Um argumento muito comum em discussões com anaeróbicos é o argumento da desimportância, ou seja, de que nossas teorias conspiratórias não se justificam já que os EUA não têm o menor interesse no Brasil. Matéria no Valor de hoje, porém, mostra que não é bem assim:
“Numa reunião no dia 26 de junho de 2002, quatro meses antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, o então presidente do Fed, Alan Greenspan, manifestou preocupação com o avanço da esquerda na América Latina e os riscos que ela poderia criar na região.
O então presidente do Fed regional de Nova York, William McDonough, que também participou dessa reunião, era o mais assustado com o que estava acontecendo. Ele classificou a situação do Brasil como um “perigo sempre crescente” e disse que o avanço de Lula nas pesquisas eleitorais criava o risco de uma “fuga maciça de capitais”.
(…)
As transcrições das reuniões mostram que as autoridades americanas temiam que o medo que os investidores tinham de Lula deflagrasse uma crise financeira internacional, atingindo outros países emergentes e alimentando pressões sobre o dólar e a economia americana, que ainda parecia estar se recuperando dos efeitos dos atentados terroristas de setembro de 2001.”
Transcrevo na íntegra, abaixo, para os sem-Valor.
Vitória de Lula, em 2002, preocupou o Fed
Ricardo Balthazar
15/04/2008
Indique Imprimir Digg del.icio.us Tamanho da Fonte: a- A+
AP Photo/Amy Conn-Gutierrez
Alan Greenspan, então presidente do Fed: “Contágio político se espalha?
A enorme apreensão que a chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder gerou nos mercados financeiros em 2002 contagiou a diretoria do Federal Reserve, o Banco Central americano, segundo as transcrições das reuniões que a diretoria da instituição manteve nesse período, divulgadas na última sexta-feira.
Numa reunião no dia 26 de junho de 2002, quatro meses antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, o então presidente do Fed, Alan Greenspan, manifestou preocupação com o avanço da esquerda na América Latina e os riscos que ela poderia criar na região.
“A questão é se haverá contágio”, disse Greenspan, depois de citar Brasil, Argentina, Colômbia e Venezuela como fontes de inquietação.”"Contágio político se espalha? Pode ser, mas não sei bem em que direção. Por exemplo, eu não sei o que vai acontecer se as pessoas virem que o Brasil foi posto de joelhos por causa de uma campanha populista.”
O então presidente do Fed regional de Nova York, William McDonough, que também participou dessa reunião, era o mais assustado com o que estava acontecendo. Ele classificou a situação do Brasil como um “perigo sempre crescente” e disse que o avanço de Lula nas pesquisas eleitorais criava o risco de uma “fuga maciça de capitais”.
“A questão não é se Lula da Silva será eleito”, explicou McDonough. “É se os mercados financeiros do país, e especialmente os cidadãos do país, ficarão sentados esperando para ver o que acontece.” Pouco depois, ele acrescentou: “Não há nada que o FMI ou qualquer um possa fazer sobre isso. Se o povo brasileiro decidir que vai votar apostando seu dinheiro, o resto do mundo terá que ficar olhando.”
As transcrições das reuniões mostram que as autoridades americanas temiam que o medo que os investidores tinham de Lula deflagrasse uma crise financeira internacional, atingindo outros países emergentes e alimentando pressões sobre o dólar e a economia americana, que ainda parecia estar se recuperando dos efeitos dos atentados terroristas de setembro de 2001.
A deterioração das finanças do país durante a campanha eleitoral levou o Brasil a bater à porta do Fundo Monetário Internacional (FMI), que em agosto aprovou um pacote de US$ 30 bilhões para socorrer o país. O empréstimo ajudou o Brasil a respirar, mas a desconfiança que os bancos tinham de Lula e dos petistas continuou muito grande.
Numa reunião do Fed no dia 13 de agosto, pouco depois da assinatura do acordo com o Fundo, McDonough contou aos colegas que havia conversado com dirigentes de bancos espanhóis e americanos com negócios no Brasil e concluíra que eles estavam aproveitando a situação para tirar seu dinheiro do país e buscar proteção em outro lugar.
