartos. E descobriram que de fato eles haviam desenvolvido, neste curto espaço de tempo, modificações ponderáveis na sua anatomia e até mesmo no seu comportamento. Mas a mais espetacular delas foi o desenvolvimento de características especiais no intestino que operavam no sentido de tornar mais lento o processo digestivo, dando tempo a que bactérias quebrassem a celulose do bolo fecal vegetal, permitindo assim a extração dos nutrientes pelos lagartos.
É, digamos assim, a evolução apanhada em flagrante, com a boca na botija. Não que seja a primeira vez que lagartos mostram essa capacidade.
Esperamos agora pelo experimento criacionista equivalente, que é detonar uma bomba de neutrons em uma dessas ilhas e esperar pra ver se os lagartos aparecem de novo…



3 comments
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Abril 25, 2008 às 8:02 pm
João da Luz
Já não tinha fé nenhuma; perdi um pouco mais.
Está entrando no negativo. Já já entro no grupo do Hitchens.
O Dawkins e o Jay Gould tinham uma briguinha por conta dos saltos evolucionários…
Esses largatos não saltaram, em termos de evolução chisparam…
Beleuza.
Abril 28, 2008 às 6:43 pm
Sales
Li os artigos indicados por vc. O paper sobre os lagartos das Bahamas não tem nada de extraordinário, do ponto de vista de evolução, que preocupe os criacionistas. Resumidamente, o paper relata o quase extermínio da fração da população de lagartos de patas longas por predadores introduzidos pelos pesquisadores no habitat. Por conta disto, os lagartos de patas curtas, que exibem maior habilidade de movimento nos galhos, conseguiram escapar dos predadores. O ponto mais interessante é que os lagartos tiveram que mudar de hábito majoritariamente terrestre para o hábito arbóreo. Foi aí que os lagartos de patas longas levaram desvantagem.
O segundo paper é bem mais interessante. Os autores introduziram cinco casais de lagartos em uma ilha e retornaram 30 gerações (31 anos) depois. Compararam os lagartos encontrados com outros da ilha da qual os cinco casais foram transplantados. O interessante é que os lagartos transplantados apresentaram uma mudança anatômica do intestino que os autores dizem inexistir naquele tipo de lagarto. Esta mudança permite que os lagartos possam metabolizar mais eficientemente matéria vegetal, uma vez que a dieta dos lagartos transplantados passou a ser majoritariamente baseada em folhas e sementes, ao invés de em insetos. Esta mudança anatômica poderia representar um salto evolucionário considerável em pouco tempo baseado em nova característica. Contudo, os próprios autores advertem que mais estudos seriam necessários antes de se afirmar isto: “Although the presence of cecal valves and large heads in hatchlings and juveniles suggests a genetic basis for these differences, further studies investigating the potential role of phenotypic plasticity and/or maternal effects in the divergence between populations are needed.”
Caso tal mudança seja confirmada, os criacionistas terão que praticar sua imaginação.
Uma questão que parece ser também bastante interessante sobre este tema é: a evolução dos organismos unicelulares primordiais até a complexidade do ser humano, no intervalo de tempo em que se deu, seria possível através de rápidas e contínuas etapas adaptativas a partir de variações de características presentes no estoque genético dos indivíduos, ou esta evolução dependeria, obrigatoriamente, de numerosos grandes saltos evolutivos, baseados em variações genéticas ausentes no estoque genético?
Abril 28, 2008 às 10:03 pm
Rafael Figueira
Provavelmente ambos. A evolucao por saltos requer certos parametros q nem sempre se encontra, como por exemplo um funil populacional. Alem disso a evolucao por saltos se baseia muito em “runaway effect” e “feedback loop”, dois fenomenos q raramente sao mencionados.