Como era de se esperar, minhas birutas prediletas para entender o que vai pela cabeça da direita anaeróbica apontaram para o mesmo lado.

Tanto Reinaldo Azevedo (em dois posts) quanto Nariz Gelado começaram a “criticar a crítica” ao comportamento da imprensa no caso da garota Isabella, assassinada em São Paulo há algumas semanas.

A razão para este movimento é mais ou menos óbvia: interessa ao “fascismo cívico”, uma vez que a via eleitoral encontrou-se fechada duas vezes seguidas para eles, insuflar um arremedo de movimento de massas com vistas a tentar lançar um movimento que “contamine as massas” _ cujo protótipo, aliás, foi o Cansei. Esse arremedo, que dificilmente pode ser alicerçado em bases populares, no momento, devido ao êxito, provisório ou não, das políticas de renda do Eneadáctilo, tem que ser artificialmente criado pela imprensa. Portanto, qualquer apelo à moderação da imprensa, qualquer crítica ao pré-julgamento, tem que ser combatida, pois o que a direita anaeróbica quer é manter elevada a temperatura da indignação das massas tal como medida em seu Udenômetro.

Vamo nóis:

Nariz Gelado, curiosamente, começa seu post aludindo ao caso Madeleine McCann, a garota inglesa desaparecida em um resort em Portugal:

Na manhã de 7 de setembro de 2007, às portas da Polícia Judiciária de Portimão, Kate McCann foi vaiada por centenas de pessoas que estavam instaladas ali apenas para vê-la passar. Mais cedo, a polícia deixara vazar para a imprensa que Kate McCann estava envolvida na morte da sua filha desaparecida, Madeleine. O trânsito no local fora interrompido num raio de de 100 metros da sede policial devido ao grande número de jornalista e populares que, desde o dia anterior, se amontoavam no local para assistir ao desenrolar dos acontecimentos.

A cena recente - apenas mais uma das inúmeras que a mídia ofereceu durante o ruidoso, e ainda não solucionado, “Caso Madeleine” - deveria servir para acalmar os ânimos de gente afoita como Clóvis Rossi que, na edição de hoje da Folha de São Paulo, chamou de “Talibãs” os populares que se acotovelaram diante da delegacia em que o pai e a madrasta de Isabella Nardoni estavam depondo. Também deveria servir , o caso Madeleine, para deixar constrangidos àqueles que passaram os últimos dias criticando a nossa mídia; dizendo que ela peca - e nisso difere da mídia do hemisfério norte - em dar tanta atenção ao Caso Isabella.

Não deixa de ser uma abordagem ousada, visto que, se o caso McCann nos ensina alguma coisa, é que o excesso de mídia pode transformar um caso criminal em um espetáculo onde o menor dos interesses é a elucidação do crime. Aliás, é patente, no caso de Madeleine (sequestro) que o excesso de mídia pode, pelo contrário, ter assustado o sequestrador, forçando-o a se livrar o mais rapidamente possível da prova do crime _ a sequestrada.

Nariz continua:

É claro que eu não apoio atos de violência. E penso que a polícia tem a obrigação de garantir a integridade física dos suspeitos - papel que, usualmente, ela vem desempenhando com sucesso. Mas defendo o direito de qualquer cidadão a se expressar livremente. E acho muito bom que assassinos potenciais, juízes, policiais e políticos assistam, volta e meia, em suas televisões, o povo revoltado, ao vivo, xingando e clamando por justiça.

Incitados pela mídia sensacionalista? Sim… E daí? Do público que lota o Maracanã ao eleitor que vai às urnas não há, hoje, em qualquer lugar do globo, ajuntamento de pessoas que não seja ‘incitado’ por algum tipo específico de mídia. Portanto deixemos de hipocrisia e partamos para o fato inegável: no teatro democrático, cada um tem um papel determinado a desempenhar. E, às vezes, deve-se desempenhá-lo com maior dramaticidade - a polícia de choque, que bate seus cacetetes contra os escudos em advertência, entende muito bem este jogo.”