“A comunidade bancária internacional está aproveitando o pacote do FMI para reduzir sua exposição”, disse McDonough. “No longo prazo isso vai realmente contra os seus interesses e não é muito inteligente, mas parece ser o que eles estão fazendo.” Ele acreditava que no futuro isso faria o Fundo pensar duas vezes antes de socorrer novamente países em dificuldades.
O Fed continuou vendo Lula como uma fonte de instabilidade mesmo depois da eleição. Numa reunião no dia 10 de dezembro, poucas semanas antes da posse de Lula, McDonough criticou a demora do novo presidente em anunciar sua equipe econômica. “Acho que há um conflito crescente entre seus assessores econômicos e a liderança do PT”, afirmou. “Se continuar, isso pode resultar num golpe adicional e desnecessário na confiança dos investidores.”
Como Greenspan lembrou na hora, coincidentemente Lula estava em Washington naquele dia. Ele se encontrou com o presidente George Bush na Casa Branca e poucas horas depois anunciou que Antonio Palocci seria seu ministro da Fazenda.
No livro de memórias que publicou no ano passado, Greenspan menciona Lula num capítulo sobre a volta do populismo na América Latina e admite que sua avaliação inicial sobre o presidente brasileiro estava errada. “Para surpresa da maioria, inclusive minha, ele manteve em boa parte as políticas sensatas do Plano Real”, escreveu Greenspan.
As transcrições divulgadas pelo Fed revelam também que Greenspan e seus colegas ficaram muito nervosos com a crise deflagrada pelo fim do regime de câmbio fixo na Argentina. Numa reunião no dia 19 de março de 2002, Greenspan disse que a situação do país parecia caótica: “Vai ser difícil fazer alguém voltar a investir na Argentina se seus líderes continuarem deixando claro que isso não é seguro.”
Quando a economista que dirigia a divisão de assuntos internacionais do Fed, Karen Johnson, disse que a situação era tão grave que ela não tinha idéia de como poderia ser resolvida, Greenspan exclamou: “Deus nos acude!” Para McDonough, que poucas semanas antes havia discutido o problema com banqueiros em Basiléia, na Suíça, dar ajuda financeira à Argentina era tudo que não devia ser feito.
“Fomos aconselhados de maneira muito veemente a não encostar na Argentina com nenhum tipo de mão amiga por causa de uma nova versão do efeito de contágio”, disse o dirigente do Fed de Nova York. “Se um país for recompensado de alguma maneira por violar a lei dos contratos, isso encorajaria governos irresponsáveis em outros lugares do mundo a pensar que poderiam fazer a mesma coisa.”


18 comments
Comments feed for this article
Abril 15, 2008 às 11:54 am
Leônidas
“O então presidente do Fed regional de Nova York, William McDonough, que também participou dessa reunião, era o mais assustado com o que estava acontecendo. Ele classificou a situação do Brasil como um ‘perigo sempre crescente’ e disse que o avanço de Lula nas pesquisas eleitorais criava o risco de uma ‘fuga maciça de capitais’”.
Aí, como todos lembramos, os marines desembarcaram em Brasília, evitaram as eleições e anexaram o Brasil aos EUA, levando o candidato petista ao exílio. Parece que anaeróbico é um apelido para quem não fica embarcando nessas “bad trips”.
Abril 15, 2008 às 1:36 pm
F. Arranhaponte
Bem, eu conheço inúmeros petistas que sustentam até hoje que o Malan fez terrorismo eleitoral quando disse que o discurso do PT antes da virada da Carta ao Povo Brasileiro estava levando os mercados ao pânico e poderia fazer o Brasil quebrar. Agora o Fed confirma que Malan falou a verdade (defender o Malan, aliás, é a última coisa que um ser humano deve fazer se estiver numa mesa de bar a fim de comer alguém)
Abril 15, 2008 às 3:13 pm
Me
hahahahahahaha boa Leonidas…
Abril 15, 2008 às 3:14 pm
napraticaateoriaeoutra
Cá entre nós, ainda bem que teve mesmo a Carta ao Povo Brasileiro, seja lá que motivo tiver levado à sua redação. Mas o Hermenauta tem razão numa coisa, esse papo de que ninguém dá importância ao Brasil é a maior cascata. Só quem não dá importância a isso aqui é a gente.
