José Gregori, presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, hoje na Folha:

Tenho acompanhado o caso do assassinato da menina Isabella de forma ansiosa, mas ao mesmo tempo tenho refletido sobre a cobertura dada ao caso pela imprensa e pela mídia de nossa sociedade do espetáculo.
Sim, porque embora os veículos de comunicação devam cumprir o seu dever/ dogma de reportar a notícia, verificamos que a violência inominável contra uma criança serve como desculpa para a montagem de um show em capítulos.
A verdade objetiva manda dizer que o fato das instituições, cujo caso está afeto, terem demorado em demasia na apuração dos fatos contribuiu para isso.
Conforme as investigações prosseguem, novos indícios apontam para esta ou aquela direção -negligência, barbarismo ou fatalidade-, mas uma coisa é certa: o inquérito não está concluído.
Até quando teremos que ouvir no Brasil -”o laudo técnico estará concluído em 15 dias”? E enquanto isso, muitos foram julgados em praça pública. Infelizmente, o sigilo na investigação nunca existiu, apesar da tentativa de um juiz em fazer respeitá-lo.
Não se trata de privar os cidadãos do direito à informação -repito, dogma da democracia-, mas de tratar um tema tão delicado da forma correta. Causa choque ler e ouvir nos meios eletrônicos supostos detalhes do estado do corpo da criança e de como foi a sua queda. A cada instante, uma nova especulação é noticiada por um veículo, seguida de um desmentido. Tem razão o cientista social Sergio Miceli, que afirma que o jornalismo televisivo está cada vez mais próximo das novelas, mas talvez possamos ampliar essa conceituação para os demais. A notícia é tratada como um enredo que o público ávido acompanha a cada instante, com diversos atores buscando o seu lugar ao sol: a suposta testemunha aqui, o promotor lá, a teatralidade de uma delegada acolá.(…)

Notícia na mesma Folha, por Daniel Castro:

Caso derruba comerciais por 3 h na Globo

O caso Isabella derrubou ontem um dos pilares da política de qualidade da Globo: o respeito aos intervalos comerciais.
Para transmitir o deslocamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina, até uma delegacia, a Globo jogou fora na Grande SP toda a sua programação infantil e exibiu um “SP TV” “especial” com três horas e 16 minutos de duração.
A emissora derrubou todos os intervalos comerciais das 9h30 às 12h31. Na sexta anterior, a “TV Globinho” (programação infantil) teve três intervalos.
A Globo argumenta que o corte da “TV Globinho” se justifica porque foi “um dia jornalisticamente relevante”. A emissora avaliou que o caso Isabella seria esclarecido ontem.
A Globo informa que os anúncios da “TV Globinho”, por serem segmentados, não entraram no “SP TV”. Os anunciantes serão compensados.

Não é reação
A emissora nega que a transmissão de mais de três horas ininterruptas de um caso policial seja reação às recentes derrotas para a Record, no mesmo horário. A opção por Isabella deu certo: o longo “SP TV” marcou 13 pontos, contra 9 da Record, segundo dados preliminares.

Com a suspensão da “TV Globinho”, a Globo igualou o caso Isabella a coberturas de alta relevância, como o 11 de Setembro, os ataques do PCC (2006) e a visita do papa (2007).