Em essência, o que ela defende aí é o recurso à turba assassina e ao linchamento como forma de dissuassão dos criminosos. Infelizmente, pela falta de um “due process of law” e da abolição da presunção de inocência típicos em situações de linchamento, o que ocorre é que a dissuassão ao crime costuma ser mais que compensada pelo chamado “erro tipo II”, o linchamento dos falso-positivos. Nos vemos, assim, mais uma vez diante de uma lição exaustivamente ensinada pela história: como os liberais, incapazes de fazerem o povo apreciar as maravilhas de sua utopia laissez-fairista, apelam de novo ao fascismo, ao golpe, ao putsch _ liberando um monstro que muitas vezes não sabem como controlar. Isso fica patente em uma passagem seguinte:

E se assim é, você terá que admitir que algum tipo de pressão popular explícita - e carregada com uma boa dose de revolta - se faz necessária. Sem isso, sem eventuais demonstrações de indignação popular - com um claro, mas nunca realizado, potencial de violência - as autoridades vão ficando tranqüilas demais, lerdas demais, cínicas demais e corruptas demais.

Evidentemente, o “nunca realizado” é o x da questão - o atenuante que Nariz, entretanto, não tem como garantir.

Mas espero que Nariz não fique chateada com este tratamento que dei ao seu texto. Afinal eu abordei primeiro o seu post porque o seu texto é o melhor, comparado ao de Reinaldo Azevedo.

Pequena digressão: talvez meus 4,5 leitores tenham notado que nas últimas semanas diminuí sensivelmente o número de posts sobre Tio Rei. Isto não se deve, porém, a nenhuma estratégia de marketing de minha parte. Deve-se, isto sim, ao fato de que Tio Rei anda tão chato, tão mistificador, que ando ficando sem estímulo para tratar dos textos dele.

Ele escreveu dois posts sobre o assunto. O primeiro deles é tão primário que entrega o jogo logo no terceiro parágrafo:

E atacar “a mídia” como responsável por aquilo que noticia e/ou denuncia tornou-se um “botão quente”, um instrumento da defesa. Pouco importam evidências, mérito, contradições, absurdos até, o negócio é acusar “a mídia”. Um grupo de subjornalistas também passou a fazê-lo, como se mídia fosse sempre “o outro”. Alexandre e Anna Carolina pareciam, ontem, Tarso Genro ou Dilma Rousseff. Dossiê? Tudo coisa da mídia…”

O que fica mais patente no quinto:

Há uma corrente de opinião — ou melhor: de pressão — que quer transformar “a mídia” na principal suspeita do país. Noto isso, hoje, de forma clara no jornalismo político. E os temores saltaram também para a cobertura de um caso de polícia. E agora comento a entrevista do Fantástico.

Está claro? Ele defende o direito ao denuncismo irresponsável da mídia em casos criminais porque, justamente, defende o denuncismo irresponsável em qualquer instância (no momento, é claro), principalmente a política. Claramente, um movimento pelo comedimento da mídia em casos como esse ameaça o denuncismo. QED.

Tio Rei finaliza o primeiro post assim:

Mas o que vai nos dois parágrafos acima não muda a minha convicção de que é preciso reagir à patrulha, seja cobrindo um assassinato, seja cobrindo uma falcatrua em Brasília. A isenção ou a abertura para todos os lados de uma questão não fazem das evidências, da lógica e, a depender do caso, das provas mera expressão de um dos lados do conflito.

Se a imprensa um dia mergulhar nesse relativismo, perde a razão de existir. Sem o jornalismo, as pessoas já dizem o que bem entendem, já põem as versões para circular livremente na praça. A imprensa pode ser isenta o quanto for, mas tem de ter lado: o da democracia, o do estado de direito, o das liberdades públicas, o das liberdades individuais, o do cumprimento das leis. O “outro lado” disso é a barbárie.

Tio Rei, onde não cabe isenção e abertura para todos os lados é em jogo de futebol. Nunca ninguém jamais disse um “veja bem” no meio da Raça Rubro-Negra durante um gol do Fluminense, e por um bom motivo. No caso de crimes, porém, estamos falando de pessoas pretensamente inocentes, apesar de suspeitas. Bloquear o direito ao contraditório, prejulgar _ isso sim é barbárie.

O segundo texto do Tio Rei é francamente indigente. Eis um parágrafo que o resume:

Agora, noto, há gente achando a “culpa do povo” — coitado! — no caso Isabella. Dadas as informações que tem, que não são muito diferentes das que todos temos, ele está pedindo justiça. Não há nada de doente ou de excepcional nisso. Claro! Terá de ser tratado segundo a lei. Ele tem de saber que será a Justiça a decidir as culpas. E que nada pode ser feito fora dela.

Que eu saiba, ninguém está acusando o povo de nada. Critica-se a imprensa por uma cobertura, a princípio, irresponsável, se ela tem a dimensão de seu poder. Mas fazer o quê, no coração de todo protoditadorzinho dorme um “defensor do povo” cujo conceito de liberdade é tutela…