Abril 15, 2008 às 4:23 pm
Anonimo
Caro Hermenautis, you’re not even wrong.
Abril 15, 2008 às 6:33 pm
argeu
Leônidas,
há um monte de maneiras de se influenciar a terra tupinambá sem apelar aos marines. Sabe-se hoje que os americanos desempenharam importante papel no planejamento da gloriosa. Contudo, nenhum marine colocou os pés em nosso chão, com exceção dos instrutores de tortura, é claro.
Arranhaponte,
de fato, o relato da reunião do FED nos diz que Malan estava em sincronia com o pensamento deles. Contudo, considerando o calor da disputa política da época, que incluía a prática do tiro ao lula, e a insistência que tinha Malan de quebrar o país, é impossível dizer se ele expressava um conteúdo técnico, político, ou estava apenas preparando o álibi para a próxima quebra.
Abril 15, 2008 às 7:28 pm
Leônidas
“Sabe-se hoje que os americanos desempenharam importante papel no planejamento da gloriosa. ”
Você sabe, porque tudo que o resto da Humanidade sabe da participação americana no golpe é que os “nossos” militares deram o golpepor conta própria, com material e soldados nacionais, enquanto os americanos ficaram na expectativa e torceram para que o golpe desse certo. A CIA ficou sabendo do golpe do mesmo jeito que ficou sabendo da queda do Muro: pela Imprensa. Nada disso significa que os americanos não tenham adorado o golpe (estavam prontos a ajudar), mas isso não muda o fato: a Ditadura Militar como o Fascismo Getulista, o Populismo Janguista, o Neoliberalismo de FHC e o Peleguismo Petista são produtos nacionais mesmo. Talvez, seja hora de parar de culpar Washington por tudo que acontece no Brasil, principalmente quando isso vira mera desculpa dos cães de guarda do Poder para defender seus mestres.
Abril 15, 2008 às 7:37 pm
Leônidas
E por falar nisso, não sei o que aconteceu no seu Universo, Argeu. No meu, nenhum golpe pró-americano derrubou o presidente Lula. No meu Universo, é permitido, no Capitalismo, (sistema que o PT se comprometeu a aceitar) que investidores tirem seu dinheiro se o sentirem ameaçado. Talvez, os cães de guarda do Peleguismo devessem se acalmar um pouquinho.
Abril 15, 2008 às 10:25 pm
argeu
Caro Leônidas,
se sua opinião é a de que nós sempre fomos os maiores responsáveis por nosso destino, eu concordo plenamente. Transferir esta responsabilidade para qualquer outro é não ver o problema. Contudo, recusar-se a ver que o Tio Sam não deseja influenciar nosso (e o de todo o mundo) destino e tenta efetivamente fazer isto é outro erro. Vejamos a revolução de 64. Os EUA não estavam nada satisfeitos com o rumo das coisas aqui. Há provas documentais de que eles colaboraram com os golpistas. Há mesmo um documento em que um efetivo da diplomacia americana sugeria desembarcar armas aos golpistas em um submarino (documento publicado no blog do Azenha). Isto dá idéia do grau de envolvimento. Obviamente, não dá para acreditar que eles convenceram ou forçaram brasileiros a executar o golpe. Isto foi obra nossa.
Resumindo: se nós estamos na m…, a culpa é nossa, mas os americanos tentam sempre nos dizer o caminho que devemos seguir. É nossa escolha seguir suas recomendações, ou não.
O Hermenauta escreveu em seu post que não era verdade que os americanos não ligam para o que se passa aqui, como dizem os anaeróbicos. Vc acrescenta que não é verdade que os americanos são responsáveis pelos nossos infortúnios. E eu concordo com ambos.
Abril 16, 2008 às 9:57 am
Leônidas
Às vésperas do Golpe, quando líderes civis da direita caçavam os militares para obrigá-los a derrubar Jango, quando Jango já tinha jogado as Forças Armadas contra ele e quando se temia um golpe de esquerda ou de direita há muito, os americanos discutiam a conveniência de, talvez, quem sabe, em um momento conveniente, se não fosse muito incômodo, mandar armas para seus “amigos” no Brasil. As armas, aliás, nunca chegaram porque, enquanto os americanos debatiam a questão, os militares deram o golpe sem avisar Washington. Taí a participação americana na “Redentora”. Lamento estragar seu conto de fadas, mas os americanos não planejaram o golpe (o que não quer dizer que não o tenham adorado e emprestado seu apoio e reconhecimento a ele). Agora, ainda quero entender a relação de 64 com a paranóia atual. Os americanos apoiaram um golpe para impedir a posse do presidente Lula e evitar a “tal fuga de capitais”? Quais são os tais “outros meios” de que dispõem os ianques para controlar o Brasil? Como eles estão sendo usados?
Por último, ninguém nega o interesse americano no Brasil. O que se quer saber é: quanto vale o Brasil para os americanos? O que eles querem e o quanto estão dispostos a arriscar? Invasão? Bombardeio Nuclear? Bloqueio Econômico? Até agora, tudo que Hermenauta provou-e ele já fez vários desses posts paranóicos- é que o Brasil é assunto de conversas no FED, entre políticos e ambientalistas americanos, etc. O Iraque está sob ocupação americana, o Brasil não está; assim sendo, os defensores do Peleguismo deveriam achar uma nossa desculpa porque “os americanos andam falando de nós” já está chata.
Abril 16, 2008 às 11:26 am
Emerson
Argeu, se “Há mesmo um documento em que um efetivo da diplomacia americana sugeria desembarcar armas aos golpistas em um submarino…” há outros documentos também interessantes sobre o papel de Cuba. Segundo rollemberg (http://www.historia.uff.br/artigos/rollemberg_apoio.pdf) temos:
…
Cuba apoiou, concretamente, os brasileiros em três momentos bem diferentes. O primeiro, como disse, foi anterior ao golpe civil-militar. Nesse momento, o contato do governo cubano era com as Ligas Camponesas. Após a instauração do novo regime e desarticuladas as Ligas, o apoio cubano foi dado ao grupo liderado por Leonel Brizola,… (pg.7)
…
Flávio Tavares(1), em suas memórias, conta como, durante o governo Goulart, em fins de 1962, o Serviço de Repressão ao Contrabando, por acaso, desbaratou o plano de formação de um campo de treinamento das Ligas, no interior de Goiás, Dianópolis. Pensando se tratar da entrada ilegal de eletro-doméstico, o Serviço “encontrou algumas armas e muitas, muitas bandeiras cubanas, retratos e textos de discursos de Fidel castro e do deputado pernambucano Francisco Julião, manuais de instrução de combate, além dos planos de implantação de outros futuros focos de sabotagem e uma minuciosa descrição dos fundo financeiros enviados por Cuba para montar o acampamento e todo o esquema de sublevação armada das Ligas Camponesas noutros pontos do país”. Assim, em novembro, caía o campo de Goiás, cujo responsável era Carlos Montarroyo,
levando à prisão os militantes lá encontrados. Com isso, a facção envolvida com a luta armada decidiu desmobilizar os outros campos. Clodomir acabou preso e processado pela Lei de Segurança Nacional.
A apreensão de todo o material trazia à tona a participação do governo cubano na revolução brasileira. João Goulart tentou resolver o caso diplomaticamente entregando ao ministro enviado por Fidel, o material encontrado:
«O ministro cubano despediu-se de Jango e tomou um avião da Varig para chegar ao México e, de lá, retornar a Havana. Nunca chegou, porém. Antes de aterrissar na escala em Lima, no Peru, o Boeing caiu e morreram todos os passageiros. A pasta de couro em que o ministro Zepeda levava a documentação foi encontrada entre os destroços e entregue à CIA norte-americana, que divulgou os documentos num carnaval acusatório
a Cuba pelas três Américas”. (pg.11 e 12)
-(1)- TAVARES, Flávio, 1999. pp. 77-8. Cf. também documento do DOPS-RJ, «Cuba exporta a revolução». Setor: Diversos, pasta 27, dossiê 12, que informava no início do ano: «Em janeiro de 1962, o Exército brasileiro descobriu que armas fabricadas na Tchecoeslováquia estavam entrando no país para distribuição, possivelmente, às Ligas Camponesas».
Veja a diferença. Se em 64 os americanos pensavam em enviar armas por um submarino, aparentemente em 62 as ligas estavam um pouco mais adiantadas, por assim dizer, e JÁ haviam recebido armamento da Tchecoeslováquia …
Abril 17, 2008 às 12:53 pm
argeu
Caros Leônidas e Emerson,
Encerrarei por aqui este curto debate pelos seguintes motivos:
1- Este é um assunto que não me anima
2- Não me sinto bem por usar espaço de terceiros para discutir.
3- Creio que concordamos no principal, embora discordemos no secundário.
A questão principal é: somos os principais responsáveis pelo nosso destino. Não adianta responsabilizar terceiros por nossas dificuldades. Aliás, o próprio Lula já externou isto em algumas ocasiões.
A questão secundaria é: os EUA, assim como qualquer potência, tenta influenciar o destino de outros países de acordo com seus interesses. O sucesso ou não destas interferências varia de caso a caso.
Passarei ao largo de detalhes específicos de seus últimos comentários, não por falta de méritos deles, mas por não ver neles algo que questione nossas posições a respeito da questão principal. Contudo, enxergo neles a relutância de Leônidas em admitir que os EUA interferem na vida alheia, visando seus próprios interesses, e não propriamente o que seria melhor para “os interferidos”. Em um momento ele se pergunta como seriam estas interferências. Leônidas, parodiando R. Carlos: são tantas as possibilidades. Um mero reconhecimento de governos golpistas tão logo o golpe seja consumado é um exemplo. Podemos ter inclusive a invasão territorial, como no Iraque e em Granada (Aliás, eu me pergunto, se eles têm interesse em Granada a ponto de invadir, o que não dizer sobre o Brasil?). A paleta é vasta. Depende do que estiver mais à mão deles e do custo-benefício. No nosso caso, por que invadir se temos setores sempre tão dispostos a colaborar?
Talvez involuntariamente, Emerson demonstra concordar com minha tese, ao incluir em seu comentário o envio de armas e apetrechos nem tanto bélicos de Cuba para o embrião do poderia se constituir nas ligas camponesas revolucionárias do Brasil (LCRB). É justamente isso que eu chamo de interferência. Se cubanos-soviéticos faziam, vai ficar difícil negar que os americanos não faziam.
Para tentar demonstrar que os americanos vão, sem cerimônia, cozinha a dentro na casa dos outros, eu proponho o seguinte experimento mental:
Imaginem, Leônidas e Emerson, que vocês estão participando do programa “Show do Milhão”. Se acertarem a última pergunta, ganharão um milhão. Há uma má notícia: não é mais possível contar com a ajuda dos universitários. Mas há uma boa notícia: serão dadas duas opções de resposta. Uma delas está correta. Ou seja, as chances mínimas de perder são de 50%. Contudo, como vocês sabem sobre das coisas do mundo, suas chances excedem em muito os 50%.
A pergunta é: Os Sandinistas são um grupo esquerdista nicaragüense que tomou o poder pela força. Teve contra si um grupo armado, denominado os contras, formado por integrantes e simpatizantes do regime derrubado pelos sandinistas. O governo americano forneceu apoio fundamental aos contras. Que tipo de apoio os americanos deram aos contras?
Alternativa A: apoio financeiro e militar. A CIA contornou uma lei que impede seu apoio a ações de desestabilização de governos estrangeiros através de uma triangulação. Fornecia armas aos iranianos e utilizava os recursos obtidos para financiar os contras nicaragüenses. Quando veio a público, este expediente gerou um escândalo que ficou conhecido como Iran-Contras e resultou na condenação do tenente coronel Oliver North, apontado como “gerente” do esquema.
Alternativa B: Apoio espiritual. A Casa Branca e o Congresso organizaram freqüentes jornadas de oração. Estas jornadas contavam com a presença de congressistas, secretários de estado e do presidente americano. Eles pediam para Deus proteger os soldados “contras”e suas famílias, pediam pela, quem sabe, um dia talvez, se assim for o desejo de Deus, derrota dos sandinistas e pelo retorno da normalidade democrática à Nicarágua. Mandaram confeccionar milhões de santinhos com a imagem da Imaculada Conceição, santa protetora do país, e enviaram para os contras nicaragüenses.
Qual das alternativas vocês escolheriam? Lembrem-se, vale um milhão. Ao escolherem uma das respostas, vocês estarão admitindo que os EUA se metem na vida alheia de modo nada elogiável. Seria esta a resposta certa?
Abril 17, 2008 às 8:07 pm
Leônidas
Ninguém disse que os EUA não interferem na vida alheia, o que se disse (mas talvez você não saiba ler) é que nem eles são os únicos a fazê-lo (a Alemanha invadiu a França,no passado, quer dizer que Angela Merkel vai tentar derrubar Sarkozy ainda neste ano?) e nem sempre o fazem. Apoiar os contras não significa que tenham-como você equivocadamente pensava-, por exemplo- planejado o Golpe Militar. Assim, em vez de ficar pulando de Lula a Jango e deste a Ortega, ao sabor dos seus caprichos-, por que você não nos explica como os EUA estão influenciando o Brasil agora? A ascensão do presidente Lula não era um “grande perigo para o Sistema Econômico Mundial”? Cadê os “contras” brasileiros? Você não se dá conta do ridículo de comparar um presidente derrubado, Jango, com um que não só está no Poder, mas está até batendo os recordes de turismo do antecessor? Ou será que os EUA, conspirando ou não, são sempre uma desculpa irresistível para os defensores do peleguismo? Ainda estou esperando para saber como os EUA estão-agora- interferindo no Brasil-que começou a polêmica como importantíssimo,mas já foi reduzido a uma Nicarágua. Se você está por dentro desse novo escândalo Irã-Contras, não pode se furtar a contar tudo que sabe. Embora, tudo indica que você não saiba nada.
Abril 17, 2008 às 9:44 pm
ohermenauta
“Aí, como todos lembramos, os marines desembarcaram em Brasília, evitaram as eleições e anexaram o Brasil aos EUA, levando o candidato petista ao exílio. Parece que anaeróbico é um apelido para quem não fica embarcando nessas “bad trips”.”
Eis um comentário bastante estúpido.
Abril 18, 2008 às 10:01 am
Leônidas
Nem fale. Espertos são os criadores de “teorias conspiratórias” a serviço dos governantes de turno e que saem a rotular de anaeróbicos aqueles que não cedem às desculpas do Poder.
Abril 18, 2008 às 11:23 am
ohermenauta
Na verdade, “teoria conspiratória” é ver em qualquer um que tenha alguma simpatia por algumas ações do governo que ora governe um “adesista”. Principalmente porque os anaeróbicos são via de regra aqueles que cedem a qualquer desculpa de um outro poder _ o poder de só ver o próprio umbigo.
Abril 18, 2008 às 12:54 pm
Leônidas
“Na verdade, ‘teoria conspiratória’ é ver em qualquer um que tenha alguma simpatia por algumas ações do governo que ora governe um ‘adesista’.”
Depende de qual é a fonte de simpatia. Quando é a política assistencial ou econômica, pode ser equivocada, mas ainda assim é justo acreditar nelas. Quando a fonte de simpatia é uma visão de Mundo paranóica e reacionária, é diferente. Por falar em conversas de funcionários do Governo como provas do Imperialismo Americano atuando no Brasil, o telefonema “Bush, my son” do presidente Lula é uma interferência indevida nos assuntos americanos? A ABIN está planejando derrubar o governo americano?
Abril 18, 2008 às 3:43 pm
ohermenauta
“Por falar em conversas de funcionários do Governo como provas do Imperialismo Americano atuando no Brasil”
A razão principal pela qual seu comentário inicial foi estúpido é porque ninguém aqui _ e eu muito menos _ tirou essa conclusão da premissa do artigo.
Você, porém, se encarregou de produzir muitos outros motivos adicionais no decorrer do embate.